flamengo 81

O oito

Nos deixou hoje Adílio. Um dos mais emblemáticos jogadores da história do Flamengo por ser, na maior parte do tempo, a base de apoio para que Zico pudesse brilhar.

Adílio era um “oito” que jogava como “dez” pro Zico poder ser o “nove” quando encontrava espaço. Adílio era um dos talentos ofuscados pelo brilhantismo do maior jogador que vi jogar na vida. Mas referência do futebol brasileiro, e portanto mundial à época, ao lado de Andrade.

Eles faziam na década de 80 o que hoje chamaríamos de meias. Na época, volantes. Ele seria um “segundo volante”, aquele que saia muito mais. E tudo isso é reforçado por dezenas de vídeos e jogos antigos que assisto, porque na época minha recordação é de um jogador do Flamengo no time de botão que tinha uma manchinha.

Eu marquei aquele jogador como sendo o Adílio.

O conheci num show no Rio de Janeiro há pouco tempo. Pelo menos tive alguns segundos pra dizer “você foi genial”.

E o genial naquela época não era da seleção, porque tinhamos muitos. Mas não estamos falando do discutível. Hoje Adílio seria titular de qualquer seleção do mundo. Sua função de preencher tanto a marcação como a armação do time ha 40 anos se tornou os meias de hoje em dia.

Não há mais Zicos. Sobram Adílios. E sobram Adílios porque não há mais Zicos.

Mas não saberíamos viver hoje sem Adílios. Exatamente porque não há mais Zicos. O que faz sua função no inacreditável Flamengo campeão do mundo ainda mais importante.

Talvez quando ler isso você será impactado pela idéia de que ele era um coadjuvante do Galo. Mas era como Pita, como Palhinha, como tantos outros craques. Fundamental, mas que parte da sua genialidade era entender que havia um ainda melhor ao seu lado.

Quantas vezes o Flamengo partiu pro ataque pelo meio com Adílio rolando pro Zico continuar o lance ou ele mesmo dando o passe mágico final. E quantas vezes vamos ver isso novamente? Ao que tudo indica, nenhuma.

Vá em paz, craque. Mais um dos nossos heróis que na falta de vagas na Liga da Justiça acabaram tendo menos do que mereciam. Não por má vontade, pelo contrário, mas por humildade de ser “o melhor oito” que o “dez” poderia ter tido.

RicaPerrone

“Você é louco!”


Tenho um amigo muito vascaíno. Mas é muito. Não, não é o que você está imaginando. É um pouco mais do que isso. Seu nome é Marcelo Vital. Muita gente o conhece no Rio de Janeiro, ele promove eventos muito bons.

Enfim.

Numa noite dessas qualquer sentado num bar da Olegário ele me diz as seguintes palavras.

“Rica, o time do Vasco de 2000 era melhor que o Flamengo de 81”.

“Você é louco!”, respondi.

Óbvio! Como que um time pode ser melhor que o Flamengo campeão do mundo?

Ele seguiu.

– Rica, eu presta atenção. Não estou dizendo que ganhou algo a mais, disse que no papel o time era melhor.
– Vai se fuder, Vital!
– Cara, presta atenção no elenco…
– Você é louco!

Minutos depois ele voltou no tema.

“Pergunta no seu blog quem foi melhor”.

– Porra, óbvio que vai dar Flamengo. Se fosse Flamengo de Walter Minhoca e Vasco de 2000 eles votariam no Flamengo. Mas só de colocar isso lá vai soar um absurdo!
– Mas não deveria.
– Porra, Vital! Os caras ganharam o Mundial!
– Mas o time do Vasco individualmente era melhor. Pode olhar.

Me neguei a seguir a discussão. Até que outro dia ele voltou no assunto.

“Rica, já comparou o Vasco de 2000 com o Flamengo de 81?”

– Porra, Vital! De novo essa merda?

Mas estava de bom humor. Deixei ele falar dessa vez.

– Edmundo e Romário, com Viola e Euller de opções. Acho um ataque melhor que Nunes, Tita, Lico… não?
– Tá, pode ser…
– Adilio, Andrade e Zico é muito bom. Mas Juninho Pernambucano, Juninho Paulista, Ramon e Pedrinho também não dá pra descartar. No mínimo mais opção tinha.
– Tá, mais opção sim…

Vendo que poderia haver argumentos, interrompi.

– Mas tinha o Zico, caralho!
– Eu tô falando que tinha mais material, não que tinha o melhor jogador. O Vasco tinha Mauro Galvão, Jr Baiano e Valber na defesa.
– Puta zaga.
– Tinha Leandro e Junior? Não. Mas tinha Jorginho e Felipe.
– Ok. Bons nomes, mas perde.
– Agora me diz se eu não citei pra você mais jogadores fora de série do que o Flamengo de 81?

Pensei. Quis agredi-lo, mas ele tinha um ponto.  Na lista do elenco do Vasco de 2000 havia pelo menos 2 gênios. Romário e Edmundo. No restante do time ele tinha, em cada posição, pelo menos um jogador de seleção brasileira.

O Flamengo era campeão, muito forte, com 3 mitos, Zico, Leandro e Junior. Talvez o Mozer, que eu particularmente adorava. Mas ele tinha 3 zagueiros fora da curva.

Chegamos a um acordo.

“Elenco, ok! Elenco, ok! O Vasco era melhor”.

Ele já ficou envaidecido. Mas arrogante, queria mais. Dias depois veio e disse: “Rica, pegando os 11 melhores… sei não…”

– Porra, Vital! De novo?!
– Não, só estou dizendo que tinha mais jogadores acima da média do que o Flamengo de 81.
– Então ganharia se jogassem contra?
– Não sei se um jogo. Mas num campeonato longo sem dúvida. Olha os bancos, porra!
– Ok, ok. Acho que sim.

Passados meses, nunca mais discutimos tal assunto. Mas nunca me saiu da cabeça se havia ali um torcedor maluco ou um ponto não midiático curioso que não menospreza ninguém. Ao contrário. São dois times absolutamente surreais.

Mas … de fato, se você olhar os dois times o Flamengo conquistou mais do que se esperava e o Vasco menos. Ainda que tenha ganhado Brasileiro e Sulamericana. Além do vice na Copa Band/Traffic 2000 chamada de Mundial após alguns anos.

Então coloquei a pesquisa no meu instagram. Deu Flamengo, 60/40 (até agora).  Óbvio, mas com margem discutível.

Hoje eu sou capaz de concordar, no mínimo, que é discutível. O que me faz repensar todos os dias o sentido das redes sociais. Fosse numa delas haveria um diálogo simples:

– O Vasco de 2000 é melhor que o Flamengo de 81.
– Voce é doente.
– Doente é teu cu.
– (alguem com imagem de pipoca pra ver a treta)
Block.

Fim.

Viva o boteco. Até porque é lá que direi, talvez hoje, que o Flamengo de 87 também era melhor que o de 81.

#paz

RicaPerrone