Salgueiro

Que se foda!

O carnaval do Rio de Janeiro é o maior espetáculo da terra. E se você acha que me refiro ao que fazem as escolas, se enganou.

É lindo. Eu amo. Frequento ha 27 anos. Sou Mocidade, já fui de arquibancada, credencial, frisa e camarote. Diria que conheço tudo naquela avenida. E todo ano eu consigo sair de lá surpreso.

E não, de novo, não me refiro as escolas.

Aliás, se cabe uma leve crítica, acho que os temas estão ficando batidos. 80% deles é sobre preto, mulher, orixá ou alguma crítica meio hipócrita quanto a sociedade. E explico: Como que uma escola de samba ousa ser paladina moral pra criticar sociedade com tudo que ela carrega nas costas de contravenção, lavagem de dinheiro e outros problemas menores?

Eu não me importo que ela tenha esse passado. Na real eu acho tudo isso mero abandono do estado e consequencias naturais. Mas acho que a gente tem que emagrecer pra dar dica de alimentação, né? Quando uma escola entra com um enredo sobre a situação do país, falando de polícia, pedindo paz ou algo assim e abre com saudação ao seu “presidente de honra”, é de fuder. Mas foda-se.

O meu ponto passa por isso também. E aí está o maior espetáculo da terra.

Vivemos num país que há uns 5 anos não consegue mais conviver. A soma de política com redes sociais transformou o Brasil num hospício onde todo mundo discute política e seguimos com placas nos banheiros avisando ” não urine fora do vaso”. Ou seja…

E ali, naquela avenida, há uma mistura sem igual que eu precisava rever. O povo da esquerda está nas escolas. São formadas por minorias que tendem a esse viés político. O povo do dinheiro mais capitalista está nos camarotes e nas frisas. E ali, frente a frente, sem a porra de uma rede social no meio, todo mundo bebe junto.

Onde foi que perdemos isso? Onde que você ser Vasco e eu Flamengo me incomoda menos do que você ser de direita e eu de esquerda? Em que bar isso rompeu uma amizade? Malditas redes sociais onde se interpreta o tom, se responde em segundos e se expõe amigos por um ideal.

Bendita seja a avenida. Onde o patrão paga uma nota pra ver sua empregada sambar. Onde o radical bolsonarista aplaude a escola que passa fazendo militância pra esquerda. E onde o esquerdista não se importa de receber e fazer pelo dinheiro da elite capitalista.

Passa o político, o contraventor, o delegado, o prefeito, o governador e a puta. E todos sorrindo de mãos datas, porque ali, naquela avenida, por 4 noites, há um buraco negro onde literalmente tudo é interrompido.

Pode falar de um condenado no microfone? Pode, claro! Ele é da escola. Pode a polícia toda nos camarotes vendo isso? Claro, ela vai fazer o que? E o governador que tenta prende-los, como fica? De lado, tomando uma. E que se foda.

São milhares de pessoas bebendo com enormes diferenças. Brigas? Quase zero.

Como?

Cadê aquele povo que fica online caçando almas e cancelando pessoas? Devem estar avaliando as escolas pela TV tentando destruir algum famoso que por ela desfila. Ou talvez criticando o espetáculo por não ter capacidade de compreende-lo.

E quer saber? Foda-se. Ninguém ali se importa.

Eu consegui num intervalo de 40 segundos abraçar um deputado bolsonarista, o Eduardo paes e o interprete da minha escola. Olhei pra trás e pensei “porra, alguém vai filmar isso me cancelar”. E que se foda também! Eu me amarro nos três.

Sou Mocidade, aplaudo o Salgueiro. O mangueirense me abraça quando a escola passa e elogia. E o cara com o boné do MST brinda com o caveira do Bope o abre alas da Vila. Que se foda!

Sabe aquele país feliz e quase idiota que a gente vivia? Então, agora ele é só idiota.

As horas de Brasil retrô vividos na avenida são um soco na nossa cara. Sabe aquele amigo que você deixou de seguir por política? Ele te vê depois de 2 anos e … e agora? Passo? Abraço? Dou um sinal? Ele me odeia?

Dá cá um abraço, viado! Foda-se!

A real é que o Brasil é um puteiro e o Rio de Janeiro é a mais “honesta” manifestação do que de fato somos.

Prefiro. Fica as claras. Sem tipo. Gosto? Não. Mas a sapucaí me ensinou a entrar no modo “pausa mental” e ter algumas noites onde na real eu nem me importo com o que acredito. Literalmente, foda-se.

O Brasil que eu cresci era um lixo como o de hoje, mas a gente tinha um diferencial: a alegria. O Brasil não é intolerante religiosamente, nem racista, nem um povo escroto. A gente só jogou holofote pra essas micro minorias de idiotas e achamos que eles representam muita gente. Somos um povo idiota, mas generoso, feliz, acolhedor e divertido.

Nós somos a Sapucaí. Ou eramos.

Tanto faz. Amanhã voltamos a nos preocupar com o Brasil, porque seguramente não são 5 dias de festa que vão mudar alguma coisa. Temos 360 dias pra pensar nisso.

Nestes 5, honestamente, que se foda!

Rica Perrone

Nossa majestade Viviane

Eu costumo dizer que existe um mundo virtual onde todo mundo acha que o que é dito ali representa a verdade da opinião pública e outro, real, onde ninguém registra o que pensa, apenas reage aos fatos.

Viviane Araújo é o ser humano mais real da Sapucaí. E não me refiro a sua personalidade, a mulher que ela é em casa, nada disso. Sequer a conheço.

Mas o povo não olha pra mulher nenhuma naquela avenida como olha pra rainha do Salgueiro.  Ela não é a mais bonita, não é a mais famosa, nem mesmo a mais gostosona das atuais. Minha Mocidade por exemplo tinha Anitta e Claudia Leitte, duas personalidades adoradas pelo público.

Mas é a passarela é da Viviane. Porque? Porque é natural dela estar ali. Não há esforço, ouso dizer que nem tensão. Vivi se diverte, samba, sorri, toca tamborim e é tão parte daquilo que rebola conforme cada paradinha da bateria.  Porque pediram? Não, claro que não! Porque ela sabe a paradinha.

Me encanta ver como as pessoas do setor 13 (popular) adoram pessoas que passam pelos setores de camarotes e arquibancadas turísticas sem tanto glamour.

O cargo de rainha de bateria é uma bola de basquete jogada no peito de um jogador de futebol. A enorme maioria cai pra trás, domina errado, sorri sem graça e nunca mais volta. A minoria domina aquela bola e fica com ela.

Viviane é o Pelé das rainhas. Porque é rainha pro Salgueiro, depois pro povo, e só por último pra televisão e pras redes sociais.

Salve a malandra batuqueira do salgueiro!

abs,
RicaPerrone

O que vi na Sapucaí

Não vou repetir o discurso padrão de que é maravilhoso, maior show da terra, etc.  Todo mundo sabe, e quem não sabe, deve ir até lá pra saber.

O nível de 2014 foi alto. Muito alto.

Descobri, de vez, que do chão não se vê o que a escola quer mostrar. Talvez por isso a imprensa erre tanto na avaliação do carnaval.  Os carros são feitos pra olhar de cima, não de lado. E tudo, absolutamente tudo, é apresentado de baixo pra cima.

Império da Tijuca  – Apaixonado.  Assim me sinto pela escola.  Entrou sem timidez, sem cara de quem veio fazer turismo e já já volta pro grupo A. Levantou, sambou, ousou, se divertiu! E principalmente, “nos divertiu”.  A mais grata surpresa do carnaval. Não merece cair de forma alguma.

Grande Rio – A mais bela escola do primeiro dia, achei. Misturando carros não repetitivos, inteligentes, um desfile alegre e um samba que funcionou mais do que o esperado.  Acho que briga por título, inclusive.

São Clemente – Não assisti.

Mangueira – Tradicional, um tanto quanto frio, claramente sem dinheiro sobrando. Um desfile comum. O interessante é sempre a entrada da Mangueira na avenida. Não tem igual. As pessoas parecem prontas para ver um desfile da Disney, e ela quase sempre diminui essa euforia. Parte por erros bobos, parte pelo peso do nome que carrega.  Não volta nas campeãs.

Salgueiro – Volta, briga por título, belo desfile, mas esperava mais.  Talvez porque eu esperasse demais, é verdade. Mas achei que o samba renderia melhor, que haveria mais interação com o público. Mas briga pelo caneco. Um grande desfile. Renato Lage é genial.

Beija-Flor –  Então…   Vamos lá.  Lindo. Brilhante. Incrível.  Chato. Morno. Um desfile autista.  A comunidade canta, participa, leva a escola nas costas seja qual for o samba, mas faz isso pra ela. A impressão é que a Beija-Flor tem tido uma relação entre ela, a comunidade, a mídia e os jurados. E que o público não está ali.  Falta emoção, interatividade, risco! A bateria quase nunca para, a escola não ousa. É quase perfeita, mas não mexe comigo.  É gosto.  E eu não gosto deste estilo técnico de desfile.

Mocidade – Pobre, com algumas alegorias de mau gosto, uma infeliz idéia de cutucar meio sambodromo com uma camisa do Sport absolutamente sem necessidade, mas com um puta samba e um povo muito disposto a virar o jogo. Não virou ainda. Mas já tomou a bola. Sair aplaudido do sambodromo, pra mim, juro, vale tanto quanto um titulo de jurados.  Salve a Mocidade. Mas não volta sábado, acho.

Ilha –  Incrível! Enredo sem penas, pavão, faraós, mumias e bois.  Simples, de fácil entendimento, se comunicando com o público. Alegre, feliz, brincalhão.  Meu conceito de bom carnaval passa muito perto disso.  Espero que volte nas campeãs.

Vila Isabel  –  Não tem o que ser feito se não elogiar a comunidade por tentar salvar e esperar que os jurados a rebaixem por ter desfilado faltando ala, fantasias, pedaços e até gente de calcinha e cuecas.  Não é digno da campeã. Não sei o que houve, mas… é injusto com a Sao Clemente não rebaixar uma escola que entra sem roupa na avenida contra quem tentou, ao menos, fazer tudo direitinho.  Pra mim, deve cair. Infelizmente.

Imperatriz – A deliciosa homenagem ao Zico rendeu. É bom ver a Imperatriz levantar o publico, coisa que não é muito dela. Bom desfile, bonito, mas muito óbvio, repetitivo, cheio de bola, chuteira e mais nada.  Não acho que volte, por mais merecido que tenha sido a homenagem e mais claramente sem inspiração estivesse o carnavalesco sobre o tema.

Portela – Enfim, Portela. Desfile de campeã. Grandioso, colocando o Louzada um degrau acima de onde estava seu nome até então no carnaval.  A nova Portela parecia a velha. Aquela, bem mais velha.  Pra mim, merece ser campeã. O último carro foi o melhor do desfile.

Tijuca – Eu não entendi o enredo e acho que pode dar confusão. Foi dito que era Senna, e não era. O enredo era velocidade COM o Senna, não sobre ele. Só que desfiles como o da Imperatriz fazem o Paulo Barros ter razão em misturar. Pois entre fazer essa mistura as vezes sem muito sentido e repetir 30 alas, mil vezes misturar o enredo.  Disputa o título.  E o Paulo Barros é, disparado, o melhor pro carnaval do Rio. Pra quem compra ingresso existe o desfile dele, onde passam 80 minutos olhando e se surpreendendo, e o dos outros, onde dá tempo de sentar, levantar, tomar alguma coisa, enjoar, surpreender, enjoar de novo, levantar, sentar, etc, etc, etc.

O que acho que vai dar? 

1- Portela
2- Tijuca
3 – Beija Flor
4- Salgueiro
5- Grande Rio
6- Uniao da Ilha
7 – Imperatriz
8 – Mangueira
9- Mocidade
10 – Imperio da Tijuca
11- Vila Isabel
12 – Sao Clemente

O que aconteceria se eu pudesse determinar o resultado?

1 – Portela
2 – Tijuca
3- Grande Rio
4- Ilha
5 – Salgueiro
6- Imperio da Tijuca
7 – Beija Flor
8- Imperatriz
9 – Mocidade
10 – Mangueira
11- Sao Clemente
12 – Vila Isabel

Enfim. Mais um ano onde volto contestando a forma de se determinar o campeão, a falta de envolvimento com as arquibancadas, o peso de cada quesito e esperando, desde já, uma grande polêmica com as notas.  Vai ser apertado.

E viva o carnaval do Rio de Janeiro!

abs,
RicaPerrone

Carnaval 2014

Chegou a hora de conhecermos os 12 sambas do grupo especial para o carnaval 2014. Todos escolhidos, agora é gravar o CD (esta semana) e preparar o desfile.

Sem mais firulas, vamos aos sambas escolhidos. Lembrando que esta é uma versão dos compositores, não necessariamente na voz do interprete oficial da escola, talvez nem no ritmo exato ainda. Mas dá pra sentir 90% do que será cada samba.

Destaque para a Mocidade, Portela, Salgueiro e Império da Tijuca. Pra mim, os melhores. Mas a safra é ótima!

bandeiras Grande Rio

Enredo: Verdes Olhos Sobre o Mar, no Caminho: Maricá

bandeiras Salgueiro

Enredo: Gaia – A Vida em Nossas Mãos

bandeiras Beija-Flor

Enredo: O Astro Iluminado da Comunicação Brasileira (Boni)

bandeiras  Mangueira

Enredo: A Festança Brasileira Cai no Samba da Mangueira

bandeiras Imperatriz

Enredo: Arthur X – O Reino do Galinho de Ouro na Corte da Imperatriz

imperiotijuca_peq Império da Tijuca

Enredo: Batuk

bandeiras Mocidade Independente

Enredo:  Pernambucópolis

bandeiras Portela

Enredo: Um Rio de Mar a Mar: do Valongo à Glória de São Sebastião

sao_clemente_peq São Clemente

Enredo: Favela

ILHA União da Ilha

Enredo: É Brinquedo, é Brincadeira; a Ilha Vai Levantar Poeira

bandeiras Unidos da Tijuca

Enredo: Acelera, Tijuca!

bandeiras Vila Isabel

Enredo: Retratos de um País Plural

Gostou?!

Abs,
RicaPerrone

Sambas enredo 2013

Não sou músico, apenas ouço samba. Ao ouvir, sempre entendi que em algum momento, por mais dentro do enredo que precisasse estar, ele deveria falar com o povo. Este momento costuma ser o refrão, que pra mim, que estou na arquibancada 11 da sapucaí desde 1997, é onde a bateria sobe, a escola toda canta, as baianas giram e onde a escola ganha ou perde o público.

A análise abaixo fiz para o site carnavalesco, que me convidou para ser um dos “jurados” de 2013. Com muita honra, aceitei.

De lá pra cá ouvi muitas outras vezes cada samba  e acho que fui injusto com a Mangueira. Apesar do samba de fato não me atingir, é de uma letra muito bem feita. De resto, mantenho.

Unidos da Tijuca – 9.8 – Gosto do refrão, gosto do ritmo e da melodia. O enredo é muito complexo, não é fácil falar de tudo que engloba o tema num só samba. Mas de todos os sambas a frase mais bem bolada do carnaval 2013 é da Tijuca: “Metade do meu coração é Tijuca, a outra metade Tijuca também”.

Salgueiro – 9.7 – Samba gostoso, bom ritmo, fácil em diversos trechos com um final antes do refrão bem bolado. Gosto de ouvir. não gosto das trocas de interprete, talvez por mera simpatia pelo Salgueiro de Quinho, talvez por ainda não ter me acostumado. Mas o samba é bom e tem a cara da escola.

Vila Isabel – 10 – Duas constatações simples: É um dos melhores sambas dos últimos 15 anos. Letra inteligente, refrão fácil e com sacadas geniais como o “portugues do interior” no refrão do meio. Outra constatação: O samba gravado na versão concorrente, pelo Wander Pires, ficou melhor do que a versão final do CD. Ainda assim, espetacular o samba.

Beija-Flor – 9,7 – O enredo não ajuda. Dentro do tema, o samba é bom. Mas é mais um samba da Beija-Flor feito para ganhar nota por estar bem enquadrado, bem levado pelo ótimo Neguinho e que não ousa em momento algum. Mais um que vai passar, não vai ficar.

Grande Rio – 9.8 – Típico samba que me agrada. Não sei porque, não tenho explicações técnicas, mas me agrada colocar pra ouvir. Gosto do refrão, acho a história contada de forma super simples e popular. Sem firulas, sem sacadas épicas, é apenas um bom samba. E não precisa mais do que isso.

Portela – 10 – Como o anterior, espetacular. Rápido, forte, cheio de trechos “grudentos” que ficam na cabeça facilmente. Samba das antigas, a cara da Portela. O melhor do ano junto da Vila.

Mangueira – 9.7 (mudaria pra 9,8) Letra é até rica, mas o samba não é cativante em momento algum. Refrão complicado, longo, porém bonito, assim como boa parte do samba. Não gosto muito, nem odeio. Simplesmente não me atingiu.

Ilha – 9.8 – Gosto do refrão, da idéia, do ritmo e da simplicidade do samba. Pra cima, respeitando a identidade da escola. Adoro ouvi-lo.

Mocidade 9,6 – Quando uma safra inteira de sambas é fraca nota-se que o enredo é complicado. A gravação final, porém, não ficou tão ruim. Mas o samba é pra lá de comum, infelizmente. Um dos piores, conforme previsto desde a escolha do enredo.

Imperatriz – 9,7 – Outro samba que não diz muita coisa. Aliás, convenhamos, está passando da hora da Imperatriz fazer um samba ou um desfile ousado e notável. Mais uma vez, comum. Nem ruim, nem bom. Wander Pires deu algo mais ao samba.

São Clemente – 9.6 – O samba é popular. Dá pra identificar quase tudo sem “legenda”. Mas poderia ser melhor. Ao menos é irreverente, brincalhão, alegre, a cara da escola.

Inocentes – 9.5 – O pior de todos. Dificil de cantar, de guardar, de entender o que está sendo dito sem uma legenda.

abs,
RicaPerrone