torcedor

Que mundo é esse?

Eu ainda não sei se me choca mais a repercussão ou o fato. O garotinho de 8 anos, o Gui, vascaíno fanático, cantou o hino do Flu com o título. E foi xingado e cobrado nas redes sociais.

Que o mundo tá perdido a gente sabe. Mas uma criança de 8 anos ser cobrada por postura de torcedor?

Até entendo a zoeira de “porra, Gui! Aí não!”, ok! Educativo até. Mas ofender o moleque, a família dele, por isso?

Fosse um adulto, juro que eu entenderia. Pode até torcer pro rival se quiser mas cantar o hino e comemorar já é demais. Mas ele tem OITO anos!

Na moral. Tão cobrando com ofensas postura de torcedor de um menino de 8 anos.

Quem é mais infantil?

RicaPerrone

O certo, o errado e todo o resto

Está errado. No manual do mundo diz num parágrafo qualquer que ao agredir você perde a razão.  O ponto da discussão é se você quer ter razão ou dar um soco. As vezes, sendo humano, você quer o soco.

Se você nunca quis, acredite, sua vida é irritantemente chata.

Eu não defendo o soco. Eu defendo a verdade. Eu gosto da verdade. Eu amo quem erra, me identifico com quem exagera, e não a toa sou coerentemente fã do Neymar como fui de Renato, Romário, Edmundo e cia.  Mera simpatia pela verdade nua e crua.

Embora eu seja fã da Sandy e do Kaká, não leria um livro sobre suas vidas ou assistiria a um documentário. Já sobre o Luis Fabiano…

E não, eu não gosto do Luis Fabiano. Acho um atraso de vida pro clube, pra ele, etc. Mas com todos os poréns do mundo que tenho sobre ele, eu sei quem ele é. E isso basta.

As pessoas não precisam e nunca serão como eu espero. Elas são como são. E a mentira é bem vendida quando bem contada. Por isso tanto esforço para parecer perfeito. Mas é que eu já sou grandinho, já não caio no conto da mídia e menos ainda no da rede social. Eu prefiro a verdade.

Eu daria o soco. Porque sou tão passional quanto. O Edmundo daria. O Zidane talvez. O Romário, certeza. E o Renato Gaúcho daria o soco e engravidaria a irmã do cara.

Amamos essas histórias, esses personagens e essas situações. E repudiamos quando acontecem.

É como briga num jogo de futebol. Você nega, diz que não pode, repudia, mas quando o primeiro empurra você se levanta como se fosse um gol. Sabe porque?

Porque você gosta.

E sim, eu gosto quando um jogador sai da linha. Eu gosto quando alguém está sendo provocado e reage.  Eu gosto quando vejo sangue nas veias de alguém.

Tá errado? Tá.

Eu também estaria. Os meus ídolos estiveram.

Faz anos que eles pararam. Um ganhou bola de ouro, Copa, o outro nada na seleção. Quando eu sento num bar pra falar de futebol eu jamais ouvi alguém contar uma história sobre o Kaká. Nunca sai de uma resenha de futebol sem ouvir uma do Renato.

O futebol que alguns de vocês querem ver é de mentira. Como o instagram do seu influencer famoso ou a barriga daquela atriz.

Eu gosto das coisas como são. Imperfeitas.

Tá errado, Neymar. Mas eu também teria feito. Ou você acha mesmo que saindo de uma final derrotado um imbecil pega um celular e começa a te filmar pra te humilhar na internet e virar “mito” entre os amigos não mexeria com você?

Não? Então…  entre segurar um maluco e empurrar um imbecil, sempre a primeira opção.

RicaPerrone

Porque levar seu filho ao estádio

O garoto no colo do Edmundo é filho de um torcedor, e o garotinho se chama Edmundo…

 

Eu insisto nesse pedido aos pais e ouço as mais absurdas desculpas para a recusa. As vezes quase desisto, entrego pro Chelsea os nossos garotos e que se foda. Mas aí a vida me dá uma injeção e eu volto a entender o porque da “briga”.

Sábado houve um evento muito legal no Rota 66 da Tijuca. Mais de 100 torcedores do Vasco pagaram para passar uma tarde com o ídolo Edmundo.  Por mais de uma hora eu comandei um talk show com ele interagindo com os torcedores e em seguida ele abraçou, tirou fotos e conversou com um por um.

Achei que iria pra um evento onde pessoas como as das redes sociais fariam perguntas e mais perguntas sobre as coisas que ouvimos todo santo dia. Que ele as responderia, sairia pra casa dele e que se dane. Idem pra mim.

Mas aí abro as perguntas para os torcedores e o primeiro pega o microfone e diz: “Edmundo, em 97 você disse que se pudesse abraçaria cada torcedor do Vasco ao final do jogo do título.  Eu sou de Minas e vim até aqui hoje receber esse abraço. Posso?”.

Pronto. Edmundo chorando, eu já estava desmontado, o ambiente era familiar e a partir dali ninguém mais sabia exatamente o que perguntar.

Veio um homem mais velho que o primeiro rapaz e disse: “Não quero te perguntar nada. Eu cresci vendo futebol com meu pai, hoje ele não pode vir porque a saúde não permite.  Mas eu vim te agradecer porque as maiores alegrias que passei com meu pai foram pelos seus pés”.

Ao lado dele um garotinho, seu filho. Devidamente fardado de vascaíno e não de um mongoloide torcedor de playstation que acha que sabe o que é futebol vestido de Manchester.  Ali tínhamos uma história que fez o futebol valer a pena, e entendemos porque tanto dessa nova geração não terá esse futebol.

Um outro rapaz pediu o microfone e entregou um desenho que ele mesmo fez do Edmundo. Dizendo que seu avô o adorava, e que por isso ele foi lá agradecer e dizer que o amava.

Eu vi o Edmundo jogar. Vi o Edmundo falar merda em mesa de restaurante, já vi o Edmundo correndo atrás da filha, enfim. Eu nunca tinha visto o Edmundo tão desarmado. Ele chorava a cada 15 minutos olhando pra idolatria daquelas pessoas e sabendo o que ele representou na vida delas apenas por jogar futebol.

Eram pais e filhos, famílias unidas pelo Vasco e portanto, por ele também.

Você realmente pode achar que gostar de futebol trata-se de ver um jogo pela tv. É um direito seu limitar-se a olhar pela janela e achar que conhece o bairro.  Mas não proíba seu filho de descer pra rua.

É no estádio que a gente ama futebol. É através dele que aprendemos a perder e ganhar, que sabemos sacanear e ser sacaneados, que colecionamos amigos, aumentamos o elo com nossos pais e avôs e, porque não, somos mais felizes.

Não tirem o nosso futebol dos nossos garotos. Todo mundo merece conhecer seu “Edmundo” um dia e poder chorar feito uma criança.  Não pelos gols que ele fez, mas pelos abraços que você deu no seu pai através deles.

É disso que se trata. Não é um esporte. É futebol.

Obrigado aos vascaínos que estiveram lá sábado. Me fizeram reviver muita coisa que trabalhar no meio vai tirando de  você.

abs,
RicaPerrone

Neymar é moleque

A comparação com outros atletas olímpicos e suas reações ao vencer beira a burrice. Mas respeitemos, pois ela é interminável e como um câncer vem em quem as vezes não pode se defender.

Nenhum atleta olímpico toma porrada o ano inteiro, todos os dias, e é cobrado individualmente por um coletivo. Nenhum deles tem a importância de um jogador de futebol da seleção brasileira e portanto ninguém ali sabe o que é ser capitão da seleção.

Aos 24, campeão de tudo, cobrado como se fosse um Pelé maduro aos 30, Neymar precisa aceitar ser um moleque e aceita.

Ele erra, faz biquinho, fica puto, decide o jogo, xinga de volta, sobe na arquibancada, abraça a (ex)namorada e recebe o filho no gramado. Neymar é Neymar, não é o cara que você decidiu que queria pra capitão da seleção.

Porque diabos você acha que um ídolo deve ser como você espera que seja e não como ele é? Quem você acha que é pra saber sua reação após apanhar por 15 dias 24h de todos os lados e com a medalha no peito ouvir uma ofensa?

Ele bateu no rapaz? Não, só mandou tomar no cu. Que aliás, é algo bem justo considerando que o mandam pro mesmo lugar o dia inteiro em todos os lugares do mundo. Especialmente no Brasil, onde sucesso é crime.

Esse moleque que vocês querem moldar numa forma de Messi, nos deu a medalha que ninguém havia dado. Esse pivete cheio de marra que vai pra noite sem se esconder de fotografo e que quando não tá afim não dá entrevista pra imprensa, é o cara que resolveu a final da Champions League e a da Libertadores antes dos 23 anos.

Você quer mesmo meter o dedo na cara desse moleque?

Você acha realmente que tem alguma idéia do que ele vive e do quanto é cobrado para ter ou não o direito de ser humano e explodir contra alguém que o ofende após a conquista?

Que tipo de pessoa é você? O que apanha e dá a outra face? Porque se for, me perdoe, mas prefiro Neymar.  Prefiro Romários. Prefiro a verdade num destempero do que a falsidade de uma ação midiática para ser a Sandy de chuteiras.

Neymar é moleque. E com 24 anos, se não fosse, seria burro.

abs,
RicaPerrone

Grenalizaram

Garotos não jornalistas tomando espaço dos jornalistas.  Torcedores derrubando a credibilidade dos profissionais de imprensa.

O público buscando cada dia mais quem torce do que quem finge ser superior a tudo aquilo.

Há uma crise no jornalismo esportivo brasileiro, uma resposta dos torcedores e uma tendência fácil de explicar.

No Sul, tem o Grenalizando. Um programa de torcedores que tratam o futebol como ele é. Sem a falsa ideia de que não torce pra ninguém, de que não sente raiva, de que não fala palavrão e não reage de forma apaixonada após a partida.

No Rio tem o Rock Bola (e também o Popbola) que são parecidos, no rádio, mas tão sensacionais quanto. Eles destruiram a audiência dos “debates malas” padrão de futebol das rádios AM.

Surgiu agora essa polêmica no final de semana. Jornalistas reclamando dessa “inversão de valores”.

Ora, meus caros colegas, vamos saber reconhecer derrotas. Ainda mais as que são por goleada. Se o torcedor sem diploma se comunica com torcedores melhor do que nós, ou somos muito ruins, ou eles muito bons.

Partindo de um meio termo, estamos fazendo algo errado, eles corrigindo pro lado certo sem ter tido 4 anos de aula de como se comunicar. Talvez porque sejamos arrogantes, talvez porque tenhamos perdido a paixão.

E sem paixão, como sempre digo, não tem como trabalhar com esporte ou qualquer outro entretenimento.

Pessoas de olhar opaco, transmitindo “cansaço” de tudo aquilo,  um ar de quem “já viu de tudo e nada mais mexe com ele”, ou aquele discurso imbecil que tanto contesto nos padrões ESPN Brasil onde se avalia tudo que deu errado pra depois, se der tempo, falar do que foi apaixonante.

Na Copa, pra se ter idéia do tamanho da estupidez, a ESPN colocou no ar ao vivo um uruguaio e um argentino chorando de alegria pela classificação de seus países como comentaristas. Não houve um jornalista na emissora capaz de torcer pela seleção brasileira.

O torcedor ama futebol e seu clube. Quando procura futebol ele quer lazer, não problemas. Ele quer um espelho de alguém que sinta o que ele sente, que seja capaz de entende-lo, não de menospreza-lo.

As demissões em massa, a perda de espaço e a troca de “profissionais” por torcedores não é apenas uma tendência como também uma aula prática.  Aprende quem quiser/puder.

Eu estive na Copa do Mundo e quando o Brasil fez o gol contra a Croácia, o primeiro da Copa, o primeiro gol em copas de muitos jornalistas que ali estavam, a maioria não tirou as mãos do teclado pra vibrar.

Sem exageros. Se sou editor de um portal/emissora, tanto faz, e meu funcionário que cobre futebol não reage a um gol da seleção na Copa, em seu país, no jogo de abertura, eu mando embora.

E não é uma forma de falar. Eu mandaria embora 80% dos meus colegas jornalistas se fosse chefe deles. Não sou. Sou meu chefe, apenas. E me oriento para tentar estar sempre o mais próximo do que sente um torcedor, não do que acha um jornalista.

Grenalizaram o Rio Grande do Sul! Porque não há diploma pra falar de amor. Apenas apaixonados conseguem.

E nós, jornalistas, frígidos, estamos cada vez mais sozinhos. Graças a Deus.

abs,
RicaPerrone