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A curiosa disputa de samba

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Não me parece a idéia original, sequer a mais justa.  Quem nunca acompanhou uma disputa de samba enredo nas escolas de samba pode até achar que trata-se de uma competição entre compositores e seus talentos. Mas não é só isso.

São grupos de 5 pessoas normalmente em cada samba. Já é comum que 3 escrevam e 2 financiem.  É preciso investimento mínimo em torno de 25 a 30 mil reais pra se chegar a final, além de um bom samba, é claro.

Paga-se cerveja, ingressos, onibus pra levar gente, bandeirinhas e na quadra as torcidas se alternam. Uma claque. Sem disfarce.

Enquanto um samba toca aqueles torcedores que os compositores levaram vão pra frente do palco e pulam.

Se a disputa é pra saber qual samba a comunidade abraçou, o que diz aquele monte de gente “organizada” pra fazer isso?  Nem da escola são, na maioria dos casos.

Tá caro. E cada vez mais artificial.

Não porque os escolhidos são ruins. Longe disso. Escola nenhuma é idiota. Mas porque afasta aquele compositor da comunidade que não tem lá seus 10 mil reais pra investir em balões, convites, camarotes, cervejas, etc.

É preciso ter amigos. Pagar cerveja pra eles, convence-los a ir até la. E, TAMBEM, ter um bom samba.

Não bastaria o bom samba?

Bastaria, não fosse um negócio simples. O vencedor fatura uma boa grana de direitos autorais pela transmissão do carnaval. Ao vencer ele pode ganhar cerca de 50 mil, se for uma parceria de 5 pessoas por exemplo.

A questão não é essa. Mas sim o quanto se exclui o cara que tem apenas talento em troca daquele que tem amigos, mídia, dinheiro.

Hoje, sem uma turma boa e uma grana você não vai levar samba algum adiante em escola nenhuma.

E o conceito, ao invés de discutido, foi absolutamente adotado e tornou-se padrão.

Não consigo entender bem o que são aquelas 200 pessoas cantando um samba que foram convocadas pra cantar “representando” uma comunidade que apenas assiste, de lado, quase mera espectadora de toda a escolha.

Novos tempos. Muito se gasta, pouco se ganha.

Disputas de samba são chatas. Talvez a escola ganhasse mais ouvindo os sambas internamente entre suas diretorias e escolhendo um, antecipando os ensaios e desfazendo a impressão de aceitação feita, muitas vezes, por uma claque contratada.

Além da agressividade que gera tendo dinheiro investido. Vi e tenho ouvido relatos de ameaças, ofensas, até tentativa de vaias no samba do colega. Normal. Não é só um samba. É investimento.

Não gosto. Vou pra apoiar o samba dos meus amigos, o que também é um erro. Não estou na minha comunidade escolhendo meu preferido, mas sim indo a uma outra comunidade fazer número pra alguém.

Quantas vezes um bom samba perdeu pra uma claque?

Quantas mais vezes acontecerá?

abs,
RicaPerrone

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