Aranha

Já fomos todos “Patrícia”

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Quando eu tinha 22 anos, num dos mil jogos que assisti do meu time no Morumbi, xinguei um deficiente de “manco do caralho”.  Eu fiz isso em meio a uma derrota que eliminava meu time e que o sujeito, o “manco do caralho”, era adversário e portanto representava a minha derrota.

Hoje, aos 36, eu sei dizer que fui estúpido, elevei o futebol a um nível que não posso controlar e nem devo aprovar. Mas aconteceu.

Nunca encontrei esse “manco do caralho” pra me desculpar, até porque ele saiu daquele estádio rindo da minha cara classificado para uma final que eu queria estar. Naquele dia, na verdade, eu trocaria de lugar com ele e mancaria por muitos anos só pra ir àquela decisão.

Eu errei, e se meu pai tivesse visto eu fazer isso teria me colocado no lugar.  Não viu, eu estava sozinho, e portanto dormi com aquilo nos dias seguintes em segredo comigo mesmo.  Eu vou te dizer sem muita firula que se o “manco do caralho” tivesse me sentado um tapa na cara teria doido menos do que saber o que tinha feito sem poder me desculpar.

E então nunca mais fiz isso com “mancos”.  Mas com jogadores, continuei fazendo.  Xinguei o Messi de “anão filho da puta” na Copa e não sou “anãofobico”. Mas fui desrespeitoso numa dose aceitável, afinal, ele não é anão. Mas se fosse, eu estaria sendo um babaca.

Aranha fez o certo, a lei também fará se punir a garota e TAMBÉM os outros vários torcedores que a tv também filma e ninguém se deu o trabalho de identificar.

Mas ao colocarmos a tal da Patrícia pra responder pelo racismo no Brasil e expor a garota a ofensas, humilhação e um rótulo, estamos sendo tão ou mais idiotas do que ela foi naquele momento do jogo.

Ela tem a desculpa de estar num ambiente sem lei, de enorme dose de paixão e euforia, numa cultura local acostumada a chamar seu rival de “macaco”, enfim. Nada justifica.

E nós, aqui da cadeira num pc julgando uma garota de 23 anos como se jamais tivéssemos tido essa idade e cometido erros estúpidos na vida?

Justifica-se?

Patrícia é uma garotinha. Errada, claramente com problemas de percepção de o que pode ou não, exatamente como você quando tinha 23 anos.

Punir é uma coisa. Massacrar é outra.

Há uma Patrícia em todos nós.  Quando for apedrejar alguém, atire a primeira pedra pro alto.  Quando ela cair na sua cabeça, aí sim, você estará apto para julgar alguém de forma tão arrogante como estamos fazendo com a “guria”.

abs,
RicaPerrone

Macacos e macacos

Quando um corintiano chama um palmeirense de porco em 2014 ele não está falando que o sujeito não toma banho, ou que tem hábitos ruins de higiene. Ele está usando o “apelido” do adversário para mexer com ele.

A imprensa nacional, que não é maioria gaúcha e portanto não sabe como as coisas funcionam por lá, está cometendo um erro que eu mesmo já cometi outro dia.

O “macaco” do Inter é um apelido. É o “gambá”  do Corinthians, o “Urubu” do Flamengo.  Claro, que parte de um rival em tom de provocação e o time adota ou não.

Sim, o começo desse apelido é racista. Mas em 1909 o mundo era racista. O Inter é o Inter, time do povo, porque permitiu negros. O Grêmio é o time da elite, que os proibia.

Isso em 1900. Não faz sentido julgar e analisar um mundo que não existe mais. Na época era assim, os tempos são outros, mas o apelido hoje é usado como forma de tratar o rival e não no tom racista que se viu contra o Aranha na quarta-feira.

É muito bicho no mesmo post, eu sei. Mas tente não se perder.

Quando um gremista canta na música que “macaco imundo” tem um teor totalmente diferente de quando uma pessoa olha pra um negro e diz que ele é macaco.

Acho importante colocar isso para as pessoas que estão julgando o caso e tentando rotular torcidas por uma ou outra atitude.

Existem macacos e macacos neste caso.  De origem igual, mas com sentidos conotações diferentes hoje em dia. Um é imperdoável, o outro, mero apelido. Inclusive adotado pelo clube “ofendido” em questão.

abs,
RicaPerrone

#Mudos

Uma vez alguém meio bêbado deu uma porrada num outro sujeito saindo de um estádio.  Eles proibiram a bebida. O agressor ficou solto.

Outro dia um sinalizador matou um jovem, mesmo que por acidente. Eles proibiram o sinalizador.

Aquelas bandeiras de plástico eram usadas as vezes pra jogar na torcida do anel inferior. Então, proibiram a bandeira.

Pessoas juntas, as vezes, brigam. Então separaram 100% das torcidas em alguns estádios.

Hoje um grupo de fácil identificação chamou um jogador negro de macaco. E ninguém foi preso, nem será. Eles vão tentar, talvez, proibir o torcedor de falar no estádio. Mas não vão fazer o menor esforço pra individualizar a culpa.

O estádio de futebol, meus caros, é como a internet. Todos viram anônimos, fazem o que bem entendem e quem responde é o clube, ou a arma, nunca o autor do disparo.

Sinceramente, eu nem acho que as pessoas que estavam gritando “macaco” sejam racistas. Eles abraçariam o Zé Roberto se ele fizesse um gol.  Mas entendo que ali, nervosos com o jogo, no meio da multidão, embalado pelo imbecil do lado, perderam a razão e fizeram.

Se der merda, vai dar pro Grêmio. Nunca pra eles.

Torcedor de futebol é tratado como uma criança que não responde pelos seus atos.  Só que já fez mais de 18 há algum tempo, e então ao invés de uma criança sem noção já estamos lidando com um imbecil adulto.

Faz 35 anos que eu vou em estádios. Já vi, ouvi e até participei de cada coisa que nem recomendo.  Eu nunca me senti um individuo lá dentro, e nunca vi ninguém ser punido.

A solução não está na cerveja, nem no pau da bandeira, menos ainda na placa “anti-racismo”.  Basta cobrar do cidadão que ele responda individualmente pelos seus atos.

Não vai dar em nada. Ou, no máximo, vão multar a loirinha do vídeo como forma de dizer que foram “duros” com o racismo.

Porque o problema não está nos caras imitarem um macaco. Nenhum deles faria isso na rua sozinho pro Aranha. Está na covardia, na euforia sem lei e na absoluta certeza que ali, mesmo que identificados, são só  “a torcida do…”.

abs,
RicaPerrone