Danubio

O eterno “vexame”

Todo ano acontece a mesma coisa. Nós olhamos a tabela, os elencos, achamos que estamos na Espanha e decretamos que tal time não vencer é vexame.

Ignoramos o fator “formador”, que nivela muitas vezes pelos jovens talentos, o fator campo, a pressão, o estilo de jogo em cada país das Américas e no final tentamos jogar pros clubes a “vergonha” que fizemos ao avaliar o cenário.

Passa o Galo? Sim. Todos achavam. Mas aí começa a palhaçada de achar “vexame” se não passar. A mídia transforma a glória em alívio, a vontade em pressão e o jogo se torna um inferno.

Vamos sim perder algumas vezes em pré Libertadores e em semi de Mundial. Porque? Porque somos passionais, a mídia transforma nossos jogos em obrigação e quando erram ao invés de reconhecer que “não era tão fácil”, dizem que “quase foi vexame”.

É uma puta tática. Funciona. Mas de covardia ímpar.

Jogo de Libertadores é duro. Sempre foi, e embora hoje seja menos do que já foi um dia em virtude dos campos padronizados, a proibição das festas e a palhaçada de se achar europa que a mídia sempre apoiou (essa pica ninguém assume né), ainda há um fator de equilíbrio muito forte.

Há favoritos, mas não “vexame”.

O Galo foi só o primeiro a ver uma “conquista” virar  “obrigação” e virar um quase “vexame”. Outros virão.

Porque pode até ser uma “zebra” perder pra um time menor. Mas repetir a mesma avaliação arrogante e equivocada ano após ano eu chamo de “vexame”.

RicaPerrone

Tá olhando o quê?

Existem jogadores ruins dispostos a jogar bola, outros que sabem jogar e não correm, uns tantos que não fazem nem uma coisa nem outra.

Ganso é um craque. Ele sabe absolutamente tudo que um meia precisa saber pra se tornar um grande jogador. O que não parece notar de forma alguma é que ele é uma projeção e não uma realidade.

Ganso vive do que se espera dele, não exatamente do que produz. Parece não ter interesse no jogo, não sentir nada que acontece a sua volta.

Há quem diga que a torcida implica com ele. Mas não é verdade.  Ontem, por exemplo, ele e Michel Bastos tinham a função de armar o SPFC.

Mesmo jogo, mesma posição, olha o mapa de calor dos dois na partida.

michelganso

Dá pra ignorar a diferença? Acha que o torcedor não enxerga isso?

Michel deu 89 toques na bola. Foi o mais acionado em campo, até pela posição que atua e o cenário da partida. Ganso, ao seu lado, pegou na bola 56 vezes.

Dos titulares, Ganso teve a pior precisão nos passes, empatando com o Tolói. Ele errou 30% do que tentou na partida.

Mas Ganso perdeu a bola 20 vezes no jogo ontem. Michel, também. A diferença é o quanto participaram e estiveram com a bola.

Em lances de posse de bola, onde conduziram a bola, Michel tentou 12 vezes. Ganso teve 2 vezes essa condição na partida.

São dados oficiais, da Opta, exclusivos aqui no blog, diga-se.

Mas são números. E com eles nem sempre dá pra discutir.

abs,
RicaPerrone

Futebol é uma benção

São raros os momentos em que cometemos erros em sequência e a vida nos dá uma segunda chance antes de pagarmos por esses erros.

O futebol é uma benção.

Este time do São Paulo é uma das coisas mais frígidas que vi, um dos mais sem alma e ambição que tive notícias e um dos que eu menos tive prazer de ver jogar.

É morno, lento, desinteressado.  É o oposto extremo do estereótipo de um campeão da Libertadores.

Mas as vezes a vida é teimosa.

Contra o San Lorenzo, quase foi.  Aconteceu um milagre.

Hoje, quase. Aconteceu outro.

Esse time morto e que causa profunda irritação aos tricolores até os 46 do segundo tempo teima em respirar quando todos já viram as costas pro corpo no chão.

É tão contestável, tão óbvio que vai acabar mal, que o roteiro começa a despertar uma desconfiança sobre o final trágico e infeliz.

O São Paulo parece não querer a Libertadores. E ela parece não abrir mão dele.

abs,
RicaPerrone

Eu queria ser Emerson Sheik

Seres humanos se dividem entre os que assumem a magoa, a raiva, o preconceito e a vontade de ver o “inimigo” na merda e os que tentam passar a vida mentindo.

Como a maioria, mesmo os que não confessam, eu adoro ver quem me detesta ter que me engolir. Me vingar de alguma ofensa, poder rir de quem riu de mim. Sou humano, me desculpe.

Outro dia alguém me perguntou se eu fosse jogador que jogador eu gostaria de ser.  Mas que pergunta difícil! São tantos perfis, tanta gente parecida, tão distantes do meu mundo.

E então  tentei encontrar alguém humano, exagerado, que cometa erros, que adore vencer, que não tenha medo algum de tentar fazer diferente e que quase sempre saia rindo.  Ora, eu queria ser Emerson Sheik!

Eu adoraria poder ser jogador e enfiar a perna num argentino na Libertadores. Mas essa é a minha limitação.  Se fosse Emerson Sheik, ganharia dele e ainda debochava sem perder a cabeça.

Sheik trabalha com o lado mais insuportável da vida: a inveja.

Todo rubro-negro, por saudades e inveja, queria vê-lo “se foder” no Flu.  E ele foi campeão brasileiro, tirou os caras da fila, fez o gol do título.

Brigou. E então todo tricolor quis ver o Sheik pelas costas.  Ele foi ser campeão da Libertadores pelo Corinthians, com 2 gols na final.

Deu merda. E ele foi pro Botafogo. Lá, o presidente o peitou e, pasmem, o demitiu!  O time foi rebaixado.

Sheik voltou ao Corinthians. Sob a desconfiança infundada de que havia acabado pro futebol, retomou sua posição no time e mais uma vez brinca com os adversários e ajuda seu time a vencer.

Emerson é um vencedor irritante. Um sujeito que joga na sua cara apenas ao passar na sua frente o quanto ele venceu e, se for um adversário direto, o quanto você perdeu.

É rico, veio do nada, se diverte, troca de namoradas e não dá a mínima para uma mídia que tenta fazer de sua vida uma novela. Sorri. Mostra o recibo, dança na camera e dá selinho no amigo.

Sheik não está nem aí pra ninguém. Porque ninguém conseguiu pará-lo.

Sim, eu queria ser Emerson Sheik.

Não queria que ele casasse com a minha filha. Talvez nem quisesse ter um filho como ele.

Mas o futebol precisa de mais Sheiks do que Kakás.

abs,
RicaPerrone

On / Off

No Morumbi meio vazio por culpa da fase meio ruim e dos ingressos meio caros, um time meio espetacular, meio sonolento.

Há uma chavinha escondida no estádio com as opções “show de bola” e “dar sono”.  Não há meio termo.  Os primeiros 15 minutos do São Paulo fariam inveja a qualquer time do mundo. Os 30 minutos seguintes, não.

De espetacular a sonolento, de sonolento a espetacular. Um time cauteloso com lampejos de quem quer ser brilhante e não consegue se desprender do foco defensivo.  Ou talvez pela dependência de jogadores vaga-lume, absolutamente dentro deste contexto, como Pato e Ganso.

Fato é que quando quer, com a qualidade que tem, o São Paulo ataca como poucos. Michel é um jogador fora de série, vive grande fase e sua escalação na lateral contra o Corinthians foi inadmissível.  É dele que saem quase todas as jogadas de gol do São Paulo.

Joga um ou outro ali na frente. Muricy parece incapaz de soltar Ganso e Michel como meias de criação.  Hoje colocou Ganso batendo cabeça com volantes, assassinando o futebol do meia.

Nada que pudesse diminuir a boa atuação do São Paulo e a goleada sobre o fraco time do Danúbio, que não conseguiu articular nada o jogo todo. Só se defender e dar pontapés.

Este jogo era a única “obrigação” que o São Paulo tinha no grupo. Está feito. O que vem pela frente é outro patamar. Mas que os lampejos do Tricolor não deixam dúvidas de ser bem possível.

abs,
RicaPerrone