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A política, o esporte e o senso comum

É segunda-feira, dia seguinte do enforcamento de Gustavo Lima que cometeu o crime de pensar diferente do senso comum.

Entenda por senso comum aquele grupo de pessoas que apoiado por uma mídia e/ou intelectuais de voz ativa determinam o que é ou não inteligente acreditar. Se você eventualmente pensar diferente deles, você é burro, retardado, filho da puta, nazista, machista, frentista, taxista…. enfim.

Hoje é “Leifert Demonio Day”. E fui ler e entender os porques.

Porque pra ele esporte é entretenimento e não deve ser lugar de manifestações políticas que gerem lados e dividam a paixão envolvida no esporte.

Não vou entrar ainda se concordo. Mas vou dizer que fazer dessa opinião um estupro coletivo é de fato assustador. Ainda mais vindo de alguem estudado, preparado, profissional da área e que conhece culturas esportivas além da nossa de perto por ter morado fora.

É realmente um exercício muito fora discordar sem invalidar. É conceito basico de direito até. Quando você vai perder a causa porque não pode defende-la, ataque o outro lado. E é isso que a gente faz o dia todo, todo dia, especialmente em redes sociais.

Tô me excluindo não. Também faço.  É uma reação em cadeia. Você é agredido, devolve agredindo. E mesmo quando alguém nem vem com as pedras as suas já estão ali.

Pontos consideráveis:

1- De fato qualquer manifestação individual política NÃO deve ser feita sob os holofotes coletivos. Exemplo: O zagueiro do Inter não pode usar o Inter, a camisa do Inter, os holofotes do jogo do Inter pra se posicionar contra o PT por exemplo. Ele não tem alvará pra fardado e representando aquela entidade tomar uma posição.

Então ele não pode…? Pode. Na rede social dele. Na casa dele. Numa coletiva de imprensa. Mas jamais perfilado com o time dele. Ali ele representa algo maior do que ele, e portanto qualquer tentativa de inverter essa situação está errada.

Você deve ter pensado na polêmica da Tuiuti. Mas além de carnaval não ser esporte, embora entretenimento, naquele caso foi pra pista o que A ESCOLA quis. O carnavalesco não surpreendeu a escola com um carro alegorico. Logo, está assinado que a instituição pensa assim.

2- O fato de achar que algo que remeta a lazer não deve dividir multidões com mais do que a paixão não faz de ninguém um maluco. É apenas um válido ponto de vista.  Imagine se além da idiotice coletiva de se odiar por futebol ainda formos somar um lado a favor do Bolsonaro e outro do Jean Willys.  Fudeu.

3- Se eu fosse boxeador, eu faria manifestações sobre o que acredito toda luta. Porque? Porque ele não PRECISA do merchan. Ele ganha o dinheiro com o resultado. Não é bem assim no esporte coletivo. Então não são todas situações iguais.

Eu gostaria que meu time entrasse em campo protestando contra a corrupção. Acharia ridículo se ele protestasse contra salários atrasados, porque ele também faz. Mas acharia revoltante se meu time entrasse em campo e um jogador tivesse uma camisa diferente dos demais pra dizer que apoia o Lula.

“Mas é direito …!” Não, não é.

Precisa acabar essa coisa de achar que tudo é direito.  Você tem direito ao protesto, eu a ir e vir. Logo, é altamente discutível o seu direito de fechar a Av Paulista num dia útil.

“Mas a democracia….!”. Não fode. A democracia só existe quando te da o que você quer? E quando ela te diz não? Não vale?

Ah! Pra não fugir, eu concordo com o Tiago sobre o individual. Discordo sobre o coletivo desde que haja moral pra fazer. O Corinthians não pode protestar contra o PT tendo em seu presidente um deputado petista.  E também não é papel do Fagner fazer isso sozinho vestindo a camisa do cube.

Agora, se o Popó quisesse subir no ringue de mulher maravilha e protestar contra machismo …. problema 100% dele. É individual, embora ainda seja esporte.

Quanto a você, Tiago…  não é porque você revolucionou o esporte da maior emissora do país, estudou, conhece esporte e seus impactos sociais e tenha morado fora pra conhecer a cultura do esporte que citou na coluna que você pode opinar sobre isso.

Quem pode é o Pedrinho, 17 anos, estudante, cujo perfil no twitter diz “Vc sabe q eu sou foda na cama / @manchesterunited / Mc Vitinho / deus no comando”

Voltemos pro Gustavo Lima.

abs,
RicaPerrone

Não é machismo

No momento em que o mundo discute a fome, não se joga nem comida estragada fora. Quando se discute o casamento gay, não se brinca de chamar alguém de “viado”, e quando o machismo é o foco, sobra pontapés pra todos os lados, até para os que não merecem.

Discute-se machismo e preconceito com o futebol feminino. Outro dia a internet encheu de pessoas completamente sem noção da realidade falando em machismo pelo tênis masculino pagar mais que o feminino.

As vezes, e tem aumentado bem a quantidade que isso acontece, eu acho que as pessoas se fazem de burras para parecer engajadas e revoltadas. Porque não é tão difícil assim entender que há uma dose de machismo cultural no mundo, é óbvio, mas há também uma dose de lógica nas questões esportivas.

O que é esporte, meus caros?

É uma competição onde a parte física é determinante e levada ao seu limite.  É portanto uma atividade de força, de resistência, de superação.  Quando o homem e a mulher foram criados, seja por Alá, Jeová, Jesus, Big Bang ou a puta que pariu, eles foram feitos diferentes.

E qualquer cego, qualquer mesmo, nota que o homem é dotado de uma força física maior que a mulher. E portanto, se isso é indiscutível, me parece meio tosco não imaginar que no esporte, onde se leva o físico ao limite, o ponto alto será quase sempre o masculino.

Paga-se mais no tênis masculino porque é onde está o interesse dos patrocinadores. E se está lá é porque o público quer mais aquele produto. Simples como qualquer mercado. Vende-se mais pães franceses na padaria do que tubaina. Por isso eles colocam 3 mil pães todo dia na prateleira e 2 tubainas. É quase lógico, basta querer.

Olha os tempos de uma maratona. De um salto em distância, de uma natação, de 100 metros raros. É gritante e claro o motivo pelo qual se valoriza mais o masculino no esporte.

A seleção feminina não é alvo de machismo algum quando colocada em segundo plano. Ela é alvo do rumo natural das coisas simplesmente porque o futebol feminino é, sempre será, e corto meu braço se um dia não for, infinitamente menos importante que o masculino.

Temos pela seleção feminina o que temos pelo judô. Um sentimento de “poxa, elas nem tem tanto apoio e…”.  O que não quer dizer que adoramos, acompanhamos e que os patrocinadores devem colocar os milhões da CBF ali, porque não faz o menor sentido.

A comparação Marta/Neymar é vazia, cheia de rancor, oportunismo. A Marta é bola de ouro todo ano, um fenômeno, mas jamais será reconhecida como Neymar porque joga num nível muito abaixo do que o outro. É a mesma coisa que tentar comparar o maior judoca de todos os tempos com o Pelé.

É claro que o maior do maior esporte será mais caro, terá mais mídia e mais reconhecimento. É assim na vida, em tudo. Não é um pedido razoável, é um pedido estúpido, de quem acha que pode sentar com o planeta numa mesa e estabelecer novas regras pra humanidade em 15 minutos.

Marta é nossa craque. Mas não é dela que queremos o título mundial. É do Neymar.

Por isso não há machismo algum na diferença de tratamento, salário ou reconhecimento.  As coisas tem um valor estabelecido pela procura, não pelo que nosso ideal socialista acredita.

Ou você parou pra ver a Copa do Mundo feminina, comprou camisa, juntou amigos em casa e chorou na eliminação?

Você sabe que não. Culturalmente, por rendimento técnico, por questões físicas, tanto faz! Não é machismo, é a realidade.  Encobri-la com discursos pra dar like no facebook não faz de você um engajado, mas sim um alienado.

O futebol feminino é ruim de assistir. E eu lamento isso, não comemoro. Mas tal qual me recuso a ser machista de julgar o futebol feminino pelo corpo das jogadoras, me dou o direito de avalia-lo tecnicamente.  E é muito ruim.

Não porque somos um planeta de filhos da puta que elas não tem retorno. Mas porque é um produto, e tal qual este blog, o pão frances ou qualquer outro, só há procura se for bom.

“Mas só é bom se tiver investimento”.  Então vai lá assistir enquanto é ruim. Porque só pedir apoio e não transmitir jogo como faz a ESPN é mole.  E você, que pede o apoio? Tem quantas camisas? Viu quantos jogos? Comprou ingresso pra ver quem?

Não é machismo. É hipocrisia o problema.

abs,
RicaPerrone

A descoberta

Acho que há alguns anos tenho uma guerra contra “meus colegas” sobre o que penso de esporte e como ele deve ser tratado. Pelo fato de não ter como exemplificar, sempre tive dificuldade em explicar pro “não jornalista” qual era meu ideal. Agora conseguirei.

Quando você vê o comentarista chorando, o narrador perdendo a voz, o repórter se perdendo diante de um ídolo, você está vendo transmissão esportiva.

Todo o resto, inclusive o que se julga “jornalismo”,  não passa de uma grande mentira a partir do momento que emissoras e profissionais de imprensa estão envolvidos com as compras ou não de direitos de transmissão. Não há imparcialidade. E se não há, não há jornalismo.

E sendo esporte um lazer de quem assiste, o entretenimento deve estar acima do jornalismo sim. Pois é disso que se trata esporte: entretenimento.

Quando os profissionais do Sportv ou da Foxsports perdem o irritante terno e gravata pra chorar feito criança diante de um momento esportivo, estão mostrando que são sexólogos que ainda gozam. Quando com futebol, especialmente o nosso, se mostram frígidos.

Não há qualquer possibilidade de um dia eu aceitar que um dos vários colegas jornalistas que estavam na abertura da Copa, e não se levantou no gol do Neymar contra a Croácia, tenha seu emprego no outro dia.  Parece exagero, mas se eu sou editor de um site, de um canal, de qualquer coisa, ao ver um jornalista esportivo não reagir emocionalmente ao que está levando pro torcedor, ele está demitido.

Simplesmente não se leva paixão sendo uma pessoa frustrada, fria, realista e pragmática.  A função de transmitir paixão, seja ela fazendo um circo, sendo carnavalesco de uma escola ou meramente narrando jogos de futebol, cabe apenas a pessoas cujos olhos ainda brilham.

A maioria não brilha. E hoje, nessa olimpíada deliciosa que chuta longe a postura azedinha da maioria, vemos o quanto se tem paixão ali dentro encubada por valores editoriais toscos de 1930, formados por intelectuais dinossauros do esporte que hoje se arrastam no ar em troca de favor dos ex colegas.

Jornalismo se faz na guerra. Jornalismo se faz em dopping. Jornalismo se faz quando necessário no esporte. O dia a dia, a transmissão do evento e a paixão que fomentamos em você se faz como estamos fazendo nas olimpíadas. Sem “poréns”.

Um colega um dia chorou no ar por ver o fim da geração espanhola. Este mesmo colega é incapaz de chorar com seu time campeão. Porque nem assumir o time dele, ele consegue.  E uso esse exemplo não porque não gosto do cara, sequer o conheço, mas porque aquele momento me deu a exata dimensão do quanto somos ingratos ao esporte que é a razão das nossas vidas.

Mais paixão, menos razão. É disso que se trata o esporte e, porque não, a vida.

abs,
RicaPerrone