esportes

A idiotização do conteúdo


A enorme massa ativa em comentários, engajamento, likes, inscrição e redes sociais é jovem. Por motivos óbvios, as pessoas até 20 anos tem  uma necessidade absurda de se manifestar e a web é o lugar ideal pra isso. Essa é a idade onde você além de querer gritar o que você pensa, pensa tudo errado. E mesmo com 100% dos casos lhe indicando que você se arrependerá de quase tudo que pensa até os 20, ainda assim você quer registrar por escrito e eternizar tudo isso na web.

Pudera. Com menos de 20 você não tem maturidade pra perceber isso. Aliás, como medida de auto-proteção, eu “proibiria” pessoas com menos de 20 anos de dar opinião sobre algo que não seja de baixa relevância. Evitando assim constrangimentos documentados para a fase adulta onde fatalmente você morrerá de vergonha do que você achava nessa época.

Dentro de um cenário simples e bastante óbvio explica-se os números assustadores para todo conteúdo infantil/adolescente e idiotizado por linguagem seletiva.

Só que a busca por esses números está legitimando a idiotice.

Quando você tenta fazer um conteúdo para pessoas de 40 anos, formadas, de vida estabelecida e pouca vontade de ser o “misterbabaluoficial” na internet, você está atingindo um público infinitamente menor do que o adolescente/jovem. E portanto você não pode esperar ter engajamento sequer semelhante.

Mas querem.

E ao querer cometem o erro de igualar a idiotice em busca do número e perdem o público realmente importante, que é o cara conquistado pela credibilidade e não pela identificação da idade. Especialmente quando essa idade vai te fazer odiar aquilo em questão de poucos anos.

Você já consegue notar uma dose insuportável de programas e pessoas na tv tentando fazer youtube, lendo superficialmente números de views e não compreendendo que são públicos completamente diferentes e que apenas um deles anula o outro.

Exemplo: o Globo Reporter não vai fazer com que adolescentes não assistam o programa se mantiver uma linha solta porém informativa.  O conteúdo de um canal teen no youtube, se exibido na tv, exclui milhões de pessoas.

O quadro do Fantástico do que a Globo não mostra vai fazer meu pai trocar de canal. Porque pra um garoto de 16 é divertido, compreensível, pro meu pai é ridículo. Aliás, no caso, pra mim com 40 já é meio ridículo. Ainda mais em meio a um contexto de conteúdo altamente relevante e interessante. É um alien no programa.

Mas algum diretor disse “temos que ganhar o público do youtube”. E pronto, fez algo fora do youtube para pessoas que não são o público do youtube trocarem de canal. Porque o conteúdo do Fantástico não exclui a molecada. Apenas não é feito pra eles. O conteúdo feito pra eles exclui o restante.

Logo, cabe ao bom senso dessa tentativa desesperada de retomada de público.

Idiotizaram os conteúdos. Pessoas adultas tentando se conectar com jovens falando como se tivesse 14 anos na rede social em busca de números e mil patrocinadores nas mãos de agências que também não estão fazendo esforço em entender o cenário e passam 1 mes planejando, 1 executando e 2 tentando entender e explicar o resultado que não foi bem o esperado.

É mole vender chiclete pra adolescente. Mas e pra vender carro numa emissora que falava com o cara de 40 e agora tem em sua programação uma tentativa desesperada de falar com o de 15 que nem dirige? Na era do “nicho”, muita gente de comando em emissoras entendeu “lixo”.

Durante a Copa eu recebi DOZE convites de agencias para fazer “live” pré jogo do Brasil. Porque? Porque “live” era a onda do momento. E num raciocinio simples e lógico: “vamos fazer live!”.

Não, porra. Uma “live” 1 hora antes do jogo do Brasil onde todos estão nas ruas indo pra casa ou em frente a churrasqueira bebados vendo as 35 cameras ao vivo da Globo não faz O MENOR SENTIDO. Ainda assim, foi a oferta que mais recebi de campanha publicitária na Copa.

A internet é fácil de entender. E a primeira coisa que deve ser entendida é que o público do instagram não reage igual ao do youtube, que quer algo diferente do twitter, que por sua vez está navegando no facebook por outro motivo. Idem pro cara que tem uma tv na sua frente na sala. Ou pra quem está ouvindo rádio no carro.

Trata-los como “internauta” apenas é o que levou a tv a seu estado de falência olhando todos como “gado” e colocando no mesmo cercado. Foram décadas levando todos os destaques do rádio pra TV. A cada 10, um dava certo.

Há mais gente consumidora disponível para algo bom do que se adaptando a idiotização de ter que voltar aos 15 anos pra poder entender o que está sendo ofertado a ele.

Mas… aí dá trabalho. E trabalho a gente não gosta. O que a gente gosta no Brasil é de emprego. Não de trabalho.

RicaPerrone (pioneiro em jornalismo esportivo online, o cara que transformou coluna em blog, o primeiro jornalista a ter aplicativo na app store, um dos primeiros a fazer um podcast esportivo, dono do maior site de automobilismo do país com 21 anos, criador da primeira mídia jornalística independente de um clube só, o único que fez a carreira sem ser contratado por NENHUMA emissora e o criador de um mercado que hoje centenas de jornalistas usam e vivem detonando o cara que abriu essa porta.)

Essa aspas foi só pra você saber a diferença entre a Bettina e eu. #paz

Não há jornalismo esportivo

Pode parecer uma forma impactante de manchetar o post, mas não. Na real é o que penso, o que sempre defendi e o que me fez tomar os caminhos que tomei na vida.

O conceito base de jornalismo é a isenção. Você só pode fazer boa apuração e se comprometer com a verdade caso não tenha um lado na história. Infelizmente o jornalista é criado para ser polícia, juiz, médico, advogado, treinador, tudo! Menos ter o bom senso de se colocar em seu devido lugar.

Você não pode fazer “jornalismo” sobre um tema cujo seu chefe é parceiro comercial dele.  Simplesmente não há uma forma de se fazer isso. E por mais que eu acredite na boa fé dos colegas, eu não acredito que qualquer princípio ético fique acima do dinheiro em 2017.

Sou prático, quase cético com isso. Se você é um comunista, não trabalhe na Fox ou na ESPN. Ou todo dia ao ir trabalhar você levará um soco na cara da realidade provando que você não tem razão, ideal e nem coerência.

Se você acredita em jornalismo esportivo isento, procure alguém da Globo pedindo o fim do monopólio nas transmissões.  Não encontrará e não porque o jornalista é ruim. Mas porque é funcionário de uma emissora que COMPRA um evento de entretenimento.

Ninguém faz dossiê de filme porque cinema é entretenimento. E esporte, para os mais evoluídos mercados do mundo, idem. Logo, não faz qualquer sentido eu contratar pessoas para emitir opiniões ou expor situações que joguem CONTRA o produto que eu comprei.  É uma questão lógica, de mercado, de dinheiro.

O Esporte Interativo vai falar livremente do problema ontem no Paraná. Porque pode falar. É não apenas “livre” quando ao tema como interessado na quebra desse sistema. Logo, seus funcionários podem opinar. Isso não quer dizer, em momento algum, que eles estejam sendo manipulados. Apenas que estão autorizados.

Nenhum deles, óbvio, diria isso na Globo. Simplesmente porque todos tem família e conta pra pagar amanhã cedo. E essa lógica tão lógica é escondida em meio a discursos hipócritas sobre ideal, jornalismo, verdade, etc, etc, etc.

Não há.

E se houver, é burrice. Vendemos um sonho, ponto. Toda vez que tentarmos acordar as pessoas dele, perdemos dinheiro. E com isso o mercado vai sempre impor limitações irrefutáveis ao chamado “jornalismo”.

Somos apresentadores de um show. Um elo entre você e sua paixão. Mas não somos e nem  podemos ser isentos sendo funcionários de um parceiro comercial do que apuramos.

E, no melhor dos casos, somos dependentes do que cobrimos para termos sucesso. Logo, se cubro futebol no Rio, o defendo. E não é papel de jornalista “defender” nada.

O jornalismo esportivo não existe. E é por acreditar nisso que nunca fiz parte dele.

As vezes, como ontem no twitter, as pessoas acham que estou falando “mal de alguém”  por isso. Mas não. Eu apenas consigo identificar cenários fáceis de expor o que penso como o de ontem, onde claramente os funcionários do EI podiam tocar no assunto e os da Globo não.

Isso não faz com que eu concorde com um ou outro. Aliás, todo mundo sabe que concordo com o pessoal do EI, o fim do monopólio, os acordos individuais respeitados, etc. Mas o fato de terem lados estabelecidos por vinculo empregatício determina que não ha isenção. E se não há isenção, não há jornalismo.

Sabe porque os blogs, sites de torcedores e mídia especializadas formadas por não jornalistas estão tomando a audiencia da imprensa? Porque eles não são profissionais mas nem se colocam dessa forma. É, pelo menos, mais honesto.

Aceitemos. Vendemos um show. Nada mais. E vende-lo menosprezando-o é de uma burrice ímpar.

abs,
RicaPerrone