Flamengo

Adriano – Uma lição

Talvez você entenda como sucesso ganhar muito dinheiro. Talvez pra você seja ter uma família grande. Talvez viajar o mundo. Talvez você só queira dormir até as 11.

O sucesso é algo muito particular e nesse mundo de coachs e vendedores de cursos sobre como viver bem virou um enlatado.

Adriano me ensinou muito mais sobre a vida do que qualquer mega empresário que ostenta na web o que tem pra compensar o que não é. E veja, entre ser e ter há um abismo invisível que cada dia mais ignoramos por aparências.

Você pode pensar: “ele poderia ter feito muito mais”. Essa frase é comum sobre atletas e beira o absurdo se você trocar de lugar. O que você quer dele é resultado e entretenimento. O que ele quer da vida dele só ele sabe.

Mas vamos determinar valores aqui. Se você estaria disposto a viver uma vida infeliz por parecer rico, famoso e ter mais e mais dinheiro, ok.

Adriano teve tudo que você não teve, alcançou trabalhando, mas não se sentia feliz. Ele largou mão de boa parte de tudo que o mundo diz pra ele que o fará feliz pra ser, de fato, mais feliz.

Qual de vocês dois tem mais sobre a vida pra ensinar?

Pra mim é fácil. Pra muito coach de vida prospera vai ter “porém”. Porém, todavia, contudo, a unica coisa que faz sentido nessa equação é a vontade dele de acordar feliz. E se ele é feliz de chinelo na favela, que seja!

Pega seu terno, ostenta seu carro, posta sua mulher de fio dental. É problema seu. Mas não tente definir que esse enlatado de bosta é a fórmula do sucesso.

Sucesso é ser feliz. E não há fórmula para ser feliz.

Feliz, pra mim, é o cara que abre mão de tudo que todos querem pra ser o que de fato ele é e aos 40 anos ri igual uma criança. Adriano ri igual uma criança.

Ele deve ter mil problemas. Todos tem. Mas o caminho mais fácil em determinado momento estava ali, desenhado pra ele.

Dinheiro, mulheres, fama, poder… tudo! O enlatado do sucesso aos seus pés. Agora? Apenas seja feliz, ué! Tá tudo aí.

Talvez por ter o que curso nenhum vende esse cara abre mão de tudo mesmo que tenha sido um processo duro até se aceitar como um sujeito simples que não vê nisso a sua felicidade.

Eu conheci o Adriano em 2008. O encontrei nos últimos anos umas 3 ou 4 vezes pelo Rio de Janeiro. Ele é rigorosamente o mesmo cara. Com a mesma roupa, o mesmo tipo de carro, os mesmos amigos e fazendo as mesmas coisas.

Se eu faria? Não. O estilo de vida dele faz ele feliz, não a mim. Mas se eu fosse ouvir sobre a vida e me dessem um coach de terno sufocado pelas proprias teses e Didico de chinelo com o povo aos seus pés, adivinha quem eu escutaria?

Adriano parou de jogar há muito tempo. Hoje não foi a despedida dele. Foi só protocolo. Eu aposto meu braço que ele se divertiu mais na prévia do jogo com os amigos bebendo sem camisa do que no estádio com 200 jornalistas tentando entrevista-lo.

E não, eu não estou relativizando a óbvia busca por dinheiro e sucesso profissional. Estou apenas reverenciando alguém que tem uma escolha que 99% das pessoas nunca chegaram perto de ter: ser feliz ou parecer feliz.

Ele teve. E com o mundo dizendo o que ele deveria fazer, ele fez o que ele queria fazer.

Se ele se arrepende? Não faço idéia. Se ele é feliz? Idem. Mas, de novo, a aula não é essa. A aula é a prioridade.

Entre ser e ter, Adriano quis ser. Entre sorrir pra foto e gargalhar de verdade, ele tentou a segunda.

E você pode se perguntar aos 48 do segundo tempo. “Porque todo mundo ama esse cara? “

Essa é a resposta, não a pergunta.

Adriano seria menos amado se treinasse tanto quanto o Cristiano. Seria menos admirado se andasse com a melhor roupa em eventos internacionais lutando por alguma causa que ele desconhece mas o assessor mandou ele falar.

Adriano foi Didico, virou Imperador e, nos braços do povo na rua, literalmente, virou Didico de novo.

A gente gosta, analise e comenta sobre o Adriano Imperador. O Didico a gente adora.

Ser o que é, sem fingir, sem pensar, e ser querido é um curso que ninguém deu ainda.

Adriano é adorado porque erra. É o Belo de chuteiras. As pessoas gostam de quem erra, cai, levanta. Simplesmente porque elas são assim.

Didico só quer ser feliz, andar tranquilamente na favela onde nasceu. E você? Tá feliz ou só postando?

RicaPerrone

É Deus que aponta a estrela que tem que brilhar

Em tom de brincadeira mas com muita convição de ser de fato o que ele pensa, Xande de Pillares acabou eternizando uma frase que um ateu deveria renegar.

Mas não o farei.

Por diversos motivos mas especialmente por ele ter razão.

Chame de Deus o que você quiser, seja você da religião que for, ou ateu como eu, é um tanto quanto claro que a vida gosta mais de algumas pessoas do que de outras. E isso costuma ser chamado de “Deus” pela nossa civilização. Dito isso, confirmado na prática, sim, “é Deus que aponta a estrela que tem que brilhar”.

Gabriel é uma afronta aos coachs. Ele faz tudo do jeito que ele quer e o resultado é sempre o que ele esperava e não o que os palpiteiros previram. É o Belo de chuteiras.

Quanto mais ele erra e acerta, mais humano ele fica. E mesmo odiando o Gabigol, você adora odia-lo tanto quanto muita gente odeia ama-lo. Gabigol é um voo de mariposa. Sem plano de voo, mas voa.

O sujeito conseguiu fazer uma nação ama-lo, adora-lo e depois querer ve-lo fora do clube. E no mesmo ano ele conseguiu decidir um título, sair titular, anunciar sua partida já tendo batido no maior rival do novo clube.

É surreal como as coisas terminam de forma cinematográfica pra ele. Parece um desenho da Disney, ou, como diria o outro, a escolha divina pra brilhar.

Hoje é dia de Flamengo, campeão merecido da Copa do Brasil. Mas nem o mais fanático rubro-negro hoje dorme tão feliz, aliviado e com sentimento de missão cumprida quanto Gabriel.

Amanhã eu não sei. Nem ele, provavelmente. Mas a vida já lhe deu motivos suficientes pra saber que, aconteça o que for, a chance dele se dar bem é enorme. Deus? Talento? Fé? Escolhas? Personalidade?

Não sei dizer. Mas não saber reconhecer ou curtir tal história sendo escrita na nossa cara é um erro que não cometerei.

Que prazer ve-lo brilhar, errar, acertar, tentar, voltar, cair, levantar, Gabigol! Um mundo enlatado em redes socias precisa saber que nem tudo tem receita. Afinal, é Deus que aponta, né?

RicaPerrone

Flamengo, Flamengo!

Eu sinto saudades do Flamengo. Entendo a nova era, admiro, mas sinto falta daquele clube de onde ninguém sabia o que esperar.

Sinto falta do time que quando não podia, fazia. Manteve-se um pouco do que quando tudo tem, nem sempre consegue. Mas a primeira parte era a mais gostosa de acompanhar.

Aquele Flamengo que você podia dizer tudo a ele menos que ele era incapaz de algo. Aquele Flamengo que ignorava as adversidades para buscar um resultado improvável e que fazia do Maracanã um cartão postal do país.

Sabe porque o Flamengo está nessa final e com favoritismo? Porque ele ficou como desafiante. O DNA rubro-negro está na superação, na luta, no momento em que alguém diz pra ele que o outro é melhor.

A construção básica de um resultado parece afrontar o clube. Em 2019 passou aquele cometa e ainda que tenha sido “o normal” vencer com aquele time, foi especial pela forma que conquistou.

O Flamengo não segue roteiros. E toda vez que alguém ousa escreve-lo sem coloca-lo como protagonista ele costuma se colocar ali sozinho.

É claro que esse time é capaz, mas não se apresentava dessa forma. Claro que das mil soluções de treinadores caros e gringos a “solução” estaria em casa. Isso é Flamengo.

Os desfalques? Talvez sejam parte do show. A adversidade fomenta o Flamengo e não ter a obrigação de vencer parece deixa-lo mais confortável.

Por vocação o Flamengo é um clube que reverte o prognóstico, não necessariamente o que confirma a teoria. E hoje, semanas atrás, a teoria era de que o Fla estava mal, trocando treinador, perdendo peças e remendando um ano “perdido”.

Ele pode perder domingo? Mas é claro! Porque também é muito Flamengo perder quando está perto da taça. Até porque seu adversário domingo tem no seu DNA a vitória improvável também.

Mas que esse título, se vier, será uma conquista “retrô” a là Flamengo, é inegável.

Rica Perrone

O pacote Gabigol

É impossível negar me conhecendo um pouquinho que eu adoro o Gabigol. E eu adoro desde seus defeitos até suas virtudes, talvez por entender que o combo que um ser humano carrega seja fascinante mais do que a mentira bem contada de que há quem não cometa erros.

Gabigol é um ser humano que joga bola. E eu desconfio e não gosto de jogadores que são também humanos.

O pacote Gabigol é honesto. Você sabe o que está levando e desde que isso fique claro não tem ninguem sendo enganado.

Ele vai falar alguma coisa que não deveria, talvez vista a camisa do rival numa noite de resenha qualquer. Vai te decepcionar em alguns momentos, mas vai ser o Gabigol em todos eles.

E se isso lhe parece discutível a curto prazo, note que os maiores nomes da história são pessoas que suportaram os questionamentos sendo o que são e depois sairam ovacionadas por não terem se curvado.

Alguém aí acima de 35 não se lembra que o Silvio Santos já foi chacota? Que o Renato Gaucho era um “idiota” ou que o Fabio Jr era cafona? Então. Mantiveram, hoje os 3 são referencias de personalidade e vitórias.

Poderia citar 400 aqui. Mas o fato é que o Gabigol age muito parecido desde sempre. Marrento, decisivo, decepcionante, empolgante, protagonista, bom jogador e debochado. E se há um combo que movimente mais o futebol do que isso me apresentem pois desconheço.

O futebol é um produto que habita no nosso imaginário. Os fatos são poucos relevantes a partir do momento em que respiramos isso 7 dias para ter 90 minutos de fatos apenas. Gabigol é uma representação gigante do que move o futebol.

Você não sabe o que esperar. Mas espera. E se você espera, o futebol vende e vive. O cara que xingou o Gabigol há meses por causa da camisa rival é exatamente o mesmo cara que aos prantos erguia os braços ontem e gritava seu nome.

Confesse, você odeia amar o Gabigol. E acredite: ele é mais importante pro futebol do que pro Flamengo, embora decida títulos atrás de títulos.

Vivemos de Deyversons, Riascos, Gabis, Renatos, Romários, Violas e Tulios. De modo que beiro acrescentar que Messis são cerejas de um bolo feito pelos citados. Não pelo futebol, jamais, mas pelo imaginário que sustenta nossa paixão.

Você sabe o que o Messi vai fazer domingo e espera por isso. Você espera e não tem idéia do que os outros que citei farão. E isso vai de um lance de Messi a uma expulsão absurdamente boba. O que gera as horas na segunda feira no bar, a briga no grupo de whatsapp e as interminaveis questões do futebol.

Gabigol é futebol. Simplesmente porque domingo que vem ele pode fazer mais 3, ser expulso, sair na porrada, perder um penalti ou até mesmo nem pegar na bola. E é por isso que você vai passar a semana esperando pra saber.

Eu adoro o Gabigol. Eu me divirto com a capacidade do torcedor em fazer malabarismo pra destruir as proprias teorias quando a bola entra. E se há algo mais apaixonante e sem sentido do que você gritar o nome de quem você “odeia”, me apresente que eu troco de profissão.

Futebol é um esporte humano forjado por “cientistas” imbecis que tentam transforma-lo numa planilha. Gabigol rasga todas as planilhas, inclusive as que lhe favorecem.

Dito isso, ou tudo isso, eu prefiro ter um Gabigol na minha segunda-feira do que 12 gols do Halland.

Porque semana que vem o Halland fará mais 10. O Gabigol… a gente nem sabe como ele termina a segunda-feira dele.

RicaPerrone

O ‘marketing’ é ser grande

Era uma tarde qualquer de terça-feira há mais de 15 anos. Julio Casares era diretor de marketing do São Paulo e fomos almoçar no antigo Vento Haragano, na Rebouças. Eu tinha um site chamado Estação Tricolor e independente disso tenho uma história de vida dentro do SPFC que poucas vezes contei. Um dia conto.

Enfim, conheço todos os dirigentes do clube de infância. Cresci ali, fui sócio desde o meu nascimento, fui a mais de 1000 jogos só contando os que paguei pra ver sem ser como jornalista. O SPFC sempre foi o carro chefe da minha vida até ter que dividir meu coração com os demais clubes por profissão e gratidão.

Naquela tarde eu sugeri ao Julio que viesse candidato a presidente. Ele me disse que pensava mas que achava que ainda não era hora. Insisti, achava ele um cara com ótimo perfil pra tentar remediar o cenário de arrogância que o SPFC estava criando na sua imagem. E ele me prometeu que um dia viria.

Mas naquele dia, há 15 anos, eu pedi uma coisa a ele. Ele vai se lembrar disso se perguntado. Eu disse que o maior orgulho que eu tinha não eram nossas conquistas e sim quem nós eramos. E que estava absolutamente errado brigar pela taça de bolinhas, que era polêmica na ocasião.

Ele não discordou. Mas entendia os motivos politicos que faziam o Juvenal não devolve-la ao dono de fato, que é o Flamengo conforme assinado pelo próprio SPFC em 1987.

Disse a ele que não há marketing maior pra um clube do que agir como grande. Que nossa história remetia a seriedade e um clube correto e que, portanto, aquela situação me incomodava. Pra quem não sabe o SPFC criou a Copa União, assumiu junto do Flamengo e dos demais que não haveria confronto com o módulo amarelo e na figura do próprio Juvenal, diretor na época, assinou que reconhecia o título brasileiro conquistado por Zico e cia.

Como que 20 anos depois você apaga isso tudo por uma taça horrorosa que nasa significa? Eu não aceitava aquilo e já tinha dito pro Juvenal algumas vezes. Assim como Julio, ele nunca me disse que discordava. Só que politicamente era difícil. E eu entendo, mas ainda assim, eu brigaria por ser o clube diferente.

Hoje o SPFC é abraçado pelo Uruguai por sua postura diante do ocorrido com o jogador do Nacional. Hoje o São Paulo se faz ainda maior e ganha mais respeito internacional que teria conquistado com um ou dois títulos por aí. E é nisso que eu acredito.

Aprendi isso quando fui pra Orlando a primeira vez e notei que os parques da Universal eram consideravelmente melhores e mais novos que os da Disney, mas que ainda assim você comprava os 4 parques da Disney e se desse o da Universal e não o contrário. Porque?

Porque os valores da Disney te pegam. A Universal é só um parque. A Disney até tem um parque, mas e só um detalhe.

Hoje talvez o Julio se lembre da nossa conversa. Porque naquele dia eu disse que gostaria de ver algum presidente do SPFC botar a taça na mala, pegar o avião e descer na Gávea com ela, entregando em mãos ao presidente do Flamengo e reconhecer o “erro”.

Hoje talvez seja um dia que você, que sequer sabia desses bastidores, entenda o que eu queria dizer.

O maior não necessariamente vence mais. O maior as vezes é apenas diferente. Se você puder somar ambos você se torna soberano, mas sem acreditar nessa conversa em campo e nem se tornar um clube soberbo como erramos desde 2008 e pagamos por 15 anos.

Hoje o Uruguai nos reverencia. E sigo esperando o dia que o Brasil vai aplaudir a nobre atitude que pode não apenas corrigir a história como ser um passo para, quem sabe, os clubes brasileiros entenderem que a LIGA só vai existir se for com essa mentalidade.

Julio, parabéns pela condução do caso Izquierdo. Mas eu ainda tenho esperança de ver o SPFC corrigir o constrangimento que é mudar uma assinatura em troca de uma tacinha nada significa.

Rica Perrone

Aos clubes, nada!

O futebol no Brasil virou um grande brinquedo de video game. Um homem controla tudo e todos e o resultado aparece ou não. Se o clube vence, foi o treinador genial. Se perde, foi o treinador burro. Não há nada e nem ninguém no entorno dele.

Vojvoda é o herói do Fortaleza. Jesus do Flamengo, Abel do Palmeiras, e assim por diante. O torcedor segue bebado na idéia de que um treinador é o maior responsável por fazer as coisas darem certo num ciclo onde 11 jogam e outros 300 trabalham pra que eles joguem.

Agora vamos aos fatos, sem tirar o mérito óbvio dos comandantes.

O Fortaleza começa sua jornada em 2018. De lá pra cá são resultados consistentes, titulos, disputas com os gigantes, e o Vojvoda não era o treinador ainda. Ceni era o técnico, levou os méritos. Saiu, entrou outro, mais e mais resultados. Será que não tem aí, talvez, quem sabe, mérito do trabalho do clube como um todo?

O Palmeiras do Abel é incrível. Inegável. Mas o Palmeiras de 2015 até a chegada do Abel disputou títulos, conquistou alguns deles, foi forte e competitivo e os treinadores eram Cuca e Felipão, com passagens ruins de Roger e Mano. Será só o Abel?

O Flamengo ganha há 5 anos. E lá passaram mais de 10 treinadores, onde vários ganharam títulos históricos. A base rende, vende, o clube lucra, se paga, contrata e vence. Será que a base do mecanismo é mesmo a figura do treinador?

Cuca e Felipão não carregam os méritos dos títulos que conquistaram com times bem mais fracos que os recentes. Ceni já virou história com as boas campanhas do Vojvoda. E os outros vencedores do Flamengo pareciam interinos de Jesus e até hoje vivem essa sombra de terem parte do elenco que viveu o cometa que passa de 30 em 30 anos em 2019.

Quanto é do clube? A resposta está na troca do comando e manutenção das vitórias. Fases duram meses, no máximo alguns anos. Mas a consistência de Flamengo, Palmeiras e Fortaleza não estão apenas atreladas a um trabalho em campo. Tem que ser cego ou dessa turma moderna que acha que é um jogo de FIFA onde um homem comanda tudo.

É saber vender e comprar, revelar, gerenciar, dar condições de trabalho, bons estádios, gramados, marketing, gestão. Tudo isso funciona pra que o time vença com Abel, Felipão e Cuca. Nenhum dos 3 ganharia nada se a base do Palmeiras não funcionasse.

O Flamengo não teria 150 milhoes de dolares nos últimos 5 anos sem sua base. Impacta, né? Talvez isso seja a diferença entre ter ou não mais 4 craques no elenco.

O Fortaleza comprou praticamente o mesmo X que vendeu nos últimos anos. E paga em dia.

O Palmeiras criou uma potência de base que não existia, um estádio lucrativo e uma base que lhe rendeu 147 milhões de dólares nos últimos 5 anos.

E aí eu pergunto, meus caros, será que é justo dar o crédito total aos treinadores e também o demérito total a eles quando perde numa maquina tão gigante onde só olhamos pro cargo mais exposto?

Ou será um acaso os 3 times que citei serem os mais bem administrados dos últimos anos?

RicaPerrone

O dia depois de amanhã

O Flamengo está classificado. A derrota por apenas um gol e o grande jogo no Maracanã foram suficientes para garantir a vaga do melhor elenco das Américas nas quartas de final.

Mas ao final do jogo vejo um misto honesto e justo de fé dos derrotados e desconfiança do vencedor.

O Palmeiras foi pra uma guerra, o Flamengo para um jogo de pontos corridos. Talvez sabendo de sua qualidade absurda, talvez pelo placar da ida, tanto faz. O sentimento ao final do jogo é de uma vaga que não é injusta porque no Maracanã só o Flamengo jogou. Mas tem consequências.

O palmeirense que desconfiava do poder de reação do time dorme chateado, mas não puto. Cheio de fé em dias melhores e com a certeza que aquele time competitivo e brigador está lá. Dormindo talvez, mas está ali.

O flamenguista segue entendendo que pode mais. E pode. Mas os resultados vem, e fica aquela dúvida entre a crítica do algo mais ou da satisfação pelo número final.

A alternância entre jogos bons e ruins não me espanta, é Brasil, calendário, viagens, etc. Mas a capacidade de jogar uma partida perfeita numa semana e entrar numa guerra de cabeça baixa na outra é incomum.

A real é que o Flamengo não tem sangue nos olhos desde 2020. Ganha, perde, o time é um absurdo de bom. Mas aquele tesão de decidir, de quem entra pra guerra, é raro. E o flamenguista adora isso. Não o novo. Aquele de 2019 pra cá só aceita espetáculo. Mas a maioria entende ainda que o Flamengo é o time que briga. E hoje brigou pouco.

As finais da Copa do Brasil, tanto a que ganhou do Corinthians quanto a que perdeu do SPFC, foi a mesma coisa. O adversário brigou mais nos dois casos.

O novo Flamengo é rico, competitivo, competente, vencedor. Mas talvez essa leve insatisfação do torcedor se dê por não exatamente o que sobra no Palmeiras: uma chave que vira entre jogar uma partida e jogar uma decisão.

Amanhã o palmeirense acorda eliminado e mais confiante do que hoje. O flamenguista classificado e cheio de dúvidas.

Isso é futebol. Tudo que não sai na planilha, ou seja, 90% dele.

RicaPerrone

O oito

Nos deixou hoje Adílio. Um dos mais emblemáticos jogadores da história do Flamengo por ser, na maior parte do tempo, a base de apoio para que Zico pudesse brilhar.

Adílio era um “oito” que jogava como “dez” pro Zico poder ser o “nove” quando encontrava espaço. Adílio era um dos talentos ofuscados pelo brilhantismo do maior jogador que vi jogar na vida. Mas referência do futebol brasileiro, e portanto mundial à época, ao lado de Andrade.

Eles faziam na década de 80 o que hoje chamaríamos de meias. Na época, volantes. Ele seria um “segundo volante”, aquele que saia muito mais. E tudo isso é reforçado por dezenas de vídeos e jogos antigos que assisto, porque na época minha recordação é de um jogador do Flamengo no time de botão que tinha uma manchinha.

Eu marquei aquele jogador como sendo o Adílio.

O conheci num show no Rio de Janeiro há pouco tempo. Pelo menos tive alguns segundos pra dizer “você foi genial”.

E o genial naquela época não era da seleção, porque tinhamos muitos. Mas não estamos falando do discutível. Hoje Adílio seria titular de qualquer seleção do mundo. Sua função de preencher tanto a marcação como a armação do time ha 40 anos se tornou os meias de hoje em dia.

Não há mais Zicos. Sobram Adílios. E sobram Adílios porque não há mais Zicos.

Mas não saberíamos viver hoje sem Adílios. Exatamente porque não há mais Zicos. O que faz sua função no inacreditável Flamengo campeão do mundo ainda mais importante.

Talvez quando ler isso você será impactado pela idéia de que ele era um coadjuvante do Galo. Mas era como Pita, como Palhinha, como tantos outros craques. Fundamental, mas que parte da sua genialidade era entender que havia um ainda melhor ao seu lado.

Quantas vezes o Flamengo partiu pro ataque pelo meio com Adílio rolando pro Zico continuar o lance ou ele mesmo dando o passe mágico final. E quantas vezes vamos ver isso novamente? Ao que tudo indica, nenhuma.

Vá em paz, craque. Mais um dos nossos heróis que na falta de vagas na Liga da Justiça acabaram tendo menos do que mereciam. Não por má vontade, pelo contrário, mas por humildade de ser “o melhor oito” que o “dez” poderia ter tido.

RicaPerrone

Saldo de compra e venda dos últimos 10 anos

Nos últimos 10 anos os grandes clubes do Brasil alternaram momentos. Alguns em profunda crise, outros nadando em ouro, mas todos ainda tendo nas receitas de jovens uma grande parte do seu faturamento.

E portanto, considerando as temporadas 14/15 até a 23/24, fizemos um balanço de acordo com os dados do Transfermark sobre o fluxo de compra e venda de jogadores de cada um dos 12 grandes.

Claro que existem salários, luvas, “compras” sem repasse ao ex-clube por fim de contrato. Mas aqui consta apenas o que é valor final e oficial.

Quanto seu clube comprou e vendeu nos últimos 10 anos?

Algumas curiosidades sobre:

  • O Fluxo de compra e venda do Grêmio, somado a resultados, nos últimos 10 anos é muito bom.
  • O Fluminense segue vendendo suas jóias e comprando pouco tendo recentemente conquistado títulos em 2023.
  • O Flamengo é uma máquina de ganhar e gastar.
  • O Botafogo tem uma divisão de base terrível. Não gera quase nada ao clube.
  • O investimento do Vasco foi quase todo feito em 22/23.
  • A temporada de maior gasto foi a do Flamengo de 19/20, com 250 milhões em contratações.
  • A maior janela de vendas também foi do Flamengo em 18/19 com 483 milhões de reais.
  • Nenhum dos 12 grandes comprou mais do que vendeu no saldo dos últimos 10 anos.

Rica Perrone