Amigo, amigo!

São 23h19 de terça-feira. Acabo de saber que o meu amigo ArthurMuhlenberg nos deixou.

Eu poderia fazer qualquer coisa menos deixar de escrever sobre ele. Afinal, ele me dizia sempre: “escreve mais, escreve todo dia. Se você for peidar, faz por escrito. Você escreve pra caralho irmão”.

Em 2009 uma amizade virtual virou podcast. O podcast virou sucesso. O sucesso rendeu histórias. A vida nos levou a morar no mesmo prédio em São Paulo por um período.

Aquele carioca “filho da puta” que tirava sarro de tudo o tempo todo nunca me levou a sério. Eu podia contar pra ele que estava na UTI e ele me perguntaria se tinha cama pro meu peso.

Filho da puta. Adorável filho da puta.

De 2014 pra cá Arthur trabalhou muito com campanha política. Ele, esquerdista, eu, de direita. Não tinha uma ligação nossa que não começasse com a dupla saudação:

“Fala seu petista arrombado!”.
“Fala seu coxinha filho da puta!”.

E riamos. E rimos disso até em 2025, quando eu e ele fizemos um último podcast do Urublog após 15 anos só pra matar saudades.

Eu sabia que seria o último, ele também.

Mas não conseguia falar sobre isso. Eu só repetia que ele ia se recuperar e ele dizia que “tá tudo certo, vamo em frente”, sabendo que não tinha muitas chances.

Ele era inteligente demais pra ser enganado por frases feitas. Aquele podcast sem audiência, de surpresa e sem roteiro foi só pra se despedir de mim. Eu sei disso.

E talvez hoje aquele episódio bobo sem o menor alarde tenha se tornado um dos mais importantes que já fiz na vida. Eu me despedi de um amigo praticamente ao vivo.

Arthur escrevia melhor do que eu. Só não tinha tempo e se limitava ao tema “Flamengo”.

Eu nunca disse isso pra ele, claro. Não sou maluco de dar um argumento desses pra ele passar anos fazendo bullyng comigo.

Nos falamos quando perdemos uma amiga em comum há pouco tempo. E depois no dia da conquista do tetra do Flamengo onde eu escrevi e dediquei a ele o texto.

Eu sabia. Então como esse ele não vai ler, deixei aquele pra ele saber que não havia me esquecido.

A morte é uma coisa estranha. Ela tira os defeitos da pessoa num passe de mágica e te joga na cara em doses cavalares tudo que você perdeu.

Eu não perdi alguém do meu dia a dia. Eu perdi o que chamo de “amigo” da forma mais honesta e antiga que conheço.

Definitivamente, os valores que carrego nesse sentido podem não fazer parte do mundo de hoje e eu quero que o mundo se foda. Porque isso não é uma negociação.

Amigo é aquele cara que pode ficar 2 anos sem te ver e quando vê chora e conta os problemas.

Aquele que te liga pra te parabenizar por algo que você nem sabia que ele estava acompanhando.

Amigos estão sempre de olho no que os amigos precisam ou estão fazendo.

Amigo não desfaz amizade por política, discussão, tempo ou distância! Porra!

Arthur me apresentou um Rio que me apaixonei. Ele é fundamental na minha decisão de ir morar lá. E portanto ele é fundamental nos melhores anos da minha vida.

Vou fingir que perdoei o dia que ele me ligou dizendo estar frio no Rio e me fez passar o dia no Maracanã com 40 graus de manga comprida enquanto ele ria e dizia que paulista só fazia merda.

Agora eu vou dormir com a sensação estranha de tristeza de não poder ligar mais pra quem eu raramente ligava.

Em tese, não muda a vida. Mas a vida, em tese, é basicamente um tempo que passamos com as pessoas que escolhemos confiar.

Confiar do tipo “escolhe um ap pra mim em Sampa”, e alugar sem ver. Como já fizemos.

Ou colocar em cheque um projeto voltado pra torcida do SPFC porque eu tava afim de fazer podcast do Flamengo com você.

Ou fumar e beber além da conta numa mesa de um ap sem mobília até de madrugada filosofando sobre como seria o Zico se fosse gaúcho.

Amigo, eu não sei terminar esse texto. Você saberia.

Obrigado. Vai em paz. Eu te amo e saudações rubro-negras, sempre.

Rica Perrone

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