Você não vai falar do Oscar, Rica?

É, eu sei. Espera-se de todo mundo que trabalhe com esportes que haja uma homenagem pronta, mesmo que seja um clichê só pra registro.

É justo. Ele é uma estrela do céu que me empresta alguma luz.

Eu conheci o Oscar. Há alguns anos alguém me chamou no estádio do Orlando Magic ao final do jogo e me perguntou se eu queria conhecê-lo. Mas é claro, pô!

Só que isso veio segundos depois de eu ter explicado pra pessoa que eu não gostava de basquete. Então talvez a pergunta tenha sido tipo “quer conhecer mesmo assim?”.

Cheguei perto, ele me viu, cumprimentou, parecia me conhecer. Deve ter visto algum corte meu por aí. Foi super simpático, ele estava feliz.

Em volta dele tinha um monte de gringo olhando pra ele como eu olho pro Ronaldo.

E que ironia, porque quem deveria estar babando era eu, brasileiro, por ter esse cara no meu país. Mas, leigo, eu não sabia muito bem do tamanho dele. Ali comecei a entender que era maior do que eu achava.

E um dia vi numa entrevista ele contando que deixou de jogar na NBA pra jogar na seleção brasileira.

Pausei, voltei, vi de novo pra ver se eu tinha entendido errado.

Calma aí. Aquele cara que sotaque caipira que a gente adora deixou de realizar o sonho de todos pra realizar o dele? É isso mesmo?

Ah Oscar, eu não te conheço tão bem mas eu passei a te respeitar num nível que me constrangeu não ter beijado seus pés naquela noite em Orlando.

E não, não tô falando isso por patriotismo. Mas por admiração a quem se nega a ser o que querem que ele seja. Isso é mais raro do que vocês imaginam.

Em 1994 o Senna morreu 2 meses antes da Copa do Mundo. Morreu sendo o símbolo maior de orgulho de ser brasileiro.

Vários jogadores do tetra me contaram já que a morte do Ayrton foi um combustível a mais pra eles, que se sentiam obrigados a entregar pro Brasil pelo menos a mesma dedicação que Senna.

Porquê? Porque eles estavam vendo o reconhecimento que em vida o Brasil não dá pra ninguém.

E quem não quer fazer algo pelo seu país? Mesmo que tenha ficado escondido lá no fundo, qual homem não foi um menino sonhado em estar nos braços do seu povo?

Oscar foi falado ontem na mídia aqui dos EUA como se fosse um dos grandes da NBA. Era constrangedoramente de dar orgulho descobrir de fora pra dentro do tamanho do nosso craque.

É sempre assim. O mundo nos dá mais valor do que nós mesmos somos capazes.

A perda de Oscar pode ser midiaticamente muito menor do que foi a de Senna até pelo fator trágico e imprevisível de ter sido ao vivo durante a corrida.

Mas se a nossa seleção pudesse pensar 10 minutinhos cada um no que esse cara fez pra vestir essa camisa antes de embarcar, aumentaria nossas chances.

Desculpa por não gostar de basquete, Oscar. Mas fique orgulhoso porque ainda sem gostar do que você fazia eu sempre gostei muito de você.

Afinal, de alguma forma, você trocou a fama e dinheiro por nos representar.

Obrigado! E desculpa por não saber de tudo que você fez. Tive que ouvir dos americanos ontem na tv: “O único gênio do basquete que nunca jogou na NBA”.

E melhor: por escolha. Porque a seleção não era uma opção e a NBA sim. Meu respeito.

Rica Perrone