Carlo,
Espero que esteja bem. Não melhor do que no dia 19 de julho, mas bem.
Faltam uma semana. O Brasil e parte do mundo está esperando você dizer um nome na segunda-feira. Você com certeza já sabe, mas como fez questão de passar um ano isolado usando método incomum de roteirizar a novela ao invés de encerra-la cedo, o último capítulo é seu.
Contra todos os nossos campeões mundiais, contra todos os atuais craques do mundo, contra a enorme maioria dos treinadores brasileiros e contra a maioria da população brasileira, você pode dizer “não”.
Contra o entendimento do contexto, contra os fatos, contra o talento e contra as nossas raizes, você pode dizer “não”.
Contra a sua experiência em 1994, quando auxiliar do treinador em questão você viu Baggio, machucado, levar a sua seleção até a final.
Contra a história que sempre nos entregou a taça através do talento raro e jamais pelo coletivo intenso e veloz.
Por tudo isso, com tudo isso, você ainda pode dizer “não”.
E nada mais me incomoda no mundo do que olhar pra um bilionário aos 34 anos – idade em que nenhum grande jogador nosso conseguiu disputar uma Copa – com 200 cirurgias, ter que aguentar tudo que está aguentando pra tentar estar onde reclamamos que quem está não dá o devido valor.
Eu tenho pavor de jogador que tem medo do jogo grande, Carlo. E tenho paixão por quem o procura.
Sabe aquela turma que adora números? Manda eles olharem quem é o melhor jogador do Brasileirão segundo o computador do Sofascore.
O Santos com Neymar em campo seria quinto em 2025 e 2026. Sem ele seria rebaixado em ambos. É número. Não to achando nada.
Você está me fazendo voltar a ter 8 anos e rezar pelo joelho do Zico em 86. Poucas vezes na vida eu torci tanto pra alguém como torço pelo Neymar conseguir hoje.
Porque? Porque desde os 18 anos, quando o entrevistei pela primeira vez, ele me disse que o sonho dele era esse e não ser “melhor do mundo”.
Entendeu, Carlo? Ele sonha que nós sejamos os melhores do mundo mais do que ele ser sozinho o melhor do mundo.
Carlo, eu torço pra Ferrari. Eu sofro com a bandeira da Itália a cada 15 dias vendo televisão.
Minha família veio da Itália. Eu amo a Itália. Roberto Baggio é um dos meus 10 maiores ídolos no futebol.
Estou até torcendo pro Kimi Antonelli. E gosto de você, Carlo. Nem sei porque, mas eu gosto.
Tu não vai me fuder na segunda-feira, né?
Me promete que não virá de um italiano o “não” que fará a maior parte do país olhar pra Copa sem o mesmo brilho.
Porque se tu perder, vamos te odiar por não te-lo levado. E se tu ganhar, vamos olhar tristes pra foto sem ele.
Não inventa, Carlo. É Neymar e mais 25.
Rica Perrone
