golpe

Demagogia em alta

Antes de mais nada, um elogio. O documentário é muito bem feito. Não sei quem é a equipe, diretor, etc, mas quem fez está de parabéns. Nem mesmo a voz de choro da narradora e protagonista consegue desequilibrar a boa produção.

Dito isso, vamos aos comentários.

É tendencioso? Não. É uma propaganda eleitoral. É bem mais do que tendencioso. É tão escandalosamente partidario que tem imagens exclusivas dos bastidores de Lula e Dilma.  Ou seja, de independente o documentário não tem nada.

A menina que narra e leva a história usa o tempo todo do argumento popular de alguém pobre na tela dizendo “eu não tinha nada graças a esse homem eu hoje posso….”. Em momento algum o documentário comete a burrice de tentar isentar o Lula de corrupção.

No máximo tenta dizer que “não tem provas”, insinuando já de forma previsível que todas as esferas da justiça, a polícia federal, as 2 mil páginas de processo, os delatores todos e os demais presos todos indicados ou comandados pelo Lula não sirvam pra nada. Que ele é um santo entre mil ladrões controlados por ele mesmo.

Mas enfim. A gente sabe que isso é desespero.

A parte da Dilma é boa. Ela mostra enorme despreparo pro cargo, mostra como caiu, assume não querer estar ali e cita “golpe”. Bom essa parte porque é incoerente em dois aspectos.

Um porque o PT era a favor do mesmo processo que ela sofreu contra o Collor. Dois porque as regras que prenderam o Lula e a gangue do PT toda foram regras aprovadas pela Dilma em seu governo. Quase um tiro no pé.

A citação discreta da narradora ao fato do avô dela ser um dos donos de uma das empreiteiras envolvidas na Lava Jato é pra evitar que nós joguemos isso na cara. Mas dá pra fazer os dois. Atrelar a maravilhosa família revolucionária socialista sustentada pelo capitalismo do avô até chegar a uma neta jornalista de esquerda como manda o mercado.

“Um Triplex?!?!”. Sim, porque memória lhe falta, mas Collor foi por causa de uma FIAT Elba.  A prova material não necessariamente é o tamanho do crime. É apenas um ponto necessário para se poder fazer justiça.

Enfim. Por incrível que pareça, eu recomendo. O documentário é bom. Mostra um pouco da cabeça deles, e esclarece o quanto ela é de torcedor de clube.  Esquerda no Brasil é guerrilha. Eles acham que estão numa luta, não numa discussão.

Assistam. É válido. Até pra entender o que eles “pensam”. Mas não tire da sua mente em momento algum que é um documentário de uma jornalista de esquerda, apaixonada pelo Lula, que tem na Dilma um ícone familiar, pais guerrilheiros da esquerda, um avo empreiteiro de umas das empreiteiras do esquemão, e imagens exclusivas que só estão ali porque o documentário está alinhado com quem as liberou.

Previsível. Mas muito bem feito, cheio de apelo emocional pra tentar te comover e ignorar que o herói sem capa do filme é na verdade o maior dos bandidos.

RicaPerrone

Bom final de semana!

Caro amigo brasileiro honesto,

Hoje é sexta-feira e eu sei como você se sente porque honesto também sou.  Fui criado também por pessoas que me impediram de roubar a caneta do coleguinha ou voltar com o troco errado da padaria. Enfim, como a enorme maioria, sou o mínimo aceitável de um ser humano.

Hoje faz cerca de 12 graus em São Paulo, onde estou passando a noite. Na entrada do mercado uma família na calçada me pediu pra comprar… um cobertor.  Eu comprei, é claro. Posso, graças a muito trabalho.  E junto dele comprei uns bolinhos pras crianças numa sacola. Quando eu dei o cobertor pra menina, ela viu a sacola cheia de bolinhos junto.

“Tio, você esqueceu esse saquinho…”.

Ela me devolveu!!!! Era pra ela. Mas eu não disse, ela não pediu, dei porque quis. Mas ela achou que era meu e com fome, na rua, passando frio, me DEVOLVEU!!!

Disse que era dela. Ela sorriu, “fica com Deus, Tio”.

Deus?

Caralho. Ela está na rua, com a família toda no exato momento em que a TV noticia a porra da absolvição do nosso honestíssimo senhor presidente.

Deus, pra ela, significa a justiça divina. A justiça que ela não vai ver mas precisa acreditar que haverá. Pois sem ela não dá pra acordar todo dia.

Essa família que agora passa frio na esquina da Oscar Freire com a Min Rocha Azevedo não tem o que comemorar. Mas quando eu fui embora, naquela situação horrível de se culpar por ter o que comer e não poder resolver o problema deles, eu olhei pra trás e ela abraçava o pai.

Não acabou. Por mais perdido que esteja, o jogo não acabou.

Eu sei que ele trocaria tudo por ter um jantar digno toda noite e uma casa pra morar. Mas eu sou capaz de apostar que esse cara não roubaria por medo de perder o olhar daquela menina de respeito e admiração.

Então, meus caros amigos brasileiros honestos que hoje dormem com mais um soco na cara, aproveite o final de semana para fazer a única coisa que esses filhos da puta não podem fazer e nós podemos:

Olhe nos olhos da sua família.  Abrace seu pai e agradeça a criação que ele te deu. Brinde com seus avós se ainda os tiver, e honre a comida comprada honestamente que estará na sua mesa.

Mas em homenagem a eles todos, o protesto mais humilhante que podemos fazer é esse. Passar o final de semana com nossas famílias e sem ter que baixar a cabeça pra desviar de um olhar.

Nós somos maioria.  Bom final de semana pra vocês!  😉

abs,
RicaPerrone