homenagens

Marielle não tem culpa

Como a gigantesca maioria das pessoas de todo país, eu nunca tinha ouvido falar em Marielle. Quando ela morreu achei que foi um crime contra um ser humano. Não me importei com o fato dela ser de esquerda, negra, gay, mulher, usar rosa ou azul, ter cabelo liso ou ondulado.

Com os dias fui entendendo que ali nascia uma lenda socialista para uso indevido de seus pares políticos.  No enterro houve hino do socialismo. Em volta bandeiras vermelhas. E nas passeatas “pela paz” havia ideologia e campanha política. Isso gerou uma puta rejeição a uma parte das pessoas e também compreendo.

No carnaval Marielle foi citada em alguns lugares e será eternamente porque é uma representante recente da esquerda e de outras diversas pautas que não divergem entre lados, embora a esquerda tenha se apropriado de algumas brigas.

A Mangueira não fez enredo sobre Marielle. A citou. São coisas diferentes.

A Vila cita Martinho há 200 anos, ele visita o Lula na cadeia e é um petista declarado há décadas. A Beth Carvalho também é uma petista assumida, sempre citada na Mangueira. E ninguém deixou de cantar ou curtir a escola por isso.

O enredo da Mangueira cabia Marielle. A rejeição a Mangueira por cita-la é um erro, embora eu compreenda o sentimento. Mas de perto, conhecendo como conheço o carnaval, posso lhes dizer que se trata de um ambiente de gays, negros e pobres em sua maioria. E portanto eles tendem a ir pro lado que se apropriou a luta deles: a esquerda.

Eu não posso odiar Jesus Cristo por ter um bando de imbecil enchendo o saco com o nome dele.   Você não é responsável, ainda mais morto, pelo circo que fazem a sua volta.

Sim, Marielle se tornou a bandeira da hipocrisia nacional. Vide uma escola de samba que até outro dia era comandada por um criminosos ligado a traficantes e milicianos homenagear a vítima de quem fez guerra contra isso.

Mas o importante é reafirmar:  a Marielle não está fazendo nada disso. Ela está morta. Quem está fazendo show sobre caixão são outras pessoas. Quem usa droga e vai na passeata contra traficante é outra pessoa.  Os políticos que fazem discurso sobre o partido usando o corpo dela, são as piores pessoas.

A Mangueira fez o que sempre faz. Exaltou seu lado. Hipócrita? Claro! Quem não é nesse país quando abre a boca? A Tuiuti adotou um lado político pra sair do papel de figurante. É um procedimento simples e midiático em ter 30% da população engajada do que 100% dela te ignorando.

Se radicalizar pra um dos lados é mais notável do que o bom senso de centro que vê problemas e qualidades em ambos. E na dificuldade de se destacar com bom senso, se faz o show para um dos lados.

Marielle tinha boas causas. Não sei se ela “faria” o que estão fazendo com ela. Mas não podemos odiar a pedra porque a atiraram na gente. Quem atira é o problema. A pedra é só a pedra.

As causas citadas no enredo foram “roubadas” por um lado político. A estratégia dessa gente é exatamente se apropriar de lutas e classes para “obrigar” certas pessoas a estarem junto deles. É como nascer num lugar. Você é obrigatoriamente “paulista”, “carioca”.  Eles fazem isso para que você sendo mulher, negro, gay ou nordestino seja imediatamente de esquerda.  Alguns escapam, outros não.

E por isso Marielle é a bandeira deles.

Mas insisto: ela não tem culpa.

Fernando Holiday, negro, gay, de direita, sofreu um atentado a bala no seu gabinete com possibilidade enorme de ter partido de um grupo político, já que do lado de fora havia manifestação destes.

Você viu algo sobre?

Nem eu. Mas é Brasil, irmão.

Aqui o esquema é ruim só quando a gente tá fora dele. E a bala só doi se matar. Desde que mate um dos meus, é claro…

RicaPerrone

Então o que é?

An exile Tibetan boy wears a jersey with the name of Brazilian soccer star Neymar as he plays with friends at the Tibetan Children’s Village School in Dharmsala, India, Thursday, Aug. 28, 2014. (AP Images/Ashwini Bhatia)

Toda vez que falamos sobre algo grandioso no futebol logo dizemos não ser “só um esporte”.  E então as vezes alguma alma muito cafajeste nos pergunta: então o que é? E nós paramos de falar.

É maior. O que exatamente, não sabemos explicar.  Religião? Muito radical e forte, estaríamos atrelando a algo que não é exatamente o que sentimos por ele.   Talvez “paixão”, mas ela não permite que a gente tenha piedade e até torcida pelo rival em determinados momentos.

Então, “compaixão”. Menos ainda, porque queremos esmagar o adversário todo domingo.

Somos malucos, “drogados” em doses cavalares por uma coisa sem igual que nos dá vida, orgulho, motivos, amigos, tristeza, alegrias, lágrimas e nos torna pessoas melhores.

Talvez você daí de longe não consiga entender, e a gente nem se importa. Honestamente, todo seu discurso intelectual sobre o “pão e circo” mostra porque somos nós os cultos.  Cultura é o conjunto de crenças, costumes e atitudes de um determinado povo.  Logo, queira você ou não, o futebol é a maior manifestação cultural do país.  Somos cultos, você não.

O planeta tentou de mil maneiras unir povos, encerrar guerras e fazer do mundo algo voltado para uma só direção. Ninguém fez. Só piora, e o planeta é cada vez mais hostil e pouco amável.  Nós, o futebol, fizemos EUA e Iraque trocarem flores. Nós, o futebol, fazemos países se encontrarem em paz para celebrar um jogo.

Nós, o futebol, fazemos o mundo sentir sem ter que explicar.  Ninguém precisou ir na Holanda contar pra eles o que houve. Bastou dizer que era um time indo a uma final, pronto. Todos entenderam.

Falamos mais de 6 mil idiomas no mundo. O único que todos falam se chama “futebol”.

Os gestos tem significados diferentes em todos os lugares do planeta. Jogue uma bola no chão e terá um conjunto de gestos capaz de fazer qualquer deficiente auditivo passar horas 100% integrado a quem está a sua volta.  Não precisamos falar, mas falamos. Ou melhor, gritamos.

Por um time, contra um juiz, por nossa gente e, pasmem, como hoje, pela gente ao lado.

Porque somos pessoas melhores? Não. Mas porque somos moldados pelo estádio de futebol e ali se molda um caráter como nenhum outro lugar.

Aprende-se até onde você pode ir, o que é fé, o que é perder, o quanto se é inevitável uma derrota, a perda de controle, a força da união.  Aprendemos a nos calar quando derrotados, a vibrar quando vencedores. Aprendemos a abraçar quem a gente não conhece, a juntar gente e transformar-mos num só.  Aprendemos que quando entramos naquele lugar não tem mais classe social, carro importado ou qualquer conta bancária. Queremos todos rigorosamente a mesma coisa.

O futebol integra, ensina, aproxima, nos faz mais felizes. E se aturamos vocês, infiéis, que duvidam disso e/ou consideram uma “perda de tempo”, é porque temos no que nos apegar.  É o sonho de um menino, é o elo entre pais e filhos.  É a razão de ser de tanta gente que não tem mais nada pra celebrar. É o orgulho dos fracassados, o fracasso dos vencedores.

Domingo tem jogo. E enquanto tiver, nós seremos mais humanos, mais reais, apaixonados, apaixonantes e entenderemos melhora vida.

Ah! O que é?

É futebol.

A única coisa que funcionou no mundo até hoje.

abs,
RicaPerrone