jardine

Não tem treinador no Brasil

A frase é velha, repetitiva e pouco criativa. Mas ela vai se tornando verdade na medida em que muita gente repete. Mas nem todo treinador está aqui, como os bons gringos que aqui estão também não são falados em sua terra.

Lembra do Micalle? Foi pra semifinal da Olimpíada com o sub 23 do Egito. Mas quero falar de outro que só ontem fiquei sabendo do feito.

Lembra do Jardine? 45 anos, gaúcho, treinador de base até 2019 quando assumiu o São Paulo rapidamente. Em 2020 ele ganhou a Olimpíada pra nós. E depois “sumiu”. Pois ele está em alta, tão em alta que desconfio que nem vá voltar.

Foi parar no gigante América do México, onde a pressão é enorme. Pouco conhecido, no melhor estilo Abel, ele tinha que mostrar pra se apresentar. E passados 18 meses no clube ele enfileirou títulos e gera debate na mídia local se ele é um dos melhores treinadores que já passaram por lá.

Está na final de novo. É hoje, inclusive, contra o Monterrey. Ele é o maior vencedor do América, tendo feito “só isso” nesse período.

🏆🇲🇽 Apertura 23
🏆🇲🇽 Clausura 24
🏆🇲🇽 Supercopa MX 24
🏆🇲🇽 Campeão dos Campeões MX 23/24
🏆🇲🇽🇺🇸 Copa dos Campeões 24 (MLS x MX)
🎖️🇲🇽 Prêmio de Melhor Técnico da Liga MX 23/24

Contra o Monterrey pode garantir mais um caneco e se tornar uma lenda local.

E isso é so pra registrar o que a gente não tem por habito no Brasil: o sucesso dos nossos.

Boa sorte, Jardine!

Rica Perrone

Devolva-me

Era dezembro de 2008 quando o São Paulo conseguiu um improvável tricampeonato brasileiro contra o Goiás em Brasília.  Naquele dia o clube engoliu todos os seus sapos afim de comemorar e tripudiar nos demais. A sujeira foi pra baixo do tapete, nunca mais saiu, e desde então o “soberano” foi a “soberbo”, até virar este barco a deriva que hoje briga pra não afundar.

Eu, você, o Juvenal, o Leco, tanto faz. Não houve saopaulino disposto a rejeitar a idéia estúpida de que no futebol brasileiro quem está por cima lá ficará.  Tem que ser mais do que bairrista, talvez ignorante mesmo.  A história nos diz que entre os grandes há sempre uma alternância de poder. E que acreditar que ela acabou justo na sua vez é empáfia, soberba e falta de noção.

Algo que nem o mais tricolor dos tricolores negaria é a falta de noção do clube/torcida naquele final de década.  Após mundial, Libertadores e 3 brasileiros, lá dentro ninguém acreditava que era possível regredir.

Esquecemos rapidamente das vacas magras assim que ganhamos o primeiro bom prato de filé. Dos humilhantes 7×2 pra Lusa e pro Vasco, dos anos e anos sem títulos, do Morumbi em reforma e o time em campo que beirava um catadão de série B. Mas aconteceu. Tal como esquecemos que o time campeão do mundo chegou a Libertadores jogando pra 300 pessoas diversas vezes no Morumbi.

O futebol nos causa amnésia.  E com ela vem uma chuva de problemas como esquecer quem você foi, quem você queria ser e o que te trouxe aqui. Viramos “o clube da raça”, usando uma camisa vermelha escrota que manchava o símbolo.

Raça? Vai pra puta que pariu. O São Paulo nunca rasgou cara na grama pra ser campeão. Sempre conquistou seus títulos jogando futebol bem demais e não apenas suando mais que os outros.  Não somos o inacreditável, embora todo clube assim se veja quando convém. Somos os merecedores, os conquistadores. Não achamos títulos, os construímos.

Éramos referência, clube de elite. Viramos o time da organizada violenta, que ainda por cima manda e-mail pra sócio torcedor.  Fomos pioneiros com organizadas, hoje “mato um, mato cem”.

O São Paulo não afundou de dentro pra fora. Afundou junto. Torcida, clube, diretoria, raízes, valores e identidade.

Talvez seja a hora de olhar pro espelho e aí sim apontar o dedo. O São Paulo errou quando perdeu a noção de quem era, não quando vendeu fulano, elegeu ciclano ou emprestou beltrano.

Eu, você, Leco, todos nós. O São Paulo joga limpo, bonito, não pisoteia em rivais, não rejeita o que assinou, tem honra em sua gestão e não ostenta ídolos que nos faltam quando precisa.

O São Paulo é grande e não grita pra isso. Somos um passe do Gérson, uma matada do Raí e um chute do Careca num Morumbi lotado de bandeiras tricolores, camisas brancas e pó de arroz.

O São Paulo vermelho que tem num carrinho de um volante, uma breve passagem do Kaká e uma expulsão do “ídolo” Luis Fabiano sua identidade não pode ostentar qualquer título, e menos ainda um lugar representativo na história do que citei anteriormente.

Seremos novamente protagonista. Mas antes disso é preciso ser mais São Paulo. Eu não reconheço você em campo, fora dele e nem mesmo na arquibancada.

Quarta-feira é dia de São Paulo na Libertadores.

Qual? Escolhe. Vá de branco gritar “ole ole ole” ou “mato um, mato cem”.  Peça futebol ao invés de raça. E não torça pra menosprezar o Palmeiras ou o Corinthians.  Torça pela volta, não pela reviravolta.

Somos grandes. Os maiores. E nunca pedimos esse lugar. Apenas o ocupamos sem contestações.

Voltemos.

A quem nasceu outro dia, compreensão. A quem viveu o São Paulo que me refiro, reflexão.

“Tuas cores gloriosas
Despertam amor febril
Pela terra bandeirante:
Honra e glória do brasil”.

RicaPerrone