Morumbi

Não adianta homeopatizar a queda

Todo saopaulino que encontro puxa o mesmo assunto: o possível rebaixamento. Diante de um rival bancamos firmes e valentes que “nem fudendo”. Entre nós, como toda torcida, a conversa é outra.

Saopaulino é o cara que menos quer cair no mundo. Ele passou a vida jurando que “ele não”. E quando alguém sugeria a idéia de um dia, talvez, quem sabe, a brincadeira virava arrogancia e de fato era tratado como “impossível”.

Não é. Nunca foi. Hoje menos ainda.

E na medida em que as rodadas passam a gente tenta blindar nosso próprio coração do impacto da dor da queda. Então, mesmo mentindo, porque vamos acreditar até o último ponto possível, a gente finge que está se adaptando à queda.

Não adianta homeopatizar. Vai doer se acontecer, e vai ser só no dia que de fato acontecer.

Aos poucos, aceitando devagar, tentando racionalizar paixão, perda de tempo. Você pode até estar esperando, mas a sua dor não será menor.

E será nova, se for. Por isso mesmo você não saberá como tratá-la.

Com incentivo, Morumbi cheio, fé, a única chance. O Titanic afundou tocando violino, não adianta fazer de conta que está tudo bem, porque quem tocou violino também se afogou.

É hora do panico.

“Ah, veja bem…”.  Veja bem é o caralho. O time apanha em casa de Coritiba, empata com lanterna, com a Ponte, toma goleada do Palmeiras… não tem “veja bem” mais.

Troca o técnico, compra jogador e faz dívida.

Se é pra ser rebaixado “como os outros”, tenha a humildade de se nivelar e tentar o que muitos deles tentaram e escaparam quando nessa situação.

Diretoria, faça uma “besteira”! Não será maior dos que as que vocês planejam. Prometo.

abs,
RicaPerrone

O pior momento?

Eu costumo levar a fama de querer ver flores no deserto. Dizem que é um jeito de ‘puxar saco’ de times, outros entendem que é apenas uma forma editorial de ver o futebol.

Não convencerei ninguém nunca. Então foda-se.

O Morumbi hoje cedo foi um dos maiores momentos da história do SPFC.  E se essa crise toda servir pra testar e aproximar uma torcida “de final”,  talvez ela valha mais do que alguns títulos já conquistados.

20 mil pessoas foram ver um treino, dizer pro time que estão ali e que não esperam um título, mas sim que estão dispostos a batalhar pelo mínimo possível, já que este é o momento do clube.

A dor aproxima. As mais apaixonadas torcidas do mundo sofreram muito e por isso são como são. Nenhum filho de milionário dá valor a pão com ovo. O saopaulino não conhece a dor, e não é culpa dele.

Este momento encontra a realidade de todo time grande com uma torcida que nunca reagiu a isso. E a reação surpreende até mesmo ao mais fanático corintiano. Esperava-se isso de outras torcidas, não da do SPFC.

E que surpresa agradável. Somos acostumados a decisão, somos chatos, nos achamos os donos do mundo até porque de fato as vezes acontece.

O Morumbi já recebeu 150 mil pessoas pra gritar é campeão.  Já viu Libertadores, Brasileiro, estadual, Rio-SP e tudo que você quiser imaginar. Receber um abraço carinhoso como o de hoje, sem motivos pra festa, jamais.

E acredite: brigando pra  não cair, longe dos títulos, o São Paulo se tornou hoje um clube maior do que era ontem a noite.

Na alegria os testes já estavam todos feitos. Na tristeza, chegou a hora. E que prova de amor!

abs,
RicaPerrone

A receita do pão com ovo

Parece simples, e é. Você abre o pão, frita um ovo e joga dentro. Mas a gourmetização do mundo gerou CEOS de pães com ovos, consultores de farinha, centenas de formados em marketing da galinha e aí fuderam com o lanche mais fácil do mundo.

É simples.

Você pega um time que você ama e joga contra um time forte que você respeita. Faz esse jogo valer alguma coisa, diz pro torcedor que o jogo é bom e que ele pode pagar, levar os filhos, os amigos. E lá está, segunda-feira, no frio Morumbi, distante, ruim de chegar e sair, as 20h, com recorde de público.

Ah mas o torcedor do São Paulo… não! Não é uma referência. Nunca foi. Ou seja, o convite era bom. Logo, os convidados iriam.

O pão, o ovo, o fim da fome.

30 reais, 20 reais. Ingresso de jogo de futebol partindo disso. Você não limita ninguém, não exclui que o estádio tenha uma ampla parte de setores caros e o time faturou 1 milhão de reais.

Mas como, ó senhor?! É um milagre? O Santo Paulo multiplicou os pães? Não, querido. Só inverteu a conta, e talvez além de ter tido a casa cheia ainda arrumou um ponto que talvez não levasse com 20 mil pessoas.

Quem foi hoje, volta. Porque quem vai em jogo lotado se apaixona. São alguns mil convertidos no único templo que torna fãs em torcedores: o estádio.

Empatou.

Mas se eu pudesse, com todo respeito ao Grêmio que joga mais, tem mais time e não tem nada com isso, eu daria uma goleada ao SPFC apenas pelo fato de ter tido uma noite pura de futebol entre os seus. Pouca coisa importa mais do que isso no futebol.

Ainda que os CEOs não descubram isso porque não tem aula de paixão em faculdade.

abs,
RicaPerrone

17 de junho de 92

Hoje o dia mais feliz da minha vida completa 25 anos. E eu não tenho o menor pudor em dizer isso porque nunca menti em nenhum dos meus casamentos, eventuais formaturas (que sequer compareci) ou outras festividades.  Nada na minha vida foi mais incrível que o exato momento da foto acima. Quando Zetti pega o pênalti de Gamboa.

Eu tinha uns 14 anos. Minha vida era resumida em fazer merda na escola, passar de fase no video game, jogar botão e acompanhar o São Paulo como um doente apaixonado.  Eu diria até que a escola, os botões e o video game eram complementares ao clube.

Na escola eu ia pra discutir futebol. No video game pra jogar futebol. E jogava botão pra colocar o São Paulo em campo. Em resumo, em 1992, minha vida era o São Paulo.

Naquele dia, após ter ido a todos os jogos no ano anterior e naquele na capital, eu senti algo novo. Não sou da geração que ganhava Libertadores. Na minha ela era marginalizada. Tanto que o SPFC até quis abandonar o torneio.  Mas foi indo, indo, indo…. e estava na final.

Quando na final, o torneio cresce. Mas a Libertadores, ao contrário de outros tantos criados por aí, era um gigante adormecido e não um anão fantasiado.  Quando pisei no Morumbi naquela noite, ainda era umas 17h tamanha minha ansiedade, eu senti que algo especial estava acontecendo.

Não sabia que era tão especial.

O jogo, o drama, a casa cheia, o som ambiente. Os pênaltis, o Rei Rai, o monstro Zetti, o predestinado Macedo.  O Galvão Bueno narrava na Gazeta! Quem diria?

E nos pênaltis que vi de joelhos, soltei as lágrimas mais sinceras da minha vida.  Eu nunca chorei tão honestamente. Nunca agradeci a deus com tanta convicção de não falar sozinho. Eu nunca fui tão feliz quanto naquela noite.

É vazio. Claro. Você tem uma vida e o futebol não pode jamais ser o motivo maior dela. Sinal que sua vida é tosca, não que o futebol é maravilhoso.  Mas aos 14 anos, convenhamos, eu tinha o direito de ter uma vida resumida a futebol.

Aquele campo invadido, o abraço no meu pai, a festa no clube, o placar dando dia e hora do Mundial de Clubes. E eu só olhava e chorava, cantava, gritava.  Me enrolava na bandeira, beijava o escudo, como que tentando agradecer por ser parte daquilo.

Ali eu já tinha meus mais de 300 jogos no estádio. Fácil. Frequento absurdamente desde os 3 meses de vida.  Mas ali eu entendi o que era futebol, pra que servia estar no estádio e o quanto as pessoas que acompanham pela TV não tem idéia do que estão discutindo quando falam de “viver futebol”.

Naquele dia eu descobri o tamanho do São  Paulo, o poder do futebol na vida das pessoas e o quanto é marcante “estar lá”.  Eu estive. Estarei sempre. Jornalista, empresário, idoso, solteiro, casado, pai, avô. Tanto faz. Aquele é meu lugar. E aquele foi o melhor dia para se estar nele.

Salve 17 de junho de 1992. O melhor dia da minha vida, ate hoje.

Saudações tricolores,
RicaPerrone

Você

Eu preciso escrever da a vitória do São Paulo sobre o Palmeiras.  Jornalisticamente, talvez eu devesse avaliar tática, falar do Prass, do Jean, achar “culpados” de lá, heróis de cá. Mas, foda-se.

Eu quero falar de você.

Tu sabe que eu te amo, né? A gente briga, passa tempo longe, as vezes flerta, mas no geral, sendo você o maior causador de alegrias e tristezas da minha vida desde 1978, é bem fácil perceber que te amo.

E eu assisti ao jogo de hoje como um marido que leva a esposa jantar após passar o dia com a amante. Não que eu conheça essa sensação, mas imagino qual seja.

Quarta fui ao Allianz. Hoje cedo à Arena Corinthians. E a tarde meu voo pro Rio me impossibilitava de estar no Morumbi pra te ver.  Porra, tu entende que é meu trabalho, mas mesmo assim me sinto meio filho da puta. Eu tinha que estar aí, né?

Eu sabia desde o começo da semana. Falei pra todas as pessoas: A gente ganha sábado.

Porque?

Porque é você.

Você não sabe ser saco de pancadas. Você não pode ser desafiado em sua grandeza dentro de sua fortaleza.  Uma vez acontece, duas, quem sabe? Mas hoje “PRECISAVA”.  E quando precisa, é você.

Tu fica ai nessa fase sem personalidade que já dura uma década e a gente cansa de você.  É um garoto tatuado, que vira roqueiro, depois entra pro samba, meses depois vira crente. Caralho, Tricolor! Quem é você?

Vai correr feito hoje? Vai jogar bonito feito na Florida? Vamos ser “o time da raça” todo vermelho que um asno branquinho inventou ou vamos ser o time que fomos desde a sua fundação e jogar futebol bem jogado?

Qualé a sua?

Eu to na sua. Sempre estive. E vou morrer abraçado a ela.  Mesmo sem saber qual é, sem entender o que você quer e pra onde você vai, é de uma irritante e absoluta verdade constatar que você ainda é boa parte da razão da minha vida.

Obrigado por hoje.  Levanta daí.

abs,
RicaPerrone

No limite

A diferença entre o Corinthians e o São Paulo, hoje, é de consciência. Enquanto o Tricolor ainda acredita ter Jucilei, Nem, Pratto, Cueva e Maicon voando, o Timão consegue enxergar exatamente até onde seu time pode ir tecnicamente.

E então entre  o treinador e a busca pelo coletivo.  O Corinthians não tenta jogar um grande futebol porque consegue olhar pro seu time e ver que, em 2017, não tem um grande time. Pelo contrário, tem diversas peças até contestáveis.  Mas aceita, se molda a isso e joga em cima disso.

O São Paulo do Ceni tem nomes bem mais interessantes, mas a maioria deles ou não está bem, ou não está devidamente colocado no contexto.  Fato é que o time espera uma atuação técnica que não consegue reproduzir.

O Pratto e o Gilberto esperando bolas de ninguém no final do jogo era a cara de um  time que espera algo que não vai fazer. Ou talvez faça, em outro momento, com outro nível físico e tático. Hoje, não.

O Corinthians não espera do Jô um lance individual. Não é uma formação baseada na expectativa de que algo do tipo vá acontecer pra resolver o jogo. E então os dois times se dividem entre expectativa e realidade.

Na realidade o Corinthians venceu porque sabia até onde podia ir, onde o SPFC iria errar e como chegaria ao gol. O São Paulo não sabia. Perdeu o Nem, e então nem o que sabia existia mais.

Não está resolvido. Mas está bem perto disso.

abs,
RicaPerrone

O de sempre

A única certeza que se tinha um clássico desses é que o São Paulo teria que ganhar do Cruzeiro e também dos espíritos zombeteiros que tiraram a Copa do Brasil como torneio oficial para se divertir com o Tricolor.

Do Cruzeiro, ficou puxado sem chutar no gol. Dos espíritos, não teve jeito.

Com total controle defensivo da partida, o Cruzeiro não criou quase nada mas anulou o São Paulo. Entendeu que sem Cueva era bola aberta e jogadas por ali. Fechou as pontas, o São Paulo não sabia mais como chegar.

Em duas bolas paradas, 2×0.  O Cruzeiro coloca a mão na vaga e de certa forma até confirma a “lógica”, já que é um time de Copa do Brasil, algo que o São Paulo está longe de ser.

Acabou? Quase.

Só não digo que sim porque a mesma “zica” que o SPFC carrega na Copa do Brasil o Cruzeiro carrega ao enfrentar o São Paulo no Mineirão. Então, vai que…

Mas não. Não vai.

abs,
RicaPerrone

É como que um favor

A última vez que eu vi o São Paulo entrar em campo e jogar futebol porque queria foi em 2005. Talvez em alguns jogos do começo de 2006, ainda embalados pelo grupo fantástico campeão do mundo.

Mas em seguida o pragmatismo deu resultados, o SPFC se “Parreirizou” e focou sua existência no ganhar ou ganhar.  Funciona, mas não encanta.  A bola entra, mas não estufa a rede. O caneco vem, mas não marca.

Quem viu 2005 sabe do que estou falando. A soma dos 3 brasileiros não tiveram o brilho daquele time da Libertadores, que jogava rindo, indo pra cima, que fazia gol por tesão e não por obrigação.

Já trocaram 200 treinadores, até presidentes. Nada faz o São Paulo voltar a jogar futebol como que por vocação.  A impressão que se tem há anos e anos é que eles vão jogar porque mandaram.

Venceu, 2×0. Legal.  Diria o Luxemburgo, “é pica sonsa”. E não estou falando de dar carrinho. É outra coisa.

Não te dá raiva, nem um puta prazer. Te deixa ali, meio feliz, meio puto, meio esperando mais, meio satisfeito. Meio. Tudo meio.

Que te falta pra entender que futebol não é só resultado, Tricolor? Ainda mais você, que nunca priorizou as taças ganhas mas sim o respeito conquistado.

Tanto faz. Vai classificar, talvez até seja campeão. Mas… não marca. Não acha um time que te remeta a uma característica especial.

Nem eu sei explicar. Como eles poderiam entender? Foda-se.

abs,
RicaPerrone

O meu lugar

O meu lugar
Palco de Rai e Forlan
Marcado por Sorato e Tupã
Uma ginga em cada andar

O meu lugar
É cercado de luta e suor
Esperança de um dia melhor
E cerveja pra comemorar

O meu lugar
É sorriso é paz e prazer
O seu nome é doce dizer
la laiá….

Ahhh que lugar
A saudade me faz relembrar
As vitórias que eu tive por lá
É difícil esquecer

Doce lugar
Que é eterno no meu coração
E aos craques traz inspiração
Pra driblar e o gol fazer

Ai meu lugar
Quem não viu o Rogério jogar
Nossa gente gritando “Telê”
E ainda tem jogo à luz do luar

Ai que lugar
Tem mil coisas pra gente dizer
O difícil é saber terminar…

Morumbi, 56 anos.  O meu lugar.
Foi mal, Arlindo!

abs,
RicaPerrone

Pra quem não entendeu…