paulistão 2018

Cenários

O Paulistão chegou às semifinais com um cenário encantador. Embora o campeonato em si seja ruim como todo estadual, a reta de chegada criou dois jogos muito interessantes.

Se o Corinthians vinha mal e se classificou nos o pênaltis contra a Ferroviária em casa, o Santos fez com campeonato e tem o badalado Sampaoli. Esse jogo coloca, portanto, o Santos como o grande favorito.

Só que existe uma linha tênue entre ser favorito e ser obrigado a vencer. Essa linha torna as semifinais interessantíssimas.

O cenário do outro lado é parecido. Até sábado passado o São Paulo não tinha a menor chance. Agora enfrenta o Palmeiras, que pela teoria, tem todas as chances por ter disparado o melhor elenco do país.

Na medida em que o São Paulo e o Corinthians vão chegando pra semifinal mais enfraquecidos, maior se torna o “problema” para Santos e Palmeiras.

O futebol é covarde. Se São Paulo ou Corinthians passarem cobrarão Palmeiras e Santos pelos times e campanhas. Se for o contrário, pouco farão por considerarem “lógico”.

Há um “confortável” cenário para São Paulo e Corinthians neste momento em virtude de sua própria incompetencia.

RicaPerrone

Nós somos loucos; vocês não

Para alguns, um negócio. Para a mídia, um esporte.  Para os fãs, “uns desocupados fazendo festa”.  Para nós, futebol.

E futebol é para mim exatamente o que aconteceu ontem e hoje em São Paulo.  Por isso, meus caros, eu defendo e vou morrer abraçado a ideia de que torcer por um time europeu nos afasta do futebol.

A paixão e o sentido deste jogo não está nos 90 minutos. Está no pré, no pós, no bar, no pai que passa pro filho o clube, na família que não tem foto da avó na sala, mas tem a bandeira do clube.

Da identificação cultural, da origem, da relação entre pai e filho. Tem a ver com a porra toda, menos com gostar de 22 caras correndo atrás de uma bola.

Nós gostamos de futebol. Não do esporte.

Futebol não é esporte. Futebol é uma vida paralela que alivia nossa.

A gente se entende mesmo quando se odeia. O colorado e o gremista querem a mesma coisa, vivem o mesmo ideal, tem os mesmos sonhos e usam o futebol pro mesmo fim: se completar.

É a nossa religião, nossa terapia e nossa doença.  É nosso elo com o pai, nosso assunto diário com o porteiro, é a mais próxima forma de nos colocar em igualdade com outras milhões de pessoas ignorando qualquer questão física, racial, religiosa, social ou financeira.

É o abraço mais sincero que conseguimos dar. O choro mais idiota, mas o mais gostoso de todos.

Você é branco, preto, pobre, rico, paulista, baiano, carioca, catolico, evangelico, ariano, engenheiro, ateu e….. torcedor do time X. Porque é parte de você. Devia vir no RG.

Devia ser proibido de trocar. E quem troca  é um estúpido infiel. Foda-se se ele tiver razão ou direito. Está na bíblia. Não pode.

Aliás, fodam-se vocês todos que não nos entendem que acham bobagem e que entendem isso como algo superficial e irrelevante. Gasta na terapia, eu pago o socio torcedor.

Ontem e hoje  mais de 70 mil pessoas sairam de suas casas pra dizer “te amo” aos seus clubes e nada mais. Não havia evento, contrapartida, jogo, nada. Era só pra dizer que estava ali.

É um ato de amor. Num mundo que clama por menos ódio, que sentido faz não reverenciar tanto amor?

Se você acha que futebol é aquilo que te faz sentar na frente da tv e assistir por 90 minutos dois times jogando você  não entendeu nada. Aquilo é esporte.

Futebol é isso que aconteceu na Arena Corinthians e no Allianz Parque. É o que acontecerá amanhã por todo país nas finais. São pais e filhos trocando abraços e criando momentos que os unirá pra sempre. É a indescritível sensação de ser parte da conquista ou da derrota.

E sim, torcedor que mora na cidade do clube tem mais POSSIBILIDADES de futebol na veia do que  quem não mora. O que torce pra um clube de outro país então, coitado, as vezes pode morrer sem experimentar futebol.

Prova disso é a vontade que quem é de fora querer estar perto e a nenhuma tentativa de quem está perto querer ficar longe. Irrefutável.  Quanto mais perto, melhor a sua experiência com futebol.  E ainda que seja em estados diferentes, há o bar e o vizinho pra te sacanear.

Toda discussão sobre qualidade, espetáculo, gramado, arbitragem, cbf, etc, etc, etc é valida. Mas não é isso. Futebol nunca esteve atrelado a nada disso.

Amanhã disputa-se por todo país os títulos menos cobiçados do ano. Ou seja, não é pela taça. É pelo clube.

Nós somos loucos. Eu sei. Vocês não. Vocês não são nada num domingo a tarde.

abs,
RicaPerrone

Das coisas que o dinheiro não comprou

O Palmeiras tem um investidor porque dá retorno. É simples, incontestável, de clara inveja alheia a quem contesta. Talvez alguém tenha feito um estádio pra ele com recursos privados e comprado um timaço pela logica simples dele ser um bom negócio. Talvez seu clubismo não veja assim.

De tudo que o Palmeiras pode comprar, algumas coisas não estão a venda. E veja você, é quase sempre o que o torcedor mais gosta.

Ele gosta de criar em casa. Ou de achar dentro dela alguém de quem pouco se esperava. Ela gosta de Jesus, de Jailson, de esperar mais pelo investimento e menos pelo mesmo motivo.

Quem colocou o Palmeiras na final antes do jogo foram jornalistas irresponsáveis. Não o clube. Ele não foi arrogante, o tom veio de fora. Em campo,  jogou menos do que pode, mas ignorar o fator do clássico para cobrar desempenho por mero investimento é chamar Palmeiras de Chelsea.  Não, não é o caso.

Falamos aqui de um time com investimento e camisa. Camisa que ajuda cá e lá. Por isso o Santos venceu o jogo hoje. Porque não se joga só com a grana. Há mais do que isso por trás de um clássico.

Mas nem mesmo se pudesse o investidor poderia comprar a noite de hoje. Pelo que investiu esperava vencer por 3×0 com gols dos seus reforços caríssimos. O futebol é mágico, e o nosso não está a venda numa prateleira.

Prova disso é que a noite de hoje será eternizada na memória de cada palmeirense pelo não retorno do investimento em campo. Ou seja, pelo fato de não haver garantias. Dos badalados, outra vez salvou um não comprado. E do esperado passeio veio mais um drama nos pênaltis e história pra contar.

Pudesse comprar com esse roteiro, o Palmeiras compraria. Mas não se vende história, se faz. E mais uma vez o Verdão dramatizou um roteiro de final até previsível, mas nunca garantido de véspera.

Salve Jailson, o velho Pacaembu, os penaltis sem favorito e o peso da camisa. As vezes a vaga vem sem nenhum centavo pra explicar.

abs,
RicaPerrone

Quando vencer até dói

Eu nem me lembrava dele, pra ser honesto. Talvez eu nunca o tenha notado. Mas aos 35 anos, Paes não terá um futuro brilhante. Tem uma carreira digna, boa, mas que a idade só permite manter, não mais sonhar.

O São Paulo jogou mal. Mas mereceu a vaga porque o São Caetano jogou pior ainda.  O que na verdade era pra ser uma partida de eliminatória simples com resultado bastante comum e previsível, comoveu mais do que convenceu.

Aquele “chupa!”  de torcedor na hora que ele erra virou nó na garganta quando, ao final do jogo, ele se deita no chão e, conforme ele mesmo revelou, olha pro céu e diz “porque comigo?”.

Na entrevista, chora. É um cavalo de quase 2 metros experiente chorando feito um garoto por uma bobagem que eliminou o provável eliminado.  Mas o choro dele é mais alto que os aplausos do Morumbi.  Porque é mais sincero e merecido que os aplausos.

Ele merece ser o vilão pelo erro que cometeu. E também pode chorar, porque como todos nós, um dia dá tudo errado e a gente se sente o mais injustiçado do mundo.

Paes vai sumir. Ele não é uma promessa, nem o primeiro goleiro a falhar e sair chorando. Não será o último também.

Mas seguramente foi a coisa menos esquecível que o Morumbi viu nesta noite.

abs,
RicaPerrone

Constrangedor

Há uma diferença técnica, tática, mando de campo, fase, o que mais você quiser. O que não pode haver é uma diferença na postura em busca do resultado. E há. Gritante. Humilhante. Constrangedora.

O Palmeiras jogou um primeiro tempo como treina todos os dias. Só que ao invés de cones do outro lado tinham jogadores do São Paulo.  Mais fácil, cones não erram passes.

O toque de bola dentro da área adversária empolga o palmeirense, humilha o saopaulino. Por sorte e prudência em virtude da vaga garantida e da Libertadores, o Palmeiras não quis jogar mais meio tempo.

Se quisesse, sabe-se lá como sairia do Allianz Parque o time do SPFC hoje.

O torcedor sai de qualquer clássico derrotado pela arbitragem. Nunca o adversário foi melhor, é uma norma.  Mas quando o adversário nem sacaneia, quando você sai do jogo e nem argumenta, é porque a coisa ultrapassou limites.

Eu sou saopaulino. E durante o jogo os meus amigos palmeirenses não estavam me sacaneando, mas sim me consolando.  É o cumulo da humilhação.

Me odeiem, porra! Pisem em cima. Sou eu! Lembra? O cara do tri mundial.  Não fica com pena, não! Eu não mereço.

Ou mereço?

São pelo menos 12 anos sem jogar um bom futebol, 10 sem títulos, sendo que o conquistado não teve segundo tempo. Ao longo desse tempo o futebol do SPFC só piora, a superioridade do Palmeiras só aumenta.

O que houve hoje no Allianz foi a confirmação de uma nova era.

O São Paulo que era forte. O Palmeiras que era mais fraco. O Morumbi que era o melhor estádio. O soberano que era modelo.

Já era.

O São Paulo não se reconhece mais. E o Palmeiras há tempos não se via tão parecido com o que de fato é.

abs,
RicaPerrone

Previsível e muito bom

O que eu espero de um clássico? (Sim, porque Derby é viadagem)

Espero tensão, apoio de torcida, mobilização, seriedade, jogo duro, nenhum pé fora de dividida e uma história foda pra contar ao final do jogo. Espero polêmica, choro do perdedor no final, alegria e deboche do vencedor. É pra isso que vejo futebol.

Convenhamos, independente de chegarmos à analise da razão ou não nas reclamações, tivemos tudo isso. Então, feliz estou.

Começa pela incrível presença de 10 mil pessoas num treino pra apoiar na sexta-feira. Passa pela memorável e honesta cena de Clayson e Felipe Melo não se dando as mãos pra agradar comentarista de terno e gravata.  Simples: não se gostam, não se cumprimentam.

O pedido pela hipocrisia e pelo teatro não é uma questão de educação. É uma questão de achar que o mundo é melhor quando se finge. Eu prefiro como ele é.

O jogo tenso, pegado, Romero alucinado.  Um golaço merecido pelo que apresentaram os times no primeiro tempo. E depois disso o jogo se entrega à polêmica.

Seria o mesmo sem a expulsão? Claro que não! Perdendo e com 10 é foda até pro Real Madrid contra o Getafe. Imagina um clássico. Foi justo? Hum….

Perguntei na rede social após o jogo pra sentir o tamanho do clubismo e do que de fato viram ali. Tirando os palmeirenses que juram não ter sido nada e os corintianos que acham que o Jailson tinha que ser preso, notei que os demais não envolvidos no jogo ficaram bem divididos.

Não é uma característica do goleiro do Palmeiras agredir ninguém. De fato ele estica a perna e usa pra tirar a bola. E faz isso inclusive porque um jogador impedido do Corinthians confunde sua saida do gol, o que pouca gente está notando. O fato dela tocar – e não ser chutada por ele –  no palmeirense antes tira o impedimento que aconteceu na origem do lance? Honestissimamente, não sei. Acho que não, mas posso estar errado.

Eu não daria o pênalti na hora. Como ele não deu. Avisado sei lá por quem, resolveu dar. Pelo VT há uma pernada. Mas se ela foi por maldade ou sequencia do lance, é de lascar a alma adivinhar.

Pontos que eu levantaria: se o jogador do Corinthians impedido vai no lance antes do choque, está impedido antes do pênalti, não?

E sendo assim, não marcaria pênalti.

Mas passo longe de achar roubo. É absolutamente difícil o lance.

Dali pra frente, tensão, Palmeiras sem ter muito o que fazer, outro pênalti, 2×0, fim de papo.

O Corinthians queria mais, precisava mais e merecia mais. Jogou mais. O Palmeiras aposta todo seu argumento numa polêmica, porque sabe que jogou menos que o adversário.

Amanhã só se discutirá esse lance. E portanto o clássico fez seu papel.

abs,
RicaPerrone