propina

Muita calma

Há algumas horas meu e-mail, instagram, twitter e facebook estão sendo bombardeados por torcedores mais diversos pedindo uma opinião sobre a denúncia de que o Fluminense teria dado propina para liberar o uso do estádio Giulite Coutinho.

Clubismo a parte, há de fato a denuncia, o que também não determina a culpa.  Mas já se mobilizam tricolores sob o argumento de “todo mundo faz”, os não tricolores sob o argumento de “o time do tapetão não tem limites”.

Os rótulos vão rolar solto. Não tem como evitar. Mas nós, jornalistas, devemos ter calma e não é hora de opiniar até que isso seja de fato esclarecido.

Porque?

Porque em jogo está mais do que uma denuncia de um possível dirigente de um clube ou do sistema de propinas que todos nós conhecemos cada dia mais.  Mas porque a imagem do Fluminense em virtude de diversas inverdades é manchada nacionalmente, e uma “verdade” em cima disso traria consequências comerciais terríveis pro clube.

É difícil pra uma criança crescer vendo tudo que se está vendo no Jornal Nacional todo dia e escolher pra torcer um time que eventualmente apareça cometendo algo assim.  É difícil pra um pai explicar. Será difícil pro Fluminense vender sua camisa e marca.

Então, pela gravidade do assunto, calma.

E eu nao acho “grave” que tenham pagado pro bombeiro, se é que pagaram. Eu vi mais de 20 amigos abrirem negócios no Rio de Janeiro e vi que as obras só são liberadas com a propina. É quase institucional, o que não retira deles a responsabilidade de terem aceitado o sistema.

Mas há um sistema. E se depois de tudo que está sendo exposto nesse país você ainda duvidar, interne-se.

Um clube no Brasil não pode ter seu nome ligado a nada nesse sentido e esse clube é o Fluminense. Seu rótulo, injusto, insisto, já é esse. E confirma-lo com um fato e não mais uma lenda urbana seria bastante perigoso por todos os motivos que citei acima.

Então, de novo, calma.

abs,
RicaPerrone

A ponta do iceberg

 

João é um senhor de 55 anos, dono de uma cozinha industrial que fornece merenda para as escolas de uma região do interior.  Ele vive honestamente daquilo que faz e com isso cria seus filhos, tem sua família e paga seus impostos.

Um dia um político vai até o João e diz que ele está lucrando 2 reais por cada merenda vendida para as escolas. Que a partir de hoje, ou João lhe dá 0,50 centavos por fora de cada merenda ou ele corta o contrato com João e quebra sua empresa.

Calma! Não meta o dedo na cara do João ainda.

João negocia. Explica, diz ser contra e que não quer aceitar.  Então ele volta pra casa e vê que é ser mais um entre milhões de brasileiros que fazem rir pra poder rir ou avisa a família que acabou tudo, porque ele quer ser honesto num mar de lamas.

Sua mulher chora, seus filhos consolam o pai e ele, honestíssimo, tem que tomar a decisão até amanhã cedo.

Agora imagine que você é o João.

Imagine, e saiba, que isso acontece em escalas desse nível todo santo dia pelo país inteiro. Que milhares de brasileiros tem suas vidas atreladas ao bem estar de quem “as arranjou”, mesmo que via trabalho honesto.

Você já pensou que quando um jogador de 17 anos ouve do treinador da base: “pra jogar 30% do seu salário é meu, ou tá fora”, ele tem que optar pela carreira dele ou ser mais um na interminável lista de quem “topou”?

Você acha que a dona Maria negaria assinar algo pra um gabinete qualquer em troca de ter 5 mil reais para sustentar dignamente seus filhos enquanto um politico qualquer está tirando 40 mil sobre uma prestação de serviço inexistente?

Você tem idéia do quanto a “propina” está no nosso dia a dia em menor escala e muito maior uso de poder para extorquir um dos lados?

É óbvio que hoje  falamos de empreiteiras e politicos ricos. Estamos falando de sacanagem, de filhos da puta da pior espécie. Mas a “cultura da corrupção'” tem níveis. E em alguns deles, não é exatamente um cenário de sacanagem mútua. É uma chantagem.

Eu já vi centenas de casos enquanto empresário que sou desde os 19 anos.  “Te dou 12, você me devolve 4 e fica com 8”.  Quem tá roubando a empresa? Você ou ele? Aliás, ele está roubando você ou a empresa?   Se não é claro quem você está prejudicando, como avaliar o erro que você está cometendo?

É uma prática assustadora para 99% das pessoas, pois elas são funcionárias e jamais estão em situações de negociação ou acordos do tipo. Mas é comum. Absolutamente comum.  Na sua padaria, na sua igreja, na sua empresa, talvez.

Hoje estamos abrindo os olhos para o que sempre soubemos que existia: um esquema para deixar pessoas ricas as custas da nossa ignorancia. Mas tem outro nível de corrupção que ainda precisamos encontrar: a que faz uso do poder para extorquir pessoas em situação inferior.

A maior rede de corrupção deste país está na nossa cara todos os dias, não no Jornal Nacional a cada 2 meses.

abs,
RicaPerrone