relacionamentos

Um encontro “real”


Encontrei um amigo ontem na praia. Não nos vamos há meses, sequer conversávamos. Mas foi uma experiência incrível.

-” Como você tá irmão?”, perguntei.
– Não como você que tá em angra direto né!
– Que isso. Só um descanso.
– Mas porra, teu cachorro morreu né cara? Que merda.
– Morreu. Foda.
– O veterinário dele cuidou do cachorro da minha prima. Mundo pequeno né?
– Poxa, que maneiro.
– E a peladinha de segunda?
– Nem to indo, to meio machucado.
– Ah mas tá malhando todo dia pô. To gostando de ver.
– Pois é, tem que se cuidar né?
– Chegou nos 40 né irmão? Alias, festão hein? Curti!
– Porque tu não foi, viado?
– Eu não sabia que ia ter tanta gente famosa. Se não eu tinha ido porra!
– Oi?
– Porra, tirou onda postando com “famoso y”, “famoso H”, só fera!
– Entendi…
– Mas aí, tem visto o fulano?
– Não. Só em rede social mesmo. E você?
– Nada. Mas o cara tá rico né. Tu viu as viagens? A loira que ele tá comendo? E o carro? Se fudê! O cara tá voando.
– Sério? Mas o que ele faz?
– Sei lá. Mas ta rico pra caralho.
– Que bom.
– Cara, vou te deixar ir porque sei que hoje é quarta e tu tem jogo pra fazer né?
– É, vou ver uns jogos hoje…
– Demoro! Irmão, posta mais cara! Tem muito texto e pouca coisa sua. Quero saber mais de você.
– Valeu. Mas me liga. A gente toma uma.
– Demoro! Te mando direct! Vamos tirar aquela fotinho?
– Vamos. Tira aí.
– “Ae galera… Rica Perrone na área! Melhor blogueiro do Brasil! Esse é irmão!”.
– Postou?
– Claro!
– Valeu craque.
– Aê! Tem como me chamar quando tiver na resenha lá com o “famoso x”?
– … Pra que?
– Tira foto com ele e tal. Porra, dá pra comer muita gente só de postar essas resenhas. Fala aí!
– Eu não acho que alguém me dê por isso, mas ok! Eu te chamo quando der.
– Valeu! Tamo junto! Me marca hein?
– Podeixa.

Não vou marcar, é claro. Mas vocês percebem onde fomos parar?

E não, ele não é um idiota. Ele só está vivendo como nós. Sem saudades, porque acha que me viu mesmo que por foto. Sem assunto, porque sabe tudo da minha vida, e eu sem o que contar, porque já postei.

Que bosta.

RicaPerrone

Se “serve”, não serve

“Ele é bom pra mim. Me leva sair, é carinhoso, gosta de mim, parece honesto, minha família gosta dele… sei lá”.  Foi assim que uma amiga me contou do namorado novo dela, que acaba de completar 2 meses de relacionamento.

Me lembrei das vezes em que eu completei 2 meses com alguém. Eu nem dormia direito esperando uma ligação. Eu suava frio quando ia encontra-la, morria de medo de algo dar errado e não tinha o menor controle sobre as qualidades e defeitos dela.

Eu nunca tive o privilégio e nem a estupidez de escolher alguém.

A lista de exigências só aumenta com o passar dos anos. E toda vez que você passa alguém por ela, perde alguém interessante. Esteja você ou não com a razão, ela não faz o menor sentido se tratando de paixão.

E  então mesmo certo, você está errado. Porque nunca se tratou de uma escolha ou de uma adaptação. Trata-se de mãos suadas, noites mal dormidas e uma versão sua totalmente idiota sua que você não consegue explicar e nem evitar.

O seu aplicativo acha pessoas “compatíveis” com você. E te torna um “cliente” do amor. Você olha o cardápio, escolhe a cara, o corpo, as características, o passado, a distância e até a porra do signo. E aí, só então, se dá o direito de conhece-la.

E quando conhece já sabe muito, descobre pouco, acelera o processo, se envolve rápido, julga cedo e em uma semana já sabe se dá, não dá, e como desistir.

“Ela era vegana…”, você explica. E eles concordam. Porque o risco é uma coisa do passado. Essa geração quer tudo na mão. Se depender dela chegará o dia em que as pessoas andarão com um cadastro registrando seu passado, seus gostos, suas qualidades e até seu corpo pra que você possa escolhe-las como um pote de sorvete no mercado.

Ou já  chegou?

Se adaptar a alguém pode até dar certo, é como sushi. Você se acostuma e passa a gostar. Mas eu só confio no chocolate, que você experimenta e quer comer aquilo o dia todo, todos os dias, inconsequentemente.

Eu sei, eu sei. Minhas chances de me foder são maiores.

Mas e as suas de suar frio quando ela chega?

Não dá match. Dá uma chance. Não curta, menos ainda compartilhe. Ela deve ser problema só seu e essa história não precisa de platéia até que possa ser contada.

E quando puder, espero que conte com brilho nos olhos e não com um pacato, conformado e seguro “a gente funciona”.

Se demorar, que seja. Mas entre um seguro amor mediocre e uma paixão inconsequente, me promete que você não vai ser burro de preferir saber o que está fazendo.

RicaPerrone