10 motivos pra odiar os pontos corridos

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Eu sei que discutir isso é perda de tempo mas meu trabalho é basicamente perder tempo com argumentos sobre coisas que ninguém quer refletir por já ter uma opinião formada. Essa eu mudei, pois fui defensor dos pontos corridos até 2008, quando meu time venceu pela terceira vez seguida.

Hoje sou alguém que trocaria esse formato por quase todos os outros. Por alguns motivos simples de explicar.

Não, ele não é justo. A idéia de jogar todos contra todos e ter o melhor é uma falácia quando nos jogos finais e portanto mais decisivos e importantes você enfrenta times de férias e outros entregando os pontos. Justo é perder sendo melhor porque é do jogo. Ser favorecido por jogos que “não aconteceram” ou prejudicado por eles é manipulação conceitual.

Os olhos não estão no campeão. Sábado passado o continente viu o Botafogo ser coroado como deve ser. Ontem 15% das pessoas optou por isso. Todos sabiam o resultado e a briga pelo rebaixamento, também envolvendo times de férias e portanto manipulando o conceito de todos contra todos era o foco. Num evento de entretenimento pensado os olhares estão sempre em massa pro vencedor, pras cenas memoraveis e pro imponderável. No nosso eles vão pro óbvio, pro resultado armado e escondem o vencedor.

Não há muitos campeonato de pontos corridos que tenham terminado sem o discurso de esquema de arbitragem. A idéia de que um erro na final pode gerar isso é mentira. Você tem raríssimos campeões em finais contestados e quase todo ano o campeão dos pontos corridos é cobrado pelo vice por erros grotescos durante o torneio. Trocou-se o erro decisivo por 20 erros com suspeita de manipulação.

É inaceitável que você jogue 38 rodadas para no final depender da “sorte” do adversário do seu rival estar de férias ou ser seu rival para entregar o jogo. Isso por si só deveria invalidar esse conceito de campeonato.

Calendário. Todos os times do Brasil disputam mais de uma competição. De modo que o mais regular nao significa o mais brilhante. Título procura brilhantismo e não regularidade. Espetáculo nenhum (e o futebol é um espetáculo) vende pra ser regular. Todas as nossas memórias sobre futebol estão no gol do titulo, o jogo do titulo, a final e não naquele periodo de 9 meses super regulares de muito consistencia. Dar aos clubes a idéia de ser campeão porque o calendário te deu a sorte de usar reservas em jogos fáceis ou não é um erro brutal contra a honestidade da disputa.

Desequilibrio – Se eu falar que o Botafogo vai jogar o Brasileiro contra 11 grandes fora de casa e o Vasco contra 9 você aceitaria esse formato de véspera? Não. Então porque você aceita que na disputa entre eles um dos clubes pegue 2 grandes de férias e o outro não e termine o ano dizendo que “foi todos contra todos e venceu o melhor”? Nunca foi todos contra todos. Você depende da sorte pra saber em que momento pega quais times e sob quais interesses.

Todos os olhos tem que estar no campeão. Nos pontos corridos só quem vê o título é o torcedor envolvido. Os outros estão vendo seus jogos com seus interesses menores em disputa. Isso é um erro conceitual.

Discutir futebol enquanto competição é para os comentaristas, treinadores e jogadores. Quem cria e molda o evento deve pensar no evento em si. E não há qualquer argumento para justificar que o evento regular de 38 jogos será mais atrativo do que decisões no final com momentos épicos para serem eternizados no futebol. Ou será a toa que os EUA fazem todos os seus eventos com finais sendo os reis do entretenimento mundial?

Outro argumento que adoro é “já tem mata-mata”. Ok, então se você puder comer 7 refeições boas na semana você come uma ruim na quinta por já ter outras 6? Que sentido faz optar pelo pior podendo ter o melhor todo dia?

E finalizando, é broxante. Os campeões tem dia de festa marcada e não de decisão. Esse ano ainda calhou de darmos a sorte de Palmeiras x Botafogo jogarem perto do final. Mas quase invariavelmente a decisão se faz num estádio qualquer com um dos times entregue e o campeão jogando pra cumprir tabela porque não há adversário.

Meus caros, o futebol é feito para nos tirar do eixo. Todo o resto é bobagem, inclusive os critérios técnicos da competição. Futebol é pra gerar memórias, fazer chorar, unir pais e filhos, criar grupos de amigos e nos tirar da realidade por algumas horas. Enquanto isso for a página dois e a primeira for a questão técnica, estamos tirando o futebol de Nelson Rodrigues e dando seus conceitos pro Juca Kfouri.

O que não me parece genial conceitualmente.

RicaPerrone

Tão rindo de que?

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Todo mundo sabe no futebol que o torcedor é uma garotinha apaixonada. Você pode sair, chegar bebado, pegar outra e quando voltar com flores ela vai perdoar. Porque ela é burra? Não, porque ela é apaixonada. E gente apaixonada só faz merda.

Por saber ter em casa sempre a garotinha apaixonada dirigente, jogador e outros tantos, muitas vezes, fazem o que querem sabendo que no final um buque resolve.

Ontem o Fluminense ganhou um jogo improvável de um adversário forte em condições incomuns. Ficou na série A e sua torcida comemorou aliviada. Justo. Sofreram. Mas agora é segunda-feira e eu pergunto: tão rindo de que?

No Brasil jogador de futebol não entende uma lógica: você trabalha pro clube. Na cabeça deles ele trabalha conforme o ambiente, o treinador, o dirigente. Ele tem que estar feliz, mimadinho, do jeito que ele quer, pra render o que por obviedade dele se espera.

O time campeão da América se arrasta por um ano, mostra problemas internos, erros de montagem de elenco, mas nada que justifique 12 meses de futebol sofrível.

No final ele escapa. E agora são “heróis”?

Seriam tivessem sido contratados em julho. Mas estavam lá, sabiam que poderiam render muito mais do que isso e entregaram com carinhas de insatisfeitos um futebol de merda por 12 meses pra no final sairem comemorando e, talvez, serem recebidos como heróis.

O futebol é uma benção.

Você não gosta do treinador, não joga. Brigou com o coleguinha, não joga. Tá irritado com o banco, treina menos. E no final, com a garotinha sempre ali te esperando, é fácil se convencer de que você a merece. Afinal de contas, ela sorriu com as flores, né?

Passou da hora de termos uma era de jogadores que entendam que seus salários vem dos clubes. Fases ruins com problemas internos todos passam em qualquer empresa. Mas o brasileiro tem por DNA o conceito de que a empresa é filha da puta, o patrão é malvadão e você o explorado revolucionário. Logo, qualquer rebeldia é justificável.

Burro é o japonês que luta pela empresa entendendo a óbvia relação de empregabilidade baseada no sucesso de quem o paga. Gênio é o jogador que deixa o time cair porque não gosta do treinador.

E ao final de 12 meses de “má fase”, eu pergunto: tão rindo de que?

As férias em família com muito dinheiro no bolso é um motivo. Compreendo. Mas é possível explicar que o time campeão da América se arraste um ano e quase destroi a conquista anterior como se nada fosse e saem aplaudidos por terem “salvado o clube” de onde eles mesmos colocaram?

O futebol virou um grande jogo de FIFA Soccer. Todo mundo acha que tem um treinador com um controle nas mãos e 100% do que acontecer ali é mérito dele ou culpa dele. Isenta-se os verdadeiros responsáveis e todos saem em dezembro rindo como se nada fosse.

“Culpa do dirigente”, “culpa do treinador”, “jogador x que fazia mal pro elenco”. Ora, vão se fuder. Quem te paga é o clube. Jogue por ele, faça o seu melhor por ele e resolva seus problemas entre uma vitória e outra.

Tá na hora de crescer. O Fluminense de 2024 é uma vergonha. E não, nenhum treinador é mais “culpado” do que os jogadores que de um ano pra outro passaram a errar passe de 3 metros.

É bom ser “tricolor” quando campeão e “vítima do treinador” quando rebaixado. Mas a garotinha sempre vai acreditar nessa história, então… foda-se.

RicaPerrone

Vendidos!

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Teimoso é aquele que vê algo acontecer 10 vezes na frente dele e ainda discute como aquilo funciona. O que assiste por 130 anos já ultrapassa esse limite e se torna burro mesmo.

Futebol é cíclico. Sempre foi. Sempre será.

Todo ano tem alguém pra dizer que “daqui pra frente será assim”, e todo ano tem alguém pra ter que explicar que “veja bem”. Não tem “veja bem”, tem lógica.

Time grande não precisa ser refeito. Acerte 11 e um treinador e você está no topo. O impossível no futebol é comprar história, tradição, paixão, gente, poder e grandeza. Quando se tem isso você está sempre a 11 jogadores da glória. Quando não se tem você está a tudo que não se compra dela.

Ver o Botafogo campeão de novo é mais do que um simples investimento. Tivemos dezenas de investimentos enormes no Brasil e a maioria deles não deu em nada porque foi mal feito. Quando você investe de baixo pra cima e numa camisa já pesada e de torcida você tende a vencer.

A vitória do Botafogo é a mesma vitória de 1968.

Naquele momento o futebol brasileiro se moldava a um estilo, criava sua identidade e direcionava gerações até o crime de 1986, onde Telê Santana foi crucificado por preferir jogar futebol do que ganhar a qualquer custo.

Em 2024 o Botafogo novamente da as cartas e mostra pro futebol brasileiro o caminho da nova era: SAF.

“Ah mas o time foi vendido não existe mais!”, diz o otário que em 5 anos vai ter que torcer por um time que não existe mais segundo ele mesmo.

Qual a diferença entre ser vendido e ajudado por movimentos políticos ou corruptos para se manter vivo? Eu lhe digo: a venda é honesta e clara.

Manter um clube corrupto por natureza não é um ato de resistência mas sim de burrice. O clube que hoje não buscar uma SAF é apenas uma estatal onde muita gente gasta o dinheiro dos outros rindo da sua cara.

O Botafogo não se vendeu. Vende-se aquele que precisa de 5 deputados pra conseguir o que quer. Vende-se quem precisa de esqueminha com a emissora pra vender um patrocinador. Vende-se aquele que pega empréstimos que serão pagos sabe-se lá por quem daqui sabe-se lá quantos anos.

A dívida do Botafogo tem nome, sobrenome e endereço de cobrança. E a sua? Quem vai pagar, se pagar, e quando?

Resistir a SAF não é exatamente saudosismo ou romantismo. É não entender que num país corrupto por natureza qualquer tentativa de coletivizar uma administração vai virar um cabide de empregos, esquemas e oba-oba.

O Botafogo não se vendeu. O Botafogo foi o primeiro, por necessidade é claro, a abrir as portas pro novo futebol brasileiro. E por necessidade ou não, como em 1968, lá está o Fogão pegando a caneta e dando direção ao nosso futebol.

Emblemático. Imaginem o quão triste seria ver o futebol brasileiro mudar de rumo graças a um título do Red Bull, de vermelho, sem torcida, sem identidade e sem festa segunda-feira. Tinha que ser pela mistura do dinheiro com a tradição. Tinha que ser via Botafogo.

Me orgulho de ter escrito há 13 anos: “O Botafogo será o primeiro clube a falir e vender. E será o primeiro a reerguer nosso futebol através disso”. Não era difícil a conta. O primeiro a ser vendido seria um clube em maior dificuldade financeira. E aconteceu o que eu imaginava. Inclusive em campo.

Vai haver SAF ruim. Como gestões ruins acontecem em toda parte. O ponto simples é que quando for SAF dá pra repassar. E a dívida tem dono, logo, é mais fácil ser paga do que virar um esquemão em Brasília pra sair do teu bolso.

O próximo passo é termos 8 dos 12 grandes com donos. Nesse dia eles vão se sentar a mesa e discutir como melhorar o bolo e não mais quem vai ter a maior fatia de um bolo pequeno e ruim.

E tudo isso, daqui 100 anos, será contado, de novo, via Botafogo.

Sinceramente, o título em si é menor do que o recado. O Fogão fez história e um dia vocês saberão que o campo foi só pra confirmar pros resultadistas o óbvio.

Sempre foi tempo de Botafogo.

RicaPerrone

E aí, moleque? Falta o que?

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Craque. Desde a base, sempre foi craque. Oscar foi de promessa do “10 da seleção” por uma década para um jogador que brilha na China e não faz parte do nosso dia-a-dia do futebol há anos.

Saiu do SPFC de forma ruim, passou pelo Inter e foi brilhar na Europa. Em 2014, mesmo com 2 gols e 2 assistências na Copa, saiu rotulado pelo 7×1 como todos os demais.

China em 2016. E desde então Oscar sumiu de nossos radares. Um dos melhores contratos do mundo, um dos mais ricos de todos e absolutamente merecido. Ao contrário de muitos que saem de cena pra encostar e ganhar o dele, Oscar é invariavelmente o melhor jogador da China ano após ano.

Nesse, inclusive, bateu seus próprios recordes.

Rico, vencedor, tendo jogado Copa, na Europa, em 2 grandes do Brasil, o que Oscar pode querer? Eu lhes digo: uma camisa.

Aos 33 anos Oscar ainda joga em alto nível. E joga por pelo menos uns 4 anos se quiser.

Mas o vazio de jogadores como ele ao parar deve lhe dar uma nova direção. Se não é por dinheiro e nem por “sonhos”, o que fazer agora após deixar o time chines?

Buscar a camisa, talvez. Pelo menos era o que eu faria.

Daqui 5 anos Oscar vai andar na rua e sentir falta de ser o herói de uma torcida. Talvez daqui 5 anos ele passe na rua e apontem “lembra daquele cara do 7×1?”, o que seria injusto mas a cara do Brasil.

Oscar… Oscar de onde? Que Oscar? O do Chelsea não impacta, menos ainda o da China. Oscar de quem? Falta isso.

Ronaldinho foi buscar no Galo o que perdeu no Grêmio. Ronaldo foi no Corinthians fazer o mesmo. Todos querem uma camisa tatuada pra sempre.

Se eu tentaria trazer pro meu time? Dificil. No meu, especificamente, complicado pela forma que saiu. Mas no de vocês, seja lá qual for, é a melhor aposta pra 2025 no mercado.

Não há indícios de que Oscar esteja em queda, contundido ou de sacanagem. Ao contrário, talvez a saída da China indique uma vontade de estar na próxima Copa. E sim, ele tem futebol pra estar lá.

Adoramos contratar jogadores de alto talento que estão em baixa pra recupera-lo. E porque tanto “porém” pra listar quem está em alta?

Oscar só disputou o cargo de melhor do ano na China quando teve 2 caras pra competir: Renato Augusto e Hulk. Acho que a volta dos dois não requer explicação sobre rendimento.

Temos no mercado hoje a melhor opção pra 2025.

E quem contratar pode ter no time o meia da seleção em 26.

RicaPerrone

Vocês nunca vão entender

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Estou terminando de ver a série do meu super herói. Obviamente emocionante, muito bem feita e focada na carreira de Ayrton mais do que na vida, o que acho sensacional porque a vida de ninguém deveria ser problema do público.

Mas enquanto assisto eu vejo algumas pessoas mais novas que estão próximas a mim e eles ficam impressionados com o que ele fazia. O quão bom ele era, o quanto o Brasil se mobilizava por ele e ao final buscam naturalmente uma comparação atual pra entender o que foi tudo aquilo.

Meus caros “jovens”, com todo respeito, vocês nunca vão entender. Nem passarão perto disso simplesmente porque o mundo de hoje não comporta um Ayrton Senna e nem permitiria que ele fosse o que foi.

Ayrton não era um esportista que nós admiramos. Isso é o Messi, o CR7, o Neymar. Ayrton era a nossa única alegria. Vocês não tem noção do que é ir no mercado de manha porque a noite é mais caro. Nosso entretenimento era coletivo, único, chamava-se futebol. Todos viam o mesmo jogo, discutiam o mesmo tema e acompanhavam todos os clubes. Era um planeta que você nem conheceu, talvez.

Senna não era nosso piloto. Era nosso único motivo de orgulho. A gente se sentia o lixo do mundo sendo brasileiro. Nossos políticos eram ridiculos (nada mudou), a gente não tinha acesso a nada, um telefone valia mais que um carro, nossa seleção não era campeã desde 1970. A gente tinha muito mais motivos do que hoje pra exercer nosso complexo de vira-latas.

Imagine que não tem internet, netflix, série, rede social, filme só o da Globo as segundas-feiras, futebol só aos domingos e o seu meio era restrito geograficamente. A gente só convivia com quem morava perto. Eram os vizinhos, os amigos reais, próximos. Outro planeta.

Por anos nossa alegria foi acordar domingo e antes do almoço em família, que era algo sagrado, comemorar abraçado aos nossos pais a vitória do nosso único brasileiro no mundo que dava certo.

Esse cara fez o domingo em família de milhões de brasileiros ser mais feliz por anos e anos. Ele tirava lágrimas de alegria de um pai que não sabia como seria a semana e se teria como aguentar a inflação pra fazer mercado. Ele fez a gente acreditar que ser brasileiro não era um problema. A Marvel cria super poderes de mentira e nem assim inventou algo tão impressionante.

As melhores memórias das nossas vidas estão num domingo em casa com a família e não na internet ou num computador. Nosso mundo era 100% analogico, humano, real. Ayrton era nosso Batman entrando em Gotan pra salvar nossos dias. As pessoas que o avaliam como um piloto de corridas não tem a menor idéia do que estamos falando.

Enfim, vocês não vão entender. Porque mesmo numa série o foco é o quanto ele era foda pilotando. Mas a melhor das séries seria mostrar uma família miserável, em crise e sem perspectiva se abraçar e comemorar como se nada de ruim existisse por algumas horas.

Ayrton foi o que nós brasileiros sonhamos ser: exemplo. Só que ele fez por onde, a gente é um país de acomodados que aceita o absurdo na nossa cara e ainda briga por ele. Senna era tudo que o Brasil não podia ser. Senna era o filho que a gente queria ter, o marido que elas queriam, o herói que as crianças esperavam e o alívio de uma vida filha da puta que todo pai de família tinha nesse país.

Curtam a série. Pra maioria dos jovens será uma “Casa de Papel” qualquer. Mas saiba, garoto, que você está assistindo talvez a história criada por um cara para que seu pai tivesse aguentado a semana toda esperando por ve-lo domingo.

Saiba que esse cara é responsável pelos abraços mais fortes que muito pai e filho ja deram na vida. E saiba que a gente entende que seja impossível pra você dimensionar, assim como é pra nós resumir Senna num texto, num filme ou até mesmo numa série.

Nosso super herój usava capacete, tinha super poderes, não nos decepcionava e tem um extra que anula qualquer chance dele se repetir: ele era real.

Rica Perrone

Eu queria ser botafoguense

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Eu pensei em 200 temas pra esse texto. É minha primeira vez, tô um pouco nervoso. São 27 anos de carreira, 46 de amor absoluto e descontrolado por futebol. E nesse tempo todo eu só não escrevi ou falei sobre um grande título seu.

Eu me acostumei com seu pessimismo, com suas derrotas e sua frustração. Me adaptei a ter que te compreender quando não estava presente ou quando duvidava do impossível sem notar que o que chamo de “absurdo” você chama de rotina.

Eu senti, algum dia, pena de você, botafoguense.

E nessas últimas semanas eu entendi que não era pena, mas sim respeito por nunca ter sido testado como você. Meu amor é fácil, sempre foi. Nunca foi colocado a prova.

E depois de tudo que esses 130 anos registraram criando frases como “as coisas que só acontecem com você”, você me surpreendeu.

Porque eu esperava tudo do Botafogo, até mesmo o título. Mas eu não esperava que vocês fossem busca-lo. Achei que era um estágio da relação onde, talvez, se te trouxessem na porta de casa, vocês considerariam repensar.

E quando foi colocado a venda os ingressos eu fui um dos que não entendi muito bem o que estava sendo dito. Esgotados? O Botafogo? Porque? Como? Não é racional e nem instintivo investir de novo com tanta perda e tanta dor.

Os dias foram passando, os botafoguenses foram surgindo de bueiros e tomando a América, literalmente. Caceta, eles vão se expor de novo? E dessa vez em maioria? Porque?

Me senti entre o bom senso e a inveja. Por bom senso eu não faria loucuras por um clube que me frustrou tanto. Mas eu invejo imensamente quem agora está abraçado ao seu pai comemorando o que os dois acharam que não veriam juntos. Porra, tua Libertadores foi mais comemorada que as minhas.

Você tem duas formas de “vencer” uma briga. Ou você bate ou você apanha até o limite e se levanta pedindo mais um round. Os dois impressionam.

A toalha já foi jogada no ringue e você sempre chutou ela de volta. Já acabou, sai daí! Você vai se machucar, porra.

E você ficou. Burro, louco, masoquista, sei lá eu que porra é essa.

De onde vocês tiraram fé pra tomar a Libertadores de assalto? Porque foi isso. Vocês ganharam há 20 dias quando deixaram claro quem era o favorito e quem era o azarão. Vocês invadiram outro país, ignoraram os fatos e foram otimistas, sortudos, maioria…

Cadê meu Botafogo?

E agora eu não encontro palavras porque nunca as treinei. Passei 90 minutos olhando pra TV procurando o herói do jogo, o lance, a história pra contar. E nada, nem mesmo o monstruoso Luiz Henrique, me impressionou mais do que você.

A covardia me revolta. O que a vida faz com o botafoguense é covardia.

Precisava expulsar aos 30 segundos? Precisava. Porque você tinha que exorcizar o fantasma do “vai perder de novo”.

Precisava o gol do Galo no tranquilo 2×0? Precisava. Pra você confirmar que nem todo contratempo vai virar uma derrota sempre.

Precisava do gol no final? Sim, pra você ver que nem sempre será com o seu goleiro no chão.

O título do Botafogo teve vinte e poucos coadjuvantes e milhões de protagonistas.

Tendo a procurar quem te deu o título da Libertadores. Mas pra ser justo de verdade, “jogadores vem e vão”, e quem ficou foi você.

Cara, eu nem te conheço. Nem sei como você veio parar aqui nesse blog hoje. Mas saiba que te admiro, te respeito e de certa forma te invejo. Meu amor é frágil perto do seu embora seja também incondicional.

Mas nunca me deram condições pra testa-lo. Você teve todas, as mais dificeis, e agora “vai festejar”. Nao o meu sofrer ou penar, mas a sua impressionante capacidade de suportar o que talvez outros também suportariam. Mas que ninguém pode afirmar, só você.

Hoje eu queria ser botafoguense.

Parabéns. Vivam o melhor e mais justo dia de vossas vidas.

Rica Perrone

Medo de que?

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Caros colegas revoltados, qual o motivo do temor?

Quando Renato diz na coletiva que vai expor os jornalistas que mentem e causam problemas ao clube ele está ameaçando fazer com fatos o que nós temos a prerrogativa de fazer há décadas sem fato algum.

Ou seja, você fala o que quer, acusa quem quer, mas tem consequência. Ou será que das centenas de vezes que jogadores foram ameaçados e até agredidos na rua não foi também consequência de mentiras e suposições midiáticas sobre o que cada um faz da sua vida, por exemplo?

Foi um recado simples para os não burros ou corporativistas: se for ao contrário vocês também estão expostos. E sim, estamos. Bem mais que jogadores inclusive. Só que ninguém tem coragem de peitar a maior massa de manobra do país que é a imprensa por motivos óbvios.

Ninguém ali sugeriu violência. Apenas colocou de forma não muito fofinha que assim como mentiras os expõem ao torcedor, eles também podem fazer o mesmo combatendo essas mentiras.

Justo? Justíssimo, ué.

Porque nós temos o direito de inventar, supor e insinuar sem uma autorregulação por autoproteção com consequências a terceiros e não podemos arcar com as nossas?

Vivemos num país violento. Quando um canalha qualquer segue um jogador na folga dele pra publicar uma foto dele bebendo e no outro dia a organizada vai lá e ameaça o cara você fez parte dessa equação. Não é seu trabalho a vida pessoal de ninguém.

Quando você noticia que um jogador tem amante, qual seu papel nisso? Ou quando expoe supostos salários e premios num país violento? Quem nos deu o direito de falar, perseguir e decidir quem vai ter uma vida em paz ou não?

Quantas vezes jornalistas e influenciadores abusaram do seu papel de torcedor fingindo ser imprensa e geraram uma teoria mentirosa que prejudicou o trabalho de um clube? Milhares? Milhões? E porque eles não tem o direito de rebater mentiras expondo o mentiroso a uma sociedade também violenta?

O mal do jornalista é que ele acredita na idéia de que por manipular milhões de tolos não há os pensantes. E a diferença de Deus pra um jornalista é que Deus não se acha jornalista.

Dito isso, olhemos mais pro lado pra ver as bostas que estamos fazendo ao invés de olhar pra reação com nojinho. Se nem da nossa profissão a gente cuida e exige profissionalismo que moral temos pra encher tanto o saco de clubes, dirigentes e jogadores?

Passou da hora de fechar porta, censurar veiculo e processar jornalista. Só que pra fazer isso tem que saber das consequencias. E elas serão, invariavelmente, as piores possíveis por retaliação a quem não segue a cartilha imposta por um bando de barbudo revolucionário que acha que entende de tudo sem nunca estudar sobre nada.

Mentira é fake news. Vocês não eram contra elas outro dia, ou quando atinge a classe é ameaça?

E vocês, clubes, deixem de ser burros. Voltem a zona mista e parem com coletiva. Assim os profissionais escolhem com quem falar e quem mentir volta pra casa sem material. Rapidinho ele para e começa a agir com fatos e não com o maldito e inescrupuloso “direito a preservar fonte” pra falar o que ouve como se fosse verdade.

RicaPerrone

Qual o problema?

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Eu não gosto de torcida organizada. E não gosto com credencial, pois já fiz parte, apanhei, tive meu direito de entrar em estádio vetado por mais de um ano graças a marginais blindados por suas diretorias que resolveram matar quem tava do outro lado. Dito isso, separemos o não gostar com achar 100% ruim.

A Gaviões da Fiel fez um projeto pra arrecadar 700 milhões com sua torcida pra ajudar a pagar a Arena do Corinthians. Alvo de críticas, elogios e piadinhas, eu acho muito interessante e vou além.

Não será 700 provavelmente. Mas será uma quantia que ajuda a pagar as contas. E isso feito cria-se uma narrativa sobre a torcida ter pagado o estádio que daqui 100 anos será contada como parte da história do clube.

Aumenta-se o engajamento e a sensação de pertencimento do torcedor. Diminui a dívida e evita o vexame de ter seu estádio amanhã pago ou doado por algum governo corrupto disposto a ganhar voto em cima da sua paixão.

Você acha que se não pagarem algum político vai pedir de volta e perder os votos alvi-negros? Óbvio que isso iria virar a maior pizza de São Paulo. Ninguém mexe com torcedor tendo seu cargo baseado em aceitação popular.

Logo, por obviedade, que mal tem numa torcida se mobilizar pra ajudar seu clube? É dinheiro voluntário, não de impostos. É pra quem pode ajudar, não pra quem está em situação ruim. É liberdade e portanto é o que defendo como zero um na vida.

O Corinthians tem a torcida mais engajada do país. Sempre teve. Parte disso está no fato de ter a sua massa na cidade onde o dinheiro mais roda. E por consequencia é inteligente entender que dali pode sair o maior índice de participação de uma campanha desse tipo.

Parabéns aos envolvidos e a cada corintiano disposto a ajudar. Que mal tem comprar a casa própria? Talvez você não tenha a sua, como eu não tenho a minha, mas é bom demais saber que coletivamente temos “a nossa”.

RicaPerrone

Incriticável

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O que mais vence, o mais competitivo, o que melhor revela e vende, o que mais fatura com bilheteria e prêmios, o que mantém o treinador, o que tem o maior patrocinio do país, um dos melhores estádios, uma estrutura que funciona e um time competitivo o tempo todo.

Esse é o Palmeiras dos últimos anos. Talvez desde 2018, talvez um pouco antes, um pouco depois. Fato é que o Verdão compra menos que seus rivais, ganha tanto quanto ou mais e ainda se dá ao luxo de ser hoje o maior lançador de jovens jogadores do país.

Ah! Importante. A base do Palmeiras inesxistia até outro dia. Hoje ganha tudo que disputa e entrega pro principal de balde.

Como é que você pode criticar a administração desse clube? Tem erros? Claro! Mas olhando em volta o baile é tamanho que deveria gerar constrangimento fazer fortes críticas ao Palmeiras.

Competitivo até quando não está bem, o Verdão mudou de patamar sem uma SAF. Ampliou suas fontes de receita e conseguiu corrigir seu maior defeito que era a base. Tirou o “esqueminha” da organizada, aproximou o sócio, ganhou tudo que podia e quando o ciclo natural de um time na América começa a dar sinais de desgaste… chuva de críticas, dedos apontados e até xingamentos ao treinador.

O futebol sempre foi cruel e apaixonante. Mas mesmo a paixão que é o mais descontrolado dos sentimentos precisa de bom senso as vezes.

Ninguém se isenta de críticas embora com a internet elas venham massivamente de quem não tem credencial pra faze-las. Mas em alguns casos as vaias são abafadas por fatos. E é fato que esse Palmeiras não pode ser vaiado.

Talvez numa noite ruim, num lance especifico ou numa alteração qualquer. Mas protestos, análises eufóricas e alucinadas de terra arrasada pra um clube que há anos entrega o que nem você mesmo sonhou um dia é um tanto quanto assustador.

Influenciadores tomaram de assalto a função de pensar futebol por incompetencia da imprensa, não só pela ideia em si. De modo que reclamar deles é meio complicado pra quem sempre se escondeu num diploma pra fazer quase a mesma merda.

Mas o desespero por clique leva essa galera a viver de céu e inferno todo santo dia pra ser o mais sensacionalista possível. Veja você, quem mais criticava a imprensa por ser sensacionalista hoje é mais ainda quando teve nas mão a decisão entre o clique e o bom senso.

Influenciados ou não, mimados por essa geração que não sabe se frustrar, cresce uma onda de imediatismo doente onde qualquer coisa bem feita é jogada no lixo pela última noite.

Vivemos no país onde o Felipão, ídolos em 2 países, campeão mundial, ícone da profissão no mundo com mais de 35 anos de sucesso é julgado por 90 minutos. Onde o Zagallo morreu sendo questionado e não ovacionado.

Mas ainda que seja o normal devemos nos revoltar.

Ao Palmeiras, meus caros, apenas os aplausos. Um erro aqui, outro ali, mas a grosso modo aplausos e mais aplausos porque o que foi feito, pelo tempo que tem sido feito, não é comum.

Do fundo do poço de série B para o domínio continental do futebol em todas as áreas. E isso sem um investimento de terceiros do dia pra noite.

Noite, aliás, como a de ontem, onde as coisas não deram certo. E no meio disso tudo surge um grupo que sustenta e esconde bandidos dispostos a hostilizar seus ídolos porque a mamata acabou.

Cuidado com os não palmeirenses. Torcedor que ostenta mais a camisa de uma organizada do que a de um clube não é torcedor mais. Virou membro.

O Palmeiras hoje poderia vender consultoria como vende jóias reveladas em sua base. Na incapacidade nacional de buscar conhecimento com quem acerta, procuremos defeitos nas vitórias pra explicar nossos fracassos.

Criticar o Palmeiras ontem é do jogo. O Palmeiras em sua gestão e resultados numa amostragem real e não um recorte de semanas é cruel, covarde, quase burro.

Nunca houve um Palmeiras maior. Melhor, em campo, muitos. Mas fora dele, como instituição, jamais chegou perto de ser o que é hoje.

Criticar o Palmeiras e apontar o dedo pra essa gestão, tanto técnica quando administrativa, pra mim seria um ato de arrogância que não vou cometer.

Até porque, sabe-se lá se daqui 1 semana ele não estará dando outra volta olímpica…

RicaPerrone

Negar os fatos não os altera

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Vitória enorme do Fogão ontem e com ela a volta da euforia e confiança. Normal, justo, qualquer um reagiria assim.

Mas negar fatos pra comprar discurso de “contra tudo e todos” usado por 100% dos clubes envolvendo torcedores na narrativa mais fácil e vazia do mundo é um tanto quanto perigoso as vésperas de novos fatos.

Se um raio cair 10 vezes no mesmo lugar é tolo alguém dizer, numa chuva qualquer, que “chupa! Hoje não caiu”.

Nunca ninguém vai achar que todo raio vai cair ali, mas sim que cai mais do que na média. O que é fato. Brigar com fatos costuma dar errado. E os fatos dizem que sim, o Botafogo tem um fantasma histórico em decidir grandes jogos. Qualquer pessoa que tente desmentir isso ou dizer que é criação da imprensa pra perseguir o clube é um tremendo maluco.

Não se briga com fatos. Se trabalha pra mudar os próximos quando eles são desagradáveis. Ignorar os problemas não os resolve. A chuva de revolta contra a verdade absoluta da falta de poder de decisão histórica do Botafogo ontem nas redes sociais é um misto de paixão, overdose pós jogo e burrice.

Respeito as 3. São involuntárias. Mas por não sofrer da última preciso refuta-la.

Sim, o Botafogo perdeu 6 pontos que não deveria ter perdido nas partidas contra Criciuma, Vitoria e Cuiabá em casa. Sim, o Botafogo toma gols no fim que os levam a situações incomuns, mesmo quando consegue vencer. Sim, o Botafogo está há decadas sem ganhar nada e parte disso está na falta de capacidade de decisão.

Todos os fatos citados acima são indiscutíveis. Como bem disse, são fatos e não ideias.

Você pode brigar contra eles, mas nega-los é uma loucura e, pior, um passo para mante-los. Ontem o Fogão conquistou uma vitória grandiosa. A “burrice” entra aí. Na hora que você dobra a aposta e cria um cenário de vida ou morte.

Porque, veja, seria uma pipocada perder pro Inter no Beira Rio ou uma final de Libertadores? Não, nunca. Pro Botafogo, será. Porque? Porque o torcedor vai do inferno de assumir as “pipocadas” num dia pra euforia de peitar o mundo com os “cade a pipoca filhas da puta” do dia seguinte.

Todo botafoguense sabe e convive com o fato do clube ser, historicamente, um perdedor de jogos improváveis. Toda vez que o Botafogo vence um jogo difícil ao invés de seguir o ritmo pra conquista parte da torcida joga um “all in” na base da teoria fácil, pobre e vazia do “contra tudo e todos” e pressiona o próprio time a não repetir a história.

Adivinha quem fica mais vulnerável e pressionado? O proprio Botafogo.

O pessimismo não é menos impactante no clube do que a obrigação de ganhar ou ser um vexame. E toda vez que essa briga vem a tona o botafoguense coloca o clube entre a glória e o vexame, sem a naturalidade da derrota que cabe a todos.

A briga do Botafogo é contra ele mesmo. Toda vez que ele joga essa briga pra fora ele perde porque torna uma decisão num risco de vexame e não de derrota.

Embora não seja o caso, o botafoguense já conseguiu elevar as duas decisões para caso de glória ou vexame tamanha insistência em criar uma narrativa de perseguição global que por obviedade não existe. Ao contrário, existem até rivais torcendo a favor tamanho o periodo sem competitividade.

Se “contra tudo e contra todos” é uma frase feita que os agrada, que tal incluir-se no todos? O Botafogo joga contra um adversário, a história, os rótulos adquiridos por ele mesmo e também contra o céu e inferno que a própria torcida o coloca toda vez que a bola entra.

Se sábado não der certo, embora qualquer análise honesta leve a um resultado normal, será taxado como “pipoca” e “vexame”. E muito disso é sustentado por essa briga burra contra “tudo e todos” quando na verdade o maior adversário do Botafogo sempre foi ele mesmo.

Se os fatos e a história o pressiona, não crie mais um empecilho pra essa decisão. É o melhor Botafogo de décadas. Mas ainda assim é um jogo, tem 11 do outro lado e a bola é teimosa e cheia de vontade própria.

Não haverá “vexame”. É contra o Galo em jogo único e o Inter lá. Pode haver glória, isso sim. O que não faz dos fatos anteriores mentira. Apenas história.

RicaPerrone