2008

Pai, acabou!

Pai,

Espero que esteja bem onde estiver. Hoje trago a notícia que você mais esperou nos últimos 15 anos, e não, não é outro neto. É só a sua carta de alforria.

Sei que você, como eu, é um escravo de 4 de julho de 2008. Embora o senhor tivesse vivido a Copa de 50, sabemos que a dor de um bando é mais dolorosa que a dor de todos quando você faz parte dele.

Você saiu daquele jogo com lágrimas nos olhos mostrando uma fragilidade emocional que eu desconhecia. E hoje eu choro com seu neto no colo saindo do Maracanã, de onde acho que nunca saimos desde aquela noite.

Eu queria te agradecer, pai. Não fosse você eu não teria o Fluminense na minha vida. E não fosse por isso seu neto também sequer teria vivido a primeira insonia da vida dele ontem.

Foi parecido, pai.

Viramos jogos absurdos, passamos o rodo na primeira fase, jogamos pra frente, bonito, no chão, como você dizia que deveria ser.

Agora a final é uma só. Igual na Europa, só que aqui não dá certo. Ainda assim está mantida. Eles escolhem o local da final um ano antes e anunciam. Quando falaram “Maracanã” pra 2023 todo mundo olhou pro rival, mas a gente sabia que a história não estava ali.

Você empurrou daí o Valência, né? Eu quero acreditar que sim. Pelo menos foi isso que contei pro seu neto, que hoje o tem como herói do título pela intervenção.

Nosso Thiago Silva se chama Nino. Nosso Thiago Neves é o Ganso. Nosso Washington é o Cano, um argentino, quem diria?

O Renato de 2023 é o Fernando Diniz. Ele é maluco, pai! Tira zagueiro, coloca atacante, chegou a seleção até. Mas esse foi o primeiro título grande ele. Nós o adoramos, pai.

Eu daria o mundo pra te abraçar hoje. Mas ainda que não possa te tocar, posso ao menos tentar te contar.

E foi isso, pai. Ganhamos! Somos campeões da América.

Acabou. Pode descansar em paz. Você não estava maluco, o Fluminense foi mesmo campeão da Libertadores. Só que demoraram 15 anos pra confirmar o que a gente viu e disseram não ter acontecido.

Te escrevo de novo no Mundial. Quem sabe?

Saudades.

Dedicado a todos os tricolores que estiveram com seus pais em 2008 e não puderam abraça-los em 2023.

RicaPerrone

Ateus tricolores

Dizem que Deus existe e quase todo mundo acredita nisso. Alguns por medo de duvidar e ser punido, outros por ter no que se apegar, outros por mera lavagem cerebral. Há quem diga conversar com ele, há quem acredite ter visto.

Existe de tudo, menos a certeza.

Certeza teríamos se a lógica da tal justiça divina fosse clara todo santo dia. Não é. E não sendo, testa nossa fé.

A fé nada mais é do que uma dose de esperança no imponderável.  É a não justificativa do que esperamos para nós mesmos, merecendo ou não.

Torcedor do Flu tem fé. Poderia te-la perdido quando na série C, mas manteve. A testou em 2008 exaustivamente e lá estava ele, o tal “Deus”  dando provas de sua existencia naquele gigantesco Maracanã.

Contra o Arsenal, Deus desenhou. Contra o São Paulo, Deus existiu. Contra o Boca, Deus se divertiu. Na decisão, onde usou sua geografia para equilibrar o impossivel através da altitude, preparou um cenário perfeito para mais um de seus milagres.

Lá estavam seus fiéis, seus instrumentos e a hora marcada. O mundo todo assistiria ao milagre ao vivo, mas Deus não entende nada de futebol.

Em 82 mostrou isso e foi “suspenso” por si mesmo permitindo que naquilo não houvesse lógica ou qualquer senso de justiça. Desde então transformaram um esporte numa “caixinha de surpresas”, excluindo qualquer justiça divina de seus placares.

Ele voltou. Queria provar que os anos de observação lhe deram o dom do entendimento sobre o tal futebol. Deus criou o homem, o homem criou o futebol e Deus achou graça no que fez.

Durante todo o caminho acreditavam ser dele as ordens para um roteiro tão dramático, perfeito, justo, épico e cruelmente apaixonante.

Até que ele permite a virada, o herói, o espetáculo, o drama, menos o final feliz.

Naquele dia quase 100 mil tricolores no estádio e outros milhões de suas casas dormiram ateus. Não havia lógica, justiça, argumentos suficientes para convencer ninguém, nem mesmo o diabo, de que aquela gente sairia dali chorando e não sorrindo.

Todo o caminho para se chegar a lugar algum? Cadê seu Deus, perguntava o ateu?

E de fato, ninguém sabia.

O diabo, que se vestiu de Hector Baldassi naquela noite para assistir sua arte de perto, sorria.

Infiéis, sairam calados, aplaudindo por obrigação o que nunca entenderão ter tido um final infeliz.

A maior e mais dramática história de um torneio jamais será contada como glória, mas sim como tragédia. Talvez porque tenha que ser assim, se sua fé for tamanha para acreditar.

Ou talvez porque ele nem exista, se sua razão lhe permitir ponderar.

Ou, na mais provável das alternativas, porque ele não tenha tido nada com isso e os milagres tenham sido operados pelo Fluminense, não por alguém lá em cima.

Deus, existindo ou não, dizem controlar todas as coisas. Só o futebol que não.

Este ele deixou pro diabo se divertir.

Mas a incompetência satânica é tamanha que mesmo para verdadeiros atentados terroristas como aquela final em 2008 há uma injustiça divina.

Assim como Thiago Neves, mesmo sua enorme competência pode passar desapercebida num dia incomum.

E por isso o diabo fez o que fez, e no final todos levavam as mãos a cabeça para dizer: “Meu Deus do céu…”, incrédulos.

Porque o título pode ficar onde o diabo quiser. A história ficou nas Laranjeiras.

Graças a Deus.

abs,
RicaPerrone

Foi só futebol

Em 2008 Valdívia marca o segundo gol do Palmeiras sobre o São Paulo e elimina o tricolor.  Na comemoração, muda de direção e passa na frente do Rogério para mandá-lo calar a boca com um gesto.

Rogério não gosta. No meio de um empurra-empurra, dá um “tapa” no rosto do chileno.

Dois dias de discussão na tv para tentarmos achar um vilão e um mocinho, ou, no máximo, dois vilões.  Valdívia é um tremendo folgado, Ceni um puta cara cheio de si.  O encontro dessas duas personalidades não daria certo no Big Brother, num emprego, nem num campo de jogo.

É do jogo. Basta ter jogado pra saber.

Você tem todo o direito de ser marrento e provocar, desde que saiba o que isso vai gerar. Hipocrisia  condenar o Ceni por se irritar com Valdívia.  Quem não se irritaria?

E o chileno, por sua vez, faz isso contra o SPFC e contra o Itaperuna. É dele, e apanha o suficiente por isso.

O gesto de Valdívia alimenta o futebol.  Se eu fosse o Rogério, teria enfiado o pé nele, exatamente como tentou fazer. Mas também, se eu fosse o Valdívia, talvez fizesse questão de passar de novo na frente do Rogério comemorando a vitória.

O problema é que estamos sempre dispostos a nos colocar apenas em um dos lados.  E dependendo do que for, achará um vilão e um mocinho.

“Ah mas o Valdívia não fez nada!”.

Fez, claro que fez.  E dai?! Qual problema se ele é provocador desde que aguente as consequências?

Não vejo mal nenhum numa dancinha que menospreze o adversário. Desde que o dançarino apanhe sem se fazer de vítima.

Ação, reação.  Futebol.

Só isso.

As “lindas cotoveladas de Pelé” são hoje os detestáveis “jogadas de mau caráter”.

É a nova geração. Aquela onde o Merthiolate não arde…

abs,
RicaPerrone