Brasileirão

O medo e a obrigação

O Fluminense tem por característica principal e distante da segunda colocada a superação. Esse time tenta com o que tem, o que não tem. Corre, luta, briga e camufla a sua fragilidade com dedicação e a não cobrança da camisa que veste.

Eu explico.

Se o Fluminense tivesse sendo cobrado pra ser campeão com esse time estaria em crise e perdendo jogos. Exatamente o descrédito está dando a eles o espaço para serem surpresas embora num time grande.  É difícil “surpreender” em time grande. Ele sempre carrega com ele a esperança de títulos.

Esse Fluminense “ganhou” o direito de jogar como der desde que corra. O outro lado, não.

O São Paulo tem time, investiu pesado e tem por obrigação que jogar mais do que joga. Não tem obrigação de vencer o Flu no Rio. Não é isso. Mas tem por vocação e elenco que não se acovardar.

Um primeiro tempo bem desenhado pelo que deve ser de véspera. O melhor time peitando mesmo fora de casa e ganhando o jogo até. Aí vem o segundo tempo e a gente precisa conversar sobre ele.

O Abel Braga mandou o time pra frente gradativamente na medida em que via que o SPFC não teria nenhum problema em não jogar os últimos 45 minutos.

O Aguirre tem uma característica uruguaia detestável:  Se tiver que se defender, ele enfia os 11 atrás e que se dane. É curioso porque uma das críticas que eu mais fazia a ele no Inter da Libertadores 2015 era exatamente essa. Ele abria mão de jogar sem cerimônias quando ganhando.

É comum o perrengue no Uruguai. Mas não é necessário aqui, ainda mais num pontos corridos.

O Fluminense jogou um ataque x defesa o segundo tempo todo e fez o gol merecidamente. Não se abre mão de jogar futebol impunemente.

Segue o Fluminense empolgando pela luta, o São Paulo tentando convencer seu torcedor de que não será mais um ano a toa.

E o Fluminense anda argumentando bem melhor que o São Paulo com sua torcida.

abs,
RicaPerrone

“Que homem!”

O rubro-negro quando feliz brinca sobre Diego dizendo “que homem!”.  Afinal, para elas ele é lindo. Para eles, se dedica, é profissional e joga muito.  Para uma dúzia de imbecis dispostos a quebrar patrimonio alheio por causa de futebol, não.

Esses acham o Diego um merda.  Para eles, por ser a personificação do “new Flamengo”, ele deve pagar a conta. Já escrevi sobre isso. E mesmo entendendo que alguns pensem assim, é absolutamente inexplicável o destempero humano que acompanha o Flamengo.

Seu torcedor é o mais fácil do mundo. Ele se convence que o Diego não presta na mesma velocidade que o pede na Copa do Mundo. Hoje, após o episódio do aeroporto, Diego fez o que a imprensa não consegue fazer há 50 anos. Separa-los.

Eu vou me usar de exemplo pra não atingir terceiros. Eu provavelmente no lugar dele mandaria a torcida tomar no cu após o gol. Não porque eu ache certo, mas porque meu nível de vingança e “fala agora seus cuzão!” estaria tão alto que eu seria incapaz de pensar em algo fofo, inteligente e de frutos imediatos.

O cara correu o campo e um destemperado como eu já pensava: “vai manda rola pra torcida…”.

Mas não. Ele foi lá e abraçou os caras. Porque?

Porque ele é assim. Ele pensa, as vezes até demais. Ele calcula, tanto que nem se identifica com a loucura que é ser Flamengo. Ele tem calma, coisa que rubro-negro nenhum no mundo tem.

Ele sabe que bastava um gol, duas vitórias e em 1 semana o Flamengo pode estar líder do Brasileiro, classificado na Libertadores e encaminhado na Copa do Brasil.

E aí é “aeroFla”, cheirinho, hepta, a porra toda.  Porque mais inteligente do que a maioria de nós, ele não quis desabafar. Ele quis ser o marco de qualquer possível conquista deste Flamengo católico de 11 filhos únicos.

Se funcionar, ele será o cara que abraçou a torcida na hora do racha. Se não funcionar, ele será aliviado porque não reagiu, ajoelhou e deu à nação o que ela mais adora: o status de soberana no clube.

Diego é um craque. Se não com a bola, com a cabeça. E não me refiro ao gol.

abs,
RicaPerrone

Está acontecendo. Vá!

O Fluminense entra em 2018 pra ser coadjuvante. O torcedor quando para pra pensar encontra fórmulas malucas de imaginar seu time campeão mesmo nessas condições. E encontra.

No imaginário tricolor, se esses meninos dão certo, encaixam, o time abraça a alma de guerreiros e seguem firme dá pra sonhar com a Sulamericana e não passar sufoco no Brasileirão.

A tabela do campeonato dará ao Fluminense 5 jogos no Rio nos primeiros 7. As duas fora são Corinthians (perdeu na estréia) e Vitória.  Está bem claro o cenário. É pra vencer, pontuar e afastar o sufoco logo de cara, em nome de um ano tranquilo e dando paz pros meninos funcionarem.

O espírito baixou. Primeiro na Sulamericana onde o adversário fez um jogo virar guerra pela cera. Agora pela burrice e violência do Gilberto que transformou um jogo em outra apresentação monumental de superação.

Sob eufóricos aplausos o Fluzão deixou o Maracanã como não era previsto em 2018: forte, fechado com a torcida e criando expectativas.

Vá! Quando tem Deco, Fred, Conca qualquer um vai. Vá agora, que não é pelo show, é pelo clube.  O ano do Fluminense pode ser redesenhado nas próximas 4 semanas.

Não tem milagre é na vida. No futebol tem sim, ele só aparece pra time grande e vocês estão cansados de saber disso.

abs,
RicaPerrone

Relatório completo de público no Brasileirão de 2012 a 2017

Uma das coisas que o torcedor mais gosta de discutir é o desempenho dele mesmo perante seu clube na arquibancada.

O ADMKT é o Grupo de Pesquisa e Extensão em Marketing e Comportamento do Consumidor da Universidade Federal de Goiás (UFG). Fundado em 2012 pelos docentes e pesquisadores Marcos Severo e Ricardo Limongi, professores efetivos da UFG, o grupo foi criado com o objetivo de promover atividades da área de marketing realizadas no âmbito da instituição de ensino.

Pois este grupo fez uma incrível pesquisa sobre o público do futebol brasileiro dos campeonatos brasileiros de 2012 até 2017.

A comparação começa com a Premiere League, na Inglaterra. E logo se tem a discrepância de público dentro dos estádios.

Dessa forma, o objetivo deste relatório é responder diversos questionamentos relacionados ao Campeonato Brasileiro de Futebol, não somente aqueles que tratam do público pagante e da taxa de ocupação nos estádios, como também os que se relacionam ao desempenho das equipes de futebol.

O contexto brasileiro é particularmente marcado pela existência de 12 grandes clubes, que concentram 53 dos 59 títulos dos campeonatos brasileiros disputados desde 1959, época da primeira edição da Taça Brasil.Conhecer detalhes da dinâmica do principal campeonato de futebol do País é importante, principalmente se for considerado que os principais clubes brasileiros ainda se veem diante de problemas estruturais e organizacionais crônicos, como más condutas de gestão.

Dirigentes e profissionais de marketing que atuam nessa realidade pouco sabem dos fatores que determinam a presença de público nos estádios ou o desempenho das equipes no campo.Poucos são os clubes realmente prossionalizados que organizam ações administrativas baseadas na racionalidade da análise de dados. Entretanto, esse cenário começou a mudar nos últimos anos, com isoladas iniciativas de prossionalização e responsabilidades scal e administrativa. A apresentação do “Relatório ADMKT de Presença de Público nos estádios brasileiros”acompanha esse movimento e se apresenta como fonte de informação para gestores de clubes, prossionais de gestão esportiva e da imprensa especializada

O primeiro gráfico mostra o público médio e também o “desvio” padrão. O “desvio” é como uma margem de erro. É a média de público oscilando pra cima e pra baixo perante o público médio.

A seguir temos um gráfico para mostrar em ordem essas médias de público ao longo deste período.

A seguir a taxa de ocupação, que está sempre diretamente ligada ao público médio em virtude da capacidade de cada estádio.

Temos, então, outro gráfico interessante. A comparação entre começo e final de campeonato, para verificar se as torcidas se comportam regularmente, só nas finais ou só num começo empolgante.

Em seguida uma série de gráficos que indicam o comportamento do torcedor para ir ao estádio no Brasil, e até a sua relação com o resultado.

Esse trabalho detalhado e muito interessante para discussão sobre o futebol brasileiro foi feito pela equipe abaixo, a quem agradeço pela preferencia em ter disponibilizado a este blog primeiro.

O combustível

Se imagine ator. Você entra no teatro e tem 40% de lotação.  Você fará seu trabalho, é claro, mas não fará o seu melhor. Simplesmente porque a primeira reação que você teve ao pisar no seu local de trabalho foi de frustração.

Aquele público te diminui. Te diz que você não é esse sucesso todo e inconscientemente você produz menos do que poderia.

Quem me explicou isso uma vez foi um amigo ator. E logo levei ao futebol. Quando perguntei, na mesma mesa, para um jogador e um treinador, ambos concordaram que era “exatamente isso” também no futebol.

Um estádio vazio é a garantia de um jogo menor. Toda vez que há um estádio cheio, o jogo tende a melhorar pelo simples fato de haver platéia.  Jogador de futebol vive de vaias e aplausos, e todo jogo que gere interesse é também de maior intensidade.

No Pacaembu, ontem, o ex-morno São Paulo empatou um jogo que deveria vencer. Mas pelas circunstancias, esteve perto de perde-lo.

Não fosse o estádio cheio, o ambiente de grandeza a sua volta, fatalmente o 2×0 viraria vaias, “olés”, melancolia e explicações no final.  Um jogo de futebol tem todo seu sentido na arquibancada. É pra eles que jogam, é pra lá que correm no gol, é pra lá que se viram pra pedir silêncio.

Um jogo sem torcida perde mais do que uma torcida sem um grande jogo.

abs,
RicaPerrone

Saber amar

Todos os clubes passam por momentos ruins dentro de uma temporada.  Alguns passam a maior parte do tempo, outros um curto período. Seja qual for, é suficiente para inflamar a torcida contra ele.

Em 99% dos casos se “cobra” mesmo diante de um time que não merece. Em 1% dos casos se faz diferente, e por isso faz diferença.

Quando o corintiano meteu 30 mil pessoas pra ver o treino há 4 jogos sem vencer, deixando o maior rival encostar na tabela foi o entendimento do cenário que só raras relações de cumplicidade são capazes de proporcionar.

Entre o “não entreguem essa taça pra eles ou eu mato vocês” e o “NÓS não vamos entregar”, o corintiano escolheu a segunda. E talvez por isso a taça esteja tão mais perto agora.

O primeiro tempo do Corinthians não foi de um time pressionado a não errar, mas sim de um time empurrado a acertar.

“Vamos, vamos Corinthians…!”, e eles indo.

Tiveram tudo para perder hoje pressionados pela mídia e ver o rival chegar. A crise rondou, bateu na porta, mas a chave estava com a fiel torcida.

Hoje é dela. Os 3 pontos de hoje vieram de Josés, Matheus, Andrés, Leonardos, Priscilas, Fernandas, Rodrigos… e também de Jôs, Romeros e Cassios.

Quando a vida pergunta de que lado você está, ela só quer saber se você é oportunista, traira ou fiél.

E alguns rótulos não existem a toa.

abs,
RicaPerrone

É assim, sim!

Não me venham os esquerdistas da bola fazer de cada possibilidade de polêmica uma discussão hipócrita sobre comportamento, violência e educação.

“Mulheres e crianças no estádio e o jogador coloca a mão no pau”.  Ah, e nos demais 90 minutos onde ele foi xingado de todos os palavrões do planeta por 50 mil pessoas a volta das mulheres e crianças… tudo bem?

Estádio é estádio. Desde que se permitiu culturalmente que os dois lados se provoquem sem limites o tempo todo, não é aceitável e nem muito honesto querer que um dos lados não possa reagir.

“Ele é jogador. Não pode”.

Pode!

“Se fosse no teatro…”

Você não xinga um ator no teatro. E se xingar vai expulso.  É parte do futebol o seu direito de passar a tarde provocando alguém, a dele de reagir e deveria ser a sua de aceitar isso com alguma naturalidade.

Mas é 2017, não tenho qualquer perspectiva de bom senso enquanto o mimimi vencer no grito.

Pedra no ônibus pode machucar alguém. Teve. Nenhuma polêmica sobre. Mão no pinto, manchetes e mais manchetes.

Somos viciados em procurar o problema menos problemático para resolver com mais urgencia.

O que fica deste jogo pra mim é a boa apresentação do SPFC perto do que vinha jogando, o controle do Corinthians em não se apavorar e fazer um bom segundo tempo, e alguns lances isolados.

O chororô do final sobre arbitragem eu não concordo, acho o Petros um puta de um hipócrita, pois se “sabe de algo” porque só falou quando virou rival? Quando convém é silêncio?  Vindo do mesmo cara que bateu no juiz e tentou dizer que foi uma trombada, não me espanta.

Me espanta é mídia fazer do jogo, do Z4, do líder isolado e de tudo que houve no Morumbi uma discussão quase policial sobre tudo, menos sobre futebol.

Resultado normal.  Lances discutíveis, nenhum “assalto” a lado nenhum. E nervos a flor da pele, como deve ser um bom clássico.

Segue o jogo. E pára de viadagem.

abs,
RicaPerrone

Não adianta homeopatizar a queda

Todo saopaulino que encontro puxa o mesmo assunto: o possível rebaixamento. Diante de um rival bancamos firmes e valentes que “nem fudendo”. Entre nós, como toda torcida, a conversa é outra.

Saopaulino é o cara que menos quer cair no mundo. Ele passou a vida jurando que “ele não”. E quando alguém sugeria a idéia de um dia, talvez, quem sabe, a brincadeira virava arrogancia e de fato era tratado como “impossível”.

Não é. Nunca foi. Hoje menos ainda.

E na medida em que as rodadas passam a gente tenta blindar nosso próprio coração do impacto da dor da queda. Então, mesmo mentindo, porque vamos acreditar até o último ponto possível, a gente finge que está se adaptando à queda.

Não adianta homeopatizar. Vai doer se acontecer, e vai ser só no dia que de fato acontecer.

Aos poucos, aceitando devagar, tentando racionalizar paixão, perda de tempo. Você pode até estar esperando, mas a sua dor não será menor.

E será nova, se for. Por isso mesmo você não saberá como tratá-la.

Com incentivo, Morumbi cheio, fé, a única chance. O Titanic afundou tocando violino, não adianta fazer de conta que está tudo bem, porque quem tocou violino também se afogou.

É hora do panico.

“Ah, veja bem…”.  Veja bem é o caralho. O time apanha em casa de Coritiba, empata com lanterna, com a Ponte, toma goleada do Palmeiras… não tem “veja bem” mais.

Troca o técnico, compra jogador e faz dívida.

Se é pra ser rebaixado “como os outros”, tenha a humildade de se nivelar e tentar o que muitos deles tentaram e escaparam quando nessa situação.

Diretoria, faça uma “besteira”! Não será maior dos que as que vocês planejam. Prometo.

abs,
RicaPerrone

Só garotos

Hoje eu não ia no estádio. Estava num dia ruim, numa semana horrível. Nem queria ir, pra se ter idéia. Mas, meu amigo disse que não iria também se eu não fosse. Então, como que por instinto masculino de companheirismo eu logo disse que “então eu vou”.

Fomos.

Lá chegando pegamos nossos ingressos e fomos até a arquibancada do São Paulo. Tem um detalhe aí relevante pro contexto da história que quero contar.  O amigo em questão é o ator Caio Paduan, da Globo. E eu, num estádio, estou entre leitores. É o único lugar do mundo que sou “conhecido”.

É um pouco desconfortável. Por mais que seja frescura, você reage mais timidamente ao saber que pessoas te olham e te conhecem. Então, comportados, nos sentamos e assistimos ao jogo.

1×0. 1×1. 2×1. 3×1. Fudeu.

“Vamos cair”.

38 do segundo tempo. 3×1 pro Botafogo. O placar avisa: “Torcedor visitante, saia antes dos 40 minutos ou apenas após toda a torcida do Botafogo deixar o estádio”.

– Vamo?
– Vamo né? A gente tem que dar a volta pra pegar o carro…
– Só mais esse lance. Vai que…
– É, vai que…

Gol! Ficamos.

 

E nos 6 minutos seguintes não havia dois adultos sentados mais ali. Menos ainda qualquer cerimônia pelo fato de algumas pessoas saberem de quem se tratava.  Era pulo na cadeira, abraço no tio do sorvete, pica pra torcida adversária, gritos inconsequentes de músicas que nem sabíamos cantar.

Em determinado momento o hino ecoava pelo silencioso Nilton Santos. Nós cantávamos o orgulho de ter buscado o empate quando, no meio disso, Marcos Guilherme é lançado, Deus abre as nuvens sobre o estádio, aparece e grita “não cai, porra!”.

Sim, eu vi Deus. E ele falou “porra”. Juro.

Ali, naquele minuto, um jovem estreante que até ontem mal sabíamos o nome, fez dois adultos voltarem a ser apenas garotos.  Não havia mais qualquer problema na minha semana, e o Caio sequer sabia que precisava da voz pra gravar novela. Futebol em estado puro. Amor incondicional, real e surreal.

Jogos para sempre. Dias que valem a pena ter vivido. Momentos que colocam a vida no lugar.  Se eu tinha problemas, não lembro. Se por algum motivo eu pensei em sair com 40 do segundo tempo, foi por mera burrice e falta de memória de que se tratava de uma partida de futebol. Um surto.

Peço perdão aos deuses do futebol por tal absurdo ter passado em minha mente.

Fomos ao ônibus do time abraçar o Rodrigo Caio.  “Que que foi isso moleque!?”.  Não, não. Foi ele quem disse isso, não nós.

“O Hernanes joga pra caralho!”, idem. Foi ele.

Um garoto. Profissional, da seleção, rico, mas após um 4×3 desses, apenas um garoto vestindo a camisa que sonhou quando criança. E nós, ali, mais garotos ainda, olhando pra um ídolo mais novo que a gente.

Ainda ameaçado de cair, lhes informo: não cai!

Porque? Se eu ainda precisar explicar após este sábado é porque você não entendeu nada sobre o São Paulo. E se não entendeu hoje, eu nem vou tentar explicar.  É grande demais pra sua concepção.

Obrigado pelo dia de garotos. Garotos “que te amam ternamente”.

abs,
RicaPerrone