Carnaval

Que se foda!

O carnaval do Rio de Janeiro é o maior espetáculo da terra. E se você acha que me refiro ao que fazem as escolas, se enganou.

É lindo. Eu amo. Frequento ha 27 anos. Sou Mocidade, já fui de arquibancada, credencial, frisa e camarote. Diria que conheço tudo naquela avenida. E todo ano eu consigo sair de lá surpreso.

E não, de novo, não me refiro as escolas.

Aliás, se cabe uma leve crítica, acho que os temas estão ficando batidos. 80% deles é sobre preto, mulher, orixá ou alguma crítica meio hipócrita quanto a sociedade. E explico: Como que uma escola de samba ousa ser paladina moral pra criticar sociedade com tudo que ela carrega nas costas de contravenção, lavagem de dinheiro e outros problemas menores?

Eu não me importo que ela tenha esse passado. Na real eu acho tudo isso mero abandono do estado e consequencias naturais. Mas acho que a gente tem que emagrecer pra dar dica de alimentação, né? Quando uma escola entra com um enredo sobre a situação do país, falando de polícia, pedindo paz ou algo assim e abre com saudação ao seu “presidente de honra”, é de fuder. Mas foda-se.

O meu ponto passa por isso também. E aí está o maior espetáculo da terra.

Vivemos num país que há uns 5 anos não consegue mais conviver. A soma de política com redes sociais transformou o Brasil num hospício onde todo mundo discute política e seguimos com placas nos banheiros avisando ” não urine fora do vaso”. Ou seja…

E ali, naquela avenida, há uma mistura sem igual que eu precisava rever. O povo da esquerda está nas escolas. São formadas por minorias que tendem a esse viés político. O povo do dinheiro mais capitalista está nos camarotes e nas frisas. E ali, frente a frente, sem a porra de uma rede social no meio, todo mundo bebe junto.

Onde foi que perdemos isso? Onde que você ser Vasco e eu Flamengo me incomoda menos do que você ser de direita e eu de esquerda? Em que bar isso rompeu uma amizade? Malditas redes sociais onde se interpreta o tom, se responde em segundos e se expõe amigos por um ideal.

Bendita seja a avenida. Onde o patrão paga uma nota pra ver sua empregada sambar. Onde o radical bolsonarista aplaude a escola que passa fazendo militância pra esquerda. E onde o esquerdista não se importa de receber e fazer pelo dinheiro da elite capitalista.

Passa o político, o contraventor, o delegado, o prefeito, o governador e a puta. E todos sorrindo de mãos datas, porque ali, naquela avenida, por 4 noites, há um buraco negro onde literalmente tudo é interrompido.

Pode falar de um condenado no microfone? Pode, claro! Ele é da escola. Pode a polícia toda nos camarotes vendo isso? Claro, ela vai fazer o que? E o governador que tenta prende-los, como fica? De lado, tomando uma. E que se foda.

São milhares de pessoas bebendo com enormes diferenças. Brigas? Quase zero.

Como?

Cadê aquele povo que fica online caçando almas e cancelando pessoas? Devem estar avaliando as escolas pela TV tentando destruir algum famoso que por ela desfila. Ou talvez criticando o espetáculo por não ter capacidade de compreende-lo.

E quer saber? Foda-se. Ninguém ali se importa.

Eu consegui num intervalo de 40 segundos abraçar um deputado bolsonarista, o Eduardo paes e o interprete da minha escola. Olhei pra trás e pensei “porra, alguém vai filmar isso me cancelar”. E que se foda também! Eu me amarro nos três.

Sou Mocidade, aplaudo o Salgueiro. O mangueirense me abraça quando a escola passa e elogia. E o cara com o boné do MST brinda com o caveira do Bope o abre alas da Vila. Que se foda!

Sabe aquele país feliz e quase idiota que a gente vivia? Então, agora ele é só idiota.

As horas de Brasil retrô vividos na avenida são um soco na nossa cara. Sabe aquele amigo que você deixou de seguir por política? Ele te vê depois de 2 anos e … e agora? Passo? Abraço? Dou um sinal? Ele me odeia?

Dá cá um abraço, viado! Foda-se!

A real é que o Brasil é um puteiro e o Rio de Janeiro é a mais “honesta” manifestação do que de fato somos.

Prefiro. Fica as claras. Sem tipo. Gosto? Não. Mas a sapucaí me ensinou a entrar no modo “pausa mental” e ter algumas noites onde na real eu nem me importo com o que acredito. Literalmente, foda-se.

O Brasil que eu cresci era um lixo como o de hoje, mas a gente tinha um diferencial: a alegria. O Brasil não é intolerante religiosamente, nem racista, nem um povo escroto. A gente só jogou holofote pra essas micro minorias de idiotas e achamos que eles representam muita gente. Somos um povo idiota, mas generoso, feliz, acolhedor e divertido.

Nós somos a Sapucaí. Ou eramos.

Tanto faz. Amanhã voltamos a nos preocupar com o Brasil, porque seguramente não são 5 dias de festa que vão mudar alguma coisa. Temos 360 dias pra pensar nisso.

Nestes 5, honestamente, que se foda!

Rica Perrone

Santo de casa

Lendas urbanas são especialidade do carioca. Todo carioca tem uma história de “terror” pra contar que impressiona quem é de fora. Faz deles mais “sobreviventes”, adaptados ao perigo.

Uma das que mais ouvimos é do acordo entre bicheiros na década de 80, comandado pelo Castor, eterno patrono da minha Mocidade, que algumas escolas não poderiam ser rebaixadas nunca. Especialmente com seus patronos vivos.

Era uma lenda. Ontem passou a ter segunda temporada.

Porque? Em 18 e 17 havia um argumento, goste ou não. Mas em 2019 não há. É meramente a virada de mesa pela camisa e ponto final. De forma nua e crua, sem contestação.

Vai ficar porque vai. Porque? Porque é a Imperatriz.

Luizinho está vivo. Faz todo sentido. Não se faz justo, até pela queda do Império. Mas faz sentido dentro da lenda urbana tão replicada pelo mundo do samba em seus bastidores.

Gosto? Não. Entendo? Sim. De alguma forma, sim.  A Liga é das escolas, e elas decidem o que querem pra sua Liga. Se acham uma escola indispensável, seja por política, acordo ou pelo show, podem fazer com que as regras mudem.

Podem? Podem. As regras são delas.

Lamento? Muito. O carnaval do Rio tem se tornado um pano de fundo pra show do Luan Santana, mega camarotes de promoters celebridades, uma playboyzada que nem sabe o que está fazendo lá e um viés político idiota que nada acrescenta.  Com as viradas de mesa torna-se ainda menor a credibilidade.

Mas cá entre nós, qual a credibilidade do carnaval carioca? Em que momento de sua história ele precisou ou fez uso disso pra ser o maior espetáculo da terra?

Compramos esse evento sabendo quem estava por trás a vida toda. É um óbvio sistema onde o contraventor usa a paixão da comunidade para conquista-la, a TV compra, se torna parceira comercial, alivia pra contravenção e todo mundo sai feliz.

Quem não sabe disso?

Não gosto. Mas daí a me espantar com a decisão vai uma distância…

RicaPerrone

Vocês querem a mentira

Não basta ser, tem que parecer ser. Essa frase resume o mundo há séculos e com as redes sociais se tornou ainda mais perfeita.

Neymar joga no PSG e tem um dos maiores salários do mundo, uma das maiores estruturas do planeta e um “staff” com mais profissionais que o CR7 e o Messi a sua volta.  O clube que o paga tem um departamento médico que, imagino eu, sem ousar desmerecer vossa capacidade, entenda de ortopedia um pouquinho mais do que eu e você.

Mas só um pouquinho. Não leva pro coração.

Esses caras tratam Neymar, ele viaja, dá uma reboladinha e anda na Sapucaí. Pronto! Os nossos jornalistas formados em medicina, direito, marketing e economia decidem se ele está ou não se recuperando bem.  E por consequência, o povo acha o mesmo.

Senhores, vamos voltar ao chão, pisar nossos pés onde nos cabe e ser humildes um minutinho: vocês realmente acham que o departamento médico da seleção e do PSG liberam um jogador que precisa ficar parado pra um carnaval?

Se ele está aqui é porque a recuperação vai bem. E o que vocês estão pedindo é que ele se tranque em casa, desligue celulares e leve 20 putas pra fazer uma festa dez vezes pior do que ele estar na avenida.

Porque não se trata de uma discussão em momento algum do quanto está jogando futebol o Neymar. Mas sim de como ele deve se recuperar de uma contusão.

Puta que pariu, é sério que a gente se acha mais capacitado pra diagnosticar o que ele pode ou não fazer do que os maiores médicos do mundo no assunto?

Aí você diz: “mas pega mal ele…”.

Voltemos a frase inicial do texto. Você não tem NADA contra o que ele fez. Você apenas esperava que ele te enganasse e está puto com a verdade.

Neymar joga pra caralho toda vez que está em campo. E as raras contusões que o tiraram de lá foram todas curadas antes do previsto.

De que diabos vocês estão falando, afinal?

Cuidado. A vida costuma ser cruel com quem exige aparência ao invés de transparência.

Eu não vejo uma discussão sobre o quanto ele joga, onde ele joga, como vem jogando. Só querem encher o saco do cara com extra-campo, namorada, quanto gastou, quem comeu.

Jesus! O cara não falta em treino, joga bem toda vez que está em campo, tem autorização pra toda festa e viagem que faz.

Do que vocês estão falando!?

RicaPerrone

Marielle não tem culpa

Como a gigantesca maioria das pessoas de todo país, eu nunca tinha ouvido falar em Marielle. Quando ela morreu achei que foi um crime contra um ser humano. Não me importei com o fato dela ser de esquerda, negra, gay, mulher, usar rosa ou azul, ter cabelo liso ou ondulado.

Com os dias fui entendendo que ali nascia uma lenda socialista para uso indevido de seus pares políticos.  No enterro houve hino do socialismo. Em volta bandeiras vermelhas. E nas passeatas “pela paz” havia ideologia e campanha política. Isso gerou uma puta rejeição a uma parte das pessoas e também compreendo.

No carnaval Marielle foi citada em alguns lugares e será eternamente porque é uma representante recente da esquerda e de outras diversas pautas que não divergem entre lados, embora a esquerda tenha se apropriado de algumas brigas.

A Mangueira não fez enredo sobre Marielle. A citou. São coisas diferentes.

A Vila cita Martinho há 200 anos, ele visita o Lula na cadeia e é um petista declarado há décadas. A Beth Carvalho também é uma petista assumida, sempre citada na Mangueira. E ninguém deixou de cantar ou curtir a escola por isso.

O enredo da Mangueira cabia Marielle. A rejeição a Mangueira por cita-la é um erro, embora eu compreenda o sentimento. Mas de perto, conhecendo como conheço o carnaval, posso lhes dizer que se trata de um ambiente de gays, negros e pobres em sua maioria. E portanto eles tendem a ir pro lado que se apropriou a luta deles: a esquerda.

Eu não posso odiar Jesus Cristo por ter um bando de imbecil enchendo o saco com o nome dele.   Você não é responsável, ainda mais morto, pelo circo que fazem a sua volta.

Sim, Marielle se tornou a bandeira da hipocrisia nacional. Vide uma escola de samba que até outro dia era comandada por um criminosos ligado a traficantes e milicianos homenagear a vítima de quem fez guerra contra isso.

Mas o importante é reafirmar:  a Marielle não está fazendo nada disso. Ela está morta. Quem está fazendo show sobre caixão são outras pessoas. Quem usa droga e vai na passeata contra traficante é outra pessoa.  Os políticos que fazem discurso sobre o partido usando o corpo dela, são as piores pessoas.

A Mangueira fez o que sempre faz. Exaltou seu lado. Hipócrita? Claro! Quem não é nesse país quando abre a boca? A Tuiuti adotou um lado político pra sair do papel de figurante. É um procedimento simples e midiático em ter 30% da população engajada do que 100% dela te ignorando.

Se radicalizar pra um dos lados é mais notável do que o bom senso de centro que vê problemas e qualidades em ambos. E na dificuldade de se destacar com bom senso, se faz o show para um dos lados.

Marielle tinha boas causas. Não sei se ela “faria” o que estão fazendo com ela. Mas não podemos odiar a pedra porque a atiraram na gente. Quem atira é o problema. A pedra é só a pedra.

As causas citadas no enredo foram “roubadas” por um lado político. A estratégia dessa gente é exatamente se apropriar de lutas e classes para “obrigar” certas pessoas a estarem junto deles. É como nascer num lugar. Você é obrigatoriamente “paulista”, “carioca”.  Eles fazem isso para que você sendo mulher, negro, gay ou nordestino seja imediatamente de esquerda.  Alguns escapam, outros não.

E por isso Marielle é a bandeira deles.

Mas insisto: ela não tem culpa.

Fernando Holiday, negro, gay, de direita, sofreu um atentado a bala no seu gabinete com possibilidade enorme de ter partido de um grupo político, já que do lado de fora havia manifestação destes.

Você viu algo sobre?

Nem eu. Mas é Brasil, irmão.

Aqui o esquema é ruim só quando a gente tá fora dele. E a bala só doi se matar. Desde que mate um dos meus, é claro…

RicaPerrone

Imagine um lugar especial

Imagine um lugar onde todo mundo fosse feliz.

Onde todas as pessoas estivessem minimamente fazendo o que gostam. Onde o pobre e o rico alternassem a importância e o protagonismo, onde os gays fosse tão respeitados que se tornariam até referências em cargos de poder.

Um lugar de negros e brancos onde se discute pacificamente o racismo, a cultura, nossos valores e pontos de vista. Cheio de político sendo ridicularizado pelo povo e tendo que aplaudir de camarote pra não ficar feio.

Onde o artista fala menos e atua mais. Onde o som ambiente não remete a nada triste. Um lugar colorido, regado a sonhos e pessoas dispostas a se abraçar quando se encontram.

Um raro lugar onde o Brasil dá certo. Onde um lixeiro fosse aplaudido por empresários e “patrões”.

Onde alguém pode passar dizendo que é de esquerda e ninguém liga. Onde quem é de direita não se importa em aplaudir um espetáculo feito por maioria contrária.

Que lugar.

Imagine também que nesse lugar até mesmo a competição pelo melhor não fosse mais importante do que estar junto. Que embora derrotado você pudesse estar feliz pelo que fez.

Onde a roupa te dá um lugar especial, a falta dela um ainda mais especial.  Onde o crente assiste e canta pros orixás, o batuqueiro pede benção, o ateu agradece a Deus por estar lá.

Um lugar onde as músicas não te mandem chupar e descer, mas sim contem histórias da nossa cultura, homenageiem personagens de nossa história e lugares de nosso país.

Onde não há violência, foco em problemas e hora pra acabar.  Só pra começar. E se chover, a gente atrasa.

Agora imagine que esse lugar que o mundo “briga” pra criar já exista e que na cabeça de algumas pessoas seja apenas uma putaria, música ruim e motivo bandido pra lavar dinheiro?

Pois é. Cada um vê o que pode ver.

Bom carnaval.

RicaPerrone

Não é “justo”. É apenas coerente

Eu disse antes de começar a polêmica que a Grande Rio não cairia sob o argumento do carro ter quebrado.  E portanto, se em 2017 carros quebrados feriram pessoas e não foram rebaixados, o dela que sequer feriu alguém teria um argumento enorme pra se manter.

A verdade é que escola grande não cai. Há até um acordo velado, e obviamente a Grande rio não era parte disso quando foi feito.

Mas vimos ao longo dos anos passadas de pano memoráveis na Sapucai. Não vejo qualquer diferença entre manter a Grande Rio na canetada e manter a Vila Isabel no ano em que desfilou sem fantasias.

É a mesma coisa. Política. Só que uma escancarada, a outra sob notas.

Porque o Império Serrano ficou? Não faço idéia. Ao contrário de 2017 onde os problemas haviam sido semelhantes e usaram a mesma decisão para ambas, em 2018 ela não chega a fazer sentido. Mas pô… vamos ser honestos?  Se a Grande Rio tem o alvará pra reclamar e ficar, porque vamos rebaixar o Império que todos amam?

Ficam as duas e foda-se.

Senhores, o carnaval do Rio de Janeiro só vende ingressos em dinheiro vivo.  Todo mundo sabe quem são os organizadores dele, e ninguém na cidade é maluco de peitar nada disso.

É delicado. Mas quem frequenta sabe que não necessariamente é um problema. O bicheiro tem os problemas dele com a justiça, pois é contraventor. O que não implica nele ser ruim pra escola/comunidade.  Então você tem uma situação complicada onde por um lado não é certo, mas por outro não é problema seu.

E não sendo, você não vai ser o idiota a peitar isso. Porque qualquer moralista que diga o contrário, se morar no Rio e receber um telefonema de um bicheiro marcando um almoço, vai! Juro por Deus que vai. Porque ele pode ser moralista, hipocrita, mas não é burro.

A gente sabe quem manda. E quem tem que fazer isso funcionar legalmente é a justiça, não nós. E nós, como passageiros do bonde, só podemos jogar o jogo.  Não há nada escondido.

As escolas de “patronos” mais fortes não caem. Eles são os donos do carnaval, o Rio precisa do carnaval, a escola precisa deles e essa relação não é problema de quem está embaixo. Portanto, continuará.

Alguns dos bicheiros e milicianos envolvidos no carnaval são mais adorados pela sua gente do que santo. E a maioria deles faz muito mais pela sua comunidade do que o governo. Logo, o governo não pode peitar, a política depende de voto. A polícia nada pode fazer porque contravenção não é crime. E é assim há 100 anos.

Talvez você não saiba mas mora sob a benção de um deles. Procure saber.  Algumas coisas não passam no Jornal Nacional. Outras são só motivos idiotas criados por gente burra pra misturar tudo num só bolo.

Não, o carnaval não é um problema por ter contravenção nele. Tal qual a ponte que fizeram no seu bairro não é culpada da corrupção da obra.  Isso é argumento de gente burra.  Gente que adora cagar regra sobre um sistema que ela só ouve falar e desconhece a realidade para sugerir sair dele.

O carnaval é uma festa. O resto, pouco importa.  A LIESA faz o que suas escolas decidem. É uma LIGA, não uma dona do carnaval. E se elas são do mesmo bolo, elas votam para que seja assim, e assim será.

Talvez em 20 anos não seja. Mas hoje ainda é. E a Grande Rio apenas está usando o argumento coerente de que se valeu em 2017, vale pra ela em 2018.

O erro aconteceu em 2017. O que está acontecendo agora é o que QUALQUER um de nós, na condição da escola, faria:  “também quero ter os mesmos direitos dos outros”.

Ninguém quer um país onde precise dar um a mais pro guarda cuidar do seu boteco. Mas se você tiver um boteco, você vai procurar o guarda.

O jogo é esse. E só sabe quem joga.

A Beija Flor faz mais por Nilópolis que o governo. Se você concorda, gosta ou não… tanto faz. As coisas são como são, não como o manual de instruções do mundo escrito por gente que não sai do computador acha que deveria ser.

Eu não concordo com a decisão. Mas é tão fácil entende-la quando  não se faz esforço pra ser hipócrita…

abs,
RicaPerrone

 

A Grande Rio não pode ser rebaixada

Parece absurdo, e até seria não fosse o passado. Existe um termo no direito que chama-se “Jurisprudência”, que é onde um caso anterior e uma decisão anterior se torna referência para dizer que a lei não pode ser uma pra cada um e portanto pede-se o mesmo tratamento.

Eu não sou advogado. Obviamente estou sendo superficial. Mas é isso basicamente.

A Grande Rio quebrou um carro e não entrou. Ok? Ok.

Em 2017 duas escolas quebraram carros. Uma na pista, machucando pessoas. A outra forçando um carro a entrar e matou uma pessoa, além de ferir dezenas. Refiro-me a Tijuca e Tuiuti.

As duas escolas ficaram livres de rebaixamento porque “acidentes acontecem”, segundo as co-irmãs. Não todas, mas a maioria.

Rica, você concorda? Não. Eu rebaixaria.

Mas não foi assim.

E então em 2018 um carro da Grande Rio quebra. Ela não força sua passagem e nem coloca a vida de ninguém em risco. Por prudência, abandona o desfile daquele carro e vai sem ele.  No final ele é seguramente guinchado e ninguém se machucou.

Aí eu pergunto a você: A Grande Rio tem que cair?

A regra é pra todos. Goste você da escola, concorde ou não com a lei. Se a regra permitiu em 2017 que escolas que chegaram a causar a MORTE de alguém ficassem por um “acidente” no carro, como você rebaixa a penultima de 2018 que também teve problemas e não feriu ninguém, sendo que só caem duas esse ano exatamente por causa da aliviada nelas em 2017?

Eu odeio ir contra as regras. Mas quando elas são quebradas pra um, ou você quebra pra todos ou você está cometendo um erro maior que o infrator.

A Grande Rio não é diferente da Tijuca e da Tuiuti. E se a Liga teve a “coragem” de rasgar o regulamento pela Tijuca em 2017 e por tabela segurou a Tuiuti, como ela explica pra Grande Rio que “esse ano não vai rolar”?

Uma feriu pessoas, foi absolvida. A outra não. Será punida com o rigor da lei?

abs,
RicaPerrone

O direito, a coragem e as consequências

É assustador no Brasil que alguém banque o pensa e tome um lado. Uma pena, mas é um país de covardes e isso se nota na medida em que 100% da verba publicitária está voltada para quem não acha nada sobre porra nenhuma.

O carnaval é uma festa popular. Cabe dentro dela criticas geniais como a da Mangueira pro prefeito traíra que prometeu uma coisa, foi eleito e mudou de idéia. Cabe toda posição política que bem entender. Aliás, entendo por país livre você poder ser o que bem entender.

Tuiuti fez na avenida o que Globo, Veja e 99% dos veículos de comunicação não tem peito pra fazer: assumiu quem é.

Gosto? Muito. Acho maravilhoso a escola me dizer quem ela é e me dar o direito a odia-la, por exemplo. Como ontem ela se tornou a escola de milhões de esquerdistas pelo país. É um conseqüência à coragem.

“Ah mas ela falou mal do Temer”. Não, caras. Não é isso.  Enorme parte das pessoas não entendeu que ela ser contra reforma trabalhista, por mais limitada que seja a concepção do que se está falando, é um direito dela.  O ponto foi uma ala no fim do desfile.

A ala disse claramente e sem o menor pudor que quem bateu panela ou se manifestou de verde amarelo contra a Dilma foi manipulado por alguém.  Além da alusão ao palhaço no nariz deles.

Em resumo: Se você foi a favor da saída da Dilma e protestou, você é um palhaço manipulado na opinião da Paraíso do Tuiuti.

Eu gostaria honestamente que a Globo falasse que odeia o Bolsonaro. Seria mais honesto do que fingir imparcialidade por exemplo e ter seus lados.  A Tuiuti fez, e agora vem a separação das coisas.

Direito dela em fazer. Corajoso se posicionar. E agora aguenta o tranco porque chamou enorme parte da população de palhaços manipulados. Tem uma reação. Ninguém dá tapa na cara de ninguém e sai andando. A vida é mais prática do que pregam os filósofos do “anti ódio” que odeiam quando alguém não lhes dá o status de intelectual.

A Tuiuti pode se tornar uma escola odiada. Eu particularmente, como fui chamado de palhaço pela escola, tenho enorme antipatia a partir de agora. É a conseqüência natural de quem se posiciona. Você pode se posicionar estando de um lado e/ou agredindo o outro. Ela fez os dois.

Aguente  a reação ao seu direito de “ofender” um lado.

Prefiro um inimigo declarado do que um “amigo” cuzão.  E a Tuiuti escolheu seu lado. Não é o mesmo que o meu. A respeito, embora ela não tenha respeitado quem pensa diferente dela. Mas … se cair….  sim, confesso, vou rir. Simplesmente porque é também meu direito reagir a “ofensa” deles.

E nos 3 casos, tanto da postura quanto na coragem e na reação, é preciso agir mais naturalmente do que as pessoas agem. As 3 coisas fazem parte da vida todo dia, em todo lugar.  Mas entendo que se postar, peitar uma posição e arcar com consequências pelo que pensa não são 3 hábitos brasileiros.

A Tuiuti será esquecida amanhã cedo. É uma escola pequena e seu momento de glória foi “atacar” alguém.  Ainda assim, agredido pela escola na condição de palhaço manipulado, eu prefiro um “vai tomar no cu” do que “tem gente que poderia tomar no cu hein”.

Então… foda-se a Tuiuti!

abs,
RicaPerrone

O dinheiro é o menor dos problemas

O milhão a menos de cada escola é um problema na crise? É. Mas esse não é o grande problema da crise entre prefeitura e escolas de samba.

O problema é o caráter. A forma. A real intenção. A falta de critério.  O lado pessoal e religioso acima do cargo.

Crivella é um religioso fanático, daqueles que deviam ser proibidos de ter qualquer cargo sob o argumento de falta de lucidez. A fé é um direito, não um dever, menos ainda uma qualidade.  Crivella pode acreditar em Duendes se quiser, desde que não faça uso de cargos públicos para criar aldeias de Duendes no centro do Rio.

Os projetos voltados para a igreja evangélica dele seguem voando. Todos bem apoiados, patrocinados.  Pra você ter idéia do quanto é covarde, há um filme de 16 milhões de reais sobre a vida do Edir Macedo que está sendo noticiado pelo site no link como sendo apoiado pela prefeitura do Rio. Ou seja, vida de bispo agora é mais importante pra cidade do que o desfile das escolas?

Mas nem isso me revolta. O que me deixa puto é o uso da paixão alheia para ganhar voto. E usar paixão, fé, má fé, é especialidade desse tipo de gente, convenhamos.

O cara vai lá e promete pras escolas que não vai mexer. Que vai apoia-las. A escola apoia e carrega com ela uma comunidade, a dona Maria, que faz fantasias. O seu José, que vive de vender latinhas na porta dos ensaios, entre outras dezenas de milhares de pessoas envolvidas nisso diretamente.

“Ah mas a contravenção…”, pára! Deixa de ser idiota. O fato de uma ponte ser superfaturada não impede você de passar por ela. A escola de samba tem muita coisas boas por trás dela para focar no fato dela ter apadrinhamento histórico com contraventores.

Mas convenhamos, não precisa ser esperto demais pra imaginar que é o caminho natural de algo dentro da comunidade. As comunidades tem donos, o governo não enfrenta, logo, as escolas, filhas das comunidades, também terão seus apadrinhamentos. Vai ser hipócrita lá com o teu fornecedor de maconha.

Voltemos.

As escolas recuperam essa grana fácil.  Mas corta pra 2019, prefeito. Corta feito adulto. Honrando palavra, não misturando sua fé nas suas escolhas, nem mesmo tendo usado pessoas e agremiações para promover sua candidatura.

Senta bonitinho, pede desculpas, explica, procura alternativas. Não imponha comunicando a imprensa que mudou de idéia. É covarde. É sacanagem.

Tu pega um enredo feito e preparado em junho e avisa que ele perderá um dinheiro alto. Você quebra carro, trabalho de carnavalesco, planejamento.  Atrás de toda contravenção que vocês preferem envelopar o samba, há cultura, música, emprego, turismo, cartão postal dessa porra toda aqui.

Corta. Mas corta olhando no olho, falando de frente e não do gabinete depois de trair quem você usou pra ganhar eleição.

O Carnaval do Rio é minha paixão e passa LONGE de ser organizado e confiável como eu gostaria. Pra você ter idéia da zona, ingressos só em dinheiro.  Tudo vendido pelo telefone, por fax. Cheio de problemas.  Mas ainda menor do que o que ele representa de fato.

Por mim, prefeito, tu pode nem oficializar a festa.  Eu, e acho que ninguém do samba, daria a mínima pro teu aval. Aliás, tu nem apareceu esse ano lá.  Mas não usa as pessoas e a  paixão gerada por essas escolas para ganhar seus votos e depois pular fora falando em criancinha.

Tu não tá preocupado com o corte. É com o que não te agrada sua preocupação.

abs,
RicaPerrone

… e acabou!

Amanheceu e havia carros demais na rua. Assustado olhei em volta e notei que as pessoas não estão mais fantasiadas. Já era 10 da manhã e ninguém estava bêbado cantando no metrô.

Na rua um apito. Paradinha?! Alô bateria! Não… era um guarda mesmo organizando o cruzamento.

“Oh o gás!”, ouvi! Me animei.  Era, de fato, o gás.  Que frustração!

Via pessoas de uniforme e sorria tentando tirar delas a verdade. Mas não, eram mesmo funcionários. Jurava que o frentista do Ipiranga era um folião fantasiado, mas não. Ele enchia o tanque e calibrava pneus. Ninguém leva tão a sério…

Ligo a TV: crise! Que crise? De que diabos vocês estão falando?  Temer. Quem é Temer?

Que horas são? Tô perdido.

– Dez! –  alguém responde.

“Puta que pariu, vamos voltar nas campeãs”, penso.

Porque as pessoas não estão mais rindo a toa? Cadê todo mundo? Porque não toca nada de fundo?

Abro a internet, não tem bloco, nem textão de nego chato reclamando do povo estar feliz em meio a tantos problemas no mundo.

Queria estar em Madureira. Lá, no “lugar dele”, deve estar maneiro mesmo sendo dia útil. Até porque desconfio que os resultados da apuração tenham indicado que em 2016 todo dia foi bem útil naquele lugar.

Me rendo. Vou trabalhar. Foda-se.

Superamos o Collor, a varíola, o PT, a poliomielite, o 7×1… porque não superaríamos esta segunda-feira?

Faltam só 339 dias para o carnaval 2018.

abs,
RicaPerrone