carnaval 2018

Incontestável

Talvez você não concorde com a nota da fantasia, ou quem sabe de harmonia.  Pouco importa. A escola de samba campeã deveria ser sempre a escola que mexe com as pessoas e consegue dizer sem um manual o que está passando na avenida.

A Beija Flor proporcionou um dos maiores desfiles dos últimos anos, uma crítica brilhante, bem colocada e que arrastou a multidão num samba antológico.

Os detalhes que separam uma escola do título as vezes são mero medo da Liga de entender que a forma de disputa é um equívoco.  Se você não sabe, vou te contar.

As escolas entram na avenida com 10 e tem que “não errar”.  Elas não buscam pontos, apenas tentam não perde-los. É um erro tremendo, pois se você fizer 20 paradinhas e errar uma vez, perde 1 décimo. A escola que não arriscar nenhuma não errou, e leva 10.

Premia-se o conservadorismo. E então se tem sempre um resultado controverso. Não hoje.

Tanto a campeã quanto a vice mexeram com o público e fizeram duas coisas muito importantes: samba e enredo de fácil leitura.

Quem tá lá não quer olhar no livrinho o que é. Quer olhar, pensar no tema e entender a ala. E as duas fizeram isso brilhantemente.

A Tuiuti é o primeiro jabuti na arvore que subiu sozinho. A ala da discórdia não interfere em avaliação de quesito nenhum, então apenas os 99% de leigos em carnaval do Brasil achavam que isso teria algum reflexo na nota da escola.

Salgueiro, Portela, Mangueira e Mocidade fecham as campeãs. E separadas todas por miséria. Em um quesito a Mocidade foi de campeã pra sexto. Mas é exatamente isso. Um equilibrio separado por detalhes que não saltam aos olhos facilmente.

Poucas vezes concordei tanto com um resultado quanto o deste ano. Inclusive pela queda da Grande Rio, que me surpreendeu pela grife, mas que deu um atestado de confiabilidade ao carnaval diante de um desfile cheio de problemas técnicos.

Parabéns Beija-Flor! Parabéns a todas as campeãs! E viva o carnaval do Rio de Janeiro.

abs,
RicaPerrone

 

Vem aprender com a Beija-Flor

Algumas escolas geram antipatia na medida em que ganham carnavais em sequência.  A Beija-Flor já teve a minha em alguns momentos em entrou na avenida, não se arriscou em NADA, nem paradinha fez. Mas fez pro jurado dar 10 e ganhar.

Hoje a Beija-Flor passou na avenida para falar por todos nós brasileiros de forma impecável, educada, inteligente e ampla. Tocando na ferida, em todos setores possíveis da sociedade, e sem fazer a burrice que fez a Tuiuti de escolher uma metade pra agredir.

Não a toa uma é Beija-Flor, a outra Tuiuti.

A letra do samba é daquelas que humilha a turma do “samba enredo é tudo igual”.  Uma aula, algo que poderia ser pendurado na parede do congresso nacional em forma de quadro. Sutil, inteligente, brilhante.

Toca até em religião sem ofender ninguém. É dificílimo citar uma virgula sobre religião sem que um bando de pessoas te odeiem em nome de jesus pro resto da vida. A Beija-Flor conseguiu.

Talvez o título fique com o Salgueiro, também ótimo na avenida. Talvez com a Mangueira, que fez uma crítica mais direta a um alvo só, mas também muito bem feita. Talvez a Portela, que não criticou ninguém mas fez a Sapucai levantar pela primeira vez em 2018.

Mas pelo momento do país, pela porrada dada de qualquer jeito no domingo pela Tuiuti e pela elegancia do que fez a Beija-Flor, eu espero ver esse título em Nilópolis.

Pra quem não ouviu o samba, faça melhor do que ouvi-lo: interprete-o. É brilhante!

Sou eu
Espelho da lendária criatura
Um monstro
Carente de amor e de ternura
O alvo na mira do desprezo e da segregação
Do pai que renegou a criação
Refém da intolerância dessa gente
Retalhos do meu próprio criador
Julgado pela força da ambição
Sigo carregando a minha cruz
A procura de uma luz, a salvação!

Estenda a mão meu senhor
Pois não entendo tua fé
Se ofereces com amor
Me alimento de axé
Me chamas tanto de irmão
E me abandonas ao léu
Troca um pedaço de pão
Por um pedaço de céu

Ganância veste terno e gravata
Onde a esperança sucumbiu
Vejo a liberdade aprisionada
Teu livro eu não sei ler, brasil!
Mas o samba faz essa dor dentro do peito ir embora
Feito um arrastão de alegria e emoção o pranto rola
Meu canto é resistência
No ecoar de um tambor
Vêm ver brilhar
Mais um menino que você abandonou

Oh pátria amada, por onde andarás?
Seus filhos já não aguentam mais!
Você que não soube cuidar
Você que negou o amor
Vem aprender na beija-flor

Os mitos, as lendas e os clichês

Há uma tendência em rejeitar e contestar os maiores mitos do país. Talvez o ser humano não saiba lidar com o inatingível, talvez seja mero “clubismo” de competir contra ele. Mas eu sou daqueles caras que adoro a Mangueira, o Corinthians, o Flamengo, o Rio de Janeiro…

E então voce me perguntará: “Voce acha que o Flamengo merece ser o maior time do Brasi? O Time X tem mais titulos…”.

Foda-se.

As lendas, os mitos e os clichês cercam nossa vida. Quando não fazem mal, que mal tem?

“O Zico não é tudo isso”.  Qual problema dele ser?  E se eventualmente ele não for? Qual necessidade de ser desmistificar uma lenda que não faz mal e só promove o tema?

A Mangueira carrega sobre seu ombro o rótulo de “maior escola de samba do planeta”, que ela mesma se deu. Mas ela é. Então, foda-se.

“Ah mas eu prefiro a Mocidade”. Tá, eu também. Mas jamais a minha escola causará no brasileiro a mesma coisa que causa o locutor quando ele diz: “vem aí Estação Primeira de Mangueira”.

Qual o problema com a democracia corintiana?  “Ah não foi bem asssim”.  A quem interessa a verdade que não acrescenta e diminui a historia contada?

Deixa ser.

A cultura brasileira passa por Mangueira, Flamengo, Corinthians, Rio de Janeiro.,.  Goste você ou não. Te agride? Não. Te diminui? Não.

Eu adoro ter uma escola como a Mangueira pra disputar com a minha. E sim, ela é maior que a minha. Como Flamengo e Corinthians são maiores que o meu time, tal qual o Rio de Janeiro será sempre mais “a cara do Brasil” do que minha cidade.

E veja que mesmo não sendo nem Flamengo, nem Corinthians, nem Mangueira e nem carioca, não consigo encontrar qualquer problema em conviver com estes clichês e lendas que fazem deles nossas referências.

Quando a Mangueira pisa na avenida, é diferente.

Quando o Flamengo enche o estádio, é diferente.

Quando se é campeão pelo Corinthians, é diferente.

Visitar o Rio de Janeiro, é diferente.

Talvez não seja melhor. Talvez não seja pior. Mas se pra você é tão “foda” ir na Torre de Pizza, ver o Barcelona jogar, ir a Paris, porque diabos você tenta se esquivar dos seus pilares lendários?

A Mangueira fez marchinha. Entrou na Sapucai cantando cabeleira do Zezé em pleno 2018 onde os chorões ganharam mais voz que os seres humanos normais. Meteu o prefeito de Judas e mandou recado sem se preocupar se podia.

Sabe porque ela fez isso? Porque é Mangueira.

Outra não faria. E se fizesse, apanharia.  É direito conquistado.  Exceção cultural histórica.

Foda-se o que você acha. Sua raiva só confirma a lenda.   E eu adoro competir com a Mangueira, porque ganhar dela me faz ainda mais especial. E perder, normal.

abs,
RicaPerrone