culpados

Culpa da CBF

A pior frase que existe hoje no Brasil é “culpa da CBF”.  Ela liberta todos nós de culpa, aponta um vilão que nunca vai se defender e nem virar o jogo, e ainda nos dá espaço para tirarmos o corpo fora e continuarmos incapazes de dizer “nós”.

Porque na real, quando vamos a fundo, o problema do futebol brasileiro está longe de ser “problema”.  São diversos problemas dos mais diferentes assuntos e das mais distantes soluções. Mas como é preciso pensar, acusar o golpe, assumir culpa e mudar, é mais fácil dizer “culpa da CBF”.

Eu não gosto da CBF. Mas eu sei que ela tem uma eleição e que os nossos clubes elegem e reelegem quem está lá simplesmente porque estão tão felizes quanto ela. Afinal, alguém tem que estar ganhando alguma coisa pra manter um sistema. É matemática simples.

O curioso e preocupante é que toda vez que dizemos  “culpa da CBF”, acabamos com a discussão e não vamos a lugar algum. Pois ela não vai se mexer, sabemos. E não é “culpa só dela” que estejam de acordo com o sistema atual 20 clubes da série A e mais 27 federações.

Quando uma geração inteira de sub 20 convocados em 2008 não chega a seleção principal, a culpa é da CBF?

Quando um empresário manda na base de um clube por trocar favores e dividir lucro com um diretor do clube, é culpa da CBF?

Quando a imprensa massacra um futebol bem jogado por uma derrota e impõe um futebol de resultado, é culpa da CBF?

E quando nós, torcedores e amantes de futebol, notamos que assistimos nosso time e ignoramos quase que por completo os outros e então percebemos que não gostamos de futebol e sim de um clube… é culpa da CBF?

A CBF liberta.

Quando o dedo vai na direção dela todo mundo se torna dono da tese que resolveria tudo, isento de culpa e cheio de “eu avisei” na cara.

Mas a CBF, meus caros, é apenas uma parte do problema. Sequer a maior parte.

Enquanto ela for culpada por tudo, vamos continuar patinando em soluções simplistas e mentirosas, tão hipocritas quanto os 200 comentaristas que passam o dia nas mesas redondas apontando dedo e não sugerindo uma solução.  Quanto a enorme parte das pessoas que não tem nenhum conhecimento comercial na vida e quer discutir os problemas de gestão de um campeonato.

Ou pior, quando ligamos a televisão e vemos as mesmas pessoas que acham nossos dirigentes “bandidos” e culpados pela nossa crise insinuando que a solução seja ser tão mafioso quanto alguns clubes europeus que a custo de crimes muito piores que os daqui, mantém grandes times fortes para disputar um campeonato que, veja você, reflete numa seleção ridícula e que não é parâmetro quando convém, como a nossa foi.

Estamos longe da solução. Mas muito perto de sentarmos em cima do problema e dizer, de novo: “A culpa é da CBF”.

abs,
RicaPerrone

Um vilão nos conforta

Ao final de todo campeonato onde não conquista-se o títulos procura-se um vilão.  E mesmo que a culpa seja devidamente dividida entre as partes, sempre haverá “o vilão”.

Botafogo e San Lorenzo não foi um daqueles jogos que faz o torcedor se lembrar do arbitro. Um 3×0 impiedoso, pouco discutível e bastante revoltante. Não fosse isso, o penalti do Maracanã seria o “vilão”.

Não será. Pois a falta de futebol do time numa decisão foi pior do que o erro do árbitro. E na dificuldade de se achar o pior deles, vai no treinador, que de fato não tem nenhuma credencial para o cargo que ocupa.

Mas se o time é fraco, então isenta-se o treinador, não?

Não.

Culpamos também a diretoria, que desmontou aos poucos um bom time até chegar no pior Botafogo dos últimos anos, curiosamente quando ele mais precisava e justificava investimento.

Problemas de dinheiro, o telhado do Engenhão, as penhoras na justiça. Ninguém deixou de investir porque quis.  Quis o destino que faltasse o dinheiro agora. E não, eu não vou achar que o Mauricio tenha derrubado o teto do estádio, nem mesmo penhorado o dinheiro do clube por dívidas que começaram quando ele nem sequer sonhava em existir.

Não foi o Jorge Wagner, nem o Henrique, menos ainda o El Tanque.  Este, coitado, é o piorzinho de todos e acabou “absolvido” pela correria.

Justo.

São tantos culpados para uma situação desenhada de véspera e todos eles com bons argumentos para se defender.

O vilão mais comum, a torcida, desta vez, não pode ser indicado ao prêmio. Ao contrário, foi “o melhor em campo” no torneio, surpreendentemente. E agora, cheia de argumentos, vai voltar pra toca e se recusar a acreditar tão cedo.

Ah, Botafogo… é tão difícil te entender. Imagine te explicar.

Era pra ser “o juiz”, como sempre. Mas desta vez os candidatos são tantos e tão qualificados ao prêmio de “vilão” que é preocupante não encontra-lo.

Quando a raiva não pode ser transferida para um terceiro, reflete no clube. E aí sim, quando não há um vilão, devemos nos preocupar.

Esta noite enche de razão milhares de pessimistas alvinegros que tanto defendem seu direito a dúvida.

É mesmo pra se duvidar até o fim. Sempre.

abs,
RicaPerrone