Familia

Bom final de semana!

Caro amigo brasileiro honesto,

Hoje é sexta-feira e eu sei como você se sente porque honesto também sou.  Fui criado também por pessoas que me impediram de roubar a caneta do coleguinha ou voltar com o troco errado da padaria. Enfim, como a enorme maioria, sou o mínimo aceitável de um ser humano.

Hoje faz cerca de 12 graus em São Paulo, onde estou passando a noite. Na entrada do mercado uma família na calçada me pediu pra comprar… um cobertor.  Eu comprei, é claro. Posso, graças a muito trabalho.  E junto dele comprei uns bolinhos pras crianças numa sacola. Quando eu dei o cobertor pra menina, ela viu a sacola cheia de bolinhos junto.

“Tio, você esqueceu esse saquinho…”.

Ela me devolveu!!!! Era pra ela. Mas eu não disse, ela não pediu, dei porque quis. Mas ela achou que era meu e com fome, na rua, passando frio, me DEVOLVEU!!!

Disse que era dela. Ela sorriu, “fica com Deus, Tio”.

Deus?

Caralho. Ela está na rua, com a família toda no exato momento em que a TV noticia a porra da absolvição do nosso honestíssimo senhor presidente.

Deus, pra ela, significa a justiça divina. A justiça que ela não vai ver mas precisa acreditar que haverá. Pois sem ela não dá pra acordar todo dia.

Essa família que agora passa frio na esquina da Oscar Freire com a Min Rocha Azevedo não tem o que comemorar. Mas quando eu fui embora, naquela situação horrível de se culpar por ter o que comer e não poder resolver o problema deles, eu olhei pra trás e ela abraçava o pai.

Não acabou. Por mais perdido que esteja, o jogo não acabou.

Eu sei que ele trocaria tudo por ter um jantar digno toda noite e uma casa pra morar. Mas eu sou capaz de apostar que esse cara não roubaria por medo de perder o olhar daquela menina de respeito e admiração.

Então, meus caros amigos brasileiros honestos que hoje dormem com mais um soco na cara, aproveite o final de semana para fazer a única coisa que esses filhos da puta não podem fazer e nós podemos:

Olhe nos olhos da sua família.  Abrace seu pai e agradeça a criação que ele te deu. Brinde com seus avós se ainda os tiver, e honre a comida comprada honestamente que estará na sua mesa.

Mas em homenagem a eles todos, o protesto mais humilhante que podemos fazer é esse. Passar o final de semana com nossas famílias e sem ter que baixar a cabeça pra desviar de um olhar.

Nós somos maioria.  Bom final de semana pra vocês!  😉

abs,
RicaPerrone

A grande família

José e Maria não viviam em paz. Seus filhos, Leo e Bia, nunca entenderam bem a relação dos pais e cresceram em meio a violência, hipocrisia e muitas mentiras.

Maria apanhava muito. Mas não era santa, já que traia José quase semanalmente.

Toda vizinhança sabia da relação conturbada, mas não desconfiava que chegaria as vias de fato, afinal, nada prendia Maria a José. Não tratava-se de um sequestro, mas sim de um casamento.

Se Maria estava lá é porque queria estar. José, então, é problema dela. Não dos vizinhos.

Um dia José informou em casa que havia convidado 2 casais de amigos para um churrasco. Maria questionou sobre a churrasqueira e José prometeu construir uma a tempo, já que o tal evento aconteceria apenas dali a 2 meses.

Em dúvida sobre a idéia, Maria questionou o preço da churrasqueira.

José disse que podia pagar. Que valorizaria o imóvel num futuro.
Maria aceitou. Sorriu, pensou na picanha e nas boas risadas que daria no tal churrasco.

Enquanto interditava o quintal para obras, José teve que desligar a máquina de lavar de Maria por alguns dias. Ela se irritou.

Discutiram. Rebelde, Maria disse que não queria mais receber ninguém.

José ponderou que já tinha feito a maior parte da obra, que seus amigos viriam de longe e que não era elegante e nem muito possível desfazer o convite.

Então, Maria surtou.

José a espancou mais uma vez. Chorando, foi ao banheiro tentar fazer com que ninguém ouvisse as lágrimas incoerentes de quem se mantém casada por vontade própria, mesmo que agredida constantemente.

A noite, foi pro samba trair o marido como “vingança”. E assim, entre socos e mentiras, mantiveram um lar de aparências, uma bomba relógio prestes a explodir.

Chegou o final de semana do tal churrasco. Ao acordar no sábado, prestes a ir ao aeroporto receber as visitas, José se deparou com Maria sentada amarrada a churrasqueira gritando: “Não vai ter churrasco!”.

José argumentou ainda ponderadamente que não dava mais pra cancelar. As visitas já haviam chegado e que não era prudente punir as visitas por problemas internos.

Afinal, que culpa tem os hospedes?

Rebelde, cansada, desgostosa com a própria omissão e covardia, Maria gritou mais alto. Não queria mais apenas se impor a José, mas sim a vizinhança inteira.

José a agrediu mais uma vez. Desta, sem deixar marcas para que as visitas não notassem.

As visitas chegaram e José foi logo mostrando a churrasqueira nova onde fariam o tal churrasco. As crianças foram receber as visitas e com a alegria e pureza de quem só enxergava uma tarde feliz em meio a tanta confusão.

Sentindo-se traída pelo marido, pelos filhos e principalmente por si mesma, Maria esperou todos sentarem, José acender o carvão e então desceu as escadas gritando que havia sido agredida.

As visitas não sabiam o que fazer. Maria se jogava no chão e contava barbaridades em prantos, como quem pede ajuda. Os vizinhos ouviram, se aproximaram, tentaram conter José, que já ameaçava agredi-la novamente.

Um tumulto daqueles. Veio a polícia, o bairro todo passou a saber que aquela família era uma mentira e José, violento.

Quebra-quebra, picanha voando, muita discussão e mesmo quando tudo se acalmou, não havia clima para churrasco.

Os hospedes se foram, a carne estragou. A churrasqueira, novinha, sofreu danos em meio a confusão. E Maria, agora vítima de um marido cruel aos olhos de todos, se via amparada por um monte de gente que não lhe dá a mínima.

A noite, quando todos vão embora, Maria se deita ao lado de José e faz sexo com ele.

Pela manhã, sai de casa ainda machucada e todos na rua olham com pena, com a certeza que ali vai uma mulher livre de seu marido cruel para não mais voltar.

Maria encontra seu amante. Passa a tarde com ele e volta para José, causando espanto na vizinhança.

Ao entrar em casa Maria olha as crianças, a churrasqueira quebrada, José bêbado no sofá e diz:
– Vamos consertar a churrasqueira?
– Porra, Maria! Tu quebrou tudo, estragou o churrasco, me fodeu na frente das visitas e agora quer que eu conserte a churrasqueira?!
– Agora que já fez, adianta deixar ai quebrada? Vê quanto é e conserta.
– E os nossos amigos, Maria? Como fica?
– Convide-os para um final de semana em casa e uma feijoada.
– Mas aí tem que consertar o fogão, trocar a cama e fazer um quarto de hospedes pra caber todo mundo!
– Tudo bem, José. É até bom. Valoriza o imóvel…
– E a gente?
– O que tem a gente?
– Tudo bem?
– Tudo. Normal… Você leva as crianças na escola?
– Levo…

abs,
RicaPerrone