galo

Acredita agora?

Caro atleticano,

Não costumo me manifestar pois toda vez que o faço as pessoas desconfiam. Em determinados momentos tive que me intrometer e vocês chamaram isso de “milagre”.

Pois bem. Que seja.

Ouvi muita choradeira e perdi a confiança de alguns de vocês durante anos e anos onde não podia fazer nada para ajudar. E então, há 2 anos, resolvi que lhes recompensaria pela dor, pela espera e pela fé.

Quando não deu por vocês mesmos, intercedi a seu favor.  No tal do futebol que vocês inventaram eles nem consideram tão absurdo assim os meus “milagres”.

Os concedo sempre que considero justo. Nunca me gabei, tento ser discreto, pouco me importa a fama.  Confesso que com o Galo me senti quase um ex-bbb tamanha vontade de estar em evidência que me dava nas noites de quarta-feira.

Ora ou outra testei sua fé. Queria confirmar que seriam capazes de acreditar até onde eu mesmo chegava a duvidar. E não me decepcionaram.

Vê-los sorrir com alguma frequência não é milagre meu, mas sim de sua incrível perseverança.

Eu mesmo cheguei a duvidar. Vocês, nunca.

Em 2013 devo confessar que muito me meti para que aquilo fosse possível. Mas em 2014, acredite, eu só assisti daqui de cima.

Não foi um milagre. Lhes prometi que vocês ririam por último até descontar tudo que já riram de vocês. E assim será.

Eu os abençoo.  Feliz natal.

Deus.

O Galo é “mau”

Olho pro Cruzeiro e vejo um time de futebol notável, competente, regular, merecedor de tudo que tem conseguido.  Olho pro outro lado e vejo um time menos organizado, menos planejado, com futuro muito mais incerto, porém, com um brilho nos olhos que o Cruzeiro não tem.

E não digo isso sugerindo apatia ou algo do gênero. Mas uma tremenda diferença na forma de “buscar” o que deseja.

O Cruzeiro planeja, o Galo dá seu jeito.

O Cruzeiro é regular, o Galo é brilhante.

O Cruzeiro tenta controlar o jogo, o Galo tenta destruí-lo.

O Cruzeiro pensa no jogo de volta, o Galo joga como se não houvesse dia seguinte.

O Cruzeiro tem medo de perder, o Galo tem a ousadia de querer ganhar.

O Cruzeiro faz o que pode, o Galo faz o que não pode.

E eu não ouso dizer que o título está definido por diversos motivos. Um deles é por considerar o time do Cruzeiro melhor que o do Galo.  E por saber que quem vive de paixão as vezes comete loucuras que “estragam tudo”.

O Cruzeiro erra muito pouco. Mas o Galo acerta muito mais.  E quando o alvo é grandioso, o risco é proporcional ao prêmio.

Eu não duvidei de nada do que aconteceu até aqui nesta Copa do Brasil. E nem duvido que o Cruzeiro faça 2×0 e leve pros pênaltis, invertendo o papel de milagreiro com o rival.

Mas não acredito.

Pelo simples fato de olhar pro campo e ver um Atlético cheio de sangue e um Cruzeiro cheio de cérebro.

Eu reconheço a superioridade cerebral à emocional. Mas prefiro a segunda.

O Cruzeiro não perde o controle. E o Galo, o irresistível charme de quem flerta com a morte para sair dela ainda mais vivo.

A bola é uma vadia. E ela raramente escolhe os bons meninos. Ela gosta de meninos maus…

abs,
RicaPerrone

O genial burro da noite

Luxemburgo é o maior responsável pelo semestre improvável e muito bom do Flamengo.  É incontestável seu ótimo trabalho e que o time foi até onde nem os mais otimistas eram capazes de prever quando foram ver a Copa do Mundo falando em “cair”.

Hoje, no Mineirão, Luxemburgo cometeu um dos maiores erros da sua carreira.

Não vou dizer que é “culpa dele” apenas porque há um puta time cheio de méritos do outro lado que vem fazendo isso com alguma frequência, então, não é sorte.

Acho que na cabeça dele escalou o Eduardo pra tentar segurar mais a bola na frente e devolver menos pro Galo. Ou, menos rápido talvez.

Nixon, Everton e Gabriel são jogadores que quando pegam a bola tentam rapidamente o lance.  Ele deve ter pensado em prender mais o jogo longe da área e colocou Elton, esperando que ele fizesse parede com os beques ao invés de tentar jogadas rápidas e mais dificeis.

Não funcionou. E então colocou Mattheus, a pior das alterações.

Naquele momento Luxemburgo perdeu o contra-ataque e deixou o time lento. O Galo com a bola, o Flamengo sem velocidade pra sair jogando e com dois jogadores que não entenderam o que estavam disputando.

Mattheus e Elton entraram num amistoso, não numa semifinal. Andaram no campo, não conseguiram participar do jogo.

E o Luxemburgo acabou sendo o grande culpado pelo péssimo segundo tempo do Flamengo.

Não acho muito inteligente contestar tudo por uma noite infeliz. Nem dar ao treinador toda culpa e novamente isentar 11 jogadores da incrível capacidade que o Flamengo tem de não saber ser favorito.

Mas o ótimo Luxemburgo que voltou ao Flamengo teve hoje sua noite de Celso Roth.

abs,
RicaPerrone

O melhor Galo de todos os tempos

É difícil ter esperanças de ver a melhor parte de uma história. Normalmente elas só ganham o tamanho definitivo quando acabam e portanto, quando não estamos mais a vive-la.

O Atlético MG teve que justificar sua grandeza num passado distante e nem tão glorioso assim por longos 40 anos. Comprovante de grandeza ainda em preto e branco, num papel velho e desbotado. Incrivelmente interminável, diga-se.

Em 2013, “sorte”.  Ok. Vamos aceitar a amargura rival e determinar que aquilo foi um surto.  Sai Ronaldinho, sai o Jô, machuca o Rever, e o Galo continua sendo o dono das quartas feiras no Brasil.

Porque não é o Ronaldinho, nem o Réver, nem será o Tardelli amanhã. É o Galo! É um time, um momento, um trabalho, uma história sendo contada com a incrível perseverança de uma torcida que acreditou mesmo quando não era mais lógico acreditar.

E aqui estão, ex-sofredores.

Primeiro a Recopa, suada, sofrida, quase um roteiro de cinema. Depois os novos “milagres” da Copa do Brasil.

Alguém tem notícias de algum clube que tenha feito do futebol algo tão incrível num intervalo tão curto de tempo? Eu não me lembro. E acho que não há em toda a história uma sequência de viradas épicas como esta do Atlético.

Cinematográfico! De gerar torcedores, de fazer quem não é, ser.

Não posso de forma alguma dizer que é o melhor time do mundo, do Brasil sequer. Mas posso dizer sem risco de errar que estamos diante do melhor Atlético MG da história.

Já é o mais vencedor.  E também, de longe, o dono das mais espetaculares páginas de um livro centenário e cheio de páginas em branco.

Agora faltam páginas.

Você, ex-sofredor, insistente e esperançoso apaixonado que esperou mais do que todo mundo pra poder viver este sonho, pode acordar.

É real! É o melhor Atlético de todos. E você é parte fundamental dele.

abs,
RicaPerrone

E você? Duvida?

Já faz mais de um ano, nem parece que “foi ontem”. O novo Mineirão parece ter surgido com vocação para registrar o imponderável.  Desde a Libertadores do Galo, passando pelo doloroso 7×1, a noite desta quarta-feira, enfim. Virou um palco de milagres.

O que aconteceu nesta noite foi a aula prática do que diferencia um vencedor de mata-mata para um estratégico campeão de pontos corridos.  A frigidez não será perdoada num torneio onde você não torce contra seu adversário, mas sim o confronta.

Tardelli jogou ontem e estava em campo. Elias não.

O Galo tomou 1×0 e foi pra dentro como quem tivesse certeza que, se não virasse, ao menos um estrago faria.  Tardelli não quis sair, e quem saiu machucado chorou no banco de reservas.

Frios, os corintianos buscavam regulamento. “Só pode tomar mais 1”. E tomaram, óbvio.   Quatro, aliás.

Porque nem sempre o futebol está disposto a premiar aquele que pensa.  Na verdade, quando consultado, ele sempre prefere eternizar aquele que está disposto a fazer algo mais.

O Atlético MG virou o porto dos milagres. Não há mais placar irreversível, pênalti no fim que estrague a festa ou jogo resolvido antes dos 49.  Não há mais o que duvidar desde que eles gritaram que “acreditam”.

E acreditam.

Não a toa. O Galo é o time que faz uma torcida gritar que “acredita” e outra, quase sempre no fim, com as mãos na cabeça dizer, bem baixinho, devagar… “Eu não acredito!”.

abs,
RicaPerrone

Acreditem: É possível!

É exagero protestar contra um time que briga por Libertadores e está bem na Copa do Brasil.  Mas não é exagero cobrar mais de um time que tem Elias, um volante fantástico.  Renato Augusto, um raro meia brasileiro que ainda joga de cabeça erguida. Guerrero, o melhor atacante grosso do país. Entre outras figuras não tão notáveis mas que podem dar a este Corinthians mais do que uma sequência de jogos sonolentos em busca do meio a zero.

O Galo joga por Tardelli. O Corinthians por Guerrero.  Tardelli tem mais recurso que Guerrero.  Mas o corintiano não tem vergonha de ser grosso. E isso faz dele tão importante quanto o atleticano.

É possível que o sonolento Corinthians dos domingos se torne outro time nas emocionantes quartas-feiras de mata-mata.  São campeonatos muito diferentes, que colocam rebaixados como campeões e campeões como eliminados.

Na Copa do Brasil ouso dizer que o Cruzeiro não é “o favorito”. Sem dúvida, “um deles”. Mas só isso.

O justo 1×0 virou um resultado incrível numa falha do goleiro Victor. Dois a zero em casa é muito bom, uma vantagem das mais confortáveis que te dá a vaga num golzinho praticamente.

Mas a medida que se tornou difícil pro Galo, também se tornou sedutor. O Mineirão que cobraria uma vaga vai tentar jogar por ela. E temos um passado recente que nos confirma que lá, quando acreditam, é ruim de duvidar.

E agora que o corintiano acredita na Copa do Brasil e o atleticano numa virada histórica, temos um jogo épico a seguir.

Que só seria mais incrível e histórico se não acontecesse. Se os times fizessem greve, não fossem a campo como protesto por perderem seus jogadores pra seleção justo numa decisão.

Mas não. Nesse sonho, nem eu acredito.

abs,
RicaPerrone

Ronaldinho do Galo

Ronaldinho, sabe? Aquele.

Qualquer um lembra. O cara que fez no Barcelona muito próximo ao que faz Messi hoje e que mesmo assim nunca teve seu nome comparado a Pelé pela mídia nacional. Talvez por não ser o que chamamos de “carismático”, talvez por nunca ter sido na seleção o que foi naquele Barcelona, ou, talvez, por nunca ter sido em mais lugar algum aquele Ronaldinho.

Fato é que Ronaldinho virou uma marca do futebol brasileiro atrelada a clube nenhum.

E se tem algo que deve matar um jogador por dentro é ter que sair do seu país pra receber os aplausos que conquistou com trabalho.  Ronaldinho não quis ser do Grêmio, os traiu, na mais “moleque” e ingrata decisão de sua carreira.

Mas voltou ao Brasil para tentar cair nos braços da maior torcida do país. Quase conseguiu, não fosse uma saída conturbada e novamente com sintomas de não muita transparência.

E então surge no Galo.  Ronaldinho chegou ao Atlético Mineiro e fez do Galo o “time do Ronaldinho”.  Até que conquistaram a América pelos pés ( e mãos) de outros protagonistas e, enfim, passamos a ter o “Ronaldinho do Galo”.

O craque, a referência, mas em momento algum o único fator que determinou a conquista. E portanto, jogador que fez parte do clube, não o contrário.

De hoje em diante, quando nos referirmos a Ronaldinho, que já foi “gaúcho”, lembraremos dele de alvi-negro. E sim, usaremos o termo “Ronaldinho do Galo”, lembrando sempre aquele “Galo do Ronaldinho” que foi campeão da mais incrível Libertadores de todos os tempos.

A bola é uma mulher vaidosa que só se apaixona por homens bem vestidos. Faltava ao Ronaldinho uma camisa.

Faltava.

abs,
RicaPerrone

As bandeiras

Após uma rodada onde uma mulher erra um lance na arbitragem sempre me fazem a pergunta: “Mulher deveria apitar jogo de homens?”.  E eu sempre fico com medo de responder o que de fato penso, pois hoje em dia ou você fala o que “pode” ou fica na sua.

Pois bem. Eu acho que sim, podem apitar sim. Não é o fato de ser mulher que determina o quanto a pessoa tem capacidade de enxergar um impedimento.

Mas é também bastante incontestável a facilidade que o homem tem dentro de um campo em relação a qualquer coisa que ali aconteça.  Por ser homem? Não, por ter sido criado dentro disso.  Mulheres dificilmente são criadas no futebol, e quando são, mesmo que joguem, jogam muito menos vezes que os homens.

É cultural. Um prato cheio pra uma duzia de feministas alucinadas virem gritar que “nada a ver”.  Mas no fundo, sabemos. É como fazer a unha.  Eu posso aprender, mas é mais fácil uma mulher que faz a unha há 20 anos pegar o jeito do que eu.

Evitaria? Não. Treinaria até evitar os erros mais grotescos.

Colocaria num clássico?  Acho que não.

Jogadores são reflexo da sociedade e isso nada tem a ver com futebol. Uma mulher em forma é “gostosa” e no campo vai sair a mesma palavra, queiram ou não. Ela será sempre a “gostosa que apita”, não a ótima bandeira que está ali.

Tem que ser feia, então? Não. Na verdade não tem que ser nada. Apenas aceitar o fato que é uma novidade, que o passado de quem tentou não ajuda no crédito e que a dificuldade é maior.

É um mundo de homens. Qualquer mulher tem dificuldade em entrar nele.  Não é machismo, nem conspiração. É instinto, cultura, hábito.

Se fosse homem, era só “ladrão” hoje cedo.  Sendo mulher, é “mulher”.

Isso pra muita gente soa como um preconceito inaceitável. E eu discordo. Acho o preconceito instintivo. Haverá sempre, pro bem e pro mal.  O problema não é ser mulher, mas sim o tamanho do risco.

Uma coisa é você colocar um bandeira homem que vai passar sem ser notado. Outra é uma loira em meio a 40 mil homens sem nenhum limite do que dizer, gritando na orelha dela o jogo todo, com cameras espalhadas, o fato dela ser mulher berrando em seu ouvido e dois times que invariavelmente olham pra suas coxas a cada escanteio.

Isso evidentemente a pressiona mais do que a qualquer homem. E se já é mais difícil pra uma mulher entrar no futebol, imagine sob estas condições.

Pra ser bandeirinha mulher tem que ser macho. Muito macho.

abs,
RicaPerrone