imperador

O mais puro Imperador

Hoje é dia de verdade. Dia de subir o morro pra encontrar quem cresceu comigo. Dia de meter gol no rival e mostrar os musculos pra mais tarde.  Dia de chorar feito moleque num corpo de gladiador.

Dia de cometer burrices imperdoáveis em meio a conquistas geniais. Dia de andar descalço na favela tendo aos seus pés uma mansão em Milão.

É dia de estacionar a BMW na comunidade pra empinar pipa na laje. Dia de ser herói com a 9 da seleção e jogar bilhar no boteco pra comemorar no outro dia.

Dia de ser gente como a gente, mesmo sendo um super herói trapalhão.

De trocar o amigo ator pelo amigo frentista do posto de gasolina que foi criado com você.  Dia de recusar entrevista pra Globo porque tá com sono.

Dia de chorar a morte do pai. Dia de encher a casa de mulher. Mas mulheres de verdade, do dia a dia, não as da revista.  Mulheres da Vila Cruzeiro, por exemplo.

Dia de ser o ídolo que fez tudo pra dar errado e deu certo. Dia de ser o herói de uma nação.  O mais favelado da “favela”  rubro negra. O estereótipo perfeito do que um dia foi “mulambo”  por ofensa.

Adriano é o carioca. É o povo do Rio em forma humana, descalço e louco pra sorrir a toa, mesmo metendo a marra por instinto.

Hoje, aos 38, comemora uma vida cheia de altos e baixos mas com todos os erros e acertos de quem corre o risco de ser quem  de fato é.  Nosso Imperador não pode usar ouro, roupa chique, sapato italiano e nem passar o domingo sóbrio.

Imperador do Flamengo? Não. Adriano é o jogador que nós seríamos.

O nosso erro possível. O inatingível mais real que já tivemos.

Erre sempre, Adriano.  Nós amamos você assim, todo errado.  Afinal, nossa vida não é como a do Instagram.’

RicaPerrone

E quem não quer ver o milagre?

Aos 30, fora de forma, era um risco. Aos 32, uma última chance. Aos 35 anos, sem se cuidar há muitos deles, Adriano e a bola flertam, tem todo o apoio dos lados necessários, até a vontade, mas talvez dessa vez não seja mais suficiente.

Quando esse cara sorri alguma coisa nele transmite sinceridade. Não há um ser humano sensível capaz de ignorar a pureza que há no Adriano.

Eu não o via pessoalmente desde 2008, quando trabalhamos no SPFC.  Encontrei há 2 ou 3 semanas num restaurante no Rio. Ele estava com Carlos Alberto e eu não sabia se ele sequer se lembraria de mim. Parei do lado e arrisquei: “Imperador?”

Cara, ele não é daqui.

Levantou, me abraçou, me deu um beijo, perguntou como eu tava, por onde andei, foi carinhoso ao extremo.  Falou da derrota pro Flu em 2008, que foi uma das ultimas vezes que nos vimos.  Mas independente da educação, a pureza.  Eu sou jornalista. Ele tava bebendo.  Eu podia ser um dos milhões de babacas que cobrem a vida pessoal dele como novela. Que garantia ele tem?

Ele parte do princípio que as pessoas são boas a volta dele. E isso o prejudica muito, mas também faz dele um puta cara diferente. Gostar do Adriano é uma questão de bom senso. Confirmar o que ele transmite é uma oportunidade rara que tive o privilégio.

É o Imperador da favela. O cara que jogava na Inter ainda sendo um moleque que empinava pipa.  Ele nunca saiu da favela, nunca fez mais do que 19 anos, e o corpo dele não acompanha. A cobrança idem.

Ele quer voltar.  Mas aos 35, sem ser um “Zé Roberto”, tudo que ouço dos preparadores físicos é a palavra “milagre”. Todos que consultei falaram em “milagre”.

É realmente muito difícil. Improvável. Talvez, um milagre.

Mas imaginar a volta de Adriano aos gramados pode até parecer um milagre. Não sorrir com essa possibilidade é quase um desvio de caráter.

Viva o Imperador! Com ou sem chuteiras, tanto faz.  Desconfiar dos motivos que levam o povo a adora-lo é um atestado de falta de sensibilidade e, porque não, burrice.

abs,
RicaPerrone