lei rouanet

Não, Cláudia!

Não, musa. O Brasileiro não está sendo analfabeto no caso da implicancia com as leis de incentivo a cultura. Na verdade a ignorancia é de vossa classe, que invariavelmente cresceu em Nárnia e ainda não saiu dela.

E com todo respeito a você, que eu sou fã, a crítica vai alem. A enorme maioria dos artistas e não a você, que apenas representou o que eles pensam.

Eu tenho dezenas de amigos artistas e essa discussão é constante. A maior parte deles se acha fundamental, necessário, diferente, superior. E eu lamento mas no dia que um artista for mais necessário que um médico, um bombeiro, um policial ou um bom professor o mundo acabou.

E eu sei que ele já acabou há decadas.

O pedestal artistico que vocês tiveram por décadas via monopolio Global não existe mais. Alguns já perceberam, outros não. Não somos mais um povo todo que os idolatra por tudo que dizem. A gente melhorou um pouco e hoje conseguimos entender vossa qualidade profissional sem não notar vosso interesse comercial.

Como você acha que se sente um sujeito que vê a enchente levar sua casa toda, ouvindo o governardor dizer que não há dinheiro pra obras e artistas consagrados recebendo bilhões pra fazer suas peças?

“Ah mas sem incentivo não tem como”. Então, Claudia… se eu quiser abrir uma padaria sem dinheiro também não tem como. Porque quando você quer atuar eu que pago?

Porque todo empreendedor tem riscos no pais mais cheio de impostos do mundo e vocês querem garantias de lucro pra trabalhar?

Pior: A enorme maioria não tem como anunciar seu negócio. Vocês, pela fama, já partem desse beneficio. E ainda assim querem o nosso dinheiro pra fazer peça de teatro?

Não tem gente pra ir? Então não faz. Porque se eu quiser abrir uma loja de tubaina e não tiver quem compre eu quebro. E é assim pra todo cidadão do país. Do mundo, aliás.

Porque vocês, artistas, acham que são tão mais importantes? Que diferença faz na vida do brasileiro que não tem o que comer segundo vosso queridinho, em ter uma peça de teatro?

Já ouvi um artista me dizer que a arte é tão importante quanto a saude. E eu juro que não consigo entender como um sujeito que acha isso passa sequer num exame pra tirar Carteira de habilitação tamanha burrice.

Explica pra nós, Claudia. Se você, consagrada, rica, famosa, precisa de garantias pra empreender e trabalhar, porque o Tião do boteco ali da esquina precisa se endividar?

Porque nós não temos saúde e transporte mas queremos sua peça de dança?

Porque eu tenho que pagar cada viagem ou gravação que faço por trabalho e você quer que a sua seja paga por mim?

Não é uma dose de arrogância entender que a sua arte é fundamental pra mim? Você paga impostos pra ter várias coisas que você não tem. E não reclama. E ainda acha que somos analfabetos em achar anormal um artista rico querer garantias do meu dinheiro pra não levar prejuizo?

Olha, meus caros, vocês não tem culpa de viver num universo paralelo de fama, poder e vaidade. Mas daí a querer que a gente sustente isso são outros 500.

Corram riscos. É assim que a banda toca. Pra todos. Ou todes. Enfim.

Rica Perrone

Minha Lei Rouanet

Após o 7×1 eu conversei com os meus amigos da produtora Base1 e resolvemos fazer um documentário com uma tese que tenho sobre a queda do futebol brasileiro. Eu não vou expor aqui em linhas o que faríamos em viagens internacionais e centenas de horas de gravações, mas basicamente queria mostrar que ha uma dose grande social/cultural no momento do nosso futebol.

Enfim.

“Lamentavelmente” somos honestos e não superfaturamos o documentario. O total dele deu menos de 350 mil. Era bem honesto e com preços de mercado mesmo, sem tentar “meter a boa” em cima de nada.

Eis nosso erro.

Aprovaram. O documentário era bom, o que ia ser mostrado era novo e relevante.  E com ele nas mãos eu fui até as empresas buscar essa “grana fácil” já aprovada.

Pois bem. Descobri que não é assim.

Há uma organização onde “captadoras” sabem exatamente as empresas que fazem uso disso e levam um % para apresentar vocês pra eles. Até aí, ok.

Não usamos. Fui nas empresas eu mesmo. E fui em mais de 15 mostrar o projeto e pedir um dinheiro que era de imposto. Não lhes daria um prejuizo.

Ouvi de uma que era “muito enxuto”. De outra que “não valia a pena pra eles”, e assim fui ouvindo até entender o esquema.

Meu filme custa 400. Eu peço 1 milhão na lei. Aprovam, a empresa da o milhão e eu devolvo, sei lá, 300 mil pra ela, pro cara que aprovou, ou pra quem for. Mas alguém ganha mais do que o filme em si.

E por não termos orçado o % da propina, ninguém nos deu um real. Imagine você nossa reação ao ver um projeto PAGO pelo governo não receber um real porque ninguém além do documentário ganharia alguma coisa.

Desistimos.

Não houve documentário. E desde então sei que não deve haver Rouanet. Ou, se deve, que seja devidamente investigada e bem feita. Para quem precisa, com reais contribuições a cultura e não “comprando” artistas e empresas sob o argumento da cultura para garantir a próxima eleição.

A Rouanet era uma boa idéia. Hoje é só mais um esquema.

abs,
RicaPerrone