marcio araujo

Esse cara não sou eu

A gente passa longe de ser o que temos por ideal de ser humano. No facebook, talvez. Mas na vida real, não somos o poço de razão, educação, sabedoria e gentileza que gostaríamos. Menos ainda os seres evoluídos livres de vingança, rancor e ódio.

Eu tenho minhas dificuldades.  Não lido bem com certas situações, sou um cara rancoroso, se alguém me agride eu não quero perdoa-lo mas sim matá-lo. Não se choque, sou só um cara conhecido sendo ele mesmo na internet. Eu sei que é terrível, mas sim, eu sou vingativo, tenho defeitos, pego raiva de pessoas e sou egoista as vezes.  Quase sempre, até.

Enfim.

Eu fico constrangido quando vejo Marcio Araújo.

Porque ele não joga muita coisa, de fato. Mas sabe sua limitação, aceita, se coloca com humildade em uma condição que pode render e ouvir calado que és um merda todo santo dia pos anos e anos. E não responde, não surta, não odeia o clube. Eu já teria ido pro Vasco, feito um gol e mandado uma pica pra torcida do Flamengo. Porque?

Porque eu sou assim. Um ser humano pior que o Márcio Araujo, com certeza.

Mas ele não. Ele ficou ali, apanhou, treinou, apanhou, treinou, voltou, saiu, voltou, achou espaço quando rotulado como carta fora do baralho e…  é campeão, titular, um dos melhores em campo.

Fundamental.

O cara que equilibrou o Flamengo. Que deu suporte a zaga e liberdade aos volantes pra ajudar o Diego. Que atende o que lhe pedem, que calado se faz mito e que nunca precisou responder alguém para vencer a discussão.

Caralho, eu queria ser o Márcio Araújo no twitter. Eu estaria rico. Mas não. Porque ele é melhor do que eu.

Do que o Cuellar, talvez do que alguns outros consagrados, e por isso ele é titular do Flamengo. Amanhã ele vai ser adiantado, errar passes, sair da função quase acéfala que lhe cabe taticamente, mas ele vai continuar calado, sem ressentimento, treinando e buscando o seu lugar ao sol.

Eu sei que isso é do Diego, as vezes do Guerrero. Mas hoje, empresta pra ele, vai?

Que homão da porra!

abs,
RicaPerrone

Porque Márcio Araújo?

Pode parecer indiscutível a “não titularidade” do Márcio Araújo a qualquer rubro-negro que espera dos seus um talento mínimo para estar entre os 11. Mas quando se fala de tática, é simples e quase provável que Márcio Araújo seja titular do “Flamengo ideal”.

Tá maluco, Rica? Tô, não.

O cara tem 32 anos, não joga grande coisa de fato. Tem poucos títulos, embora tenha jogado em 2 times grandes antes do Fla, é um jogador comum em fim de carreira. E só.

O ponto não é “a qualidade do Márcio Araújo”, mas sim a “função do Márcio Araújo”.

É aplicado, faz o que o treinador manda, não tem a vaidade de tentar buscar uma jogada de ataque por 90 minutos se necessário.  O Flamengo hoje joga numa linha de volantes com 2 caras que sabem jogar, mas que marcam pouco. Não são daqueles jogadores cujo a função número 1 é brigar pela bola. Arão e Rômulo seriam, 10 anos atrás, dois “segundos volantes”.

Um dos zagueiros do Flamengo, seja o Rever ou o Juan, é um cara bem lento de mais idade. Não dá pra correr o risco. Precisa proteção.

Quando joga o Marcio Araujo, você não apenas protege os zagueiros com um “falso terceiro zagueiro” – Um Jailton em 2017 – como também devolve a Arão e Rômulo seu melhor posicionamento.

Dá mais tranquilidade para os laterais, dá mais condição pro Diego estar perto da área sem tanta obrigação de recompor. Márcio Araújo, talvez, seja um “mal necessário”.

O Flamengo com ele jogou um primeiro tempo muito bom no Chile e não saiu vencendo por detalhes. Não porque ele mudou o time tecnicamente, mas porque sua posição tática devolve ao time alguns talentos se sacrificando menos pra recompor.

Eu apostei em janeiro, vocês se lembram, que o Flamengo rodaria, rodaria, e terminaria com ele no time.  Por isso. Ninguém no elenco do Flamengo faz a função Márcio Araújo.

Ou vocês acham que alguém joga anos no Palmeiras e no Flamengo de titular sob o aval de variados treinadores sendo fraco tecnicamente porque?

Márcio Araújo não joga muita bola. Mas sua presença melhora o futebol do resto do time. E isso as vezes compensa.

abs,
RicaPerrone

Os “quase heróis” e o “herói”

Pode dizer que foi drama de véspera, que nem havia contusão. Tanto faz. Se não houve, mais mérito ainda pro Palmeiras que fez o Flamengo acreditar que não teria seu principal jogador.

Os rubro-negros tiveram sua noite de “quase heróis”. Da expulsão de Márcio Araújo, que considerei um pouco exagerada mas bem previsível, a saída de Diego, os que estavam em campo tiveram script de super herói.  Era achar um gol e estava feito o maior “milagre” rubro negro do ano.

Volante poupado da culpa, treinador nas nuvens, time na liderança, o Santos Dumont não daria conta. Teriam que desembarcar no Galeão.

E a saída do Diego não é absurda como parece. O meia joga pro time, joga bem mas não é o responsável individual pelo time estar vencendo. Diego está bem. Não está brilhando. E sua saída me pareceu uma questão estratégica simples: Se vou contra-atacar, saco o meia e deixo os abertos em campo.

O Palmeiras entendeu, aumentou o poder pelo setor com Xavier e foi pra cima. Tomou o gol num lance onde o Patrick apareceu sozinho aberto, onde fatalmente o Diego não estaria. Ponto para o professor.

Ferrolho neles. Mas era o líder do campeonato, em casa, e com Jesus. O garoto foi colocado em campo como arma letal. Era dele a obrigação, machucado ou não, de resolver a parada.

E não é que o fez?

O empate no fim mudou o saldo do jogo de 10 heróis para apenas um.  O resultado é muito bom pro Flamengo, nem tanto pro Palmeiras, mas que ainda é o líder. Logo, não dá pra reclamar muito.

O Flamengo sai de São Paulo tão forte quanto embarcou no Santos Dumont. E o Palmeiras enfrenta o Corinthians líder, mas sem o herói.

Robinho e Fred decidem nesta quinta se ainda temos um trio buscando o título ou se vimos mesmo uma “final” antecipada nesta quarta-feira.

abs,
RicaPerrone

Religiões

Por Deus! Como é embaraçoso escrever este post após a final do carioca 2014.  Tudo que prego é que num momento de alegria se fomente a paixão e ignore a derrota para, amanhã mais calmo, tocar na ferida sem que machuque tanto.

Faria, hoje, um texto exaltando o Flamengo e seu incrível poder de reagir e frustrar quando ninguém espera. Mas já fiz uns 20 desses, seria “mais um”. Seria também injusto com o vascaíno que não se conforma escrever linhas ignorando o fato de ter sido irregular o gol que mudou a história.

E que história.

De um Vasco melhor em dois jogos, a 2 minutos de colocar o rival em crise “sem nada” e sair de um buraco fundo mesmo que por algumas semanas apenas.

O campeonato carioca não valeu nada durante meses. Até os 30 minutos do segundo tempo deste jogo, não valia nada.

Douglas fez o gol num raro pênalti incontestável para um Flamengo x Vasco.  Não há pênalti incontestável em Flamengo x Vasco. Mas até isso teve hoje.

E então, aos 30 do segundo tempo, o vascaíno passou a entender aquele título como a coisa mais importante da década. E o rubro-negro, vendo sua piadinha do “vice” acabar e crise se instalar na Gávea novamente, passou a comer unhas como quem sai de uma Libertadores.

44, acabou!

Zagueiro no chão, escanteio. Não pode ser cera. Se for, demita-o!  Bola na área, lance complicado, bate na trave, volta, dois empurram, gol do Flamengo.

O bandeira diz que não viu nada. O arbitro nem poderia. Está feito.

O Flamengo é mais uma vez o clube do imponderável, do inacreditável, da vocação cinematográfica incomum para grandes jogos. E o Vasco, “vice”, olha e nem nota que havia impedimento.

Pela tv, segundos depois, são informados que o gol que lhes tirou o até então merecidíssimo título carioca não era legal. Enquanto começavam a se lamentar, o Rio de Janeiro era tomado por gritos e camisas rubro-negras que até ontem não se importavam com o estadual.

Hoje se importam. Óbvio, por um momento assistindo ao jogo até eu achei que valia.

Vascaínos não podem ignorar o erro que, hoje, lhes determinou um resultado negativo sem chances para recuperação. Nem podem os rubro-negros fingirem não achar graça da desgraça alheia.

Se fosse rubro-negro, agradeceria a todos os santos e orixás pelo imponderável que o acompanha.

Se fosse vascaíno, com absoluta certeza não acreditaria em qualquer força oculta vinda de nenhum ser inexplicável para “nos ajudar” quando muito precisamos.

Todo vascaíno tem o direito de ser ateu. É compreensível, quase lógico.

Eu seria.

abs,
RicaPerrone