Mundial

Bolo sem cereja não estraga festa

A luta é longa, o sonho é claro e tem data marcada. Todos querem a Libertadores, que é a realização meritocrata do possível.

O Mundial, hoje, e há alguns anos, é um sonho distante e que conta mais com uma dose de acaso do que com ser, de fato, “o melhor do mundo”.

Por isso os europeus não dão tanto valor. Pois pra eles antigamente era inviável, em seguida virou obrigação. Veja você. Nós já fomos os imbatíveis.

Hoje o Flamengo poderia perder de goleada, tentar vencer por uma bola, travar o jogo em pontapés.  Jogou como time grande, de frente, buscando, lealmente, a vitória.

Não foi por uma bola. Foi por várias. E elas até existiram. Pra lá e pra cá, é verdade.

A cereja do bolo não veio.  Ficamos com os brigadeiros, os convidados, o bolo em si e a alegria de ter muito o que comemorar.

Inclusive, pasmem, a forma com que perdeu. Pois se há muito o Brasil vai ao Mundial pra não jogar, hoje foi pra trocar tiro e não pra correr deles.

O placar de Lima talvez não seja coerente com o jogo. O de Doha idem.

As vezes a bola escolhe lados meio sem critério.  O Liverpool é melhor. Hoje, o Flamengo foi “maior”.

É diferente.

RicaPerrone

Vocês não tem o direito de baixar a cabeça

Torcedor gremista,

Em 2017 pela primeira vez na vida tive a oportunidade de estar próximo de vocês.  Os torcedores nunca entendem o que eu faço, e vocês serão os próximos a não entender quando o Inter for campeão e eu for viver isso perto deles, escrevendo sobre e vivenciando o ambiente de cada clube.

Já me acostumei.

O ano acabou agora, faz 20 minutos. O Real Madrid confirmou o favoritismo e ganhou o mundial. Eu acho uma pena, torci muito, mas independente do resultado deste torneio – que é menos importante que a Libertadores – eu espero que não tenha nenhum de vocês de cabeça baixa.

Poucas torcidas são tão devotas ao clube. Poucas torcidas tem tanto empenho em participar.  E nenhuma torcida tem tamanha paixão e vocação por decisões. O famoso “copar” de vocês.  Viu? Já aprendi.

Não foi um título apenas. Foi uma Copa do Brasil na semifinal, um Brasileirão brigando por título com time reserva, um tricampeonato da América jogando uma final brilhante, e um Mundial com toda dignidade de quem hoje não pode peitar abertamente um adversário do alto escalão europeu.

O Grêmio de 2017 foi maior do que o título. Ele nos deu futebol bem jogado, padrão de jogo independente das peças, conceito, elo entre torcida e time, além de um trabalho muito bom de um grupo unido, reduzido, mas ainda assim muito capaz.

Vocês foram a Buenos Aires e calaram um estádio “de bairro”, que tanto se orgulham por lá. Vocês foram ao Mundial e o Cristiano Ronaldo não passou nenhuma vez pela sua defesa.

Dói. Porque a gente sonha. E quando a gente sonha a realidade fica bastante sem graça. Mas não sonhar é para os pequenos. Pés no chão é pra quem não voa. E a distância entre a tristeza de hoje e a euforia de voltar à Arena, rever os amigos, refazer o ritual e “querer a Copa” é de apenas 2 meses. Em fevereiro o sonho recomeça.

Quem disse que em dezembro de 2018 ele não pode ser ainda mais real?

Levanta essa cabeça, beija essa camisa, abraça o amigo ao lado e comece a falar em “tetra”.  Você tem todos os motivos do mundo pra isso.

Até ano que vem! E obrigado por tudo que me permitiram  conhecer desta gente e deste clube.

abs,
RicaPerrone

O campeão do mundo – o jogo

Eles realmente pouco se importam. Não fazem um esforço muito incomum, mas são hoje superiores ao futebol mundial, não a esse ou aquele.  Acho uma pena que 6 clubes tenham amplo favoritismo sobre o planeta. Gostava mais de futebol quando o Roma era uma pedreira, quando uma disputa entre campeões de Libertadores e Champions não tinha favorito.

Gostava mais quanto tinhamos 40 craques em atividade. Hoje temos 3. É brutal a diferença, e se torna ainda mais nítida quando 5 ou 6 clubes juntam esses acima da média só entre eles.

O Grêmio foi com medo. E tem razão pra isso. Ninguém quer fazer o que o Santos fez.  Mas na verdade o Real Madrid ganhou com uma bola parada, teve o seu ataque razoavelmente bem anulado pelo Grêmio.  Mas verdade também que não precisou se esforçar.

O Grêmio parecia dopado pela idéia de que todo jogador que veste branco joga muito mais que ele. Alguns supervalorizados até. Mas em momento algum o time brasileiro quis fazer o gol. E aí não dá pra ser campeão.

Dava? Acho que dava. Sempre dá. É futebol, não é um esporte qualquer. Mas as chances eram pequenas, foram diminuindo sem Arthur, na noite ruim do Luan, sem inscrever o Cícero, etc, etc, etc….

Tenho breves considerações sobre a partida:

  • O Luan não pipocou. Jogou mal. Pipoqueiro é o cara que some do jogo difícil. O Luan foi buscar bola na meia lua do Grêmio o tempo todo pra tentar jogar. Errou. Mas buscou e não se omitiu. Não confunda as coisas.
  • O Geromel foi o melhor em campo.
  • O lance do Geromel no Cristiano aos 3 minutos de jogo é exatamente o que falta à seleção brasileira.  Tite, convoque-o.  O Thiago Silva abraçaria o Cristiano na primeira trombada. O Geromel fez ele jogar do outro lado. As vezes o jogo precisa ser como é, não como floreiam os jornalistas criados em condominio.
  • O Grêmio teve medo de dar a bola pro Real. E quando tinha tocava tão sem objetividade que não criava e nem dava muito espaço. Um jogo sem nexo.
  • Barrios é muito ruim.
  • Eu teria usado o Everton mais cedo. Não sei se pela bola, mas porque é preferível ele prendendo o Marcelo e o Ramiro no meio do que o Ramiro aberto e o Marcelo sem ter ninguém enfiado do lado dele.

Venceu o melhor time. Simples assim.

O Grêmio não tem do que se envergonhar, o Real mesmo que não queira pela arrogância, deveria ter do que se orgulhar. O Mundial hoje é um torneio quase “a espera de um milagre”.  Mas ainda é um Mundial.

abs,
RicaPerrone

Pra sempre

Era 18 de dezembro de 2005. Um dos raros dias que não começou, nem terminou.

Há alguns meses eu havia saído de casa e passado pelo processo traumático que é uma separação. Tudo isso aconteceu na mesma semana em que o São Paulo ganhou a Libertadores e que, portanto, jamais pude comemorar como gostaria.

Naquele dia eu precisava ser campeão do mundo.

Era mais que futebol. Era pessoal. O Liverpool tinha que pagar por todos os momentos ruins que passei naquele período.

Meu pai foi ver o jogo na casa da minha tia, que fica na rua do bar. Talvez por conveniência, talvez por medo de estar longe se eu tivesse um ataque cardíaco.

Não é exagero.

Eu, garoto, no Morumbi

Eu até hoje não sei como sai daquele bar vivo. Foi o maior sofrimento que já senti na vida. Foram duas horas intermináveis, escanteios de uma hora e meia, cruzamentos de 20 minutos e chutes que levavam 2 dias para chegar às mãos do Rogério.

Não acabava nunca.

Homens de vermelho se multiplicavam no gramado e encolhiam os de branco na sua área. Um massacre, uma tortura.

Quando fizemos 1×0 não havia mais torcida pelo segundo gol. Sabíamos que era aquilo e nada mais. Nos restava torcer pra não entrar. O segundo gol jamais esteve em questão.

O Liverpool fazia por merecer o gol de empate. E eu discutia com Deus em voz baixa. Que diabos que esse time tem que possa ter sido mais difícil do que não comemorar a Libertadores que esperei 11 anos pra ganhar?

Entre virar ateu e pastor, assisti os últimos 45 minutos misturando suor e lágrimas no rosto, secando com a bandeira do São Paulo que me enrolava.

Olhava em volta, dezenas de amigos tricolores, ninguém conseguia trocar uma palavra. Era lance de gol atrás de lance de gol. Um milagre atrás do outro.

O minuto virava apenas após 234 segundos, não mais 60. Foram 18 chutes a gol. Todos devidamente afastados pela camisa que eu vestia, a cueca da sorte o santo paulo que estava na nossa mesa nas mãos de uma amiga, a Kátia.

O medo da expulsão quando Lugano escorregou e sem querer atingiu, de leve, as pernas do Gerrard. Só amarelo, justíssimo! Nem saiu sangue…

Ah, Rogério… Que partida!

Falta pra “eles”. Gerrard prepara e cobra no ângulo esquerdo do goleiro, que dá 2 passos e voa.

Sim, super heróis voam.

A bola é jogada pra escanteio e Gerrard entrega os pontos com o olhar. A deliciosa cabeça baixa de quem “desiste” de tentar o impossível.

Não ia entrar.

Nós não íamos deixar. Eu salvei umas 2 bolas esticando o braço e derrubando o copo. Ao meu lado amigos tiravam de cabeça, outros gritavam alertando os companheiros.

Mas não ia entrar. Nem fodendo.

A última bola, o apito final, a imagem do Mineiro correndo de braços abertos e o mundo, de novo, aos meus pés.

Eu levei 5 minutos entre o final do parágrafo anterior e o começo deste. Tentei sentir de novo o que aconteceu naquele momento e sei que nunca, mesmo se tudo se repetir em campo, eu vou ter aquela sensação de alívio novamente.

Pra sempre. Desde sempre.

Dizem que morrer dá paz. Eu morri por alguns segundos. Não vi a luz, nem porra nenhuma. Só ouvia gritos e curtia uma alegria que, naquele momento, só o futebol podia me dar.

Desde então eu me tornei menos fanático. Por profissão, por decepção, por diversos motivos. Mas especialmente porque nada poderia me fazer mais feliz do que aquele clube me fez naquele dia.

Esgotou. “Zerei a paixão”, eu diria. Fui no limite dela e não tinha mais o que buscar. Nada seria e nem será mais forte e redentor do que aquilo.

Quando sai do bar meu pai chegava com a minha tia. Eu o abracei chorando muito e repeti: “Obrigado, obrigado, obrigado, pai!”. Ele perguntava porque, e eu beijava o simbolo e dizia: “por me fazer sãopaulino”. Foi o agredecimento mais sincero que já fiz em toda minha vida.

Coloquei a faixa nele e vice versa. Como fazemos desde quando tinha 1 ano.

Minha tia, que acompanhou todo o processo pessoal que passei, me olhava sorrir daquele jeito pela primeira vez entendeu o que era futebol. Talvez pra ela fosse um jogo, como a maioria das pessoas pensa. Mas não é.

Até que a morte nos separe. Em nome do pai, do filho e de um santo. O Paulo.

Salve o 18/12/2005!
Salve o tricolor paulista!

abs,
RicaPerrone

12.12.92

Não vou dizer que foi o “melhor dia da minha vida” porque a Libertadores eu estava no estádio e nada se compara a estar presente numa decisão. Mas foi um dos melhores, e hoje faz 20 anos.

Tinha 14, meus pais tinham se separado há pouco tempo e eles ainda procuravam formas de não nos dizer “não”. Me aproveitei do drama e do histórico de ter ido a todos os jogos do SPFC na cidade de SP naquele ano para pedir, no dia 12/12/92, para ver o jogo na Av. Paulista junto da torcida.

Meu pai morava na consolação, ali perto. Minha mãe e eu no Morumbi. Combinamos então que ela atravessaria a cidade pra me levar e la pelas 3 da manhã meu pai me pegaria num posto de gasolina. Não tinha celular, pager, porra nenhuma. Era na base da confiança.

Era 12/12/92. Pra mim, ontem.

Passei um dia do cão. Nervoso, ansioso, vendo televisão, lendo a mesma matéria do jornal 10 vezes, estudando o time, trocando a camisa até achar que daria mais sorte.  Contei os minutos, os segundos, até que chegou a hora.

O jogo era dia 13, só que lá. Aqui, o dia do nervoso era 12 e só vira 13 quando a gente dorme e acorda. Pelo menos aos 14 anos era a indicação de “outro dia” que eu tinha.

A meia noite começava. Já era 13, mas não era.

Cheguei a av. paulista atrasado. Quando desci do carro ouvi um silêncio insuportável para uma festa. Era gol do Barcelona. Stoichkov, aquele filho da puta, havia feito o que não planejei durante os últimos meses de ensaio mental para o jogo.

Lá se vão 13 minutos, o 1×0 no placar e enfim eu conseguia ver o telão no meio da Av. Paulista.

Aos 14, era grandinho. Mas na minha classe, não na rua.

Entre um e outro fui me virando pra conseguir ver o jogo. Com bandeira, camisa, boné e hoje o equivalente a 50 reais.  Queria guardar pra compras a faixa, que custava 10 antes do jogo, 30 depois.

Normalmente assisto a jogos importantes com meu pai. Naquele dia não deu, ele viu em casa, eu na rua.

A bola rolando, as mãos coladas no peito e muito nervoso.  Aos 27 minutos, Muller girou e deu pra Raí, meu ídolo, que ali se transformava em herói.

De perna, de barriga, de joelho…  Bola na rede, 1×1.

O tal Barcelona,  tão “virgem” quanto o Tricolor em mundiais, não era um bicho papão. Ao contrário, tinham medo do meu São Paulo.

E de pé em pé tocamos a bola em busca da virada. Os espanhois já não escondiam a surpresa quando discutiam entre eles a cada ataque tricolor. E nós, eufóricos com a possibilidade de desbancar os tais “imbatíveis”,  empurravamos como num estádio.

Eles não podiam nos ouvir, em tese. Mas era tão alto, tão intenso que tenho lá minhas dúvidas.

Ronaldo Luis salva uma bola em cima da linha. Temos o segundo herói da noite.

Intervalo, nervoso, expectativa, orgulho, medo.

Volta a rolar a bola. O São Paulo, de novo, manda no jogo.  Alguns pediam um reserva salvador da pátria, outros torciam calados, outros gritando a todo passe errado. Eu assistia sem me mexer. Não conseguia, era uma paixão tão dependente, tão responsável pela minha personalidade que não tinha mais nada a ver com futebol.

Passei os limites do fanatismo. Durante a década de 90 fui o mais alucinado e fanático torcedor de quem tive notícias. Talvez por isso hoje eu seja tão “difícil” pro meu time.

Se o São Paulo perdesse, eu perdia meu maior orgulho, a razão, a alegria…. tudo! Eu vivia em função do São Paulo e não me arrependo de nada disso. É preciso ser um doente pra poder lidar com eles no futuro. E hoje, falo com “Ricas Perrones de 92” o tempo todo.

Sei que aos 30 minutos do segundo tempo eu tinha lágrimas de desespero correndo no rosto. Não chorava! Eram lagrimas, mas não um choro. Escorriam e eu não tinha coragem de soltar as mãos uma da outra para limpar.

Rezava pra um Deus que nunca acreditei existir. Pedia ajuda pra santos que sempre fiz piada e se me dessem um tambor eu batia pedindo pra algum orixá.

32 minutos e do meu lado um tiozinho ajoelhou. Eu, querendo imitar, querendo ajudar, querendo fazer alguma coisa de diferente, fiz o mesmo.  Ao nosso lado mais de 10 cairam de joelhos em frente ao telão esperando aquele golzinho que planejamos por meses enquanto não pegavamos no sono.

E de joelhos ha menos de 1 minuto, falta para o São Paulo. Todos em pé, o tio grita: “Deu sorte! Ajoelha!”.

E todos voltam a ajoelhar no asfalto da av paulista.

Rai, Cafu, Raí…. a bola viaja por uns 4 minutos e não cai nunca…. Até que toca a rede, e todos pulam enlouquecidos se abraçando por um título que até outro dia não era sequer sonhado, quanto mais planejado.

Eu não.

Fiquei. Não tive reação. Olhei pra tela e aí sim, chorei. Ajoelhado sozinho enquanto todos pulavam e batiam com joelho e bandeiras na minha cabeça eu era o sujeito mais feliz do mundo.

Mas ainda tinham 10 minutos. E nenhum sofrimento é tão forte que não possa piorar.

O telão apaga.

Dez minutos que nunca assisti.

Tentando fazer silêncio pra que 5 pessoas nos informem o final do jogo numa barraquinha de cachorro quente, milhares de pessoas andavam de um lado pra outro na dúvida entre quebrar a av paulista inteira ou rezar pra terminar daquele jeito.

Não chega mais notícia nenhuma. Quem tinha rádio informa: “39”, “40”, “43”….

Até que ficamos mudos. E quando aquele trio olhando uma tv na barraca da cachorro quente gritou “acabou”,  não havia mais nenhum problema no planeta terra.

Subi num poste com a bandeira e cantei por mais de 20 minutos pendurado numa semáforo até não ter mais forças pra me segurar. Desci, corri a avenida paulista de um lado pra outro parando em cada vendedor e comprando uma lembracinha.

Não bebia,  e não bebi nem água.

Todo dinheiro que tinha gastei em faixas, bandeiras do japão, faixinhas de cabeça, tinta pra passar no rosto… Tudo!

As 3 da manhã meu pai chegou no lugar combinado e me viu com 3 faixas de campeão, uma na testa, tintas tricolores no rosto e um sorriso que eu duvido ter sido capaz de repetir nos 20 anos seguintes.

Nos abraçamos, daquele jeito durão dele, mas pude dar a ele uma das minhas faixas. Ele não colocou, só olhou, agradeceu e guardou.

Fui contando o caminho todo de um jogo que ele também tinha visto. Mas ouviu, porque também queria reviver aquilo sempre que possível.  Em casa, não tinha como dormir. Queria ver tv, mas a tv não falava nada. Já tinha listras coloridas e não havia tv a cabo.

Era preciso esperar o dia seguinte, e acordado eu esperei. As 6 estava na banca pra comprar os jornais, o poster, tudo!

Andei pelas ruas com a camisa do São Paulo até quarta-feira. Não, não lavei.  Fingia que estava limpa e usava de novo! Até não ter mais como esconder a sujeita.

E lá se vão 21 anos.

Cá estou, jornalista, “imparcial”, “frio” e com a insuportável tarefa de analisar e ponderar paixão.

Se a vida começasse agora, sãopaulino eu seria de novo. E se pudesse refazer cada bobagem que fiz por futebol na minha vida, faria com mais paixão, mais fanatismo e ainda menos razão.

Porque hoje eu não sou mais assim, e adoraria ser.

Você quer conhecer jogadores, trabalhar com futebol, viver tudo isso de pertinho. E eu, daqui, queria ser você e estar na fila do Morumbi lotado hoje passando aperto e morrendo de raiva do Galo estar no Mundial.

Não estou. Estou feliz que ele esteja lá.

Há 21 anos, estaria.  Porque não raciocinaria.

E fatalmente estaria sentindo algo muito mais puro e especial do que o que sinto hoje em dia.

abs,
RicaPerrone

O grande, o rico

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É preciso separar as coisas. As vezes requer uma dose de sabedoria pouco comum num país que tem por origem o conceito de colônia.

Para ser grandioso é preciso mais do que dinheiro.

Você olha e sabe quando é silicone. Bonito, sem dúvida…. mas é silicone.

Posso investir milhões de dólares numa Torre e outros milhões de mídia para convence-lo de que é a mais alta do mundo.  Eu até consigo, desde que você não suba lá pra medir.

No futebol, as vezes medem.

O rico só tem dinheiro. O grande tem todo o resto.

O Chelsea é rico, o Corinthians é grande.

Tão grande que estudou seu adversário e reconheceu o tamanho do jogo. O outro, tão rico que se perguntou: “Quem é esse tal de Corinthians?”.

Dizer que “nem queria mesmo” depois de ter perdido é tão idiota quanto dizer que “nem vai querer” e depois brigar por ele com o alvará de ter dito não se importar.

Medíocre. Uma das mais medíocres atitudes que há no esporte.

O Chelsea, de grandes jogadores, é só um time de futebol. O Corinthians, que eles não sabem nem onde fica, é muito mais do que isso.

A diferença entre eles não se mede no elenco, no quanto custa a porcaria do Torres ou quanto dinheiro será investido a cada janela de transferências.

Se mede quando se olham.

O rico despreza, se acha maior. O grande respeita, porque de fato é maior.

Em volta daquele gramado a mais simples explicação para o título. Os milhares de fiéis que fazem do gigante um gigante. E a arrogância eterna de quem acha que aquele esporte diz respeito a negócios.

De terno, eles chegam e saem sem mexer os olhos. Britanicos, pontuais, chatos.

Com pandeiros no “busão”, chegamos nós. Em meio a festa, musica, medo, respeito, choro, tremedeira e tudo que um ser humano tem por direito. Porque somos humanos, como os fiéis que ali estavam morrendo de medo de perder.

Aos milhares de ingleses que foram aos pubs rir do “tal Corinthians”, mais uma dose. Aos que foram ao Japão temer o tal Chelsea, um brinde.

Não a falsa modéstia, pois isso não faz parte de clube nenhum. Mas um brinde ao que o dinheiro não compra, ao que faz o rico sentir inveja e ao que diferencia “poder” de “poder de compra”.

Compra lá, Chelsea. Vá buscar o Messi, o Cristiano Ronaldo, um grupo de investidores e faça um estádio de neon que brilha no escuro.

Uma nação você não compra, porque não está a venda. Essa se conquista, e quem conquistou foi o Corinthians que em diversos momentos de sua história não tinha dinheiro pra pagar salários de jogador.

Quem ganhou o mundo movido por paixão foi o “favelado” clube de…  de onde mesmo?

Vai lá, Benítez. Entra no google maps e vai procurar por “donos do mundo”.

“Você quis dizer… Corinthians?”

abs,
RicaPerrone

 

É hoje!

Corintiano apostolico romano, curta seu dia. Hoje, dia 15 de dezembro, sábado, é o dia mais importante do ano, pois antecede o que se transformará numa festa ou num velório.

Amanhã, dia do jogo, você terá 2 horas de sofrimento e todas as outras de um só sentimento. Portanto, aproveite o dia de hoje.

Entre a incerteza do sucesso e o medo do fracasso, fique com o delicioso prazer de sentir em sua plenitude o que é ser apaixonado e, neste caso, corintiano.

Aquele telefonema vazio, sem sentido pra dizer: “To nervoso, mano”.

Ou aquela vontade de chorar de emoção misturada com medo, mas que você não pode reconhecer nenhuma delas. Vontade que chegue logo, ou que nunca chegue.

A inquietude de não saber se passará o dia rindo ou se explicando amanhã. Aquela vontade de usar cliches para justificar o injustificavel, ou talvez o momento mais delicioso onde você se encontra com São Jorge no seu quarto e pede, com jeitinho, para que ele ajude mais uma vez.

É hoje.

A noite que você não vai dormir é a de hoje, não a de amanhã.

Perdendo ou ganhando, amanhã você será alvo. De piadas, de elogios, mas tudo será na sua direção. Hoje, ainda não.

Hoje você analisa o cenário e se imagina em diversas situações. Tenha certeza: nenhuma delas acontecerá exatamente como você planejou.

Se for sofrido, é “Corinthians”. Se não for, também é.

Mas para corintiano todo jogo é sofrido, até um 4×0.

Por vocação ele encontra motivos para dramatizar o simples. E quando de fato é um drama, se sente até mais confortável.

Amanhã é dia de Corinthians. Hoje, de corintiano.

Você não vai dormir, e eu acho ótimo que não durma.

O idiota vai questionar seus clichês e suas crenças num dia de extrema paixão. Ignore-o. O mundo é seu, pelo menos até amanhã cedo.

Onde de fato será, ou não. Antes disso, é. Por conquista, invasão ou mera paixão. Mas é.

Viva este dia intensamente. Porque só hoje você pode sonhar.

Amanhã serão fatos. E nunca um fato é tão bom quanto um sonho. Seja ele qual for.

Vai, Corinthians!

abs,
RicaPerrone

Indo, Corinthians…

Era pra vencer. Os mesmos caras que falam em “arrogância” do nosso futebol em achar que ainda temos o melhor futebol do mundo, falam em “vexame” se você não passar pelo campeão africano.

E assim entrou em campo o Timão, como entram todos os brasileiros nessa semifinal e transformam um jogo difícil num jogo dramático.

Nada é mais insuportável do que entrar em campo pra “não ser uma piada”. E é isso, infelizmente, que plantamos aqui para os nossos times. Na semi, jogamos para evitar “vexames”, na final, para fazer história.

Se queriam Corinthians, tiveram.

Tem que ser sofrido, sabemos.

Tem que jogar menos do que pode, afinal, nada move mais o Corinthians do que a desconfiança que isso trará para a decisão.

Duvidem dele. Ele gosta.

Para 10 ou 20 mil fiéis, tanto faz. É épico.

Se contra um Monterrey, mais “medo de perder”. Se contra o Chelsea, “vontade de ganhar”.

Que venham os ingleses, afinal, são os “melhores do mundo”, são ingleses, fofos, louros, lindos, cheirosos, etc, etc, etc…

Não torça contra, corintiano. Torça pelo Chelsea.

Deseje-os, não corra deles.

O Corinthians foi até lá para não passar um vexame e conquistar um grande título.

O vexame já foi eliminado.

Agora é hora de buscar um grande título.

Sonharam com o Chelsea, então que seja o Chelsea.

É hora de encarar o Sào Caetano de dono rico, que para muitos é o gigante.

E, enfim, deixar claro quem é o grande e quem é o rico.

abs,
RicaPerrone