paixão pelo futebol

Não recue com sua estupidez

Se algum dia exaltado por uma reação injusta adversa a um comentário eu lhe disser que você está errado e deveria ser mais racional, me ignore.

Se um dia você conseguir entender e ponderar pra si mesmo a real importância do futebol na sua vida, pare de pensar sobre o assunto com urgência.

Se você não achar pênalti a seu favor, está errado.  E se o replay te provar que não, brigue com o replay.

Seja um imbecil. Cobre-se o direito e o prazer inenarrável de ser um estúpido quando seu time entra em campo.

Chore. Grite. Deixe a mulher em casa. Leve-a. Mas vá.

Priorize. Seja estúpido o quanto puder colocando o que menos importa na frente de coisas que “muito importam”.  Faça do seu domingo a tarde e da sua quarta-feira a noite sagradas.

Tenha uma turma que seja tão doente e cega quanto você. Se ajudem. Se um dia alguém começar a enxergar, impeçam-no!

Guarde pra si todo o direito de ser um estúpido torcedor cego, burro, ignorante e que não permite que ninguém, além de você mesmo, fale um “a” sobre seu clube que não seja um elogio.

E quando você pedir pênalti, entenda de uma vez por todas, que não importa se foi. Você está pedindo pra marcar, não discutindo se aconteceu.

Pague o que não pode. Pegue filas. Se foda pra chegar, se arrependa quando o transito não andar e se atrasado estiver, corra. Se não puder, corra mesmo assim.

Saia do estádio suado, cansado, morto. Não volte com sua voz por inteiro, pois se o fizer, falhou.  E tenha com você a certeza de que se não é aquela virada no boné, ou aquela meia da sorte, a bola não entraria.

O gol é seu. Você mudou o jogo. Você gritou e desestabilizou o meia adversário.  Foi você. E não deixe que ninguém tire esse mérito da sua história.

Seja um torcedor estúpido, cego, apaixonado e imbecil até o último dia da sua vida.

Por favor me prometa que, no fundo, não acha o Messi tão melhor assim que seu atacante…  Eis seu atestado de insanidade, anexado ao de felicidade.  Ande com ambos.

abs,
RicaPerrone

 

Eu te amo

Quando criança minha primeira forma de dizer quem eu era aos adultos foi repetindo o time que meu pai tanto falava.

Quando queria vê-lo sorrir, chutava uma bola e gritava o nome do nosso clube.

Quando meu avô ia em casa, prestes a morrer, fazia questão de se certificar que eu sabia o nome dos jogadores e que honraria a paixão da família por pelo menos mais uma geração.

Quando me encontrava, após o beijo e o apertão, minha Vó brincava sobre os resultados do domingo, já que éramos rivais.

Meu outro avô, italiano, dizia que me converteria mas nunca tentou. Talvez ele soubesse o quanto seria importante lá na frente dividir a mesma paixão do meu pai.

Quando mais jovem eu aprendi a negociar trocando as idas as igrejas do sábado com a ida ao estádio domingo.

Quando rebelde corri pra uma turma de pouco juizo só pra dizer que “é nóis” e passar a fazer cara de mal.

Ainda jovem descobri como era dividir, ainda que só por um mês, a mesma paixão com todas as pessoas a minha volta numa única torcida.

Aprendi a chorar por caras que nem conhecia pessoalmente.

Me casei e atrelei as datas ao calendário do meu clube. Me separei e quando me vi confuso a única coisa clara na minha vida era ele.

Me casei de novo, e me vesti com suas cores para celebrar o começo da minha família.

A primeira coisa que me fez sorrir após a morte de parentes e situações difíceis na vida foi invariavelmente um momento proporcionado por ele.

Senti raiva, ódio, vontade de quebrar tudo. Até quebrei coisas que trabalhei pra conseguir comprar. Mas nem disso me arrependo.

Aos 15 era o amor da minha vida. Aos 30, minha vida. Hoje, minha profissão.

Ainda assim, a maior paixão de minha vida.

Quando encontro meu pai, nosso primeiro assunto é ele. O último, também.

Não há domingo sem ele, muito menos um “bom dia” ao porteiro sem atrelar a frase seguinte a um resultado recente.

Tem a ver com injustiça, surpresa, falta de controle.

Me conforta, me dá sensação de ter ao que me apegar quando e como precisar. Me faz parte de algo grandioso.

Me faz vencedor, derrotado, humilhado, apaixonado. Mas faz parte de mim.

Me faz de bobo, me leva dinheiro que as vezes nem tenho. Me carrega amigos pra perto e pra longe.

Me dá sentido quando nada mais faz sentido.

Me ensinou a perder, respeitar, brigar, chorar, abraçar, não discriminar, não ver cor, religião e nem classe social. Me ensinou a ser uma pessoa melhor.

A dias de te reencontrar em mais uma coroação que recebe, me sinto como que na primeira vez. Nervoso, ansioso, agitado, sem saber o que fazer.

Desde pequeno ouço conselhos para te esquecer, te dar menos valor e coloca-lo no devido lugar.

Pois é o que fiz.

Eu te amo, Futebol. Obrigado. E seja bem vindo.

abs,
RicaPerrone