Rica Perrone

Vocês nunca vão entender

Estou terminando de ver a série do meu super herói. Obviamente emocionante, muito bem feita e focada na carreira de Ayrton mais do que na vida, o que acho sensacional porque a vida de ninguém deveria ser problema do público.

Mas enquanto assisto eu vejo algumas pessoas mais novas que estão próximas a mim e eles ficam impressionados com o que ele fazia. O quão bom ele era, o quanto o Brasil se mobilizava por ele e ao final buscam naturalmente uma comparação atual pra entender o que foi tudo aquilo.

Meus caros “jovens”, com todo respeito, vocês nunca vão entender. Nem passarão perto disso simplesmente porque o mundo de hoje não comporta um Ayrton Senna e nem permitiria que ele fosse o que foi.

Ayrton não era um esportista que nós admiramos. Isso é o Messi, o CR7, o Neymar. Ayrton era a nossa única alegria. Vocês não tem noção do que é ir no mercado de manha porque a noite é mais caro. Nosso entretenimento era coletivo, único, chamava-se futebol. Todos viam o mesmo jogo, discutiam o mesmo tema e acompanhavam todos os clubes. Era um planeta que você nem conheceu, talvez.

Senna não era nosso piloto. Era nosso único motivo de orgulho. A gente se sentia o lixo do mundo sendo brasileiro. Nossos políticos eram ridiculos (nada mudou), a gente não tinha acesso a nada, um telefone valia mais que um carro, nossa seleção não era campeã desde 1970. A gente tinha muito mais motivos do que hoje pra exercer nosso complexo de vira-latas.

Imagine que não tem internet, netflix, série, rede social, filme só o da Globo as segundas-feiras, futebol só aos domingos e o seu meio era restrito geograficamente. A gente só convivia com quem morava perto. Eram os vizinhos, os amigos reais, próximos. Outro planeta.

Por anos nossa alegria foi acordar domingo e antes do almoço em família, que era algo sagrado, comemorar abraçado aos nossos pais a vitória do nosso único brasileiro no mundo que dava certo.

Esse cara fez o domingo em família de milhões de brasileiros ser mais feliz por anos e anos. Ele tirava lágrimas de alegria de um pai que não sabia como seria a semana e se teria como aguentar a inflação pra fazer mercado. Ele fez a gente acreditar que ser brasileiro não era um problema. A Marvel cria super poderes de mentira e nem assim inventou algo tão impressionante.

As melhores memórias das nossas vidas estão num domingo em casa com a família e não na internet ou num computador. Nosso mundo era 100% analogico, humano, real. Ayrton era nosso Batman entrando em Gotan pra salvar nossos dias. As pessoas que o avaliam como um piloto de corridas não tem a menor idéia do que estamos falando.

Enfim, vocês não vão entender. Porque mesmo numa série o foco é o quanto ele era foda pilotando. Mas a melhor das séries seria mostrar uma família miserável, em crise e sem perspectiva se abraçar e comemorar como se nada de ruim existisse por algumas horas.

Ayrton foi o que nós brasileiros sonhamos ser: exemplo. Só que ele fez por onde, a gente é um país de acomodados que aceita o absurdo na nossa cara e ainda briga por ele. Senna era tudo que o Brasil não podia ser. Senna era o filho que a gente queria ter, o marido que elas queriam, o herói que as crianças esperavam e o alívio de uma vida filha da puta que todo pai de família tinha nesse país.

Curtam a série. Pra maioria dos jovens será uma “Casa de Papel” qualquer. Mas saiba, garoto, que você está assistindo talvez a história criada por um cara para que seu pai tivesse aguentado a semana toda esperando por ve-lo domingo.

Saiba que esse cara é responsável pelos abraços mais fortes que muito pai e filho ja deram na vida. E saiba que a gente entende que seja impossível pra você dimensionar, assim como é pra nós resumir Senna num texto, num filme ou até mesmo numa série.

Nosso super herój usava capacete, tinha super poderes, não nos decepcionava e tem um extra que anula qualquer chance dele se repetir: ele era real.

Rica Perrone

Eu queria ser botafoguense

Eu pensei em 200 temas pra esse texto. É minha primeira vez, tô um pouco nervoso. São 27 anos de carreira, 46 de amor absoluto e descontrolado por futebol. E nesse tempo todo eu só não escrevi ou falei sobre um grande título seu.

Eu me acostumei com seu pessimismo, com suas derrotas e sua frustração. Me adaptei a ter que te compreender quando não estava presente ou quando duvidava do impossível sem notar que o que chamo de “absurdo” você chama de rotina.

Eu senti, algum dia, pena de você, botafoguense.

E nessas últimas semanas eu entendi que não era pena, mas sim respeito por nunca ter sido testado como você. Meu amor é fácil, sempre foi. Nunca foi colocado a prova.

E depois de tudo que esses 130 anos registraram criando frases como “as coisas que só acontecem com você”, você me surpreendeu.

Porque eu esperava tudo do Botafogo, até mesmo o título. Mas eu não esperava que vocês fossem busca-lo. Achei que era um estágio da relação onde, talvez, se te trouxessem na porta de casa, vocês considerariam repensar.

E quando foi colocado a venda os ingressos eu fui um dos que não entendi muito bem o que estava sendo dito. Esgotados? O Botafogo? Porque? Como? Não é racional e nem instintivo investir de novo com tanta perda e tanta dor.

Os dias foram passando, os botafoguenses foram surgindo de bueiros e tomando a América, literalmente. Caceta, eles vão se expor de novo? E dessa vez em maioria? Porque?

Me senti entre o bom senso e a inveja. Por bom senso eu não faria loucuras por um clube que me frustrou tanto. Mas eu invejo imensamente quem agora está abraçado ao seu pai comemorando o que os dois acharam que não veriam juntos. Porra, tua Libertadores foi mais comemorada que as minhas.

Você tem duas formas de “vencer” uma briga. Ou você bate ou você apanha até o limite e se levanta pedindo mais um round. Os dois impressionam.

A toalha já foi jogada no ringue e você sempre chutou ela de volta. Já acabou, sai daí! Você vai se machucar, porra.

E você ficou. Burro, louco, masoquista, sei lá eu que porra é essa.

De onde vocês tiraram fé pra tomar a Libertadores de assalto? Porque foi isso. Vocês ganharam há 20 dias quando deixaram claro quem era o favorito e quem era o azarão. Vocês invadiram outro país, ignoraram os fatos e foram otimistas, sortudos, maioria…

Cadê meu Botafogo?

E agora eu não encontro palavras porque nunca as treinei. Passei 90 minutos olhando pra TV procurando o herói do jogo, o lance, a história pra contar. E nada, nem mesmo o monstruoso Luiz Henrique, me impressionou mais do que você.

A covardia me revolta. O que a vida faz com o botafoguense é covardia.

Precisava expulsar aos 30 segundos? Precisava. Porque você tinha que exorcizar o fantasma do “vai perder de novo”.

Precisava o gol do Galo no tranquilo 2×0? Precisava. Pra você confirmar que nem todo contratempo vai virar uma derrota sempre.

Precisava do gol no final? Sim, pra você ver que nem sempre será com o seu goleiro no chão.

O título do Botafogo teve vinte e poucos coadjuvantes e milhões de protagonistas.

Tendo a procurar quem te deu o título da Libertadores. Mas pra ser justo de verdade, “jogadores vem e vão”, e quem ficou foi você.

Cara, eu nem te conheço. Nem sei como você veio parar aqui nesse blog hoje. Mas saiba que te admiro, te respeito e de certa forma te invejo. Meu amor é frágil perto do seu embora seja também incondicional.

Mas nunca me deram condições pra testa-lo. Você teve todas, as mais dificeis, e agora “vai festejar”. Nao o meu sofrer ou penar, mas a sua impressionante capacidade de suportar o que talvez outros também suportariam. Mas que ninguém pode afirmar, só você.

Hoje eu queria ser botafoguense.

Parabéns. Vivam o melhor e mais justo dia de vossas vidas.

Rica Perrone

Medo de que?

Caros colegas revoltados, qual o motivo do temor?

Quando Renato diz na coletiva que vai expor os jornalistas que mentem e causam problemas ao clube ele está ameaçando fazer com fatos o que nós temos a prerrogativa de fazer há décadas sem fato algum.

Ou seja, você fala o que quer, acusa quem quer, mas tem consequência. Ou será que das centenas de vezes que jogadores foram ameaçados e até agredidos na rua não foi também consequência de mentiras e suposições midiáticas sobre o que cada um faz da sua vida, por exemplo?

Foi um recado simples para os não burros ou corporativistas: se for ao contrário vocês também estão expostos. E sim, estamos. Bem mais que jogadores inclusive. Só que ninguém tem coragem de peitar a maior massa de manobra do país que é a imprensa por motivos óbvios.

Ninguém ali sugeriu violência. Apenas colocou de forma não muito fofinha que assim como mentiras os expõem ao torcedor, eles também podem fazer o mesmo combatendo essas mentiras.

Justo? Justíssimo, ué.

Porque nós temos o direito de inventar, supor e insinuar sem uma autorregulação por autoproteção com consequências a terceiros e não podemos arcar com as nossas?

Vivemos num país violento. Quando um canalha qualquer segue um jogador na folga dele pra publicar uma foto dele bebendo e no outro dia a organizada vai lá e ameaça o cara você fez parte dessa equação. Não é seu trabalho a vida pessoal de ninguém.

Quando você noticia que um jogador tem amante, qual seu papel nisso? Ou quando expoe supostos salários e premios num país violento? Quem nos deu o direito de falar, perseguir e decidir quem vai ter uma vida em paz ou não?

Quantas vezes jornalistas e influenciadores abusaram do seu papel de torcedor fingindo ser imprensa e geraram uma teoria mentirosa que prejudicou o trabalho de um clube? Milhares? Milhões? E porque eles não tem o direito de rebater mentiras expondo o mentiroso a uma sociedade também violenta?

O mal do jornalista é que ele acredita na idéia de que por manipular milhões de tolos não há os pensantes. E a diferença de Deus pra um jornalista é que Deus não se acha jornalista.

Dito isso, olhemos mais pro lado pra ver as bostas que estamos fazendo ao invés de olhar pra reação com nojinho. Se nem da nossa profissão a gente cuida e exige profissionalismo que moral temos pra encher tanto o saco de clubes, dirigentes e jogadores?

Passou da hora de fechar porta, censurar veiculo e processar jornalista. Só que pra fazer isso tem que saber das consequencias. E elas serão, invariavelmente, as piores possíveis por retaliação a quem não segue a cartilha imposta por um bando de barbudo revolucionário que acha que entende de tudo sem nunca estudar sobre nada.

Mentira é fake news. Vocês não eram contra elas outro dia, ou quando atinge a classe é ameaça?

E vocês, clubes, deixem de ser burros. Voltem a zona mista e parem com coletiva. Assim os profissionais escolhem com quem falar e quem mentir volta pra casa sem material. Rapidinho ele para e começa a agir com fatos e não com o maldito e inescrupuloso “direito a preservar fonte” pra falar o que ouve como se fosse verdade.

RicaPerrone

Qual o problema?

Eu não gosto de torcida organizada. E não gosto com credencial, pois já fiz parte, apanhei, tive meu direito de entrar em estádio vetado por mais de um ano graças a marginais blindados por suas diretorias que resolveram matar quem tava do outro lado. Dito isso, separemos o não gostar com achar 100% ruim.

A Gaviões da Fiel fez um projeto pra arrecadar 700 milhões com sua torcida pra ajudar a pagar a Arena do Corinthians. Alvo de críticas, elogios e piadinhas, eu acho muito interessante e vou além.

Não será 700 provavelmente. Mas será uma quantia que ajuda a pagar as contas. E isso feito cria-se uma narrativa sobre a torcida ter pagado o estádio que daqui 100 anos será contada como parte da história do clube.

Aumenta-se o engajamento e a sensação de pertencimento do torcedor. Diminui a dívida e evita o vexame de ter seu estádio amanhã pago ou doado por algum governo corrupto disposto a ganhar voto em cima da sua paixão.

Você acha que se não pagarem algum político vai pedir de volta e perder os votos alvi-negros? Óbvio que isso iria virar a maior pizza de São Paulo. Ninguém mexe com torcedor tendo seu cargo baseado em aceitação popular.

Logo, por obviedade, que mal tem numa torcida se mobilizar pra ajudar seu clube? É dinheiro voluntário, não de impostos. É pra quem pode ajudar, não pra quem está em situação ruim. É liberdade e portanto é o que defendo como zero um na vida.

O Corinthians tem a torcida mais engajada do país. Sempre teve. Parte disso está no fato de ter a sua massa na cidade onde o dinheiro mais roda. E por consequencia é inteligente entender que dali pode sair o maior índice de participação de uma campanha desse tipo.

Parabéns aos envolvidos e a cada corintiano disposto a ajudar. Que mal tem comprar a casa própria? Talvez você não tenha a sua, como eu não tenho a minha, mas é bom demais saber que coletivamente temos “a nossa”.

RicaPerrone

Negar os fatos não os altera

Vitória enorme do Fogão ontem e com ela a volta da euforia e confiança. Normal, justo, qualquer um reagiria assim.

Mas negar fatos pra comprar discurso de “contra tudo e todos” usado por 100% dos clubes envolvendo torcedores na narrativa mais fácil e vazia do mundo é um tanto quanto perigoso as vésperas de novos fatos.

Se um raio cair 10 vezes no mesmo lugar é tolo alguém dizer, numa chuva qualquer, que “chupa! Hoje não caiu”.

Nunca ninguém vai achar que todo raio vai cair ali, mas sim que cai mais do que na média. O que é fato. Brigar com fatos costuma dar errado. E os fatos dizem que sim, o Botafogo tem um fantasma histórico em decidir grandes jogos. Qualquer pessoa que tente desmentir isso ou dizer que é criação da imprensa pra perseguir o clube é um tremendo maluco.

Não se briga com fatos. Se trabalha pra mudar os próximos quando eles são desagradáveis. Ignorar os problemas não os resolve. A chuva de revolta contra a verdade absoluta da falta de poder de decisão histórica do Botafogo ontem nas redes sociais é um misto de paixão, overdose pós jogo e burrice.

Respeito as 3. São involuntárias. Mas por não sofrer da última preciso refuta-la.

Sim, o Botafogo perdeu 6 pontos que não deveria ter perdido nas partidas contra Criciuma, Vitoria e Cuiabá em casa. Sim, o Botafogo toma gols no fim que os levam a situações incomuns, mesmo quando consegue vencer. Sim, o Botafogo está há decadas sem ganhar nada e parte disso está na falta de capacidade de decisão.

Todos os fatos citados acima são indiscutíveis. Como bem disse, são fatos e não ideias.

Você pode brigar contra eles, mas nega-los é uma loucura e, pior, um passo para mante-los. Ontem o Fogão conquistou uma vitória grandiosa. A “burrice” entra aí. Na hora que você dobra a aposta e cria um cenário de vida ou morte.

Porque, veja, seria uma pipocada perder pro Inter no Beira Rio ou uma final de Libertadores? Não, nunca. Pro Botafogo, será. Porque? Porque o torcedor vai do inferno de assumir as “pipocadas” num dia pra euforia de peitar o mundo com os “cade a pipoca filhas da puta” do dia seguinte.

Todo botafoguense sabe e convive com o fato do clube ser, historicamente, um perdedor de jogos improváveis. Toda vez que o Botafogo vence um jogo difícil ao invés de seguir o ritmo pra conquista parte da torcida joga um “all in” na base da teoria fácil, pobre e vazia do “contra tudo e todos” e pressiona o próprio time a não repetir a história.

Adivinha quem fica mais vulnerável e pressionado? O proprio Botafogo.

O pessimismo não é menos impactante no clube do que a obrigação de ganhar ou ser um vexame. E toda vez que essa briga vem a tona o botafoguense coloca o clube entre a glória e o vexame, sem a naturalidade da derrota que cabe a todos.

A briga do Botafogo é contra ele mesmo. Toda vez que ele joga essa briga pra fora ele perde porque torna uma decisão num risco de vexame e não de derrota.

Embora não seja o caso, o botafoguense já conseguiu elevar as duas decisões para caso de glória ou vexame tamanha insistência em criar uma narrativa de perseguição global que por obviedade não existe. Ao contrário, existem até rivais torcendo a favor tamanho o periodo sem competitividade.

Se “contra tudo e contra todos” é uma frase feita que os agrada, que tal incluir-se no todos? O Botafogo joga contra um adversário, a história, os rótulos adquiridos por ele mesmo e também contra o céu e inferno que a própria torcida o coloca toda vez que a bola entra.

Se sábado não der certo, embora qualquer análise honesta leve a um resultado normal, será taxado como “pipoca” e “vexame”. E muito disso é sustentado por essa briga burra contra “tudo e todos” quando na verdade o maior adversário do Botafogo sempre foi ele mesmo.

Se os fatos e a história o pressiona, não crie mais um empecilho pra essa decisão. É o melhor Botafogo de décadas. Mas ainda assim é um jogo, tem 11 do outro lado e a bola é teimosa e cheia de vontade própria.

Não haverá “vexame”. É contra o Galo em jogo único e o Inter lá. Pode haver glória, isso sim. O que não faz dos fatos anteriores mentira. Apenas história.

RicaPerrone

Nem to sabendo

Acordei feliz. Acordei nos melhores anos da minha vida. O Tyson no ringue e o Santos na elite. Parece que dormi, o mundo reajustou a rota, e acordei.

Foi sem entrar em campo, é verdade. E que bom, porque o Santos não pode desfilar com uma taça de série B no sagrado gramado da Vila.

Com todo respeito aos profissionais de hoje, o Peixe deveria terminar o jogo amanhã, virar pra torcida, aplaudir, se retirar e não esboçar nenhuma festa.

Poxa, Rica! Deixa de ser chato. É uma alegria voltar. Sim, é. Mas é que estamos falando do Santos e não de um clube de futebol.

Primeiro que ele deveria ser “irrebaixável” por serviços prestados. Segundo que deveria estar no estatuto que no gramado da Vila não se comemora título de série B. E terceiro que essa notícia não dá nem capa porque ninguém esperava o contrário.

2024 deveria ser extinto da história do Santos e não haver relatos oficiais sobre. Numa monarquia não se brinca com a história da família real. No futebol temos um rei e por obviedade conhecemos o castelo Real.

Se todas as apostas apontavam pro Santos campeão, que anulem os pagamentos. Se existir medalha, não mande ninguém pra buscar. E se o troféu chegar, deixem no depósito lá no fundo pra que ninguém possa ve-lo.

E, de novo, não estou falando sobre rebaixamento. Estou falando do Santos, o maior feito do futebol em todos os tempos.

Ao lado do Real Madrid, o maior clube da história. Só que um deles está em Madrid. O outro é uma aberração da natureza.

O Santos representa tudo que o futebol precisa pra existir. A falta de lógica, os acasos, o começo, o meio, o fim, o novo, o velho, o sonho, o real, o lúdico e o que de melhor fizemos até hoje.

As duas camisas de clube mais importantes do mundo são brancas. Não se mancha nada branco.

Parabéns aos demais classificados. Ao Santos, um suave aperto de mãos respeitoso de quem sequer tocou no assunto durante o ano justamente por não aceitar registrar tal momento.

O futebol é menos futebol sem o Santos.

E que venha o próximo ano sem perspectiva que surgirão 5 garotos do nada e darão ao Peixe outros títulos conquistados sem receita conhecida mas comprovada.

Rica Perrone

O nocaute do século

Engana-se quem acha que Mike Tyson perdeu uma luta ontem. Se há um vencedor neste planeta hoje atende pelo apelido de “Iron”.

Mike Tyson foi ao ringue aos 58 anos contra um hoje profissional em atividade no seu auge. Jamais, em esporte algum, um ídolo voltou a competir com essa idade sem ter sido com pessoas da mesma condição. Só por isso já é incrível.

Mas Tyson se testou e talvez tenha explicado pra uma geração do que falamos quando nos referimos ao maior de todos. Ele fez 90 mil pessoas irem ao estádio, um planeta parar e discutir boxe e talvez você não tenha notado o nocaute da noite.

Mike contra uma geração. Um monte de jovem que não viu nem viveu a era Tyson e só ouviu falar. Se idoso ele derruba o Paul, era marmelada ou o adversário amador. Se ele perde, é a idade. Então a vida foi caprichosa com Tyson.

Na impossibilidade de competir com Paul pela força e velocidade, Mike travou uma luta com o mundo. Mostrou que algumas pessoas conseguem mover um esporte mesmo sem competição. Fez pais e filhos se sentarem na frente da TV e reviver momentos incríveis do nosso passado.

Mike replicou em 2024 uma noite de 1986.

Talvez pra você tenha sido um luta. Mas pra nós, ou 90% de nós com mais de 40, foi um presente poder viver isso de novo. E ainda nem faleu do nocaute.

Fui ao estádio. Realizei um sonho de criança vendo essa lenda de perto e me emocionei muito estando ali. Foi seguramente um dos dias mais inesquecíveis da minha vida. Eu esperei 46 anos achando que não aconteceria mais até realizar o desejo de ver meu super herói de perto.

A luta? Quem se importava com a luta? Era Mike Tyson de calção preto num ringue. Poderia ficar horas assistindo essa cena mesmo se o Paul faltasse ao evento. Ao contrádio das lutas amadoras do Brasil, o coadjuvante era o youtuber.

O que Tyson não fez na carreira? Ele derrubou todo mundo em segundos. Mas nunca tinha nocauteado alguém antes da luta. E o desejo em reve-lo era tamanho que o simbolo maior da nova geração, a revolução mais forte que separa Tyson de Paul foi a vítima.

Mike derrubou alguém antes da luta.

Com todo mundo vendo, ou tentando, Tyson derrubou o Netflix.

Até então invicto, ainda que novato e talvez sem saber a força de um veterano de 58 anos, foram a lona pela primeira vez ao vivo para todo planeta.

Vocês estavam olhando pro Paul. Mas o nocaute e a luta foi “contra” quem não viveu a era Tyson. E então, aí está. O mundo irritado porque a nova solução não comportou duas gerações inteiras e caiu.

Ruim? Claro. Mas quando me falaram no estádio que o netflix havia caído e eu vi aquelas 90 mil pessoas gritando seu nome eu entendi quem lutou, quem venceu, quem perdeu e o que fui fazer lá.

Senhoras e senhores, garotos e garotas, vocês nunca mais verão outro Mike Tyson. Agradeçam por ter tido essa oportunidade, ainda que o nocaute tenha os deixado irritados no sofá.

RicaPerrone

Porque, Neymar?

Eu ouvi muitas vezes uma pergunta. “Porque você gosta tanto do Neymar? Ele nunca te deu nem entrevista!”. E hoje, nesse momento, consigo responder isso como nunca antes.

Primeiro porque ele é um monstro jogando futebol. Isso me basta, já que não sou fofoqueiro e sim apaixonado por futebol. Eu tenho o que fazer e portanto estou cagando pra quem ele come, onde ele vai e o que ele faz da vida dele. Só torço pra que seja feliz.

Há mais de um mês eu sai do Brasil por um tempo. E no meio desse monte de novidade, de surpresas desagradaveis diárias ao constatar nossa distância do óbvio, a mais clara lição é a da importancia dos amigos.

Você sente falta a cada minuto. Até dos que não via sempre. Parece que eles vão se desconectando de você pela distância, pela falta do dia-a-dia e você vai ficando sozinho, mesmo conhecendo outros novos amigos.

Quando eu olho pro Neymar eu vejo um garoto. O tal do “menino Ney”. Ele sorri como um garoto porque não tem problemas com isso. Eu também odeio o conceito de “parecer maduro” ou adotar um estilo conforme a idade.

E muito do que ele faz eu tenho certeza que também faria se tivesse na condição dele. Mas a coisa mais importante que ele fez na vida pra me convencer de que trata-se de um sujeito ponta firme e de valores foi ter levado os amigos de infância com ele.

E veja, não foi hoje. Nem duas vezes. Ele levou os caras pra VIDA com ele. Abriu mão de muita coisa, mas não dos amigos.

Ah mas os parças! Calma aí. É um ponto de crítica alguém carregar seus amigos de infância consigo mesmo tendo se tornado amigo das maiores celebridades do planeta? Quem te educou, irmão? Quais valores te deram?

Eu hoje aqui longe dos meus consigo dimensionar o tamanho da decisão que ele tomou quando se cercou de quem estava ali quando ele ainda não era o Neymar.

Um dia me levaram no Instituto Neymar. Eu jurava que era em Santos, não sei porque. E já simpatizando com ele fui seguindo o waze até chegar no mesmo bairro que eu cresci na Praia Grande. Era ali. Ele cresceu no mesmo lugar que eu, só que anos mais tarde. De qualquer forma, ele atingiu exatamente o mesmo ponto do mapa que eu gostaria de ajudar se pudesse por gratidão a tudo que vivi ali.

Neymar é um “colega distante” com quem falo as vezes. Nos damos bem. Mas não somos amigos. Mas acho que ficou fácil entender a relação que tenho com esse “moleque”.

Ele carrega demais a bola e também os mesmos valores que eu. É instintivo pra mim protege-lo porque estou defendendo os meus valores, não os dele.

Se isso me faz um “neymarzete”? Sem problemas. Eu nunca “pedi nada” pros meus idolos. E me sinto tendo feito a escolha certa em notar que nenhum deles também nunca usou da minha admiração pra pedir nada em troca.

Como ele mesmo repostou na sua chegada ao PSG, um dia eu disse: “carregue por toda parte o que for mais importante pra você”.

RicaPerrone

É Deus que aponta a estrela que tem que brilhar

Em tom de brincadeira mas com muita convição de ser de fato o que ele pensa, Xande de Pillares acabou eternizando uma frase que um ateu deveria renegar.

Mas não o farei.

Por diversos motivos mas especialmente por ele ter razão.

Chame de Deus o que você quiser, seja você da religião que for, ou ateu como eu, é um tanto quanto claro que a vida gosta mais de algumas pessoas do que de outras. E isso costuma ser chamado de “Deus” pela nossa civilização. Dito isso, confirmado na prática, sim, “é Deus que aponta a estrela que tem que brilhar”.

Gabriel é uma afronta aos coachs. Ele faz tudo do jeito que ele quer e o resultado é sempre o que ele esperava e não o que os palpiteiros previram. É o Belo de chuteiras.

Quanto mais ele erra e acerta, mais humano ele fica. E mesmo odiando o Gabigol, você adora odia-lo tanto quanto muita gente odeia ama-lo. Gabigol é um voo de mariposa. Sem plano de voo, mas voa.

O sujeito conseguiu fazer uma nação ama-lo, adora-lo e depois querer ve-lo fora do clube. E no mesmo ano ele conseguiu decidir um título, sair titular, anunciar sua partida já tendo batido no maior rival do novo clube.

É surreal como as coisas terminam de forma cinematográfica pra ele. Parece um desenho da Disney, ou, como diria o outro, a escolha divina pra brilhar.

Hoje é dia de Flamengo, campeão merecido da Copa do Brasil. Mas nem o mais fanático rubro-negro hoje dorme tão feliz, aliviado e com sentimento de missão cumprida quanto Gabriel.

Amanhã eu não sei. Nem ele, provavelmente. Mas a vida já lhe deu motivos suficientes pra saber que, aconteça o que for, a chance dele se dar bem é enorme. Deus? Talento? Fé? Escolhas? Personalidade?

Não sei dizer. Mas não saber reconhecer ou curtir tal história sendo escrita na nossa cara é um erro que não cometerei.

Que prazer ve-lo brilhar, errar, acertar, tentar, voltar, cair, levantar, Gabigol! Um mundo enlatado em redes socias precisa saber que nem tudo tem receita. Afinal, é Deus que aponta, né?

RicaPerrone

Flamengo, Flamengo!

Eu sinto saudades do Flamengo. Entendo a nova era, admiro, mas sinto falta daquele clube de onde ninguém sabia o que esperar.

Sinto falta do time que quando não podia, fazia. Manteve-se um pouco do que quando tudo tem, nem sempre consegue. Mas a primeira parte era a mais gostosa de acompanhar.

Aquele Flamengo que você podia dizer tudo a ele menos que ele era incapaz de algo. Aquele Flamengo que ignorava as adversidades para buscar um resultado improvável e que fazia do Maracanã um cartão postal do país.

Sabe porque o Flamengo está nessa final e com favoritismo? Porque ele ficou como desafiante. O DNA rubro-negro está na superação, na luta, no momento em que alguém diz pra ele que o outro é melhor.

A construção básica de um resultado parece afrontar o clube. Em 2019 passou aquele cometa e ainda que tenha sido “o normal” vencer com aquele time, foi especial pela forma que conquistou.

O Flamengo não segue roteiros. E toda vez que alguém ousa escreve-lo sem coloca-lo como protagonista ele costuma se colocar ali sozinho.

É claro que esse time é capaz, mas não se apresentava dessa forma. Claro que das mil soluções de treinadores caros e gringos a “solução” estaria em casa. Isso é Flamengo.

Os desfalques? Talvez sejam parte do show. A adversidade fomenta o Flamengo e não ter a obrigação de vencer parece deixa-lo mais confortável.

Por vocação o Flamengo é um clube que reverte o prognóstico, não necessariamente o que confirma a teoria. E hoje, semanas atrás, a teoria era de que o Fla estava mal, trocando treinador, perdendo peças e remendando um ano “perdido”.

Ele pode perder domingo? Mas é claro! Porque também é muito Flamengo perder quando está perto da taça. Até porque seu adversário domingo tem no seu DNA a vitória improvável também.

Mas que esse título, se vier, será uma conquista “retrô” a là Flamengo, é inegável.

Rica Perrone