Eu não sou a favor. Tenho medo, acho que temos aí mais a perder do que a ganhar. Mas eu sou jornalista, eu vivo de futebol e eu sou sãopaulino. Eu não tenho como negar que rever o meu capitão ali é especial. E se ele quer, se se sente pronto pra isso, quem é o maluco que vai dizer não pra ele?
Rogério tem duas características decisivas na sua carreira: Ele é louco por resultado, louco por ter razão. Quando você ganha, você tem razão. E por isso Ceni viveu anos dourados no SPFC ultimamente. Quando se perde, és o vilão. E por isso ele foi taxado de líder negativo antes da boa fase.
Rogério é corajoso. Eu no lugar dele talvez fosse também tão obcecado quanto em querer mais e mais. Mas, por outro lado, é um risco enorme e não tão necessário. Há desgaste, derrotas, talvez seja parte ainda dos anos de crise. Ceni não pode sair vaiado do Morumbi. E hoje assume esse risco e assina o documento. É real. Pode acontecer.
Gosto? Adoro! Respeito muito quem corre riscos desnecessários, até porque ser incrível não é necessário, logo, limita-se aos que correm o risco.
Rogério na beira do gramado do Morumbi é épico. Se dirigente fosse, tentaria convence-lo a não fazer isso agora. Mas se eu fosse Rogério Ceni tentaria assumir e fazer do SPFC campeão outra vez.
Sendo o que sou, torço pelo meu capitão, pelo meu time e pra que isso tudo desgaste o mínimo possível a imagem do “mito”, agora, “professor Rogério Ceni”.
Em 2006 nós tinhamos um site chamado Estação Tricolor. Nós faziamos um programa de rádio online, um dos primeiros da época, e um dia entrevistamos o Ceni.
A rádio era formada por mim, pelo Daniel Canto e Marcelo Murro. Foi uma fase incrível da nossa vida e da minha carreira. Mas esse dia foi especial porque tinhamos 20 minutos pra falar com o Ceni. Mas ele acabou falando 80 minutos conosco.
É antiga, mas eu considero a melhor entrevista que já vi o Ceni dar.
…Responda quem puder.
O que irá me acontecer?
O meu destino será como Deus quiser”
Vazio.
Assim ficarei as 23h desta sexta-feira 11, que por uma indelicadeza do calendário não é 13.
Eu sempre fui o centro das atenções. Mas por uma vida eterna sempre me quiseram derrotada e não defendida. Nasci pra ser alvo, fui odiada sempre que não me atingiram.
Muita gente tentou me defender, mas embora eu já tivesse sentido o prazer de ser também protegida, nada se compara aos anos de glória que passei ao seu lado.
Você mudou meu valor. Disse ao mundo que quem ao meu lado fica não apenas evita como também realiza. Dá pra ser protagonista perto de mim.
Mesmo tendo feito boa parte do seu incrível sucesso me deixando sozinha, eu entendia que era pra retornar mais forte. Você nunca demorou a voltar.
Sabe, nós nos falamos pouco. Sou quieta, mas você me entende. E pelo olhar, quantas vezes nos agradecemos por um salvar o outro nessa longa jornada.
Achei que passaria esses anos todos ao lado de outro. Já estava apaixonada, flertando descaradamente com aquele negro de futuro promissor mas quis a vida que fosse você.
Ainda viúva de um casamento quem nem começou, te encontrei e demorei pra entender porque diabos eu deveria amar um parceiro que me usava para se promover. Porque aquele que me defende ora ou outra me agredia?
De que lado você estava, afinal?
Demorei. Mas entendi que seu lugar nunca foi exatamente ao meu lado, nem a minha frente, menos ainda dentro de mim. Quem você realmente amava era aquele que esteve literalmente ao meu lado esse tempo todo e eu não percebi.
Talvez você tenha se aproximado de mim meramente pra ficar mais perto dele. E mesmo na condição de uma “garota de recados” dessa relação, você me fez muito feliz.
Agora você já o tem todo pra você. E eu vou ficar aqui pra tentar encontrar um novo amor que, se não pode superá-lo, que ao menos me faça aguentar a dor de ter te perdido.
Vai com Deus, meu capitão! Obrigado por tudo.
“E vai chegando o amanhecer Leio a mensagem zoadiacal E o realejo diz Que eu serei feliz, sempre feliz”
Palmeiras e São Paulo convivem com seus exageros há algum tempo. As vezes pro bem, ora pro mal, mas os dois clubes tem em seu território algumas semelhanças.
Do conceito de genialidade precoce dada a um treinador aos ídolos fanfarrões, do qual o Palmeiras já se desfez, diga-se. Da idéia de que os “mitos” do gol não devem parar até que sejam devidamente contestados para isso. De diretorias recentes catastróficas mas com uma carinha de séria impressionante.
Palmeiras e São Paulo se parecem nos últimos anos.
Em campo, hoje, não mais. O Palmeiras lembra muito o SPFC tricampeão que pouco jogava mas muitos pontos fazia. O São Paulo de hoje é um time ousado, que privilegia o risco e por isso talvez não faça todos os pontos “previsíveis” que poderia fazer.
Tanto faz. Em mais um jogo confuso no Morumbi o São Paulo foi melhor, mereceu o gol e não é possível dizer que não mereceu o empate que sofreu. Afinal de contas, o erro se repetiu pelos mesmos pés, contra o mesmo time, sob o mesmo ar arrogante de quem não pode ser “mortal”.
Rogério Ceni decidiu o clássico e, aos 42 anos, quando espera-se que a maturidade já tenha conflitado com a soberba, nota-se que sua não aposentadoria está bem fundamentada se for esperar por isso.
“Demos azar”, disse o goleiro.
É realmente constrangedor porque é tão simples sair dali, pedir desculpas, dizer que errou, que faz parte e descer pro vestiário que fica complicado entender porque Rogério Ceni reage tão mal ao fato de ser humano.
Mas, enfim. O Palmeiras que muito cruza e pouco toca a bola conseguiu se manter no G4 num dia que jogou mal. Outro dia fez 4×1 no Maracanã e também jogava mal.
Ficamos naquela dúvida terrível: Vence porque joga mal ou joga mal e vence porque é tão bom que quando jogar bem goleia?
Hoje, mal de novo, teve tantas chances claras de gol quanto o São Paulo, que jogou bem mais. É a diferença entre o que gostamos e o que funciona. Não precisamos comprovar que não funciona para não gostarmos. Nem que funciona para adorarmos.
Eu não gosto do futebol que joga o Palmeiras. E tenho credencial pra isso a partir do momento que achei tosco o futebol do SPFC tricampeão brasileiro do Muricy.
Tenho um déficit de 8 horas de sono na vida. Carrego comigo essa sonolência atrasada desde 31 de agosto de 1994, dia que o Chilavert, aquele filho da puta, bateu no peito tão forte pra rir de nós que o silêncio de 120 mil pessoas nos permitiu ouvir.
Foi roubado, como é pra todo torcedor quando perde um título. Mas foi insuportável não poder voltar no tempo e empurrar a segunda bola pra dentro ou evitar que Palhinha batesse o pênalti.
Lá se foram longos 11 anos. O São Paulo de 2004 ficou no quase, o de 2005 também vivia sob desconfiança. Mas alguma coisa ali mudou quando eliminamos o River e o árbitro nas semifinais.
A decisão foi contra um Tatu na árvore. O Atlético PR chegou porque a Copa das Confederações levou o time todo do Santos e do Chivas, os adversários de quartas e semi finais do Atlético. Deu uma sorte absurda, mas nada tem com isso.
Na decisão, onde o primeiro jogo empatou, o SPFC só precisava vencer no Morumbi. Mas no dia que vencer uma final for “só”, eu paro de ver futebol.
Era 17h e eu estava no Morumbi já. Fiz meu pai ir mais cedo comigo, eu precisava estar lá pra me acalmar. Esperei 11 anos pra gritar o Tri que ficou preso em 94, e aquela oportunidade não se repete sempre. Vi cada torcedor chegar ao Morumbi, cada barraquinha de calabresa ou hot dog ser montada.
Vi a noite cair, os fogos surgirem isoladamente. Os gritos tímidos de “ooooo é tricolor” a cada grupinho que chegava. Você pode não acreditar, mas a Libertadores no Morumbi tem um cheiro.
Você sabe quando é Libertadores e quando é Brasileirão apenas respirando fundo. É incrível. Cheira calabresa, urina, fumaça, ansiedade e paixão. Porque ninguém gosta tanto da Libertadores quanto o sãopaulino.
Lá pelas 19h compramos as faixas de campeão mas guardamos no bolso. Não se coloca faixa antes do jogo. Fiz isso contra o Vasco em 89 e nunca mais. Subimos pras arquibancadas as 19h30. Porque? Porque eu não conseguia mais não estar lá dentro. Era mais forte do que eu. Eu tinha que entrar. Ter certeza que tudo aquilo era real.
Pois as 21h40 o Morumbi explode numa festa possível dentro das regras estúpidas da PM de São Paulo que impedem a festa alegando que bandeiras são um perigo.
Me lembro de rezar pra alguém. Não sei se sou ateu, se tenho religião. Acho que não. Mas eu rezei muito pra alguém me dar aquele título. Eu precisava muito daquela alegria, também por questões pessoais de momento.
Tenho vaga lembrança de duas frases. O apito do juiz e eu digo: “Boa sorte, pai”, e o abraço. Em seguida eu grito: “Vamo são Paulo caralho!!!!”. E dali pra frente me lembro de ter passado o jogo em pé, suando com 10 graus no termometro, contando os gols da goleada e tentando acreditar que seria tão fácil.
Mas não foi. Teve um pênalti roubado pros caras. Que aliás, quando bateu na trave explicitou o resultado do jogo. Ninguém faria gol no São Paulo naquele dia. Se o Barcelona de Messi e Neymar jogasse no Morumbi naquela noite, ganhariamos. Simplesmente porque não havia qualquer possibilidade daquela festa não acontecer.
Os emblemáticos lances de Cicinho vibrando com um carrinho. Lugano perturbando o Fabricio no pênalti, Fabão chorando, Luizão com as mãos no rosto como um garoto arrependido de ter sido vendido pra um clube japonês.
No 3×0, gol de Luizão, tirei a faixa do bolso e coloquei no meu pai. Ele fez o mesmo. E pela terceira vez nos abraçamos comemorando a conquista da América.
Eu sei que não é pra qualquer um. Ao contrário, a Libertadores pra muitos ainda é um sonho. Mas o sãopaulino é sortudo, abençoado, mal acostumado.
Caralho, faz 10 anos. Eu não sei bem explicar os motivos pelos quais os títulos que vieram a seguir não tiveram sequer sabor parecido. Mas posso afirmar, pelos rumos do futebol, pelas novas arenas e por tudo que estamos assistindo, que aquela foi a minha última noite perfeita.
Na próxima eu vou me sentar numa cadeira estofada, numerada, talvez longe da turma. Talvez eu nem possa falar palavrão ou tirar a camisa. Talvez sequer haja Libertadores daqui 10 anos.
Dia 14 de julho de 2005. Quando uma vida vale a pena por 90 minutos.
Por isso digo sempre que o jornalista esportivo que renega seu clube de infância é um tremendo ingrato. Eu não sou.
Não vou “gastar” parágrafos para registrar o óbvio. Que Tolói foi burro, que Ceni cometeu um erro, que isso muda tudo e que o Palmeiras “soube aproveitar”.
Estarei cometendo um erro mais grotesco que o do Tolói se após uma épica vitória dessas eu olhasse o lado derrotado e tentasse explicar os “porques”, desmerecendo por tabela o vencedor.
E que vitória! Um time que jogou futebol, fez 3 golaços, teve a chance de fazer mais uns 2 e em momento algum da partida forçou uma goleada.
Estaria colocando meu lado torcedor “um passo a frente”, como Ceni, para avaliar o erro e não o espetacular gol de Robinho. Rogério é pano de fundo, por mais delicioso que seja ao palmeirense.
Como foi ver Dudu, alvo de uma disputa sem fim no começo do ano, deitando, rolando e até se pendurando nas costas da defesa do rival.
Era dia de Palmeiras. Só do Palmeiras.
E em respeito a isso, deixo pra amanhã qualquer comentário sobre os motivos que levaram “o São Paulo a derrota”. Até porque o principal motivo está no contexto: O Palmeiras.
Perguntado sobre sua condição, Ceni diz que pode jogar mais um ano. Renova, desmonta a patrocinadora de camisa, mantém o clube com um grande ídolo em campo e o campeonato com um ícone raro.
Como eu posso achar ruim ter Rogério Ceni em campo por mais uma temporada, ou meia, que seja?
Eu? Teria parado com a taça na mão em 2012. Aos 40, tudo conquistado, ídolo eterno e com a imagem mais brilhante possível de um caneco nas mãos.
Ele? Vai tentar parar campeão do mundo. Não sei exatamente se ele é maluco, confiante ou arrogante. Sei que ele é uma lenda e eles escolhem quando acabam, não nós, meros mortais.
Adoraria escrever um post cheio de opiniões sobre a aposentadoria do Ceni. Mas, pensando por um segundo… quem sou eu pra avaliar a cabeça e a condição física do maior jogador da história de um clube de 15 milhões de torcedores, um dos maiores do mundo?
Com que diabos de lógica eu posso desenvolver e taxar um “sim” ou “não” diante de uma situação onde eu acho que ele, Ceni, só tem a perder?
Se eu mesmo acredito que os grandes são os que se arriscam e que a vida não faz sentido algum se planejada mais do que sentida, porque eu contestaria a idéia clara de ser ainda maior no que faz?
Ceni tem tudo. E quer mais alguma coisa.
Que espécie de apaixonado por esporte pode não admirar, no mínimo, a coragem dele em se expor dessa forma por míseros 6 meses?
Não é por grana. Não é por marketing. É por vontade de ir além.
Pois então vá. E se não der, volte. Mas é melhor voltar de cabeça baixa do que ter ficado pra dizer: “eu avisei”.
Em 2008 Valdívia marca o segundo gol do Palmeiras sobre o São Paulo e elimina o tricolor. Na comemoração, muda de direção e passa na frente do Rogério para mandá-lo calar a boca com um gesto.
Rogério não gosta. No meio de um empurra-empurra, dá um “tapa” no rosto do chileno.
Dois dias de discussão na tv para tentarmos achar um vilão e um mocinho, ou, no máximo, dois vilões. Valdívia é um tremendo folgado, Ceni um puta cara cheio de si. O encontro dessas duas personalidades não daria certo no Big Brother, num emprego, nem num campo de jogo.
É do jogo. Basta ter jogado pra saber.
Você tem todo o direito de ser marrento e provocar, desde que saiba o que isso vai gerar. Hipocrisia condenar o Ceni por se irritar com Valdívia. Quem não se irritaria?
E o chileno, por sua vez, faz isso contra o SPFC e contra o Itaperuna. É dele, e apanha o suficiente por isso.
O gesto de Valdívia alimenta o futebol. Se eu fosse o Rogério, teria enfiado o pé nele, exatamente como tentou fazer. Mas também, se eu fosse o Valdívia, talvez fizesse questão de passar de novo na frente do Rogério comemorando a vitória.
O problema é que estamos sempre dispostos a nos colocar apenas em um dos lados. E dependendo do que for, achará um vilão e um mocinho.
“Ah mas o Valdívia não fez nada!”.
Fez, claro que fez. E dai?! Qual problema se ele é provocador desde que aguente as consequências?
Não vejo mal nenhum numa dancinha que menospreze o adversário. Desde que o dançarino apanhe sem se fazer de vítima.
Ação, reação. Futebol.
Só isso.
As “lindas cotoveladas de Pelé” são hoje os detestáveis “jogadas de mau caráter”.
É a nova geração. Aquela onde o Merthiolate não arde…
Rogério ceni renovou por mais um ano. Ninguém pode mais no São Paulo do que Rogério Ceni.
Se ele quer ficar, pois que fique.
Se aos 41, tendo pouco a ganhar e muito a perder, entende ser relevante estar em campo, então esteja.
Rogério atingiu o nível de incontestável. E não foi por sorte, mas por méritos e trabalho.
Eu, diretor, não renovaria. Eu, Ceni, idem.
Mas ele, o original, pensa diferente. E fatalmente tem mais argumentos para defender sua posição do que eu a minha.
Se o Rei quer ficar no trono, quem será o louco a tentar impedi-lo?
Talvez a Copa do Brasil ainda o seduza, apesar de ter ouvido dele considerável menosprezo à competição já.
Ceni não sabe perder.
Perder é algo que se aprende com o tempo. E não acho exatamente uma virtude ter a exata noção de como agir no fracasso.
Quanto menos se perde, menos sabemos perder.
Ceni é um vencedor. Um ícone. Um cara que tem o poder de manipular até a noção que as pessoas fazem sobre a idade de um jogador para aprovar ou não sua permanência.