suarez

Uruguai: Respeita meu rival

As vezes pode ficar confuso na cabeça do torcedor entender a diferença entre rival e inimigo. Vou tentar explicar com exemplos grandes bem na nossa cara durante essa semana para que possamos identificar mais facilmente.

O Uruguai é meu rival. A Argentina, meu inimigo.

E então você pode perguntar qual a diferença. E eu lhes explico com facilidade.

O Uruguai ganha do Brasil as vezes e sempre que faz isso o faz dentro do jogo. Nós ganhamos, eles ganham, a gente rivaliza e tem uma gana por vencer esse confronto. Isso é rivalidade.

A Argentina é uma seleção que quando ganha do Brasil raramente não fez uso de algo ilegal. Isso é ser sacana, não cabe numa relação saudável esportiva de rivalidade.

A molecada não sabe, liga a tv e consome a mídia baba ovo como verdade absoluta. Mas é muito simples explicar. Em 1978 a Argentina estava quase fora da final. Seria Brasil x Holanda na casa deles. Eles então compraram jogadores do Peru e ganharam de 6×0 o último jogo eliminando o Brasil e indo a final.

Em 1990 eles jogaram contra o Brasil na Copa e nos eliminaram. Durante o jogo o time argentino deu água com calmante pros jogadores do Brasil tomarem. Doparam nossos jogadores e hoje, em 2019, eles não acham lamentável. Acham “foda” e morrem de rir, enquanto a nossa mídia acha um crime o Neymar arrotar na mesa.

Em outras diversas ocasiões fomos vítimas da falta de caráter esportiva da Argentina. Já encontraram jogos comprados e só pra citar meu time duas vezes contra o River. Uma final em 97 e a semi da Libertadores em 2005. Os dois jogos o juiz foi descoberto comprado pra roubar.

Enfim. Há uma diferença entre o rival que ganha de você e o que “rouba” pra ganhar de você.  E o que “rouba” não é o que o juiz erra a favor. É o que encomenda. Ou o que droga o adversário. Enfim.

O Uruguai é nosso rival. Grandioso, catimbeiro, mas ainda dentro das regras. A Argentina é a seleção que não respeita as regras e faz qualquer coisa pra ganhar. Inclusive nos tirar de duas Copas roubando. E se você pensa “mas foi em outra época, hoje isso seria mal visto”, errou. Eles morrem de rir disso tudo na tv abertamente.

Além de outros fatores que muito me incomodam como a história de ter autorização cultural pra chamar negro de “macaquito” e imitar macaco pra colombiano, brasileiro, etc. Mas, enfim. De todos os exemplos que podem separar um rival de um inimigo, nenhum é mais didático que Uruguai e Argentina.

Na Copa América eu quero vencer o Uruguai. A Argentina, quero humilhar. É diferente. Quem dá a outra face é Jesus. No futebol se dá o troco.

RicaPerrone

Corrigir ou aceitar?

Assim somos.  Desde o primeiro coco que rolou numa praia qualquer, o brasileiro reage emocionalmente de forma muito decisiva. Em qualquer aspecto, em qualquer ocasião.  O brasileiro coloca a emoção acima de tudo, é nosso jeito de ser.

Jeito esse que conquista, cativa, nos faz péssimos favoritos, insuportáveis azarões. A idéia de “contra tudo e todos” ainda é o melhor discurso motivacional do país. O conceito de favoritismo não é bem aceito por nenhum brasileiro.

Ontem o Brasil fez um grande primeiro tempo contra o Uruguai. Compacto, atacando com 10 jogadores, sem posição fixa, movimentação, liberdade criativa…. tudo como queríamos.  2×0.  É baile!

O Uruguai empata numa bobeira nossa e então tudo se reverte. Nosso time parece travar os pés na grama. David Luiz parece não conseguir conviver com o 7×1 e se divide em dois jogadores. Um, que até Brasil x Alemanha ninguém lembra mas era eleito “o melhor jogador da Copa” até então, e outro, após o 7×1, que se perde em lances absolutamente simples pra um jogador de seu nível.

E então o time trava, não corre mais riscos, todos tentam o lance salvador sozinhos, as jogadas não são mais naturais e os sorriso dão espaço a cara de pânico, aos pontapés e cartões idiotas.

O Brasil nunca conseguiu controlar suas emoções em campo. Este sempre foi o grande espaço encontrado pelo mundo para nos vencer. Após o 7×1, onde em 5 minutos conseguimos ter a maior crise de pânico da história do futebol e tomar 4 gols, nosso peso é ainda maior.

A seleção não é exatamente um problema. Mas talvez reflexo dele. Somos pouco auto-confiantes, exigimos de nós mesmos o melhor sempre, mas nos julgamos incapazes.  Somos o único vira-lata do mundo que nunca se compara ao cachorro ao lado, mas sim ao da mais elegante madame do bairro, exatamente para termos mais argumentos para nos menosprezarmos.

A seleção brasileira é bem brasileira. E por isso eu não sei se torço pra ela se ajeitar ou se pra chegar em 2018 sendo uma piada, um azarão de luxo.  O que aliás aconteceu algumas vezes, e em todas elas nós saímos campeões do mundo.

abs,
RicaPerrone

Menosprezo ou entretenimento?

Menosprezo é pagar 10% de um salário mínimo pra entrar num estádio sem água, sem banheiro e ver um jogo de merda entre um time que investe 300 milhões por ano contra um time de 12 milhões só porque a federação tem papel de ONG.

Entretenimento é quando um dos que questionam isso voltam dos EUA achando o máximo um jogo de basquete sem quase ter notado a partida em si.

Esporte, e mesmo o futebol, não passa de entretenimento. Qualquer pessoa que o consuma e que leve isso além de um hobby, um lazer, uma diversão, está errada. Eu já estive, milhões ainda estão. Mas futebol é apenas um evento que deve divertir pessoas aos domingos.

Sua torcida, sua paixão e sua cegueira são divertidas desde que acompanhadas do bom senso de reconhece-las.  O apaixonado que sabe estar apaixonado é consideravelmente menos idiota do que aquele que se nega cego por amor.

O que o Barcelona fez domingo se chama entretenimento. Ele deu ao público algo para não mais esquecer. Retribuiu o ingresso, a devoção e a expectativa. Como bem ensinam os norte americanos, o show não precisa estar no gol de placa. Pode estar na entrada da arena. Ou num pênalti bobo, como o do Barcelona.

Denílson, Neymar, Robinho, tantos outros foram e serão alvo de discussões vazias sobre menosprezo, limite do entretenimento, etc.

Talvez fazer embaixadas numa final como fez Edílson seja um pedido para confusão. O que não lhe tira a razão entre um pontapé e uma embaixadinha.

Messi e Suarez divertiram pessoas, fizeram o gol e tornaram um jogo qualquer num grande evento.

Não lhes dêem nossa ignorância socialista brazuca em troca. Aplaudam quem não tem medo de fazer o que acredita. E divirta-se, porque embora futebol não seja “só isso”, ainda assim será sempre  “só futebol”.

abs,
RicaPerrone

Suarez e os incríveis uruguaios

Abro a web e tem jornais uruguaios questionando se Suarez não deveria jogar mesmo a próxima partida. Pessoas no twitter e no facebook procurando teses para encontrar “injustiça” contra um jogador polêmico que tem ficha suja para justificar qualquer tipo de punição.

Pouco me importa na verdade se Suarez merecia 4, 9  ou 35 jogos.  O que me deixa absolutamente encantado é ver os uruguaios no aeroporto esperando para aplaudir o cara que ontem os salvou mas que hoje, por irresponsabilidade, pode ter ferrado com eles.

Mas não importa. Ele é uruguaio, já fez algo por eles, e portanto, é até o fim.

Mídia, torcedores, colegas. Todos por Suarez.  Ninguém raciocinando se é correto ou não, mas por instinto defendendo o deles.

Acho que após 3 mordidas e um problema com racismo não é nada absurdo imaginar que seja punido desta forma.   Suarez errou.

Os uruguaios, mesmo quase sem argumentos, não.

E se por um surto qualquer ao concordar com isso você pensou: “Por isso que torço pelo Uruguai”, errou mais feio ainda. Ou, não entendeu nada.

abs,
RicaPerrone

Adorável cretino

Suarez é um jogador que nasceu pra brilhar e, não satisfeito, resolveu também conturbar sua própria carreira.

Entre surtos de genialidade, heroismo e estupidez, vai formando sua legião de fãs e odiadores mundo afora.  Nesta Copa, onde já brilhou, cometeu um ato de estupidez que deve deixá-lo de fora de todo o resto.

Suarez não será punido com rigor porque o Uruguai tem pouco poder político, como disse Lugano, capitão, defendendo como bom uruguaio até mesmo o indefensável.

O futebol, porém, não apenas tolera Suarez como também se alimenta dele.

chiellini-suarez-reuSe fossem todos Kakás não haveria segunda-feira. E sem ela, o futebol seria só mais um esporte.

Há quem acredite que Suarez deva ser absolvido. E isso transforma uma clara situação em polêmica, mesmo que para defender delírios apaixonados.

Eis então o futebol.

Suarez erra, acerta, se arrepende, erra de novo. Vulnerável, cheio de defeitos, é o herói moderno.  O antigo tinha super poderes, o atual tem os mesmos que você e eu.

Se você me perguntar hoje se gosto ou odeio Suarez, te diria que não sei. Porque já gostei dele, já odiei. E isso faz dele um ser adorável.

Um cretino. Mas ainda assim, adorável e fundamental ao futebol.

abs,
RicaPerrone

Protagonista (Uruguai 2×1 Inglaterra)

O Uruguai é uma daquelas seleções que deveriam ter vaga vitalícia em Copas do Mundo.  Independente de rankings, eliminatórias ou até mesmo se um dia o país deixar de existir e nem sobrarem jogadores para representa-lo, deve estar lá.

Talvez não seja comum ver o Uruguai protagonista nos últimos 30 ou 40 anos. Mas quando aparece, quando surta, suas aparições são eternas.

Seja para ser campeão da Copa América na casa do maior inimigo, seja para fazer o mais improvável dos resultados da história do futebol em 50, seja para se recuperar em 1 semana e do vexame ir a glória contra a Inglaterra, como hoje.

O Uruguai cria fantasmas e deles também vive o futebol.

Suarez, que em Gana é tido como “Satanás”, pode ser também o cara que alegra Liverpool e agora desespera o restante da Inglaterra.

O Uruguai coleciona Suarez.

Figurinha mais recente e uma das mais notáveis, o atacante de 27 anos conseguiu escrever mais uma vez seu nome na história das Copas. Hoje através de futebol simples e bem jogado, menos dramático, mas tão importante quanto.

O Uruguai de Suarez não é brilhante, nem tem grandes chances de ir a uma final, por exemplo. Mas por não tê-la passa a ter. Improvável, em estado de futebolês puro, a Celeste parece não se contentar em aparecer na festa e dar uma passadinha.

Hoje na Arena São Paulo vimos angustia, mediocridade, raça, futebol, catimba, oportunismo, protagonismo e até sorte. Mas vimos, acima de tudo, a diferença brutal entre uma seleção que entende o espírito de uma Copa e outra que parece fazer turismo nela.

Bem vindo de volta, Uruguai! Mesmo que não dê, que na próxima semana os placares te mandem pra casa, já terá ido além.

abs,
RicaPerrone