Campeões de audiência

10 anos no Rio

Oi. Eu sou o cara que escreveu aquele texto sobre os 365 dias no Rio e viralizou, virou música, quadro em bar, etc, etc, etc. 

Agradeço.

Quando escrevi muita gente me disse “mora 10 anos ai pra tu ver…“. E eu morei. Agora vim contar o que mudou.

Quando escrevi eu era um apaixonado pelo Rio. Era recente, tudo novo, aquele começo de namoro fulminante. Hoje não sou mais. Agora eu o amo, é diferente. 

Aprendi que o Rio é o lugar mais irregular do  Brasil. Tudo tem um esquema. Todos os setores da sociedade tem alguém mandando não oficialmente. Sempre tem alguém ficando rico com o que não deveria. 

O Rio é a cidade que se auto-organiza pela contravenção. Alguém vai tomar seu bairro e te vender segurança. Alguém vai ao seu restaurante te cobrar um por fora pra garantir a lei. Alguém vai te adiantar na fila do gás se você for “gentil”.  O passaporte da vacina nunca existiu. Só pra rico no Village Mall. 

O crime no Rio é fatiado por setores. Aquela violência que tanto se fala pelo Brasil não é exatamente como imaginam. Ninguém aqui é “mais assaltado” do que em São Paulo. O que assusta aqui é a guerra entre bandidos. Essa é pesada, surreal e na nossa cara.

Mas meio que “foda-se”. Só quem se importa com bandido morto é a Globo e o Freixo. Num geral as pessoas adoram contar histórias delirantes de bandidos que fizeram algo épico numa comunidade qualquer. 

Sim, são “herois” de muita gente. É maluco, mas é real. O carioca acha do caralho ser “bandidão”, “malandrão” ou conhecer os bandidos da cidade. É um status. 

“Tá ligado o fulaninho da baixada? Meu parceiro mané…”.  Ai, nossa, como eu sou perigoso! 

Mas tem um porém. O carioca é amigo de bandido sem saber. Como aqui alguns setores do crime são quase oficiais e permitidos, você tem amigo ligado a tudo que é merda e não sabe. Aí você liga a tv e fala “caraaaaca maluco! O fulano preso! Joga bola com a gente…”. 

É foda. O Rio não é pra “manja-balão”.  

O carioca é o desenho da frase “tá rindo de que?”. 

Mas ele ri. De tudo. Todo dia. E se você o lembrar dos problemas ele ri de novo e faz uma piada. 

E eu adoro isso. 

O único lugar do mundo onde a última opção é pagar. A primeira é conhecer alguém, a segunda é ser convidado, a terceira conseguir entrar. Se nada der certo… “quanto custa?”. 

O caso “Barra da Tijuca” é a melhor definição do amor do carioca pelo “Rio”. É um bairro mais afastado onde tem espaço, estacionamento, hoteis, restaurantes, prédios novos com estrutura, baladas, eventos, praia bonita, enfim. É o Rio melhorado. 

Mas eles se recusam a aceitar isso. Todo carioca que não nasceu na Barra vai morrer dizendo que a Barra é uma merda. Mas se ele ganhar um dinheirinho, ele corre pra lá.

A Barra e o Recreio são os bairros onde moram artistas, deputados, senadores, youtubers, prostitutas, jogadores de futebol e contraventores. 

Você sai numa bela manhã de sol e dá de cara com o Zeca Pagodinho andando na orla. Ai vai almoçar e senta ao lado de um bicheiro com 10 seguranças armados, depois encontra 4 artistas no shopping e no fim do dia dá de cara com o Zico jantando. 

No mesmo lugar, o mais “seguro” eleito pela elite carioca pra morar, você acorda lendo que um carro tomou 35 tiros e morreu fulaninho, que era empresário e tinha ligação com não sei o que. 

É foda. 

Mas vale a pena. Porque só aqui você tem a nossa hipocrisia verde-amarela oficializada. Você se sente um otário por viver num país desses, mas se sente de alguma forma menos otário por saber que é assim e ninguém tá te escondendo isso.

E aqui tem a pior espécie de ser humano que existe:  a gostosa que faz marquinha de biquini.

Filha da puta! 

Elas sabem que a gente não suporta isso, não resiste, não tem como não ser abduzido por aquela linha branca entre duas partes sensuais mais morenas de sol e jogam na nossa cara usando uma calça ou uma blusa que foram feitas especialmente pra te fazer nota-la.

É de propósito. Filhas da puta! 

As cariocas são insuportavelmente gostosas. E quando vim, há 10 anos, não tinha experimentado ainda. Aí separei, casei, separei, namorei, terminei, fiquei solteiro e agora eu sei: filhas da puta! 

Vou me casar com uma só pra ouvir “Ricarrrrdo” todo dia. Ou então pra ela perguntar de manha se eu quero “nexxxcau”.  

Filhas da puta… 

Mas enfim, nessa terra de filhos da puta, eu me incluo. Gosto de samba, gosto de gente, de chinelo e de marcar encontro pra não ir. 

Me sinto num direito delicioso de ter um compromisso e não aparecer sem dar satisfação e não estar sendo um cretino por isso. 

O Rio é o botão do foda-se. 

É assim que é, então que assim seja. 

Se o Brasil mudar, não será por aqui. Mas se o Brasil mudar, é pra cá que você virá passar férias. Então… 

Somos o bordel do Brasil. A mistura de prazer, contravenção, risos, bebida, amigos e belas mulheres em meio a um bairro nobre rodeado por delegacias e políticos que, em tese, deveriam reprimir o bordel mas tem carteirinha de cliente vip dele.

Olha eu falando “nós” sendo paulista. 

Após dez anos de relacionamento sério renovo meus votos. Não sei se pra sempre, mas por enquanto. E por enquanto, pro carioca, é suficiente. 

Se um dia o Rio de Janeiro for seguro, tiver um pingo de bom senso quanto ao absurdo e parar de conviver passivamente com o crime, nunca mais alguém irá discutir o melhor destino do planeta. 

Precisamos de “ordem no puteiro”. E veja bem, eu nem cogitei deixar de ser um “puteiro”. Só pedi ordem nele. 

Agora eu “fui” porque tenho um compromisso inadiável com alguém que não combinei num pagode qualquer que eu não ia. 

RicaPerrone

Oi, vô!

Oi vô! Tudo bem? Saudades. Faz tempo que não te escrevo. Acho que a última vez foi pra contar que seu Palmeiras havia sido campeão. O que, aliás, continua sendo. Você adoraria estar aqui. 

Eu também. Poderia te levar no estádio de camarote, te apresentar os jogadores e até os ex-jogadores quem sabe. Ia ser divertido, mas você não me esperou. 

Aqui as coisas estão terríveis, vô. Na família tem gente sem se falar por causa de política. Acredita? Nem eu. 

Esse ano teve eleição. Dois candidatos muito complicados. Todo voto era justificável, embora a justificativa pro que venceu tenha sido a maior farsa da história.  “Amor”. Porra, vô! Já viu amor em assalto? Eu nunca. 

Lembra que quando eu era moleque você dizia pra mim a frase “ser homem é dizer não”? Eu demorei pra entender. Mas entendi. 

Ser homem é caro, vô.  Dá muito trabalho dizer não pra onde todo mundo quer te levar. Mas foi assim que nunca enfiei pó no nariz e nem cometi qualquer crime na vida. Falando não. Então, agradeço. Foi o melhor conselho que ouvi na vida.

Mandei um pessoal tomar no cu também, vô. Mas eu nunca fui a pessoa que o senhor conseguia ser. Então me desculpa. 

Aliás, entrevistei 120 pessoas esse ano. Foram vários ministros, chefes de polícias, artistas, músicos. Foi bem legal, vô. Eu falei com o Romário, sabia? 

Vô, o Zico me chama de “amigo”.  É muito louco isso. Mas é muito bom. 

Ah velho, tu faz muita falta. Ao ponto da minha última coluna do ano não ter tema, direção, nada. Só ser o papo que eu adoraria poder ter contigo e não dá mais. Queria que você visse minhas vitórias, me puxasse orelha pelas cagadas e me ligasse tirando sarro porque o Palmeiras ganhou.

Aliás, tem uma neta sua que virou palmeirense. Mas não vou falar o nome dela porque embora eu a adore, quero agredi-la por isso. Mas me controlarei. 

Mamãe ta bem, meu pai também. Só o Brasil que não, vô. As pessoas se odeiam, não se falam, brigam por política, destroem os outros por pensar diferente. Acho que na sua época não era tão ruim, né? 

Nem queira saber o que é isso. 

Vô, eu sei que você não vai gostar mas eu caso e separo muito. Mas eu trato elas como você ensinou, prometo. Pago a conta, faço o “carinho no rostinho” como você me disse que tinha que fazer. Apesar que hoje em dia tem umas que se você tratar bem demais elas acham que é machismo, acredita? 

Ah! To morando no Rio! Já faz 10 anos.  Não, nem começa. Não é tão perigoso assim. É bonito, gente maneira, feliz. Eu adoro aqui.  Não tem muita cantina italiana, o que é ruim. Mas tirando isso, é bem legal. 

Só é longe da Praia Grande. 

Teve Copa esse ano. Aqueles filhos da mãe ganharam.  Tem um tal de Messi, baixinho, joga parecido com o Zico. Ele é muito bom, mas nasceu lá na Argentina. E ele ganhou a Copa pros caras. Tô puto, vô! A Itália? Nem foi! Duas Copas que não vai. Acho que você ia ficar meio puto. 

Mais um ano, vô. Tô com 44 agora. Sem filhos, mas viajei muito tá? Se você tivesse aqui juro que te daria um bisneto. Só pra você ensinar os seus valores pra ele como fez comigo. 

Uma última coisa. Tão falando aqui que pode ser que você receba um cara muito especial em breve. A gente torce pra ele ficar, mas também pra ele não sofrer. Você vai reconhecer rápido se encontrar.  Não esquece de agradecer ele por tudo, porque aqui a gente não fez isso como deveria. 

Beijo, vô. Até qualquer dia. 

O que o tempo não pode apagar

Caro Tempo; 

Não te conheço mas reconheço sua força. Sei te medir, dosar, te gastar. Mas não consigo te compreender. 

Porque ora passa tão rápido e ora tão devagar? Porque tão implacável, silencioso e traiçoeiro? 

Você, Tempo, é nosso bem maior. Queria eu ter “todo tempo do mundo” pela frente, ou mesmo poder te parar. Se pudesse, hoje, te retrocederia, inclusive.

E não, não seria eu. Eu pediria ao Rei Pelé. Pediria que lhe desse o poder de assistir, em vida, o que estamos todos dizendo hoje, quando ele está morto.

Esse país tão vagabundo só sabe dizer “te amo” pra quem não pode mais dizer “eu também”.  É preciso morrer aqui pra ouvir o que se merece. E aí você não permite. 

O tempo de quem reverencia é um, o do reverenciado é outro. E nesse intervalo se desencontram o “obrigado” e o “não tem de que”. O “eu te amo” e o “eu também”. 

Porra, Tempo. Você é radical demais.

Eu sei que você vai me dizer que “era a hora dele”. E quem sou eu pra discutir com o Tempo, mas … precisava esconder dele, justo dele, o maior de todos, o quanto a gente queria dizer “obrigado” e não encontrava… tempo? 

Só que agora você foi longe demais, Tempo. Porque pela primeira vez você vai descobrir que nem tudo você cura ou apaga. 

Você vai passar, passar e passar. E não vai conseguir esquece-lo.  Não por nós, que somos uns infiéis que sequer conseguimos dar a quem nos deu tanto um pingo do reconhecimento que merece. Mas por ele. 

Esse cara que você levou hoje não te respeita. 

Foi sempre a frente do “seu tempo”. Nos deixou esperando o Natal para que desse tempo de termos uma ceia feliz. E agora, quando você acha que escolheu a hora, foi ele quem decidiu quando, onde e perto de quem. 

O que se fazia num tempo de 2 segundos ele fazia em meio segundo. O tempo pra se consagrar foi infinitamente menor pra ele. O tempo pra estar pronto, pra mudar nossas vidas e pra transformar pano amarelo em lenda você não conseguiu controlar. 

Mil gols numa vida não daria tempo. 

Acha que agora, com ele morto, vai conseguir estipular o tempo que vai levar pra esquecermos dele? Nem perca seu tempo, Tempo.

Há tempo ainda de mostrar isso pro Zagallo, pro Zico, pro Dinamite, pro Romário, pro Ronaldo, pra tanta gente que nos deu alegrias, memórias e engrandeceu nosso país. 

E não ouse se precipitar, Tempo. Nos dê um tempo pra sofrer, pra aceitar, aprender e mudar. 

Por hoje chega. Não deu tempo de entender ainda. E nem com todo tempo do mundo eu escreveria algo capaz de sequer me aproximar do que merece nossa majestade, o Rei Pelé. 

Vida eterna ao Rei! E eterno é ausência de tempo. Esse você não vai levar. 

Ouvi falar muito de você, Roberto

Parte da minha criação incomum se deve ao meu pai ter me dado a dimensão dos meus rivais sem ódio, mas com admiração. 

Era comum em viagens pelo Brasil irmos a um estádio local e meu pai me contar da história do clube em questão  ou do estádio citando seus craques e grandes jogos num tom muito respeitoso. 

Subornou o segurança pra que nos permitisse entrar na geral fechada e vazia. E lá me contou pior alguns minutos a história de Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo. 

Ouvi muitas vezes meu pai falar do Roberto. Assisti outras tantas, mas na época não era como hoje onde se escolhe o jogo e assiste. Era um jogo. Então tinha que cair na sorte de passar um jogo do Vasco com ele pra São Paulo. 

Sempre foi pra mim mais história do que memória. Mas ainda que acompanhasse menos do que gostaria, era um ídolo criado na minha cabeça. 

Quando me mudei pro Rio de Janeiro em 2013 uma das primeiras coisas que aconteceu foi encontrar o Roberto saindo de um restaurante. Eu fiquei parado olhando, ele não me conhecia, eu não tive coragem de falar com ele. Ele passou, eu liguei pro meu pai e disse “Eu vi o Roberto!”. E ele riu da minha cara por eu ter contado que não falei nada pra ele. Só olhei.

Aí um dia eu já era mais conhecido no futebol e o encontrei novamente na saída de um restaurante na Barra. Dessa vez eu falei “Oi Roberto. Prazer”, ele me estendeu a mão educadamente mas sem saber dizer quem eu era. Ele sabia já ter me visto mas não sabia de onde, claramente. 

E em 2022 ele foi ao Cara a Tapa me dar uma entrevista. Não aguentei. Liguei pro meu pai em vídeo e ele estava em reunião com uns 10 caras numa mesa. Foda-se! Interrompe ai que tem um cara que vai falar com você. 

Ele parou, olhou sem graça e o Roberto apareceu falando com ele. Rapidamente ele conseguiu explicar a interrupção na reunião quando mostrou o celular na mesa e todos ficaram olhando pra ele enquanto ele conversava com Dinamite.

Foi especial. Sei lá se pra ele, mas pra mim ter feito o Zico dar um abraço no meu pai e o Roberto um telefonema foi.  Afinal, ele me levou nos ombros pra encostar no Careca em 86. Que me custava proporcionar esses dois encontros pra ele? 

E ele se foi. Gente boa, simples, fácil.  Um ídolo como não se faz mais. Daqueles que vive entre nós, como se nada fosse, sendo tudo que é. 

Vá em paz, idolo.

RicaPerrone

6 anos de Rio

São 14 horas do dia 1 de agosto de 2018. Eu completo hoje 6 anos morando no Rio de Janeiro e sim, sou o autor do famoso texto viralizado com mil autores diferentes com o título “365 dias no Rio“.  Você leu. Eu sei que leu.

Estou dentro de um avião, poltrona 21A, ponte aérea SP-Rio, onde vim trabalhar e ver a família.  Por incrível que pareça, nessa rota tão comum entre a cidade que nasci e a que moro, eu não tenho dúvidas pra onde vou quando digo que “estou voltando pra casa”.

O avião balança. Aliás, balança pra caralho.  Está garoando, estamos voando entre nuvens prestes a “descobrir” o Rio enquanto aproximamos do pouso. E é daqui de cima, entre as duas cidades, que consigo entender essa relação.

Me preparo mentalmente para chegar e não sentir frio, embora pra eles esteja.  Sei que vou pegar um uber que vai discutir futebol comigo por 45 minutos até a barra como se fossemos amigos e não uma relação de prestação de serviço. Aliás, sei que ele ficará puto em ter que me levar pra barra.

Vou chegar e meu porteiro vai me dizer, com a formalidade carioca: “Ae Perrone! Chegou coisa pra tu. Pega lá na administração, já é?  Tem Mengão hoje hein!”.

Quando eu for pegar a encomenda eu sei que o zelador vai me abraçar e me chamar pelo apelido sem o menor pudor que separa nossas condições sociais, porque isso aqui é Rio de Janeiro e meu chinelo não diz porra nenhuma sobre mim.

Vou subir, vai estar tendo por do sol. Da varanda o verei enquanto respondo as dezenas de mensagens diárias que chegam no celular no fim do dia, todas elas sugerindo algo maneiro de se fazer. Choppinho pra ver  o jogo?  Jantarzinho com os amigos? Mas como assim você vai fazer algo sozinho?! Cariocas nunca estão sozinhos.

E em meia hora alguém chega, ou eu vou.  Tanto faz. Na mesa de 4 amigos se aproximará um amigo de um dos amigos, que em questão de horas será também, agora, meu amigo. E com ele virão outros conhecidos que estavam ali perto, e lá pelas 23h estaremos no bar no décimo chopp discutindo o jogo numa mesa com 20 pessoas onde agora formamos uma turma improvável de atores, professores, empresários, peladeiros, aposentados e até o garçom, que obviamente já é íntimo de todos.

Quando eu postar a foto com eles, mais 10 dirão por mensagem: “poxa, voce está com fulano! É meu amigo”. Porque essa porra é uma vila. Pra trair no Rio tu não tem que ser infiél. Tem que ser ninja.  E são…

Aí o jogo acaba, nós vamos pra casa, formamos um grupo novo no whatsap e amanhã cedo tem alguém marcando algo novo, que vai repetir todo esse ritual. E em alguns anos você se torna parte de um processo viral carioca que integra pessoas e forma as mais inacreditáveis parcerias todo santo dia, abençoadas por um garçom qualquer que se recusa a atender se não for chamado pelo nome e não puder dar palpite sobre o pênalti não marcado ontem a noite.

As pessoas que não gostam de você vão ter que gostar. Porque vão conviver muito próximas a você e os amigos em comum vão te obrigar a, pelo menos, tolera-lo.  O Rio te educa a ser uma pessoa melhor.

Quando você conta uma história triste as pessoas se entristecem com você. O carioca faz uma piada da sua história e te obriga a rir da sua própria desgraça. Afinal, é só a vida. Pra que levar essa bobagem a sério?

Amanhã em algum momento do meu dia eu sentirei medo porque vou passar por uma realidade que não é a minha e, pasmem, eles não vão me olhar como inimigos.

Amanhã tem faxina. A minha faxineira não vai me chamar de senhor, mas sim de Ricardo. E quando chegar, se eu estiver acordado, vamos discutir por 20 minutos o enredo da Santa Cruz pro carnaval 2019 antes dela começar a arrumar a casa.

Em algum momento ela dirá: “Pura merda, Ricardo! Tu não comprou a porra do limpa vidro ne?”.  E eu vou morrer de rir.

E aí vou ter uma reunião que me faz passar pelo Joá. E então eu  vou ser obrigado a andar no limite de velocidade feliz porque não quero acelerar ali. Quero ver.

Rodeado de pessoas de férias, trabalharei. E ao final do dia é provável que me junte a elas sem saber exatamente quem está ali a prazer ou a negócios.

O negócio do Rio é te dar prazer.

Pouso autorizado. E é óbvio que um carioca já disse aqui na poltrona ao lado: “ufa hein piloto! Achei que tu ia pousar sem avisar!”, e morreu de rir da piada boba.

Vou descer. É hora de pegar meu uber e voltar pra Barra, que eles nem consideram Rio, embora saibam que há mais de uma década é o melhor da cidade.

Sim, a última frase foi só pra deixar meus amigos putos e ter resenha mais tarde.

Agora sim. Portas em manual.

Outro dia um amigo me falou uma palavra que me fez entender quase tudo: “pertencimento”.

E eu pertenço a esse lugar, a essa gente e a esses hábitos.

Queria que o Rio fosse uma pessoa só pra poder dar um abraço nela e agradecer. Aliás… que sujeito do caralho seria o Rio de Janeiro.

abs,
RicaPerrone

Seja gostosa

Bunda durinha, coxa de quero-quero, barriga negativa, zero carbo, saúde perfeita e o instagram bombando. Parece que encontramos a tal receita da felicidade tão buscada há séculos, não?

Não.

Encontramos a receita de como parecer felizes. Ninguém é feliz sendo refém do corpo, do estética, do que vão falar da sua bunda. Não é possível que em 2017 a celulite seja mais prejudicial a uma mulher do que o seu caráter. E também não posso acreditar que realmente existam pessoas dispostas a malhar de segunda a sábado para não poder comer uma pizza no domingo.

Meu bem, tu não tá gostosa. Tá chata.

Gostosa é a mulher que sorri, toma cerveja se quiser, malha pra ficar legal e pra poder comer pizza na sexta.  Gostosas tem celulite. Gostosas tem pequenas imperfeições e ficam muito mais felizes com o nosso desejo ao vivo do que likes na internet.

Mulheres gostosas sorriem quando você leva um doce pra elas que elas “não podem comer”, e comem. As mais deliciosas mulheres do mundo acham que “estão enormes”.

Gostamos de vocês de biquini na praia fazendo pose de ladinho. Mas adoramos vocês de cabelo molhado, só de camiseta, sem nenhuma maquiagem ou pose saindo do banho.

Não, nós não temos a capacidade de ver estrias. É uma linha na pele que só vocês, mulheres, conseguem enxergar. Aliás, toda mulher que não tem nenhum defeito no corpo causa estranheza. Que diabos tu faz da vida pra ser tão perfeita?  Que horas você trabalha?

Gostamos de marquinha de biquini. Muito. Mas não deixe-as muito pequenas, porque nos tira o delicioso fator da descoberta.

Parem de achar que é “machismo” dizermos como gostamos de vocês.  É um pedido informal para que nos ouçam, tal qual as centenas de brincadeiras que ouvimos sobre a cerveja, a barriga, as datas, etc. No fundo, sabemos, é um “toque”.

Me conte o que você fez hoje, quem você conheceu, o que você descobriu. Não exatamente o que comeu, quanto correu e quanto mediu.

Eu não ligo pro seu percentual de gordura. Ficaria feliz se existisse um medidor semelhante para “conteúdo”, “leveza”, “bom humor”.

Muitos de nós, homens, também já estão nessa de viver em função da aparência sob o argumento da saúde.  Saúde é uma coisa, buscar a perfeição para cliques é outra. Nunca um prato de arroz, feijão e bife matará alguém. As pessoas mais felizes que conheço esperam a sobremesa com a mesma ansiedade que você espera seu endocrinologista.

O que nos mantém saudáveis é a felicidade, não os gominhos na barriga.

Ser igual a todo mundo não é sinal de personalidade, auto estima ou saúde. Ninguém tem muito apreço por um biscoito num pacote com 20 iguais a ele. Mas por uma boa fatia de torta de chocolate… quem sabe?

Tá chato. Exagerado. Não tira foto não, meu bem! Segura minha mão.  Assiste o filme comigo, come pipoca, suja essa mão e dá risada.  Pede sobremesa. Ri alto. Bebe um pouquinho comigo.  Ganha 1 kilo no fim de semana, você terá 5 dias pra perde-lo.

Não fale em dieta no jantar.  Não me culpe por te desejar assim, “tão gorda”.  Manda nudes, não seu cardápio da dieta. Não faz textão.

Pô, mozão… confia em mim. A gente não liga tanto assim.

abs,
RicaPerrone

Um domingo qualquer

petkovic2

– Está completando 14 anos do “Gol do Pet” e por isso estou “ressuscitando” este post antigo de muito sucesso.  Confiram:


 

Era um dia frio, sem chuva.  Seria um dia chato, não fosse o Maracanã lotado e a expectativa de um título. Ele não era fanático, sequer tinha visto o estádio lotado na vida, até então.  Tinha 13 anos e torcia, timidamente, para o Palmeiras, apesar de morar no RJ.

Naquele domingo seu pai o levou na final.  De bandeira, camisa e ingresso na mão, chegou assustado com a multidão. Entrou faltando 15 minutos pra começar e, quando olhou em volta, disse: “Pai, quantas pessoas tem aqui?!?”.

– Muitas, filho… uma nação inteira, disse o pai.

Aquela multidão explodiu em faixas, bandeiras e papel picado minutos depois.  O garotinho se encolheu com medo e sentou.  Com 1 minuto de jogo a torcida levantou e não deixou que o guri visse mais nada. Ele ouvia, sentia, mas não assistia.

Seu pai, rubro-negro fanático, não tinha muita esperança de que seu pivete palmeirense um dia se envolvesse com futebol. Jamais mostrou grande interesse, e só torcia porque tinha um amigo que era palmeiras.

O Flamengo saiu ganhando, mas não bastava. Tinha que ser com 2 gols de diferença, ou nada. Seu pai explicou que “faltava um”, e o garotinho não entendeu. Afinal… vitória não é vitória de qualquer jeito?

Sofreu um gol, e ele não tirou sarro do pai como sempre fazia. Ficou triste, como que contagiado pela multidão. O outro lado, 40% do estádio apenas, fazia barulho, e ele ouvia o silencio da nação a sua volta. Segundo ele, o silencio mais dolorido que já escutou na vida.

O Flamengo fez o segundo, e o garotinho, se envolvendo com o jogo, vibrou. Pulou no colo do seu pai e o abraçou como se fosse um legítimo urubuzinho.

Não era, ainda.

A torcida começou a cantar o hino, que ele sabia de cor de tanto ouvir o pai cantar.  Pela primeira vez, cantou num estádio, e fez parte da nação. A angustia de milhares não passou em branco. Em mais alguns minutos o garotinho suava e já rezava de mãos grudadas ao peito.

O Flamengo virou, mas não bastava.

40 minutos do segundo tempo. Mesmo com 2×1 no Placar, a nação ouvia gozações do outro lado. Ele não entendia, e fez o pai explicar, mesmo num momento dramático do jogo.

Atencioso, o pai sentou e contou pro garoto que o Flamengo precisava ter 2 gols de vantagem, porque a vitória por um gol empataria a soma de 2 jogos, e o empate era do rival. Ele não entendeu bem, mas simplificou em sua cabeça: “Mais um e ganharemos”.

Opa… “ganharemos”?  Ele não era palmeirense?

E então, aos 43 minutos, onde alguns já se mexiam na direção da saída, uma falta do meio da rua.  Seu pai vibrou e ele questionou: “O que foi? Foi pênalti!? “

– Quase isso, filho!! Dali pro Pet é pênalti!!, profetizou o pai, ignorando a distancia da falta.

A cobrança… o silencio eterno de 1 segundo e a explosão.  Gol do  Flamengo! Petkovic! E seu pai o abraça como nunca abraçou em toda sua vida. Pula, joga o garoto pra cima, beija, chora…

O garotinho, numa mistura de susto com euforia, olha em volta e, de braços abertos, comemora em silencio um gol que não era dele.  Sem razão, ele chora. E chorando, abraça o pai que, preocupado, rompe a alegria e pergunta: O que foi? O que foi? Se machucou?

– Não…  Eu to feliz, pai!

Sem mais palavras, o pai sentou e abraçado ao garotinho deu um abraço de tricampeão. O jogo acabou, e os dois continuaram abraçados.

A festa rolando, os dois assistindo a tudo aquilo emocionados, o garotinho absolutamente embasbacado com a cena, já que nunca havia visitado um estádio lotado, muito menos uma decisão. O pai olhava pro campo e pro filho, porque sabia que, talvez, aquele fosse seu único momento na vida onde teria a imagem de seu garoto comemorando um titulo do time dele.

E chorava, sem vergonha nenhuma de quem estivesse em volta.

O menino foi embora pensativo, eufórico. Em casa, contou pra mãe com uma empolgação incomum sobre tudo que viveu naquela tarde. E não falava do jogo, apenas da torcida.  Iludido por uma frase, contou pra mãe:

– Aí, no finalzinho, teve um pênalti! E o Flamengo fez o gol…
– Não filho… não foi pênalti! Foi de falta.
– Mas você disse que foi pênalti…
– Era modo de falar…. hahahahahah
– Então, mãe…  aí, o cara fez o gol e a gente foi campeão!!!

Pronto. Aquele “a gente” fez o pai parar de colocar cerveja no copo, virar a cabeça lentamente e perguntar, com medo da resposta:

– A gente, filho?

(silencio…)

– É pai! O Mengão!!!!!

Emocionado, o pai abraçou o garoto e não falou nada. Ali, seu maior sonho virava realidade. A mãe entendeu, deixou os dois na cozinha e saiu de fininho, enquanto o pai começava a contar de uma outra final que viveu em mil novecentos e bolinha, com toda a atenção do novo rubro-negro.

Hoje o garoto  tem 21, completados há alguns dias.

Quando seu pai perguntou o que ele queria de presente este ano, a resposta foi essa:

– Dois ingressos, uma bandeira, a camisa nova e ver você chorando igual aquele dia.

E há quem diga que “futebol é bobagem”…

Abs,
RicaPerrone

Gordos

Meus caros amigos gordos, querem nos destruir. E conosco vai a economia mundial, o equilíbrio das moedas, o controle de natalidade e a paz mundial.

Não vou reclamar de preconceito ou das poltronas que não cabemos. Pelo contrário, gordo é “diferente”.

E quando se fala em “diferente”, hoje em dia, logo se pensa em preconceito, discriminação, minorias, chororô, protesto, ong e algum político usando o tema pra se eleger. Nada disso! Gordos não são atingidos pela pena alheia.

Somos espíritos de luz, superiores desde seu nascimento, com a missão de ocupar espaço, melhorar a auto-estima dos feios e divertir pessoas.

Todo mundo tem um amigo gordo. E porque? Porque nada é mais confiável que um gordo.

Gordo não vai comer sua mulher, não vai te levar em restaurante ruim, não vai te fazer andar mais do que o necessário e muito menos te fazer parecer feio. Ao lado de um gordo, todo feio magro se acha primeira opção.

Gordos tem uma habilidade incrível pra resolver problemas. Porque são super dotados? Não. Porque somos treinados! Quando pequenos, quando a turma toda corre numa direção, o gordo procura um atalho.

Enquanto todos os meninos usam o cabelo, o corpo e a roupa pra seduzir garotas, o gordo tem que ser engraçado, inteligente e boa pessoa. É um pré requisito de competição que o coloca na sociedade. Logo, gordos são seres humanos melhores.

Tente alegrar uma pessoa magra em depressão. Nada pode tirar um sorriso honesto num momento de tristeza. Mas gordo, quando vê um pastel, mesmo no velório do um parente, tem 1 segundo de paz interior.

Se 734 pessoas magras e 1 gordo correrem numa pista molhada na mesma direção, você sabe qual vai levar um puta tombo. E isso não é física, nem mesmo problema de peso. É vocação.

Gordos acumulam menos coisas em casa. Quando você tem 100 reais em notas de 50 e precisa de troco, pára na banca e compra uma revista ou um jornal. Ela vai ficar na sua casa anos trocando de lugar até que você note que sequer a leu. O gordo não. Ele compra um chocolatinho e come. Volta pra casa só com o troco.

Gordos em academias motivam. Você pensa, mas não fala: “eu não quero ficar assim” e aumenta um número na esteira.

Gordos são prestativos.

Liga a tv é gordo que ficou magro. Abre a revista, é gordo que virou modelo. Vai ver se tem anoréxica que virou gorda como exemplo de superação? Nunca salvamos ninguém, somos sempre as vítimas.

Há preconceito com gordos! Alguns são tireóide. Uma doença!!! Ainda assim, sacaneados e menosprezados desde sempre, nunca fundamos uma ong ou lutamos por direitos nos fazendo de vítimas da sociedade. Somos o mais forte psicológico entre os seres humanos, pois não nos importamos com o que falam a nosso respeito.

gordoNão temos ódio no coração. Aliás, temos sim. Não suportamos aquele amigo ex-gordo que “agora corre”. Pelancudo filho da puta! Se toca! Você era gordo, agora você tem cara de doente! Só que as pessoas acham que você nos inspira, quando na verdade você nos envergonha.

Gordo tem que ter convicção. Gordo que é gordo não olha cardápio em lanchonete. Quem é o filho da puta que pede uma cesar salad num menu que tem chesseburguer? Aliás, que cena incrível que é o gordo se seu chesseburguer. Há poesia nesse momento.

Gordos não enchem seu facebook com fotos. Ninguém gordo fica registrando estar gordo.

Gordos, portanto, não fazem selfie. Elas nos deixam com 2 queixos, o que é um tanto quanto desagradável.

Mas sabe o que é irritante sendo gordo? O suor. Primeiro porque ele é mais comum a nós do que a pessoas magras. Segundo porque se suamos mais, deveríamos emagrecer mais. E não. Continuamos gordos.

Mas principalmente porque as propagandas de tv e filmes tem preconceito com nosso suor. Note. Suor de magro dá tesão na mulherada. Gordo molhado dá nojinho. Que porra é essa? O suor do magro agora é mais limpinho?

Ah, mundo cão. O que seria deste planeta sem os gordos? Imagine Jô Soares magro. Faustão, por exemplo, jamais seria Faustão. No máximo “Fausto”. E nenhum “Fausto” faz sucesso, convenhamos.

Eu tô aqui pra te fazer feliz, meu caro. Se você se sentir velho, corre comigo. Você ganha! Se sentir que está ficando doente, pensa em mim. Se eu, gordo, não morri, você ainda vai longe.

Tem idéia do inferno que é pra nós, gordos, assistir aqueles Globo Reporter que dizem que um biscoito a mais por semana dá câncer? Mas aqui estamos, firmes, fortes, ou melhor, gordos.

Tem dia de negros, de índio, de professor, de tudo! Menos de gordo.

Tem briga de zé ong pra evitar gritos homofônicos, racistas, preconceito com pobre, menos com gordo. Os gordos, fodam-se.

Mas nós não vamos reclamar. Nunca! Você jamais verá um gordo se sentindo mal por isso. Pois como disse, somos seres especiais.

Tanto que as vezes nem cabemos num corpo humano. Querem nos emagrecer. Querem acabar com a nossa classe em troca de um corpo sarado e padrão.

Ele não ficou magro. Ficou viado.

Ele não ficou magro. Ficou estranho.

A economia mundial vai afundar junto! Pizzarias, churrascarias, a indústria do Floratil, do Luftal, os cardiologistas, nutricionistas e as milhares de revistas de “como emagrecer”.

O que será dos 32% da população mundial que vende herbalife? Aliás, o que será do Globo Reporter se um dia ele não precisar avisar ninguém sobre o perigo de estar gordo?

O que será das mulheres quando se encontram? Nós homens perguntamos do time, do jogo de ontem, no máximo de uma amiga que alguém comeu. Não o gordo, claro.

As mulheres logo olham pro corpo e se cumprimentam dizendo: “emagreceu! Ta ótima!”. Mentira! Tão tudo igual quase sempre.

Quem é que vai ser o papai noel no natal?

Nos deixem em paz. Nós não queremos controlar o mundo, nem mesmo impor um padrão estético pra todos os demais. Queremos apenas uma picanha com polenta e arroz.

Ah! Quase me esqueci! André Marques, nós odiamos você!

abs,
RicaPerrone

O travesti dos doces

pudim-de-pao-061 (1)Me pergunto, sempre que me deparo com uma delas, quem foi a pessoa que criou algo totalmente sem sentido.

Passo horas avaliando a mente do Padre Baloeiro, por exemplo, tentando encontrar motivos para tal idiotice.

Sou assim, meio curioso. E nessa de tentar entender o motivo de tudo, acabei descobrindo algumas coisas sem resposta. Entre elas, o “pudim de pão”.

Tire um minuto do seu dia para pensar: Quem é que gosta de pudim de pão?

Não, eu não perguntei quem “até come”. Eu perguntei quem gosta. E gostar, pra mim, é quando você já acordou num domingo pensando: “Hummmm, vontade de pudim de pão!”.

Isso nunca aconteceu.

Foi uma véia desocupada que o criou, não tenho dúvidas. Ninguém ocupado faria tal bobagem. Mas o que incomoda não é o fato dele existir, mas sim o fato dele ser mau caráter.

Eu respeito o pepino. Ele parece pepino, todo mundo sabe que é uma bosta e só vai quem quer. Mas o pudim de pão é filho da puta, ele é o travesti dos doces.

Parece pudim de leite. Você almoça pensando nele, e quando corta vê que tinha um “piruzinho” naquela gostosa.

Ele se camufla de doce. Mas não é. É apenas uma forma cafajeste de não jogar fora restos de pão que nem pombo ia querer comer.

Sabe como é feito essa merda? Com tudo que é usado pra um pudim de leite condensado, mas aí você troca o leite condensado por pão velho e duro.

Quem foi a detestável vovó que resolveu fazer pudim sem leite condensado e sim com pão velho pro seu neto?

Prendam essa senhora! Ela pode ser uma serial killer de receitas e ter também no currículo o bolo de laranja.

Ninguém quer bolo de laranja. Ou é bolo, ou é fruta. Não fode, velha!

Por um mundo melhor, menos mentiroso e por infâncias menos traumáticas. O fim do pudim de pão!

abs,
RicaPerrone

365 dias no Rio

Versão em inglês.


 

Faz 1 ano. Desembarquei com esposa, cachorro e umas malas. A mudança veio no dia seguinte.  Levei 33 anos imaginando “como seria”, e agora tenho 1 pra contar “como foi”.

O Rio de Janeiro é a minha Paris. Eu não sonho com a tal de torre, nem me importo com o Louvre e nem acho do cacete tomar café naquela tal de Champs-Élysées. Eu acho charmoso ir a praia de Copacabana, tomar cerveja de chinelo no leblon e ir a um samba numa grande escola.

Sou paulista, nunca tive rivalidade bairrista em casa. Nunca me ensinaram a odiar o estado vizinho, ao contrário, sempre me foi dada a idéia de que estando no Brasil, estou em casa.

Ouvi mil mentiras e outras mil verdades sobre o Rio enquanto morei em São Paulo. Todas justas no final das contas.

Carioca exagera tudo, pra baixo e pra cima. Se elogiar a praia, ele exalta dizendo que é “a melhor praia do mundo”. Se falar que é perigoso, ele não nega. Diz que é “perigoso pra caralho”.

Trata sua cidade como filho. Só ele pode falar mal.

Cariocas não marcam encontro. Simplesmente se encontram.

A confirmação de um convite aqui não quer dizer nada. Você sugere “Vamos?”, eles dizem “Vamo!”. O que não implica em ter aceitado a sugestão.

Hora marcada no Rio é “por volta de”. Domingo é domingo. E relaxa, irmão. Pra que a pressa?

Em 5 minutos são amigos de infância, no segundo encontro te abraçam e já te colocam apelidos.

Não te levam pra casa. Te convidam pra rua. É curioso. Mas é que a “rua” aqui é tão linda que se trancar em casa é desperdício.

Cariocas andam de chinelo e não se julgam por isso.  São livres, desprovidos de qualquer senso de sofisticação.

Ao contrário, parecem se sentir mal num ambiente formal e de algum requinte.

“Porra” é um termo que abre toda e qualquer frase na cidade. Ainda vou a uma Igreja conferir, mas desconfio que até missa comece com “Porra, Pai nosso que estais…”.

Cariocas são pouco competitivos. Eu acho isso maravilhoso, afinal, venho da terra mais competitiva do país. E confesso: competir o tempo todo cansa.

Acho graça quando eles defendem o clube rival pelo mero orgulho de dizer que “o futebol do Rio” vai bem. Eles nem notam, mas as vezes se protegem.

Eles amam essa porra. É impressionante.

Carioca é o povo mais brasileiro que há, mas que é tão orgulhoso do que é que nem parece brasileiro.

Tem um sorriso gostoso, um ar arrogante de quem “se garante”.

Papudos, malandros, invocados. Faaaaalam pra cacete. E sabem que estão exagerando.

Eles acham que sabem  o que é frio. Imagine, fazem fondue com 20 graus!

A Barra é longe. Buzios, logo ali!

Niterói é um pedaço do Rio que eles não contam pra turista. Só eles aproveitam.

Nilópolis é longe. Bangu também.

Madureira é um bairro gostoso. O Leblon, vale os 22 mil por metro quadrado sugeridos pelos corretores.

Aliás, corretores no Rio são bem irritantes.

Carioca, num geral, acha que está te fazendo um favor mesmo se estiver trabalhando. É tudo absolutamente pessoal, informal.

Se ele gostar de você, te atende bem. Se não, não.

Tá com pressa? Vai se irritar. Eles não tem pressa pra nada.

Sabe aquela garota gostosa que sabe que é gostosa? Cariocas sabem onde moram.

O bairrismo deles é único.  Nem separatista, nem coitadinho. Apenas orgulhoso.  Ao invés de odiar um estado vizinho, o sacaneiam e se matam de rir de quem se ofende.

Cariocas tem vocação pra ser feliz.

São tradicionais, não gostam que o mundo evolua. Um novo prédio no lugar daquele casarão antigo não é visto como progresso, mas sim com saudades.

São folgados. Juram ser o povo mais sortudo do mundo.

E quem vai dizer que não?

No Rio você vira até mais religioso.  Aquele Cristo te olha  todo santo dia, de braços abertos. Não dá! Você começa a gostar do cara…

E aí vem a sexta-feira e o dom de mudar o ambiente sem mexer em nada.  O Rio que trabalha vira uma cidade de férias. As roupas somem, aparecem os sorrisos a toa, o sol, o futebol, o samba, o Rio.

Já ouvi um cara me dizer um dia que o “Rio é uma mentira bem contada pela mídia”.  Ele era paulista, odiava o Rio, jamais tinha vindo até aqui.

E é um cara esperto. Se você não gosta do Rio de Janeiro, fique longe dele.

É a única maneira de manter sua opinião.

Em quase toda grande cidade que vou noto uma força extrema para fazer o turista se sentir em casa. Um italiano em São Paulo está na Itália dependendo de onde for. Um japones, idem. Um argentino vai a restaurantes e ambientes argentinos em qualquer grande cidade.

No Rio de Janeiro ninguém te dá o que você já tem.  Aqui, ou você vira “carioca”, ou vai perder muito tempo procurando um pedaço da sua terra por aqui.

Não é verdade que são preconceituosos. É preciso entender que o carioca não se diz carioca por nascer aqui. Carioca é um perfil.

Renato, o gaúcho, é um dos caras mais cariocas do mundo.

Tem todo um ritual, um jeitinho de se aproximar.

Chame o garçom pelo nome, os colegas de “irmão”. Sorria, abrace quando encontrar. Aceite o convite, mesmo que você não vá.

Faça planos para amanhã, esqueça-os 10 minutos depois. Faça amigos, o máximo de amigos que conseguir.

Quanto mais amigos, mais cerveja, mais risadas, mais churrascos, mais carioca você fica.

E quanto mais carioca você é, mais você ama o Rio. Como eles.

Gosto deles. Gosto de olhar pra frente e não ver onde acaba.  Gosto de sol, de abraço, de rir muito alto e de não me achar um merda por estar sem grana.

Gosto de como eles se viram. Gosto da simplicidade e da informalidade que os aproxima do amadorismo.

A vida não tem que ser profissional.

Tem que ser gostosa.

E de gostosa, convenhamos, o Rio tá cheio.

Ops! Desculpa, amor! Escapou.

abs, merrrrmão!
RicaPerrone

(O Shopping não me pagou nada. Nem sei onde fica. A propaganda é que diz muito do que quero dizer e não sei como)