São Paulo

A cura

Talvez falte algo no ataque, na defesa, numa lateral. Talvez seja má administração, talvez azar. Eu não sei diagnosticar um São Paulo que não funciona há tempo tempo e de tantas maneiras. Mas sei de algo que o clube precisava, buscava e só um treinador poderia lhe dar: paixão.

Cuca não é responsável por qualquer nó tático neste domingo. Mas chamar de coincidência a presença dele em algo emocionante e memorável é um pouco de covardia.

Este sujeito tem o DNA do futebol pulsando nele. Perde, ganha, mas por onde passa deixa uma história e momentos inesquecíveis. Vocação pra eternidade. Pacto com a bola.

Quando o jogo foi pros pênaltis o futebol em si não sabia bem o que fazer. Dar a Felipão, o rei do mata-mata, ou a Cuca, que está voltando de um problema de saúde?

Escolheram bem. O Palmeiras, diferente do São Paulo, quer o título mas não “precisa”.  O São Paulo “precisa”. O Cuca “precisava” voltar. A cura do treinador virá em doses cavalares do que melhor sabe fazer: história.

A do São Paulo, talvez, pela paixão de quem não está ali a passeio ou por mera obrigação. Cuca ama futebol como poucos.  Não é por acaso que as grandes histórias recentes o procuram.

Seja bem vindo. E que seja a cura. Sua e nossa.

RicaPerrone

#TBT: Djair

O uniforme no futebol é uma obrigatoriedade que atrapalhou alguns jogadores. Digo isso porque se pudesse estar de acordo com o jogador e não o clube o traje de Djair seria um smoking.

Calmo, lento, elegante. Irritante até.

Djair passou por 8 dos 12 grandes, e embora tenha sido um jogador de altíssima técnica nunca vingou em seleção, europa ou mesmo conquistou títulos grandiosos.

Toda vez que alguém queria um “volante” que soubesse jogar havia um nome na cabeça: “Djair”. A dúvida vinha junto. “Será que ele vai render?”.

Jogador raro.  Hoje nem sei dizer se jogaria ou se seria um fenômeno.

Djair foi um volante moderno com características de meia antigo. Fosse hoje ele não seria nem um volante, nem um meia. Não há mais Djair no futebol.

Aquele trote cansado ainda no primeiro tempo irritava o torcedor minutos antes do lançamento genial de quem jogava sem olhar pro chão.

Andarilho, saiu sem um clube de identificação forte, mas com vários de boas memórias.

Quem se parece com Djair hoje? Ninguém. Tem que ser muito bom de bola pra jogar “feito o Djair” hoje em dia.

RicaPerrone

Cenários

O Paulistão chegou às semifinais com um cenário encantador. Embora o campeonato em si seja ruim como todo estadual, a reta de chegada criou dois jogos muito interessantes.

Se o Corinthians vinha mal e se classificou nos o pênaltis contra a Ferroviária em casa, o Santos fez com campeonato e tem o badalado Sampaoli. Esse jogo coloca, portanto, o Santos como o grande favorito.

Só que existe uma linha tênue entre ser favorito e ser obrigado a vencer. Essa linha torna as semifinais interessantíssimas.

O cenário do outro lado é parecido. Até sábado passado o São Paulo não tinha a menor chance. Agora enfrenta o Palmeiras, que pela teoria, tem todas as chances por ter disparado o melhor elenco do país.

Na medida em que o São Paulo e o Corinthians vão chegando pra semifinal mais enfraquecidos, maior se torna o “problema” para Santos e Palmeiras.

O futebol é covarde. Se São Paulo ou Corinthians passarem cobrarão Palmeiras e Santos pelos times e campanhas. Se for o contrário, pouco farão por considerarem “lógico”.

Há um “confortável” cenário para São Paulo e Corinthians neste momento em virtude de sua própria incompetencia.

RicaPerrone

Ajuda. Não resolve

Pato é muito bom jogador. Tecnicamente, um craque. Mas isso não basta e se bastasse ele não estaria longe da seleção desde os 24 anos.

Jogador que o futebol ajudou a estragar lhe dando precocemente tudo e mais um pouco. Retirou toda a fome antes do rodízio e portanto gerou uma frustração no estrago que ele “faria”.

Não fez.

O que não significa que não tenha sido até aqui um bom jogador. Mas o Pato que nós esperamos e o Pato que nós vimos são dois jogadores muito distantes. Talvez porque ele estreou estrela. Talvez porque fosse tudo aquilo, ou meramente – e é a minha aposta – porque tudo lhe foi dado antes dos gols.

Volta ao SPFC onde jogou bem em 2015. Mas ainda que seja uma solução na frente, não pode carregar nos ombros a responsabilidade de colocar um clube nos eixos.

Talvez o ataque. No máximo.  E já estaria bom.

Milhões de euros, aos 30 anos, vindo da China. Não sei.

Pato é aquele cara que estando no seu elenco você sempre vai considerar a hipótese dele estar afim de jogar bola e se tornar o melhor atacante do Brasil.

Estando no rival você o considera um modelo que não está nem aí pra futebol.

Eu considero as chances dele voar. E as dele dormir.  Mas também as chances razoáveis dele ser mais um num grupo que não consegue sair do lugar há anos, onde entra jogador, sai jogador e nada muda.

Talvez porque Pato seja uma solução pontual ao ataque de um clube que está a deriva. Mas é melhor estar a deriva com o Pato do que com o Trellez. Isso é.

RicaPerrone

#TBT: Carlos Miguel

Nem genial, nem comum. Chamar de “útil” seria menosprezo. De craque um exagero. Carlos Miguel é uma daquelas peças de pouco marketing e que se faz fundamental para que um time com “estrelas” funcione.

Foi o meia esquerda do Grêmio ao lado de Arílson na conquista de…. tudo! Dos 20 aos 26 anos foi o apoio tático/técnico fundamental a quem estivesse a sua volta.

Carlos Miguel nunca jogou pra tv. Nunca tentou ser o mais importante do time, e de tanto não tentar, por vezes acabou sendo.

Chegou na seleção. Fez apenas 5 jogos. Foi um “Danilo” de anos atrás. Merecia mais. Mas naquela época o meio campo da seleção não era um lugar vago.

No São Paulo formou um time campeão paulista que tinha tudo para voar no Brasileiro. O ataque era Carlos Miguel, Fabiano, Rai, Dodo e França.  A chance disso não funcionar era mínima. Ou uma contusão.

No mesmo dia ele e Raí sairam machucados contra o Cruzeiro no Morumbi. Era dia das mães, nunca me esqueço. Um time com sintomas de eterno se desfazia antes de ser devidamente testado.

Passou pelo Inter, sem sucesso. E tudo bem. Porque voltou ao Grêmio. “Perdoado”.  Adorado. Reconhecido. Eternizado em taças e jogos memoráveis.

Sem o devido valor nacional porque não fazia pelo show, mas pelo time. O que hoje chamam de futebol moderno e coletivo, Carlos Miguel jogava há 25 anos.

Precipitado. Tivesse nascido um pouco mais tarde hoje seria “craque”.

RicaPerrone

#TBT: Vágner

Para tricolores, vascaínos e torcedores do Celta não precisa apresentar. Para a nova geração talvez seja mais fácil dizer que houve um “Pogba” sem grife há 20 anos e que por falta de sorte, juizo ou algo que não sabemos, nunca se tornou o “oito” da seleção.

Nosso futebol é cheio desses caras. Era muito craque pra pouca camisa amarela. Vágner foi um cometa que passa, some e te faz questionar do porque foi tão rápido.

Do Santos a Roma, da Roma ao Vasco e daquela lateral direita campeã da Libertadores ao São Paulo que quase ganhou a Copa do Brasil.

Virou volante. E que puta volante.

Técnico, com chegada, passe e visão de jogo. Não era um tocador de lado embora pudesse em sua função na época. Na semifinal contra o Atlético no Morumbi me lembro que com 3×0 no placar a torcida do São Paulo gritava “Fica Vágner” com uma força surreal para um não ídolo.

Era premonição. Sem ele não daria. E não deu.

Foi pro Celta, se firmou lá. Voltou pro Galo, não jogou praticamente e encerrou cedo.

Vágner é meu #TBT de hoje.  E o #TBT é um alvará pra saudosismo.

Se era um jogador de seleção?

Depende. Qual?

A de hoje? Amarrado.

RicaPerrone

 

O cansado Diego Souza

Diego Souza não é um craque, nem um jogador comum.  Aos 26 anos deveria decidir campeonatos e jogos grandes, não era o caso. Aos 30, talvez, ser uma referência na sua posição eternamente indeterminada.

Isso já responde.

Diego é cansado. Joga porque parece ter que jogar.  E joga mais que a maioria.

Fosse um obcecado por resultados estaria em outro patamar. Se tivesse talvez não fosse no Brasil.

Uma aposta durante toda a vida. Jamais alguém contratou Diego Souza sabendo o que estava fazendo. Sempre foi uma aposta.

Justificada, porque dá certo e errado na mesma intensidade de apostas.

Pro São Paulo podia ter servido. Até fez seus gols, mas entra e sai de campo como de clubes: sem conseguir criar laços.

Um jogador de alto nível que parece esperar pelo fim da carreira desde os 23 anos.

Pro Sport é atração.  Pro Vasco seria uma recordação.

Pro São Paulo um gasto.

E pro Botafogo?

RicaPerrone

Não havia escolha melhor

De todos os erros que o SPFC comete em sequência há algum tempo, o treinador neste momento de eliminação tinha tudo pra ser mais um. E não foi.

O melhor que este SPFC pode fazer por si mesmo é enfiar uma dose cavalar de paixão, adrenalina e alma nesse time. O Cuca carrega isso na veia. É disparado o treinador que mais “vive” o seu trabalho e que constrói, não por acaso, páginas incríveis pro clube onde trabalha.

Esse SPFC tem sono. Cuca tem insônia.

Não será agora, ok. Agora é estadual, e estadual pra mim é amistoso. Tanto faz.

Se falta alma, terá. Comando, idem. E se faltava um treinador que o grupo tem que respeitar, chegou.

Um “louco” do bem.  Alguém inconformado com derrotas. O anti-SPFC de ontem a noite.

Bela escolha! Seja bem vindo, Cuca. O homem que montou o time do tricampeonato da Libertadores.

RicaPerrone

Quando a eliminação é o menor dos problemas

O Morumbi tinha muita gente e um vazio insuportável.  O São Paulos segue sumido e novamente não deu as caras. A vontade não foi, o algo mais se perdeu no caminho e o futebol sequer foi convidado.

Uma noite onde a eliminação para o Talleres foi o menor dos problemas.

Um time sem nada. Uma torcida esperando qualquer coisa. Um desejo nada escondido de ver o sobrenatural resolver a questão, pois o óbvio estava gritando aos 15 do primeiro tempo já.

Um bando na frente, outro atrás. Bolas pro alto e seja o que deus quiser. Uma várzea. Eu diria tranquilamente que aquilo era o primeiro treino de um time de juniores que acabou de se conhecer. Não há uma jogada, uma tendência de jogo. É bola pro alto e foda-se os 90 minutos.

O emocional não existe. O treinador não tem idéia do que fazer e se presta ao absurdo de colocar um garoto aos 42 do segundo tempo.

A torcida pede Muricy, mas esse time precisa é de um Cuca.

Não adianta meter mais um especialista em super-defesas com bola alta. Tem que mexer é com o brio, transformar jogos em histórias, jogadores em lendas. Ninguém faz isso melhor que o Cuca, convenhamos. Ele leva um auxiliar, um preparador e a alma.

Hoje o Morumbi viu um São Paulo muito pior do que eliminado. Um São Paulo morto, rastejando, se humilhando chutando bola pro alto contra o décimo colocado do campeonato Argentino.

Vexame? Não… raramente vejo vexames no futebol. Zebra, sem dúvida. Vexame seria perder hoje em casa também, ser goleado, algo assim.

Mas se não há vexame na derrota em si, há um muito grande no que se apresenta em 90 minutos.

O São Paulo hoje foi mais do que eliminado. O São Paulo hoje foi inaceitável!

RicaPerrone

Devolva-me

Era dezembro de 2008 quando o São Paulo conseguiu um improvável tricampeonato brasileiro contra o Goiás em Brasília.  Naquele dia o clube engoliu todos os seus sapos afim de comemorar e tripudiar nos demais. A sujeira foi pra baixo do tapete, nunca mais saiu, e desde então o “soberano” foi a “soberbo”, até virar este barco a deriva que hoje briga pra não afundar.

Eu, você, o Juvenal, o Leco, tanto faz. Não houve saopaulino disposto a rejeitar a idéia estúpida de que no futebol brasileiro quem está por cima lá ficará.  Tem que ser mais do que bairrista, talvez ignorante mesmo.  A história nos diz que entre os grandes há sempre uma alternância de poder. E que acreditar que ela acabou justo na sua vez é empáfia, soberba e falta de noção.

Algo que nem o mais tricolor dos tricolores negaria é a falta de noção do clube/torcida naquele final de década.  Após mundial, Libertadores e 3 brasileiros, lá dentro ninguém acreditava que era possível regredir.

Esquecemos rapidamente das vacas magras assim que ganhamos o primeiro bom prato de filé. Dos humilhantes 7×2 pra Lusa e pro Vasco, dos anos e anos sem títulos, do Morumbi em reforma e o time em campo que beirava um catadão de série B. Mas aconteceu. Tal como esquecemos que o time campeão do mundo chegou a Libertadores jogando pra 300 pessoas diversas vezes no Morumbi.

O futebol nos causa amnésia.  E com ela vem uma chuva de problemas como esquecer quem você foi, quem você queria ser e o que te trouxe aqui. Viramos “o clube da raça”, usando uma camisa vermelha escrota que manchava o símbolo.

Raça? Vai pra puta que pariu. O São Paulo nunca rasgou cara na grama pra ser campeão. Sempre conquistou seus títulos jogando futebol bem demais e não apenas suando mais que os outros.  Não somos o inacreditável, embora todo clube assim se veja quando convém. Somos os merecedores, os conquistadores. Não achamos títulos, os construímos.

Éramos referência, clube de elite. Viramos o time da organizada violenta, que ainda por cima manda e-mail pra sócio torcedor.  Fomos pioneiros com organizadas, hoje “mato um, mato cem”.

O São Paulo não afundou de dentro pra fora. Afundou junto. Torcida, clube, diretoria, raízes, valores e identidade.

Talvez seja a hora de olhar pro espelho e aí sim apontar o dedo. O São Paulo errou quando perdeu a noção de quem era, não quando vendeu fulano, elegeu ciclano ou emprestou beltrano.

Eu, você, Leco, todos nós. O São Paulo joga limpo, bonito, não pisoteia em rivais, não rejeita o que assinou, tem honra em sua gestão e não ostenta ídolos que nos faltam quando precisa.

O São Paulo é grande e não grita pra isso. Somos um passe do Gérson, uma matada do Raí e um chute do Careca num Morumbi lotado de bandeiras tricolores, camisas brancas e pó de arroz.

O São Paulo vermelho que tem num carrinho de um volante, uma breve passagem do Kaká e uma expulsão do “ídolo” Luis Fabiano sua identidade não pode ostentar qualquer título, e menos ainda um lugar representativo na história do que citei anteriormente.

Seremos novamente protagonista. Mas antes disso é preciso ser mais São Paulo. Eu não reconheço você em campo, fora dele e nem mesmo na arquibancada.

Quarta-feira é dia de São Paulo na Libertadores.

Qual? Escolhe. Vá de branco gritar “ole ole ole” ou “mato um, mato cem”.  Peça futebol ao invés de raça. E não torça pra menosprezar o Palmeiras ou o Corinthians.  Torça pela volta, não pela reviravolta.

Somos grandes. Os maiores. E nunca pedimos esse lugar. Apenas o ocupamos sem contestações.

Voltemos.

A quem nasceu outro dia, compreensão. A quem viveu o São Paulo que me refiro, reflexão.

“Tuas cores gloriosas
Despertam amor febril
Pela terra bandeirante:
Honra e glória do brasil”.

RicaPerrone