4×1

Qual o segredo do Fogão?

Qual a fórmula de um campeão? Reforços, base, sequência, estrutura, um pouco de cada? Enfim, já vimos os mais diversos vencedores com as mais diversas receitas. O que não tinhamos visto ainda é a consistência de um “não favorito” sem qualquer investimento anormal ou fenômenos revelados.

O Botafogo não fez um estádio, nem comprou um timaço caro. Não revelou quase ninguém. Nem contratou o Guardiola.

Virou Saf. Ok, o Vasco também virou. E mesmo que isso seja parte fundamental do sucesso, o que de tão impactante em campo ela pode ter feito em tão pouco tempo?

O Scout do Botafogo é fora de série. Acertou a maior parte dos reforços? Até que não. Mas acertou uns 8. Basta.

A base segue sem entregar nada demais, e o time não perde.

O segredo? Não sei. E acho que eles não vão contar. Mas o Botafogo identificou alguma coisa que mudou o clube, ao ponto de não sucumbir a pressão para demitir o treinador que acabou saindo líder de lá.

A única coisa que salta aos olhos é a postura.

O Botafogo mediocre jogava de abadá. Tinha 20 patrocinadores de merda que ao entrar em campo explicava pro adversário: “to fodido”.

Torcida sem fé. Louca, mas pessimista e com motivos.

Dirigentes que viam no seu diamante um cristal quebrado. Até que alguém comprou e viu a jóia. E jóia não é vendida em saco plastico, portanto, tirem esse monte de marca da minha camisa.

Jóia em casa abandonada ou loja vazia custa menos. Preparem a loja, quero impacto quando entrarem aqui.

Troca o piso. Menos tropeços.

E o Botafogo que entrava pra adivinhar que horas daria azar agora entra em campo sabendo que, mesmo num dia ruim, a vitória pode chegar.

Só salário em dia? Duvido. Deve ser uma soma de coisas. Mas o tatu gostou da árvore, fez casa, casou com uma tatu fêmea e já tem um filhote.

Mas tatu não voa. E talvez por isso ele fique na árvore. Ainda que seja alto, os pés estão em galhos e não no ar.

E nada pode ser melhor pro futebol brasileiro do que coroar um trabalho de custos aceitáveis, com marca valorizada, gestão profissional e visão a longo prazo.

Ganhe por nós, Fogão.

RicaPerrone

Não precisamos tanto de dinheiro

Talvez eu morra sem confirmação. Mas vou morrer afirmando que o futebol brasileiro é um caso raro, pra não dizer único, onde o dinheiro não represente a solução e talvez nem mesmo a melhor saída.

Num país caótico, de economia destruída há anos, sem perspectiva de melhora a curto prazo, porque diabos um país formador insiste tanto em buscar dinheiro pra comprar o que produz de melhor?

Imagine você buscamos diversos treinadores de fora, todos fracassaram. Tava ali no interior de São Paulo uma dose de ousadia para algo realmente diferente.

Milhões, milhões e milhões para comprar um jogador nota 7, com diversos garotos nota 6 prontos pra virar 8 na base por 5% do valor.

Porque? Você sabe, eu também. Mas vamos imaginar que não seja pra lucrar por fora e sim pelo conceito de competição. Há motivo?

Alguns dos melhores times que vi jogar foram quase todos formados em casa. O torcedor não compra camisa de jogador revelado, é verdade. Nem impacta na bilheteria. Mas essa cultura é bem mais fácil de mudar do que esperar que o país tenha uma situação economica melhor.

Compra 2 ou 3. Sobe 15.  Inventa um treinador porque ainda que dê errado é melhor o risco do novo do que a certeza da mediocridade testada.

O Fluminense precisa ganhar. Hoje sua vitória representa uma rota pro futebol brasileiro.  Em campo, é claro. Fora dele, mais do mesmo.

RicaPerrone

“O time” da Libertadores

É evidente que não lhe dá nada além de “pressão”.  Mas é incontestável, notável e hoje gritante em números que o Atlético Mineiro é o time mais forte da Libertadores.

Pelo peso que não carrega com os títulos recentes, o elenco campeão que tem, o time recheado de jogadores com passagens por seleções e uma torcida que já entendeu há algum tempo que Libertadores não se  discute, se apóia.

Pode buscar na Gávea e na Barra Funda. Você encontrará dois grandes times, um elenco até melhor do que o do Galo em São Paulo, mas 11 titulares iguais a esses ninguém tem.

O Galo cumpriu seu papel de favorito pouco festejado pela mídia que só o enxerga quando o resultado é iminente.  Mas fez. Com ataque avassalador, primeiro do grupo, melhor campanha.

Óbvio que pra alguns maus leitores isso quer dizer que se amanhã o Galo for eliminado é um time de merda.  Mas na real a condição do Atlético é o ponto aqui. E não é de postulante apenas, mas sim de “time a ser batido”.   Ou você tem notícias de outro time onde 10 dos 11 titulares tenham passado por seleção nos últimos 4 anos?

abs,
RicaPerrone

Nossos meninos de novo

Quando eu era moleque meu pai discutia a seleção de 82 com meus tios e falava dos jogadores como se fossem patrimonios nacionais. Havia respeito, carinho e admiração. A cobrança era parte do processo, mas nunca ofuscou o olhar que brilhava por eles.

Acho que passei a maior parte da minha vida ouvindo a imprensa dizer, copa sim copa não, que a seleção brasileira “não é mais aquilo”, que “o futebol não é mais aquele”, que “nunca mais vamos…”.  E, de fato, raramente temos no futebol o que tivemos um dia.

Mas desde Romário e Ronaldo eu não via o brasileiro olhar pra seleção com euforia. Repare, não falei em alegria. Nós sempre olhamos pra seleção com alegria porque ela invariavelmente vence. Mas com euforia, é raro.

Nós esperamos mais que o gol. Nós queremos vê-los e torcemos por eles. Nem mesmo o patético mimimi dos que acham que torcer contra a seleção é combater corrupção na CBF está mais se sustentando. São irresistíveis.

4×1, lá?! Pelo amor de Deus…  não chega a ser novidade, aconteceu em 2009. Mas pra quem outro dia era colocado como “dúvida” na próxima Copa? Você são malucos. Nunca duvidem dessa camisa. Também não coloquem nela o peso de ser a “única alegria do brasileiro”.  Toda vez que aconteceu, deu merda.

Eles são garotos, moram longe, mas pela primeira vez vejo uma geração de jogadores não identificados com clubes brasileiros serem “nossos”.

A gente sorri quando vocês fazem o gol. A gente xinga o Marcelo quando ele erra mas sem o “eu avisei”.  É só raiva de torcedor.  Nós temos orgulho do Neymar. Nós adoramos o Jesus, e isso se aplica a corintianos e saopaulinos.

É um momento raro. Comandado pelo Tite, o cara que explicou com trabalho como é rápido devolver a coroa a quem nasceu rei. A bola nos ama. E quando a gente sorri jogando futebol, quando temos na seleção “nosso time”, tudo está no lugar.

O futebol precisa da seleção brasileira. E nós, mais ainda.

abs,
RicaPerrone

Vasco retrô; Corinthians à lá Tite

Se o vascaíno não deve considerar o placar elástico como reflexo do jogo, também não pode ignorar a falta de alternativas do time.  E não me refiro a número no elenco, mas sim a características.

Enquanto o time do Corinthians tocava a bola, aceitava sua limitação e se postava num 4141 à lá Tite valorizando a bola e sendo intenso na marcação, o Vasco dependia de uma jogada de 1990 pra achar um gol.

Time cheio de posição fixa, cheio de jogadores lentos, tentando se livrar de uma defesa intensa e bem armada. Não costuma funcionar.  E não funcionou.

Nenê e Andrezinho não são opções de um jogo intenso e rápido. O Thalles deveria ser, mas tem claros problemas com peso e se tornou um jogador muito mais fixo do que a idade sugere. O Vasco que entrou em campo contra o Corinthians terá sérias dificuldades em enfrentar times que usam o conceito moderno de jogo intenso e compacto.

O Corinthians, por sua vez, dentro de toda limitação técnica do seu elenco, se propôs a algo e cumpriu. Os dois gols que decidiram a vitória (primeiro e segundo) foram gols iguais e de jogadas treinadas. Posse, troca de passes, movimentação e aproximação.  Isso é treino.

O Vasco não tinha nada no repertório que não fosse esperar a qualidade individual resolver. O Corinthians, sem grande qualidade individual, o goleou porque sabia o que fazer .

Talvez o Vasco esteja procurando soluções sem ter achado o problema. O Corinthians tem problemas, mas claramente os identificou.

abs,
RicaPerrone

O futebol é uma benção

Ninguém criou nada mais extremista do que o futebol. Num domingo onde o país se divide entre vermelhos e verde amarelos, um pequeno clube de São Paulo elimina, com goleada, o time que quarta-feira bateu o todo poderoso River Plate e se candidatou as oitavas da Libertadores.

Poderia acontecer e não seria um absurdo em virtude do bom trabalho do Audax, do treinador, dirigentes, Nei Teixeira e dos jogadores. Mas poderia ser por 2×1, talvez. Uma brava vitória inacreditável, quem sabe.

Mas um 4×1 com tamanha superioridade técnica e tática, com rascunhos do quinto gol acontecendo até o fim e um São Paulo titular, “motivado”, decidindo vaga em semifinal, não. Não poderia.

Não é de hoje.  O São Paulo atua em jogos eliminatórios como um timinho. O mata-mata nos mata de vergonha.

Mas é futebol. E como abri dizendo, nada pode ser mais extremista no planeta. Quarta, heróis. Hoje, vilões. E em 4 dias terão a chance de cravar a continuidade de um dos rótulos.

Não há São Paulo até quinta-feira.  Só dois rascunhos prontos para virar arte final.

O time guerreiro que foi buscar a vaga na Libertadores, ou o time frouxo que é goleado por um pequeno numa decisão.

Que vença o “melhor”.  Ou, “o mais real deles”.

abs,
RicaPerrone

Decisões

O campeonato de pontos corridos não tem decisão. Ele tem uma soma determinante de regularidade, sorte, momento em que se enfrenta os principais adversários e uma reta final que privilegia quem tem jogo pra ganhar de presente (entrega-entrega) e quem abriu ponto suficiente pra não precisar deles.

Neste domingo, o Brasileirão colocou a prova Corinthians e Atlético MG. Os dois jogariam partidas fora de casa contra adversários complicados de serem batidos em suas casas. E ao final do dia, duas goleadas. Uma pro Corinthians, uma contra o Galo.

Por mais que haja um erro ou outro de arbitragem pra cá ou pra lá, em momentos como esse se tornam incontestáveis algumas conquistas. Não, o Corinthians ainda não conquistou. Mas está perto.

É justo que conquiste. É o melhor time, é o mais equilibrado, o mais perto do “novo futebol” que buscamos, e também aquele que decidiu quando tinha que decidir.

O atleticano é um tanto complexado desde a Libertadores contra o Flamengo na década de 80. Toda vez que um time não mineiro ganha dele, o discurso de “favorecimento”, “eixo” e o escambau se repete. Se repente tanto que perde importância.

Senhores, sejamos tão práticos e coerentes quanto o Brasil todo foi em vossa Libertadores:  É merecido! Uma salva de palmas pra você e segue o jogo.

Hoje o Brasileirão perguntou quem estava pronto pra ser campeão. E o Corinthians levantou a mão sozinho.

abs,
RicaPerrone

Os fantasmas de Flamengo e Galo

Atenção Flamengo! És agora um “favorito”!  E buuuuuuu! Lá vem o fantasma da obrigação interromper a reação baseada na deliciosa condição de desafiante.  E tome gol do Coxa, e tome mais 4 do Galo.

É o fim? Crise na Gávea? Ora, rubro-negro. Claro que não.

A derrota foi na quarta. Hoje cumpriram protocolo.  Quem ganha do Galo lá?  Quer você ter esse direito? Esqueça.

Atlético e Flamengo jogam uma partida única no país. Os atleticanos tem no Flamengo um grande rival e não é reciproco. É a mais curiosa relação de ódio unilateral do futebol brasileiro.

Não que o Flamengo não seja rival do Galo, mas num nível muito menor do que o contrário.  O que tem gerado uma sequência bastante constrangedora pro Mengão.

Só dá Galo!

E tudo isso passa pela insuportável dor de saber que “seria diferente se…”.  Mas acho que não seria.   Porque existe só um jogador no futebol brasileiro que tem o direito de cometer pênaltis sem ser criticado: Victor!  Afinal, ele pega.

Último homem, expulso? Talvez. Talvez a gente possa considerar essa reclamação.  Mas discutir 4×1 é tão constrangedor que é melhor não procurar motivos para discutir o óbvio.

Quando o Corinthians dá um passo importante como hoje cedo, lá vem o Galo e diz, no mínimo, que “ainda não!”.

E quem sabe, não mesmo? Ou você ainda dúvida quando eles gritam alto que acreditam?

abs,
RicaPerrone

Heróis, vilões e noites sem fim

Talvez o palmeirense mais otimista do mundo não terminasse o primeiro tempo falando em goleada. Era 1×0 pro Flu, uma partida “controlada” pelos cariocas e um Palmeiras pouco inspirado.

E o futebol, aquele mesmo do 3×3 no clássico, resolve transformar um jogo comum num marco para dois clubes.

O que seria do Palmeiras se perdesse, sei lá, por 2×1 do Flu no Maracanã? E o Flu, que jogando pouca coisa ganhando em casa de 2×1, não empolgaria e nem mudaria os rumos.

Mas quando Fred perde o pênalti o jogo se transforma. O Palmeiras empata, o Fluminense surta, o Palmeiras cresce, as bolas começam a entrar.

Uma sequência de erros comuns em times que jogam a toalha transformam uma virada numa goleada. Um Palmeiras pouco convincente em promissor e um Fluminense que andava em crise numa tragédia.

Cai técnico, surgem heróis do outro lado. Vida que segue, bola que rola.

O Fluminense está perdido há mais de 10 rodadas. Venho repetindo aqui que mesmo ganhando não estava bem, e que quando a bola parasse de entrar seria complicado esconder o futebol apresentado.

Culpa do Enderson? Nào sei só dele. Mas não tem mais ambiente.

E o Palmeiras, que as vezes some, as vezes brilha, hoje se aproveitou impiedosamente do fundo do poço adversário para brilhar mais forte do que se podia imaginar.

É o futebol fazendo o herói ser vilão, o reserva ser herói, o time sensação em crise e a madrugada não ter fim nas Laranjeiras.

abs,
RicaPerrone

Salve a seleção!

Imagine se um jogador aposentado, agora com seus quarenta e poucos anos, assume a seleção de um país como treinador sem a menor experiência em clubes.

Imagine então que essa seleção joga bem, mas perde. O que diria a mídia e a torcida ao enxergar o óbvio após uma eliminação?

Não sei no mundo todo, mas aqui diriam que foi tudo uma merda e que devemos recomeçar. Aliás, é o que mais faz a seleção brasileira. Toda vez que ela não é campeã, “onde errou?” e “recomeçar”.

Mas esse jogador aposentado que virou treinador não é o Dunga, nem a seleção a nossa. A história que contei é de Klinsmann na Alemanha. O primeiro passo da incrível seleção campeã do mundo que quase foi eliminada pela Argélia, que teve um treinador sem experiência alguma, e que perdeu 2 Copas pra ganhar depois. Ah! E na prorrogação, passando aperto e quase sendo derrotada pela seleção que outro dia tinha em seu planejamento Maradona como treinador.

Enfim. Vamos em frente.

O pau que dá no Francisco se recusa a dar no Chico. Dunga é uma aberração, Klinsmann foi uma experiência.  Os EUA? Não param de crescer no futebol e sua seleção vai ser campeã do mundo ja já, diziam em 1994.

Ou quando formaram a LIGA, estruturando um futebol profissional pro país.  Em 2014? Não. Em 1996.

De tanto olhar pra gente de fora que nunca erra, me pergunto até quando vamos achar que não podemos reagir.  Me pergunto o que há de errado com essa seleção que pra tanto “especialista” ela seja “incapaz” de nos devolver o que é nosso.  Me pergunto porque é tosco ter centroavante “paradão” como o Fred em 2014, ano em que a Alemanhã de Klose fez 7 no Brasil….?

Enfim.

Mais uma vitória, mais uma dose de paciência, e vamos em frente.  A seleção começa a colher alguns frutos da nova geração, e com eles a desconfiança que caracteriza o brasileiro sob qualquer possibilidade de dar certo.

Dois amistosos, duas vitórias, duas boas atuações e significativas melhoras.

Mas não importa. É CBF, é crise, é Del Nero, é politicagem.  A bola entrou, fodeu! Não tem no que bater em campo, vamos puxar pra fora dele.

E quando perder, voltamos o foco pro gramado. Porque é assim que se faz jornalismo no Brasil.

abs,
RicaPerrone