Botafogo

Obrigado, Professor!

Um dia ele me convidou via twitter para almoçarmos na barra da tijuca. Eu morava em São Paulo, vinha pro Rio de vez em quando. Fomos ao Dom Helio, que hoje é um amigo querido, meu restaurante favorito por aqui. Lá, conversamos por horas e tornamos esse encontro semanal.

Eu, Espinosa e Riva, o filho dele, tão querido e honesto quanto o pai. Discutíamos futebol por horas e ele dizia “eu aprendo algo com você, você algo comigo”.  Nunca achei essa troca muito justa, mas achava notável a humildade dele.

Ficamos amigos. Não só dele, mas da família dele. Fizemos projetos, ele me deu um pequeno estágio no Duque de Caxias, aprendi uma barbaridade sobre futebol com esse campeão do mundo.

Almoçamos uma centena de vezes. Nunca, em nenhuma frase, fez uso do fato incontestável de saber muito mais do que eu ou qualquer outro na mesa. Juntos fizemos o “Ultima Chance”, um projeto que abandonei por ver que a maioria dos clubes não querem jogador sem “esquema” pré estabelecido.

Ele não faz esquema. Nem eu.

Quando ele deixou o Grêmio em meio a Libertadores de 2017 eu o encontrei e lhe perguntei se ele queria fazer uma entrevista. Ele disse a seguinte frase: “Não, não. Eu tenho magoa de algumas pessoas lá, mas agora vou conturbar o ambiente. Deixa o Grêmio ser campeão. Deixa o Renato ser campeão. Depois a gente fala disso”.

Sua esposa, um doce. Os filhos, educados e cheios de bons valores. Os netos, idem. Na prateleira, Mundial. Libertadores, entre tantos outros. O que mais essa homem poderia querer?

Voltar.

Valdir queria estar de volta ao dia a dia do futebol. Dizem que é um vício incurável e com certeza ele tinha esse vício. Pois voltou. E pro Botafogo, um de seus dois clubes do coração.  Foram semanas, mas ele conseguiu sentir de novo a adrenalina de estar competindo.

Um câncer. Um processo doloroso pela frente ou o fim precoce. Ele acreditava muito em Deus, diferente de mim. E por respeito a fé dele, imagino que Deus tenha feito a escolha mais justa.

– O Valdir sofrendo? De jeito nenhum. Mande-o vir pra cá ficar comigo.

E lá está. Deixando saudades, valores e uma história incrível em tudo que se propôs a fazer.  Deixa amigos, muitos amigos. Títulos, momentos e exemplos.

Vai com Deus, meu amigo. Espero que ele de fato exista e hoje você descubra que até nisso você tinha razão, e eu não.

Obrigado. Obrigado! Obrigado!!!

RicaPerrone

Yaya, Ô Yaya…


“YaYá, ô YaYá…”, tu é craque mas não sabe o que eu sei. O que vi nos estádios onde andei. Se tu chegar, Yaya, você vai se pasmar.

Uma gente bem sofrida, mas muito unida quer muito te ver.
Yaya, não é o Barcelona mas já era grande antes de voce nascer
A 7 que foi do Mané está pendurada pra você vestir
Yaya pega logo esse vôo não deixa o Fogão de tu desistir

“YaYá, ô YaYá…”, tu é craque mas não sabe o que eu sei. O que vi nos estádios onde andei. Se tu chegar, Yaya, você vai se pasmar.

Ousando voltar a brilhar foi buscar sua estrela lá no Japão
Estrela maior é a camisa que já emprestou time pra seleção
Você pode ter muita dúvida e o nosso país até desconhecer
Desembarca aqui no Galeão que em 10 minutos você vai entender

“YaYá, ô YaYá…”, tu é craque mas não sabe o que eu sei. O que vi nos estádios onde andei. Se tu chegar, Yaya, você vai se pasmar.

Eu não sou de fazer samba, muito menos bom compositor
É apenas um texto diferente brincando com a vinda de um jogador
Se jogar na porra do City te deixou ricou e muito orgulhoso
Corre pro Rio, Yaya, vem jogar num time grande e glorioso

“YaYá, ô YaYá…”, tu é craque mas não sabe o que eu sei. O que vi nos estádios onde andei. Se tu chegar, Yaya, você vai se pasmar.

Vem!

RicaPerrone

Planejada 2019 #34

Todo começo de temporada os treinadores fazem um planejamento. Aí você pode perguntar: “Que diabos de planejamento é esse? Ele planeja perder? Não era pra tentar ganhar todas?”. Sim, era. Mas nem treinador é tão apaixonado e maluco de imaginar que vencerá todos os jogos de um campeonato como o Brasileirão.

Assim sendo, eles planejam uma forma média de atingir os pontos do último campeão, ou perto disso. E você pode se perguntar: “Qual critério ele usa pra saber onde pode perder ou onde tem que ganhar?!”.

Normalmente eles seguem uma linha simples. Ganhar todas em casa, bater nos pequenos fora, empatar com os médios e aceitam perder pros gigantes fora de casa. Esta soma dá o suficiente para você estar, no mínimo, brigando pelo título. A não ser que alguém dispare e quebre todo planejamento.

O mais afoito pergunta: “Mas se um time tem 20 pontos e o outro 18, com os mesmos 13 jogos, é óbvio que ele está melhor, não?!”.Não. E se o que tem 20 pegou 5 pequenos fora, 1 clássico e 7 grandes em casa? Significa que ele pegará os 7 grandes fora no returno. Talvez os 18 pontos conquistados sobre clubes mais fortes sejam mais valiosos do que 20 em pequenos.

Atenção:
– A conta busca uma fórmula de se chegar aos 74 pontos, que aproxima muito do título.
– Alguns times podem perder clássicos, outros não. Isso porque alguns tem 2 clássicos por ano, outros 6.
– “Ah mas se meu time perder um jogo que era pra ganhar, ja era?” Não. Você calcula por outro jogo que “não era pra ganhar” e equilibra. Compensa.
– Eu não entendi! Facilitando: O importante não é seguir a risca os resultados. É chegar a rodada X perto ou com mais dos pontos planejados pra rodada X. O percentual diz o quanto seu time fez de pontos perto do que DEVERIA ter feito até aqui para brigar pelos 74 pontos. Só isso.
– As tabelas são INDEPENDENTES entre si. Não as compare procurando o mesmo resultado pois não serão 11 campeões.
Enfim, aí está! Se você não entendeu, pergunta pro amiguinho do lado que ele explica.

Em mais uma vitória rubro-negra, Botafogo dá lição aos rivais


Foi por pouco. O Botafogo de fato quase conseguiu a proeza de vencer o Flamengo galático e imbatível de 2019. Chances aconteceram, o jogo foi equilibrado até a expulsão, mas o que me chamou atenção ficou menos no resultado e mais no estádio.

Explico.

Primeiro a mobilização para não dar ao rival, mesmo que por dinheiro, a condição de mandante. Dinheiro é importante mas posicionamento também é. Por isso defendi que Pedro não fosse vendido ao Flamengo e concordo inteiramente com o Botafogo negar aumentar a carga de ingressos ao adversário.

Porque?

Porque o que se viu ontem no Nilton Santos foi um Botafogo extremamente inferior ao Flamengo peitando e se colocando, junto da sua torcida, como um rival deve se colocar.  Coisa que Fluminense e Vasco esse ano não tem feito, especialmente quando colocam um bloquinho de 3 mil torcedores contra 40 do Flamengo no Maracanã.

Clássico você disputa desde as 9 da manhã na padaria.

O Botafogo soube fazer deste jogo desigual um jogo disputado e com chances pros dois lados.

Ah, bateu!

Bateu. Jogou duro. Foi até burro as vezes. O Carli por exemplo terminou o jogo em campo por piedade do árbitro.  Mas existe o artifício da falta, da intimidação e o juiz pra punir. Graças a essa lógica, inclusive, o Flamengo venceu o jogo. Não fosse a força exagerada dos jogadores do Botafogo talvez ninguém tivesse sido expulso.

No 11 x 11 estava bem complicado.

Defendo o direito ao drible. O direito ao pontapé. E a consequência óbvia do cartão. Os três estão no contexto do jogo.

O Botafogo não tem futebol e time pra peitar o Flamengo. Mas ontem teve atitude, ambiente e mobilização pra isso.

Em 4 jogos o Flamengo teve 3 dificuldades contra times ruins. Isso não é um alerta de mau futebol, mas sim de que o foco é a Libertadores já.

Vitórias de time campeão. Não a espetacular, mas a quando você não vai bem. Não estar num grande dia e vencer é sintoma de título.

E o Botafogo, que acho que cai por ter um time muito ruim, ontem mostrou ao menos mobilização e posicionamento de rival, não de time pequeno aceitando o rebaixamento moral de status diante do Flamengo.

RicaPerrone

Destino

Imagine ser filho de um treinador conhecido, consagrado mas muito ruim na avaliação da enorme maioria. Inclusive na minha.

Imagine que você carregará esse sobrenome com o asterisco da Copa de 90 pra sempre no meio do futebol.

Um dia te chamam pra tapar um buraco por uns dias num grande clube. Um jogo.

Contra o Goiás, líder do returno, em casa, pressionado, e diante de um protesto do elenco quanto a saída do ex treinador.

Se Bruno Lazaroni não “vive um drama”,  não sei quem vive.

Boa sorte!

RicaPerrone

Expectativa x realidade

Certo dia eu almoçava com um dirigente de um grande clube em profunda crise, mas com bons resultados nos últimos 5 jogos. Era sábado, véspera de jogo.

Até que ele me disse: “tomara que amanhã a gente tropece”.

Caiu o garfo. Olhei pra ele assustado, falei “tá maluco? Torcendo contra?”.

E eis que a resposta me deu mais uma lição do futebol que passa longe das análises jornalísticas e mais ainda das delirantes projeções de torcedor.

– Rica, a gente tem um time de merda. Não pagamos há 2 meses. Estarmos em décimo segundo é maravilhoso, nossa briga é pra não cair. Se ganha amanhã a gente vai pra nono. Ficamos a 3 pontos da zona de Libertadores.  A briga na cabeça do torcedor e da mídia vira outra. Nas primeiras derrotas que virão – e virão porque o time é ruim – a crise vem junto e fica insustentável.

Ou seja. Aquele time podia estar ali feliz por não estar no Z4. Quando olhou pra cima, virou crise. Basicamente o cenário se desenha dependendo de pra onde você olha. E tem todo sentido. Não perder domingo, mas o raciocinio.

Se o Fluminense hoje fica fora do Z4 é ótimo. Se ele fica em nono, é “fracasso” de Libertadores. Veja você como o futebol não é simples como parece.

O Botafogo enganou o torcedor e a mídia toda com resultados incompatíveis com o que tem em mãos. O time é pra brigar em décimo sexto. Brigou em sexto.

Agora perde, tem uma queda de rendimento, e nada presta, treinador é ruim, crise, pressão. Ou seja, crise gerada pelo próprio desempenho incomum acima do que de fato podia.

O futebol é mesmo um negócio a parte de toda a lógica do mundo. E o Botafogo agora tem um processo: esquecer o G6 e acordar pro Z4, que é de fato o que ele deve disputar com tal elenco e condição financeira.

Esse intervalo entre a “crise” por não estar lá em cima e o entendimento do quanto é importante não estar lá em baixo pode ser o ponto decisivo pra um fracasso ainda maior.

Fique puto por não ter mais briga lá em cima ou agradeça por ter se mantido fora da briga de rebaixamento até a rodada 22. Eu agradeceria. Minha amnésia seletiva não permite que eu esqueça as expectativas realistas pré-campeonato.

RicaPerrone

Fla 3×2 Bota: E o Carli?

Cada dia é mais difícil pra arbitragem o que deveria ser cada vez mais fácil.

Eles complicam até a ajuda.

Os lances do jogo mostram 2 não expulsões de rubro-negros. Uma delas, talvez, numa discussão de bar, pudesse haver contestação. A do Cuellar não há.

E justo nessa o VAR poderia entrar. Nas outras, não.

Então, após o jogo, constatado por todos que houve um beneficio ao Flamengo pelas não expulsões, surgiu a imagem do lance do gol do Botafogo.

De fato o Carli empurra o jogador do Flamengo e graças a esse empurrão há espaço para o gol do Cícero.

Fato também que a bola não está em jogo ainda.

Mas o fato se torna bastante contornável se notarmos que um árbitro de vídeo pode ver tranquilamente que o gol surge muito em virtude do empurrão e, portanto, se não dá pra dar falta, dá pra talvez mandar voltar a cobrança?

Não sei. Me parece que seria a decisão sensata. Anular o gol e mandar cobrar de novo já que a bola não estava em jogo, mas a “falta” interferiu diretamente no gol.

A arbitragem é ruim. E lances como esses não serão facilmente resolvidos por mera incompetência.

Cuellar deveria ter sido expulso. O que não anula o argumento rubro-negro de que se o gol não saísse o jogo seria outro. Ou seja, nada mudou. Choro dos dois lados, juizes errando e agora com um atrativo a mais:  o erro é digital.

RicaPerrone

Jesus, juiz e juízo

Jesus corrigiu com inteligência o problema ofensivo que o Flamengo tem hoje com a perda de 4 jogadores de frente de alto nível. Voltou Gerson pra onde ele não deveria ter saído, colocou Cuellar e deu liberdade pros laterais.

O Botafogo tem uma proposta muito consciente do que pode fazer com esse time. Toca, prende a bola e não vai pro risco. Mas a diferença dos dois times é muito grande, e quando isso acontece ou o rival é tão conservador quanto (Cruzeiro) ou a pressão vai existir, tal qual os espaços.

O Botafogo jogou bem. Tentou usar os espaços dados, fez 2, mas, aceitemos, o time do Flamengo é bastante melhor.

Ao ponto: arbitragem.

Erros decisivos. Rafinha e Cuellar mereciam o vermelho e dificilmente o resultado seria o mesmo com 9 x 11. Portanto houve grande interferência no resultado.

O que não muda o bom jogo do Botafogo, nem a boa virada do Flamengo que o empurra pros braços do torcedor pra quarta-feira.

Ambos tem que virar algo no mata-mata. A vida do Flamengo ficou mais promissora. Pudera. Um está  atrás de sobreviver e o outro ostentando. O fato do jogo ter sido equilibrado e ter tido erros de arbitragem refletindo no resultado é um elogio ao Fogão, não muito pro Mengão.

Seguimos. Porque é a quarta 21h30 que ambos saberão se vivem um crise ou uma lua de mel com seu torcedor.

RicaPerrone

No lucro

Não acho que o Vasco tenha jogado mal. Embora o que ele veja hoje como “melhora” ainda seja bem distante do aceitável pra um clube desse tamanho. Mas também não vou entrar na pilha dos chutes a gol pra dizer que o resultado foi injusto.

Injusto foi o pênalti não marcado pro Botafogo. Sem VAR, vá lá. Com VAR, não tem explicação.

O Vasco melhorou. Mas o atacante do Botafogo matou no peito uma bola que passou por cima da cabeça da zaga do Vasco. Isso não pode ser normal.

Gostaria de ver no Rossi o que alguns vascaínos enxergam. Não consigo.

E mesmo achando o time do Vasco bem melhor do que a posição que ocupa, é a teoria do elefante na lama. Se fosse pequeno saia, como é pesado se afunda na medida em que tenta reagir.

É cedo. Pra ambos.

Mas o Botafogo já fez muito mais do que dele se espera. E o Vasco, não dá nem pra dizer que fez “menos”, pois de fato não fez  “nada” ainda.

O jogo de hoje deixou os dois no lucro. O Botafogo pela campanha que nem o mais otimista torcedor esperava. E o Vasco por não ter tomado o segundo no lance de indiscutível pênalti ignorado pela arbitragem.

RicaPerrone

A razão que se nega

A regra é a solução encontrada pelo mundo para a falta de bom senso. Se houvesse o bom senso não seria necessário o rigor de uma regra. Mas o bom senso é um luxo que poucos tem alcance.

O que o Botafogo está pedindo é justo. E um tanto quanto injusto.

É regra. Mas usada pelo interesse próprio e não pela causa. A causa é maior e por isso o STJD deve negar o pedido do Botafogo que, insisto, tem base, tem razão, mas não tem função.

O VAR lá está para que erros como os que diversas vezes mudaram resultados do Botafogo eliminando-o de torneios até não aconteça mais. E nesse processo as vezes vai acontecer um erro de 5 segundos pra lá ou pra cá onde o juiz tenha que decidir entre “ter apitado” ou não cometer um erro que mude o jogo.

Ele mandou jogar. Só que o pedido dele interromper o jogo, embora haja regra pra discutir isso, não alterou em rigorosamente NADA o que deveria acontecer.

Foi pênalti.

E aí o Botafogo procurou uma forma legal de se dizer injustiçado num lance onde, sem qualquer interferencia negativa para o jogo, o árbitro corrigiu um erro grave de fato.

O objetivo do VAR foi alcançado com sucesso: corrigir um erro que mudaria o resultado do jogo.

Se você me falar que a bola rolou e alguém tomou amarelo, que pararam um contra-ataque do Botafogo, algo assim, ok. Vamos avaliar as perdas. Mas não há nenhum dano ao Botafogo os 5 segundos que ele demorou a mais para pedir pra interromper.

Tá na regra? Tá. Pode reclamar? Pode.

Deve? Não.

Ser lesado é diferente de encontrar uma oportunidade pra sair beneficiado. Que no caso é o que aconteceria se o Botafogo anulasse a partida por uma ação do árbitro que não interferiu em absolutamente NADA do que seria caso ele tivesse recebido o aviso no ponto 5 segundos antes.

Essa deveria ser a discussão. Mas entre o bom senso e o clubismo, a disputa e o bem maior do futebol que são os 3 pontos, foda-se o bom senso.

RicaPerrone