chapecoense

O show tem que continuar

A discussão ainda é bastante emotiva, pouco racional e compreensiva. Mas é hora de dar datas e levarmos adiante. O jogo não pode parar, como nada na vida pode parar em virtude de uma perda.  Nós trabalhamos após a morte dos nossos pais, nós seguimos em frente após as perdas e é assim que a vida é.

Qual o beneficio em pararmos o futebol? Luto? Mais e mais imagens de dor e tristeza por semanas o dia todo nos canais de esporte e o que mais?

Dia 11 tá longe. E é lá a rodada, não amanhã.

“Ah mas o Inter…”, quem no lugar do Inter não estaria considerando brechas para se beneficiar? Você acha mesmo que seu time não faria o mesmo? Desculpa, tá enganado. Nosso futebol não tem dono, e portanto é movido a ego de dirigentes que fazem o que fazem por “amor”.  Ao clube, mas especialmente a si mesmos.  Qualquer clube pensaria em tirar proveito. Uns pensariam e não fariam, outros pensariam e não falariam. O Inter foi burro, pensou, falou, virou o vilão do Brasil.

O Galo perderá por W.O. porque entende ser isso o melhor a fazer, e não vai mudar sua posição na tabela. Ou seja, o jogo não valeria nada, não tem mesmo grande razão de ser.

Os outros, quase todos, tem. E se tem, que joguem. Tristes, de luto, como for.  A bola precisa rolar de novo.

E quando você racionaliza isso apenas como um “desrespeito ao luto” está cometendo um equívoco.  O momento onde a dor será dividida com algo bom pela primeira vez acontecerá na Arena do Grêmio quarta-feira, onde o país todo assistirá uma história de conquista e alegria.

As mãos na taça, o povo enlouquecido, seja qual for o campeão, é disso que precisamos e vivemos.

No outro domingo prestamos as devidas homenagens, encerramos o campeonato e seguimos para 2017 com as lições de 2016. Mas parar, jamais! Atrasar uns dias, vá lá! É justo. Mas a bola não pode parar. Só ela nos devolverá o sorriso, e nada, nem a Chapecoense, faz sentido sem que a bola esteja em campo.

Continuemos. Porque é assim que tem que ser. Não há escolha. E se for pra fazer algo diferente, vá em paz com seu rival no domingo e mostre que disso tudo aprendeu algo.

abs,
RicaPerrone

Então o que é?

An exile Tibetan boy wears a jersey with the name of Brazilian soccer star Neymar as he plays with friends at the Tibetan Children’s Village School in Dharmsala, India, Thursday, Aug. 28, 2014. (AP Images/Ashwini Bhatia)

Toda vez que falamos sobre algo grandioso no futebol logo dizemos não ser “só um esporte”.  E então as vezes alguma alma muito cafajeste nos pergunta: então o que é? E nós paramos de falar.

É maior. O que exatamente, não sabemos explicar.  Religião? Muito radical e forte, estaríamos atrelando a algo que não é exatamente o que sentimos por ele.   Talvez “paixão”, mas ela não permite que a gente tenha piedade e até torcida pelo rival em determinados momentos.

Então, “compaixão”. Menos ainda, porque queremos esmagar o adversário todo domingo.

Somos malucos, “drogados” em doses cavalares por uma coisa sem igual que nos dá vida, orgulho, motivos, amigos, tristeza, alegrias, lágrimas e nos torna pessoas melhores.

Talvez você daí de longe não consiga entender, e a gente nem se importa. Honestamente, todo seu discurso intelectual sobre o “pão e circo” mostra porque somos nós os cultos.  Cultura é o conjunto de crenças, costumes e atitudes de um determinado povo.  Logo, queira você ou não, o futebol é a maior manifestação cultural do país.  Somos cultos, você não.

O planeta tentou de mil maneiras unir povos, encerrar guerras e fazer do mundo algo voltado para uma só direção. Ninguém fez. Só piora, e o planeta é cada vez mais hostil e pouco amável.  Nós, o futebol, fizemos EUA e Iraque trocarem flores. Nós, o futebol, fazemos países se encontrarem em paz para celebrar um jogo.

Nós, o futebol, fazemos o mundo sentir sem ter que explicar.  Ninguém precisou ir na Holanda contar pra eles o que houve. Bastou dizer que era um time indo a uma final, pronto. Todos entenderam.

Falamos mais de 6 mil idiomas no mundo. O único que todos falam se chama “futebol”.

Os gestos tem significados diferentes em todos os lugares do planeta. Jogue uma bola no chão e terá um conjunto de gestos capaz de fazer qualquer deficiente auditivo passar horas 100% integrado a quem está a sua volta.  Não precisamos falar, mas falamos. Ou melhor, gritamos.

Por um time, contra um juiz, por nossa gente e, pasmem, como hoje, pela gente ao lado.

Porque somos pessoas melhores? Não. Mas porque somos moldados pelo estádio de futebol e ali se molda um caráter como nenhum outro lugar.

Aprende-se até onde você pode ir, o que é fé, o que é perder, o quanto se é inevitável uma derrota, a perda de controle, a força da união.  Aprendemos a nos calar quando derrotados, a vibrar quando vencedores. Aprendemos a abraçar quem a gente não conhece, a juntar gente e transformar-mos num só.  Aprendemos que quando entramos naquele lugar não tem mais classe social, carro importado ou qualquer conta bancária. Queremos todos rigorosamente a mesma coisa.

O futebol integra, ensina, aproxima, nos faz mais felizes. E se aturamos vocês, infiéis, que duvidam disso e/ou consideram uma “perda de tempo”, é porque temos no que nos apegar.  É o sonho de um menino, é o elo entre pais e filhos.  É a razão de ser de tanta gente que não tem mais nada pra celebrar. É o orgulho dos fracassados, o fracasso dos vencedores.

Domingo tem jogo. E enquanto tiver, nós seremos mais humanos, mais reais, apaixonados, apaixonantes e entenderemos melhora vida.

Ah! O que é?

É futebol.

A única coisa que funcionou no mundo até hoje.

abs,
RicaPerrone

O mesmo avião

As vezes a gente se coloca como “o lado de cá”.  Tratamos futebol como uma obrigação, os jogadores como adversários, os clubes como nossos meros aprendizes.  Somos de uma “raça” bem arrogante, pouco inteligente na questão comercial e bem confusa na parte ideologica.

Eu não gosto do que faço porque faço com as pessoas que faço. Se pudesse escolher tiraria 80% do mau humor de quem leva futebol até sua casa e faria a minha maneira, que é a de enxergar isso como mero entretenimento, lazer, paixão.  Certo ou errado, não faz a menor diferença.  A lição pra nossa profissão hoje é clara.

Talvez pareça “errado” deixar passar algumas coisas e manter o lado bom acima do ruim.  A “verdade” a muita gente importa, mas o futebol é uma droga como a bebida, a cocaina e a maconha. Ninguém consome nenhum desses três para ficar sóbrio e realista. É exatamente o contrário.

Doses de realidade não são bem vindas em sonhos. E futebol é um sonho, talvez o melhor deles.

O mundo hoje reage à tragédia sem dificuldade de comunicação porque trata-se da única linguagem que uniu o planeta até hoje: o futebol.  Um Russo sabe o que sente um catarinense pela primeira vez na vida.  E talvez a última.  Um alemão e um morador de Chapecó, hoje, entendem a mesma dor.

E se nesse dia de perda pudermos tirar alguma coisa de relevante pra nossas vidas e especialmente pra essa relação confusa, cansativa e perdida que existe entre imprensa e futebol, é que deveríamos remar na mesma direção e não brigar pelo leme.

Talvez você não tenta entendido por bem, talvez ainda assim não entenda. Mas estamos e sempre estaremos no mesmo barco. Ou, no mesmo avião.

abs,
RicaPerrone

Aê, Jesus!

O moleque! Deixa eu te dar um papo.  Eu não sou religioso, de modo que talvez essa seja minha primeira conversa com um “Jesus”.  Assim sendo, considere-se especial por me cativar a fazer isso.

Eu sei que você tá ansioso, que tudo na sua vida é absurdo. Você é um “pivete”, ta com a 9 da seleção, tá rico, indo pra Europa a pedido do técnico mais badalado do mundo e acaba de deixar o Allianz Parque sendo o nome mais forte da conquista.

Eu sei o que você está vivendo sem ter a menor idéia do que é viver isso.  Mas sei uma coisa que você ainda não sabe, e que o tempo vai te mostrar.  Antes de entrar naquele avião, saiba que hoje você viveu algo que dificilmente se repetirá.   Não foi o maior dia da sua vida porque você será hexa pela seleção numa Copa e nada vai superar isso.  Mas não será igual.

Um estádio cheio de gente que realmente vive essa “merda”, que de fato dá tudo que pode por isso e que “canta  e vibra” dessa maneira, lá tu não vai encontrar. Talvez, sendo você o craque que esperamos, você nem chegue a voltar. E assim sendo, hoje foi a última vez que você viu um estádio de futebol lotado de torcida.

A partir de agora conviverá com “fãs de futebol”, que tem todo seu mercado e valor, mas não são como o que você viveu aqui. Amanhã você jogará pra investidores, hoje joga por uma história.  Nos próximos anos, se cumprir seu contrato, essa será a maior camisa que você vestiu em clubes.

Eu também iria. Te entendo.  É um dinheirão, um time pequeno que tá buscando espaço, vai te dar mídia e o campeonato dos caras é muito maneiro.  Mas aê, moleque! Igual hoje… não mais.

O City vai te dar muito dinheiro e fama instantânea, embora a 9 do Brasil já tenha te dado isso em doses cavalares.  Mas o que o Palmeiras te deu hoje você não terá de novo.  A chance de ser mais do que rico e famoso. Ele te deu um nome na história das vidas de milhões de pessoas.

Vá com Deus, guarde com carinho e NUNCA cometa o erro que muitos cometem de achar que você deu um título ao Palmeiras.  Foi ele quem te deu o futebol, não o contrário.

Parabéns! Seja muito feliz. E não seja tão “profissional”.  O futebol não ama profissionais. Ama jogadores de futebol. Seja o Jesus do Palmeiras pra sua vida toda e terá vivido hoje o maior dia da sua vida.

abs,
RicaPerrone

O alvo, a euforia e a conquista

Longe de mim querer dizer pra um torcedor, ainda mais o rubro-negro, para não sonhar tão alto.  Na verdade a cada rodada os números dizem pro Flamengo sonhar cada vez mais alto.

O que me preocupa é a troca de alvo repentina sem permitir nem que curtam a primeira conquista e tornem isso, no fim, um fracasso quando na verdade trata-se de uma grande vitória.

Explico: Chegar ao G4 era algo impensável há algumas semanas. E o Flamengo chegou.  Antes mesmo de se confirmar ali, muda-se o alvo pra título e começam a especular uma briga que ainda não existe.

O Flamengo hoje disputa com São Paulo, Inter, Santos, Palmeiras, Fluminense e Atlético PR uma vaga no G4.

Ele pode disputar o título? Pode, claro!

Mas se antes de garantir um “quase impossível” G4 a meta se tornar o título, o final do ano vitorioso e com uma arrancada história pode se tornar um “fracasso”.

Você acredita?

Não. Dessa vez eu não acho que vá acontecer.  Porque? Porque o Flamengo tem Galo, Corinthians, Grêmio e Santos fora. A tabela não é boa para se tirar 10 pontos. Talvez para uma briga de igual pra igual até fosse, mas para tirar 10, acho complicado.

Possível? Óbvio que sim.  Mas não deve ser, neste momento, o alvo.  Porque? Porque se em 2 rodadas ele ficar inviável, toda a comoção rumo a G4 se tornará uma tentativa frustrada de título e não mais uma conquista de vaga.

O Flamengo não pode “dobrar a meta” antes de atingi-la. E neste caso, diferente da dona da frase célebre, havia uma meta.

O G4 primeiro, depois, quem sabe, o hepta.  Mas agora, o G4.

abs,
RicaPerrone

“Se”…

O Fluzão complica sua briga pela Libertadores podendo ter brigado pelo título. E explico facilmente com um dado claro, objetivo e incontestável:  Foram 10 pontos perdidos em casa contra times pequenos.

Vitória, Bahia, Coritiba e Chapecoense.

Dez pontos que hoje colocariam o Flu na briga por título, 3 pontos atrás do Cruzeiro.

Time pra isso teve, tanto que conforme mostrei há duas linhas, os pontos que os separavam da briga foram perdidos por bobagem, não por menor qualidade técnica.

Não direi que o Flu “perdeu pra ele mesmo”, é ridículo isso. Mas perdeu para times que ele não precisa ter perdido. E em casa, o que aumenta a suspeita sobre um salto alto que não dá pra entender, ainda mais hoje, onde era fundamental vencer.

Sem criação, com bolas jogadas na área a todo custo e de todos os lados, aquele Flu que não tinha brucutus na volta da Copa hoje parece ser dirigido por um deles.

O Flu ficou a 6 pontos de uma vaga bastante improvável. Tanto quanto era perder estes 10 pontos, o que também pode ser visto por um lado otimista…

abs,
RicaPerrone

Poucas palavras

É muito difícil escrever sobre um jogo desses.  O Flamengo foi a campo tentar novamente buscar na base da raça 3 pontos que aliviariam sua real situação.  Mas nem sempre isso bastará.

Não que o time tenha sido sufocado, mas passou longe de ter conseguido sufocar ou sequer pressionar a Chapecoense. O que, convenhamos, pelo peso das camisas, é inaceitável.  Mas pelo que há dentro delas, nem tanto.

O time é fraco. Desfalcado, fraquíssimo. E infelizmente temos que aceitar que elefante na lama afunda mais quando tenta se mexer de qualquer jeito. Moscas saem da lama voando.

O Flamengo pesa um elefante, os seus adversários diretos pelo não rebaixamento, muito menos. É muito mais difícil ser Flamengo ali atrás do que Chapecoense, que mesmo em situação delicada entra em campo pra tentar ganhar, contra a obrigação do rival.

Luxemburgo escalou o que tinha. E tinha muito pouco.

O Flamengo precisa de trabalho, calma, planejamento, o diabo a quatro! Mas hoje, fundamentalmente, de forma simples e até superficial: precisa de reforços.

E não me refiro a jogadores que podem “ajudar”.  Me refiro a quem possa resolver.

abs,
RicaPerrone