copa 2018

A zebra chegou

Conforme previsto por qualquer pessoa de bom senso, a Copa flertava com uma zebra. Nas semi, havia duas. Na final, uma delas chegou. A Croácia é a “surpresa” que aproveitou o chaveamento para fazer história.

Se não temos das 32 seleções nenhuma que tenha enchido os olhos, temos uma imagem para guardar dessa Copa fraca e nivelada por baixo: o final do jogo desta quarta-feira.

Croatas não carregam a irreverência brasileira, mas conseguiram sem a bola fazer o que ninguém ainda fez na Copa: encantar pessoas.

A entrada das crianças no gramado vestidas com as camisas dos pais e comemorando com eles a classificação é, sem dúvida, a imagem da Copa.

E se foi  no perrengue é porque é isso que dá pra fazer. Não falamos aqui de uma seleção favorita que deveria jogar um grande futebol. Falamos da zebra. E a ela toda forma de chegar é aceitável.

Melhores que a Inglaterra, que parecem não conseguir evoluir nada mesmo com o melhor campeonato do mundo. Um festival de cruzamentos sem sentido, muito tamanho, alguma correria e pouquíssimo futebol.

Na Copa que não tinha Itália e Holanda, que logo saíram Espanha, Argentina e Alemanha, que o Brasil perdeu seu único jogo recente e que ninguém jogou quase nada, a zebra era inevitável. E das zebras, ao menos a mais condizente com a realidade.

A Croácia não tem mega geração, escola croata, base forte, a puta que pariu. Tem apenas um time com vontade que foi se arrastando na base do deus me livre fazendo uso do chaveamento fraco e chegou. Méritos dela, sem mais teorias mirabolantes como a da super base alemã, ou a do planejamento norte americano.

“É só futebol”. As vezes a bola entra, as vezes não. A da Croácia entrou. E só.

abs,
RicaPerrone

Judia!

Lá se vão 61 dos 64 jogos da Copa, onde tudo se avalia e espelha. Segue a França, que é boa, mas que flerta a kilometros de algo memorável ou encantador. Elimina a Bélgica, que foi pra Copa como estrela para a molecada e passou sofrendo do Japão e nem ela sabe como do Brasil.

Nada demais.

O problema não é quem passa. O problema é que quem está fora também não mostrou nada demais. Inglaterra e Croácia podem fazer 2 jogos épicos e virar essa imagem. Mas é muito difícil. A tendência é que a Copa siga sendo disputada por exclusão até que fique com quem “errou menos”.

Não há uma seleção e 90 minutos que possa se dizer até agora “partida de campeão”. Fosse carnaval, diria que a campeã não desfilou ainda. Mas como todas as escolas já passaram, acho que a campeã passou e ninguém notou.

E se ninguém notou algo de errado aconteceu.

Digo desde o final da primeira fase (tem diversos textos sobre isso aqui) que se rascunhava a pior das Copas. Sem Itália e Holanda, com Alemanha fora e jogando mal, Brasil jogando menos do que podia, um chaveamento horroroso nas oitavas, Argentina tosca, Espanha mal. Enfim.

Espera-se da surpresa algo positivo. Mas não. Essa Copa as surpresas são a sobra do que deu errado, não o que surpreendentemente deu certo.

Eu não vi todas. Mas das que vi, é a pior. Porque se houve Copa pior pelo menos foi quando ainda era esperado que um craque pudesse resolver. Nessa, o destaque é o VAR, os craques se foram, os gols são quase todos de bola parada, pênalti ou contra. E há quem diga que está sendo uma puta Copa, que o Dembele é craque, que só brasileiro se joga e faz cera e que o futebol moderno é ótimo porque tem menos faltas, mais passes e intensidade.

Sendo o futebol o pai, esse filho russo que acaba de nascer já é uma das ovelhas negras da família.

abs,
RicaPerrone

Não é a zebra o problema

Não diminui um torneio que novos times cheguem as decisões. O que o diminui é a forma com que eles chegam e o que os levou até lá.

Quando a Nigéria avançou com Okosha, era jogando algo novo. Quando a Espanha chegou em 2010, foi sendo melhor que as outras. As zebras Romênia, Marrocos, Gana e tanta gente que já protagonizou uma Copa não estiveram ali para preencher tabela.

A Copa chega às semifinais sem nada novo na parte tática, sem os jogadores protagonistas, sem as seleções protagonistas, sem um jogador revelado em Copa, sem um time sensação, sem o xodó da torcida, sem um jogo de campeão de nenhum dos 4.

A Copa chega por exclusão aos 4 times.

É a Copa do VAR, dos laterais na área, dos gols contra, dos pênaltis e das bolas paradas. Ainda que emocionante porque o mata-mata faz qualquer coisa ser emocionante, o nível nunca foi tão contestável. E as defesas nunca levaram tanta facilidade para anular os ataques como em 2018.

Existem mil explicações pra isso. Mas a que realmente importa é a que convencer a FIFA a rever algumas coisas no futebol.

E insisto, não se trata da zebra. Nós sempre a adoramos. Mas sim o fato dela ser o que sobrou e não necessariamente o que surpreendeu.

abs,
RicaPerrone

O mais incontestável; o que mais errou

Tite é o melhor treinador que temos na América do Sul. Não há qualquer contestação sobre seu trabalho, qualidade ou seriedade. Mas as escolhas de Tite nessa Copa do Mundo foram parte responsável pelo futebol da seleção ter tido uma queda tão grande das Eliminatórias pra cá.

Foi incoerente ao trocar o Marquinhos do nada e bancar outros até o fim.  Se o Thiago Silva ganhou a posição em um treino, como que Jesus, William e Paulinho não perderam as suas em 4 jogos?

Porque mudou o time? Porque sucumbiu a convicção da imprensa e da torcida por Coutinho no meio? Perdeu poder de marcação, perdeu distribuição, altura e marcação. Perdeu o Paulinho na área. Perdeu muito do time que nos fez sonhar em troca de considerar fundamental um jogador que é muito bom, mas que não merece mudar um time todo.

Coutinho poderia ganhar a posição do William em 2 jogos. Bastava manter a convicção no trabalho que aconteceria naturalmente.

Quem era o reserva do Casemiro? Não havia nenhum volante ali de marcação tão forte quanto. O perdemos e perdemos com ele todo a cobertura dos meias do Brasil.

Renato Augusto era fundamental no time. Único jogador de articulação no meio. Perdeu a vaga, perdemos a alternativa e viramos um time dependente de um drible ou de um chute.

Jesus correu muito, mas não estava bem. O Firmino entrou algumas vezes com mais força e presença de área que ele.

Coisas que o Tite obviamente tem explicações pra ter feito, mas não concordo com elas.  O time das eliminatórias era ótimo, brilhante. NADA,  nem a vontade de ter Coutinho e William, justifica mexer nele.

O Tite abriu mão do que construiu e atrasou o processo da seleção na Copa. Fosse uma sequência natural do que vinha sendo feito, estaríamos jogando muito bem desde a estréia. A “nova evolução” do time se deve ao tanto que recuamos para refazer o sistema de jogo.

E não era preciso.

Mais 4 anos ao melhor treinador da América. O hexa vem será com ele por merecimento. Mas parte de não ter vindo agora é também por conta das mudanças do próprio Tite.

abs,
RicaPerrone

O jogo

Especificamente sobre o jogo da eliminação, o Brasil teve seu melhor da Copa em alguns momentos e a condenação dos erros em outro.

Não acho que jogou mal, nem passa perto de ter jogado menos que o adversário. Ao contrário, jogou muito melhor. Mas um gol contra e um contra-ataque deixaram o jogo perfeito pra Bélgica.

O que eles tinham era exatamente a idéia de fazer um gol e deixar o Brasil vulnerável pro contra-ataque. Fizemos o gol pra eles, abrimos espaço, cometemos um erro grotesco de marcação no segundo gol e não fizemos os gols que construímos.

A Bélgica não foi desleal, não fez cera demais, não deu pontapés. Apenas se defendeu e fez o que podia com as armas que tinha. Nós misturamos erros individuais com escolhas ruins do Tite e gols perdidos.

Não vou caçar bruxas. Isso é coisa de covarde. O Fernandinho jogou muito mal, mas ele joga na função do Casemiro? Não. Então faltou um “volantão” reserva na convocação.

O Coutinho fez outra partida horrível, tal qual a do México. Tiraram pra por o Renato? Não. Então…

Marcelo joga uma barbaridade, mas defensivamente sempre foi uma avenida. A cobertura dele no segundo gol é inacreditavelmente ruim.

Neymar não pode ser acusado de se acovardar. Pediu a bola o tempo todo e tentou. Mas não acertou.

Essa soma nos anulou. E mesmo assim tivemos chances claras de vencer o jogo. Somos melhores que a Bélgica, que todos os demais times da Copa. Mas em 90 minutos o “tudo pode acontecer”, aconteceu.

Por erros nossos sim. Mas tem outros fatores também. O Tite sequer seria o treinador não fossem 3 cm a mais nas luvas do Cássio há 6 anos. E hoje estaria classificado caso 5 cm pra lá e pra cá tivessem sido diferentes.

É do jogo. Esse time não saiu da Copa devendo esforço e seriedade. Saiu devendo um futebol bem jogado que lhes foi tirado por contusões, convicções do Tite e jornadas individuais ruins.

Perdemos todos. Porque concordamos todos com o que foi feito.

abs,
RicaPerrone

Entre a pureza e a burrice

Ah, Japão! Nem sempre a vida repete as chances e por isso você deve aproveita-las.  Hoje você era surpresa se ganhasse, mas não considero zebra porque isso cabe a times pequenos contra grandes e em campo não havia nenhuma seleção grande.

Embora a Bélgica tenha sim um time melhor e talentoso, ela tem a mesma representatividade no futebol que o Japão. Portanto, “zebra” é demais.

Inclusive porque nos 90 minutos vimos o Japão ser de fato melhor em boa parte do jogo. Fazer 2×0 com justiça, ter alguns contra-ataques a seu favor e sofrer um gol sem querer.

Mas dali pra frente vem a síndrome japonesa no futebol: conviver entre a burrice e a pureza.

A pureza é quando se tenta ganhar sem fazer uso de malandragem. Japonês não faz cera, não se joga, não prende a bola.  A burrice é tentar ir fazer um gol do meio da rua aos 49 minutos dando ao time adversário todo espaço para contra-atacar em seguida.

O gol da Bélgica foi lindo, mas bastante fácil de fazer. O Japão arriscou tudo, e convenhamos, não tem bala pra isso.

Vem a Bélgica. E sim, será um jogo diferente. A zebra que não sabe se fechar. Contra um Brasil que se defende bem demais. Mas que perdeu seu melhor marcador no meio.

E sim, eu acho sim que a Bélgica é “zebra” na Copa até que ela conquiste algo e deixe de ser. A Holanda nunca foi campeã e não é zebra. Se trata de constância, protagonismo, história. A Bélgica pode construir uma. Mas é fato: não tem.

abs,
RicaPerrone

Só mais um Silva

Os Silvas são os pessimistas mais felizes do mundo. Eles nunca acham que vai dar certo, mas ainda assim estão sorrindo e festejando mais do que os que tem certeza.

Os Silvas renegaram a Copa até a bola rolar. Quando rolou se derreteram por ela como sempre acontece. Os mais azedos da família vivem o desespero de, talvez, não poder dizer “eu avisei” no final. E não há nada mais trágico para um pessimista do que não poder ter razão.

Os Silvas se juntam, bebem, festejam e vestem a mesma cor. São toscamente desorganizados, a família que mais dá trabalho na vizinhança. Festas até tarde, condomínio atrasado, filho rebelde, estaciona onde não pode.

Mas é inegável que ali tem algo especial. Naquela casa pode estar o mundo caindo e lá estão eles sorrindo. Tão rindo de quê, afinal?

Na verdade nós, Gallardos, Jimenez, Hernanez, Rodriguez, Flores e Muñoz, morremos de inveja dos Silva.

Eles tem o mágico poder de ignorar um vazamento no meio da sala e continuar o jantar. Afinal, a comida está boa.  Ô vocação pra celebrar que esse povo tem!

E lá, na Russia, veja você, nada mudou. O mais rebelde dos Silva resolveu tudo. Caindo, rindo, debochando, levantando e trocando o objetivo pela farra.  Porque eles são assim. Não adianta brigar, tentar entender e menos ainda copiar.

Os Silva são foda. Começando pelo tal do Neymar da Silva Santos Júnior.

abs,
RicaPerrone

O futebol está errado

Todo esporte do mundo muda suas regras com o tempo procurando privilegiar sempre a qualidade técnica à defesa. Talvez o futebol seja, até, o único esporte do mundo onde a defesa ganha do ataque na enorme maioria das vezes, já que as investidas são constantes e os “gols” raros.

Ainda assim, pelo fator imprevisível, o amamos.

Só que o esporte é sustentado por ídolos. Pela idéia de ver seres humanos como nós fazendo o que nós jamais faríamos. E toda vez que diminuimos esse ponto o futebol perde valor.

Não é mentira que tínhamos 30 craques por Copa e hoje lutamos pra achar 5. Não é saudosismo, é apenas a constatação óbvia de que o futebol se tornou um jogo muito mais coletivo do que individual, e portanto os craques perderam o fator determinantes nos vencedores.

Só que cabe a FIFA manter o futebol atrativo e os ídolos privilegiados. Não equilibrar o jogo meramente pelas questões táticas, físicas e até dimensões de campos para beneficiar o menor. Nivelar por baixo jamais é uma boa idéia.

Os laterais viraram escanteios. Os campos são todos pequenos, os times correm mais, compactam mais e tem uma enorme facilidade de anular um time com talentos individuais.

O coletivo é a arma do futebol atual. E o coletivo não é forte em seleção alguma, simplesmente porque trata-se de um time de pouco treino, formado rapidamente e que não goza do mesmo preparo para encarar defesas bem armadas.

Ao contrário dos ataques, armar defesas não é tão complicado.

O futebol hoje privilegia o grandão, o forte, o veloz, o tático, e por último o craque. A Copa é apenas a representação final disso tudo.

Em mais de 2 semanas de Copa tivemos raríssimos grandes jogos. E note, fácil: os grandes jogos foram onde seleções de patamar semelhante atuaram. Porque? Porque nenhuma delas pode propor apenas se defender. E então temos um  jogo.

Os craques estão decidindo contra times grandes, não contra os nanicos. Porque pra decidir é preciso poder jogar. O futebol está privilegiando o lado errado.

Eu e nem ninguém prefere um jogo intenso e corrido onde um time massacra o outro tentando jogar e o outro tentando evitar. Todo mundo quer ver um jogo onde quem JOGA mais tem vantagem sobre quem tenta não jogar.

Não é o que está acontecendo. Talvez seja hora de rever alguns conceitos mais profundos e antigos do futebol.

São mil alternativas. Mas elas precisam parar de dar vantagem a quem não quer jogar futebol. Especialmente porque não sabe.

abs,
RicaPerrone

O futebol precisa do Uruguai

Existem times brilhantes, seleções que carregam multidões, zebras, favoritos e o Uruguai. Nada é igual ao Uruguai. Ninguém tem mais orgulho da luta do que da qualidade, ou ostenta tanto orgulho mesmo diante de tantos fracassos.

A América do Sul tem características incrivelmente diferentes de país pra país. Vai da pureza colombiana ao mau caratismo argentino, passando pelo talento brasileiro e a fragilidade peruana. Você vai achar na África ou na Europa alguém que jogue como o Chile.

Vai encontrar uma condição de não protagonismo ainda que grandiosa também numa Inglaterra. Vai achar quase tudo, menos a combinação sem igual de história, amor pelo futebol, identidade e luta como tem o Uruguai.

O conceito de rivais que respeitamos é definido aqui. Basta olhar pra o que eles já nos fizeram, como fizeram e ver que nós apenas rivalizamos com eles. Sem repulsa.

Chama-se respeito.

Eu costumo dizer isso sobre o Fla-Flu. Os demais cariocas tem relação de superioridade, inferioridade, deboche, ódio, mas de respeito, o Fla-Flu sobra. Os dois se olham de frente, não cantam vitória de véspera e sabem que, seja qual for a condição, ali há algo que lhe desequilibra.

O Uruguai é nosso freguês sim. Mas é aquele cara que você bate porque precisa, porque se pudesse apertaria a mão dele.

Portugal não é um time ruim. Pelo contrário.

O Uruguai é daqueles times que dão sentido à Copa. Portugal participa dela as vezes.

abs,
RicaPerrone

Futebol para maiores

Futebol tem que estar nas pessoas para que possam acompanha-lo.  Para que possam trabalhar com ele e leva-lo ao torcedor, é preciso mais ainda.  O problema é que existem diversas formas de ter o futebol em você.

Alguns tem no cérebro. Analisam, ponderam, criticam, estudam e nada sentem. A estes, o churrasco é apenas um almoço. A vida é só um protocolo.

Outros tem no diploma. Outros na memória.  Mas só respeito quem tem futebol na veia.

E esses não discutem a importancia de uma rivalidade, o prazer ao “ódio” pelo adversário,  a alegria do deboche, a torcida contra, o lado certo e errado e tudo que envolve uma partida, um campeonato ou um clube.

Futebol não tem explicação. E todo mundo que tenta explica-lo é porque não o entendeu. E se não o entendeu, como discute sobre ele?

A Argentina é nosso combustível de adoração à seleção. Como o Vasco pro Flamengo, o Corinthians pro Palmeiras. É necessário e fundamental.  Ignorar ou renegar isso não me soa como posição, mas sim burrice.  É como dizer ao turista que dentro do Mickey há um anão chinês e não um rato falante.

Deixa o rato falar. É por isso que pagamos para ir a Disney.

Nós sabemos que é só futebol, que a carne deles é boa, que Buenos Aires é legal, que fora do futebol não há nada disso. Mas é absolutamente fundamental que a gente finja que não sabe para que o futebol possa correr na veia e não subir pro cérebro.

Lá, ele morre.

Deixa ele onde deve estar. E chupa, Argentina!

Até a Copa América, onde lhe perseguirei dedicadamente da estréia a óbvia eliminação. Porque eu amo futebol, logo, te odeio.

abs,
RicaPerrone