Copa do Mundo

Nosso futebol, nossos meninos

Talvez a imagem da derrota no fim seja para alguns uma mensagem de que “erramos” e por isso perdemos o jogo.  A derrota de ontem, pra mim, não diz nada. O fato de termos ficado tristes e não putos com ela no final diz.

O treinador chegou ontem, não fez nenhum milagre tático. Mas deve ter dado, em algum momento, liberdade para estes garotos serem brasileiros.

Do primeiro ao último minuto, a bola era nossa. Quando nos pés, dançamos, driblamos, apostamos na qualidade. Quando sem ela, fomos busca-la.  Mas o tempo todo fomos “Brasil”. O dono do espetáculo. O protagonista. O talentoso. O imarcável.

A bola as vezes entra, as vezes não. É a graça do futebol.

Ontem não quis entrar. Pouco importa. Mais do que Jesus, Andreas, Jorge e Marlon, fomos dormir sabendo que, de amarelo, no talento, sem copiar ninguém, ainda somos os donos do jogo.

Basta querer e entender isso.

Obrigado, meninos! Nós estamos tristes, não putos e nem com raiva. E isso é um troféu que raros times não vencedores conseguiram levar.

abs,
RicaPerrone

A Copa no Metrô

De todos os lugares que visitei nesta Copa, nenhum me encantou mais do que estar no Metrô do Rio de Janeiro.

Jogo a jogo trocavam as cores daquela multidão que pela primeira vez lotava um vagão sorrindo e não atrasado pro trabalho ou cansado dele.

Entre diversos gringos que não entendiam muito bem o que fazer havia sempre uma duzia de brasileiros sorrindo dispostos a ajudar.

De graça para quem tinha ingresso, com os feriados pelos jogos, aquilo virava uma “Fan Fest” móvel que era embalada pela mistura de músicas que não entendíamos a letra, com gritos de “Brasil!” no meio do nada e o anuncio da estação Maracanã feito narração de gol pelo Penido.

Não havia um ser humano de mau humor naqueles vagões durante a Copa.

Foi muito divertido.

Os 30 dias mais incríveis de um país, eu arrisco dizer.

Nunca mais vou pegar aquele metrô sem lembrar de cada camisa de seleção que vi ali dentro. Espanha, Chile, Alemanha, França, Russia, Bósnia.  Agora, de volta, Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo. Que aliás, nem saíram de moda.  Durante a Copa transitavam por ali misturados pela euforia de amar apenas o futebol.

O Metrô do Rio volta a seu ritmo normal. Mas sabendo que foi o caminho oficial entre o sonho e a realização dele para milhares de torcedores do mundo todo, tem como olhar pra ele como antes?

abs,
RicaPerrone

A Copa no Metrô

Era domingo, dia da final. Por volta das 13h o metrô já recebia aquela multidão que partia em direção ao estádio especialmente de azul e branco.

Embarcamos na Del Castilho e os argentinos começaram a cantar e provocar brasileiros nos vagões.  Pulavam, batiam nas paredes, tentavam de qualquer forma nos tirar do sério.

Até que na estação seguinte entra um negro de cabelos longos com um violão nas mãos. Ele pára, diz que vai cantar pra nós, e começa a tocar Milton Nascimento.

Num épico momento inimaginável em qualquer outro ambiente ou momento deste país, os brasileiros começaram a cantar com ele e o tom da música dos argentinos foi baixando, baixando, até se calar.

Em menos de 1 minuto Milton Nascimento calava um enorme grupo de argentinos que até chegaram a acompanhar o ritmo batendo nas cadeiras.

Era nosso jeitinho simpático de quebrar até a marra de quem nos provoca.

E assim fomos, ao som de Milton, Gil, Caetano e Djavan até o Maracanã.

Na saída, sugeri mais Milton  Nascimento. Mas acharam que seria provocativo se puxassemos:

“Solto a voz nas estradas, já não quero parar
Meu caminho é de pedras, como posso sonhar
sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar”.

abs,
RicaPerrone

#SomosTodosCambistas

Eu tenho muitas ressalvas quando um grupo de brasileiros reclama dos nossos governantes. Não porque discordo deles, mas porque normalmente duvido que eles tenham sido eleitos por qualquer motivo que não a mera semelhança com seus eleitores.

A Copa chegou. Era tudo mentira que ia dar errado, que seria o caos nos aeroportos, etc, etc, etc. Como sempre, pra reclamar, mentimos por esporte. Mas pra olhar pros nossos próprios erros, sorrimos malandramente com orgulho de levar vantagem.

Quantas vezes você leu ou ouviu alguém reclamar do absurdo que é ter que pagar o dobro ou triplo para ver um show ou evento esportivo qualquer nas mãos de um cambista?

Pois é.

A Copa chegou, deram nas mãos da classe média alta brasileira milhares de bilhetes de 250 reais que, no mercado paralelo, ilegal, como cambistas que tanto reclamam, poderia valer até 3 mil reais.

E desde então sabemos qual o preço da nossa hipocrisia.  Por este valor, convenhamos, não dá pra recusar.  E assim seguimos, olhando em volta e vendo quase todos os nossos amigos fazendo exatamente o que reclamamos durante a vida toda.

Revendendo mais caro pra tirar vantagem.

E aí? Somos todos cambistas?

Sim. Quase todos. Basta uma oportunidade para mostrarmos que não estão eleitos por acaso.  Nossa diferença pra eles talvez seja a falta oportunidades para “se dar bem”. Pois quando surge, estou pra ver quem recusa.

Amigos ganhando dinheiro em cima de amigos. Sob o argumento de que tem que pagar mais caro porque só tem o jogo que querem nas mãos de outros cambistas.  Lógico, quase justo.

Daquela linha de roubar acessório de carro semelhante ao seu pra repor o que te roubaram.

No final, dá no mesmo.

Adianta viver pedindo pra mudar o saco se a farinha é a mesma?

abs,
RicaPerrone

Os oito

Oito classificados para as quartas de final. Curiosamente os primeiros de seus grupos na fase inicial.

Comparei os números totais dos jogos de oitavas de cada um deles, claro que ponderando que alguns foram a prorrogação, outros não. Ainda assim, dá pra tirar alguma coisa.

Se não der, adicionei o mapa de calor dos times em suas partidas nas oitavas.  Todos dados exclusivos da OptaSports.

Mapas de calor:

Reconsiderando atuações

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Quando terminou o Brasil x México eu não entendi bem o que o Felipão queria dizer com “evolução”. Pra mim o time havia jogado mal e mesmo sob os milagres do goleiro adversário, tínhamos que ter feito mais do que aquilo.

Essa maldita mentalidade de achar que jogamos contra cones nos trai o tempo todo. Foi preciso a Holanda, até então “o time da copa”, quase perder e ser dominada pelo México para entendermos que não empatamos com um bêbado.

Na real, deixamos de sofrer 90% dos sustos que a Holanda sofreu. E se foi isso que Felipão teve como meta, em troca de achar um gol na frente, conseguiu. A bola não entrou por detalhe, a deles, por falta de chances.

A Holanda tem uma coisa que me agrada muito. Ela perde, perde, perde e não muda seu jeito de jogar. Isso é personalidade, o que aliás nos faltou quando “vendemos” nossa alma pro 1×0 de bola parada desde agosto de 1982.

O futebol corrige ao longo do tempo todas as injustiças que comete. E não são poucas.

A maior delas, no entanto, ainda está pra ser corrigida. Talvez seja agora, talvez mais pra frente. Mas a Holanda é o maior time do mundo que não ganha nada.

É maior que Uruguai, Inglaterra, França, Espanha e Argentina. Toda Copa revela jogadores, tem seleções marcantes e não consegue o “maldito” título por detalhes do futebol.

Torço pra Holanda pela dignidade de saber que caso não possamos sair desta Copa com a taça, que ela vá pra quem merece e de fato joga futebol.

O México criou uma seleção de futebol com a única intenção de encher o saco da seleção brasileira. E faz muito bem o que se propôs.

Já tá feito. Pode voltar pra casa.

abs,
RicaPerrone

A Copa no Metrô

Era uma tarde comum no Rio de janeiro não fosse a presença ilustre de milhares de franceses e equatorianos.   Se de um lado era um festival de “Si, se puede”, sabendo que não poderiam, do outro era só euforia pelas oitavas, já sabendo que seria a Nigéria o próximo alvo.

“Allez les blue” pra lá e pra cá, franceses cheios de camisas do Zidane.

Eu não costumo me incomodar com isso, mas é quase como um poster do ex namorado da sua esposa na sala de casa. A imagem não te faz nada, mas irrita.

Ao contrário de outros tantos, os franceses parecem saber o mal que já nos fizeram e nem por isso se consideram maiores. Tem respeito pelo nosso futebol e muita admiração.

Na volta do estádio, após jogo mediocre terminado em 0 a 0, um grupo de franceses falava sobre Neymar. Ao lado deles, me intrometi num meio português/espanhol/sinais com a mão/ingles  e consegui lhes dizer que ele veio do Santos, time de Pelé.

Continuamos.  Conversei com eles por 3 estações até chegar a Del Castilho, nosso destino.  Eles entendiam, perguntavam, eu respondia.  Foi de Neymar a Copa de 98, onde fiz cara de “evitem o tema”.

Simpáticos, iam se despedindo na saída do metrô quando um deles disse: “Valeu, irmão”.

Me virei calmamente, após 20 minutos de tentativas de dialogar com os franceses, e perguntei:

– Você é brasileiro, irmão?
– Não. Sou frances. Mas venho sempre ao Brasil.
– Porra, e porque você não me ajudou a traduzir o papo?
– Desculpa, amigo. É que eu prometi pra eles que o brasileiro fazia qualquer esforço pra ser simpático. Eles precisavam ter a prova.

Eu não sabia bem se xingava o francês ou se achava genial.  Mas diante dos outros 4 rindo e tirando fotos com brasileiros que saiam do metrô cantando “mengo”, acho que entendi.

E fui pra casa sem lembrar de Zidane, Platini e Henry.

abs,
RicaPerrone

Quando éramos bobos

“Se lembra quando a gente
Chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre
Sem saber que o pra sempre sempre acaba…”

E o tempo passou e nos tornamos mais bem informados, menos sonhadores, mais realistas e, portanto, menos bobos.

Sabemos hoje o que não sabíamos e por isso não perdemos horas com o que não importa. Nossa vida é prática, curta, otimizada.

Quando eu era garoto sonhava que futebol era perfeito. Descobri que não e hoje vejo garotinhos de 10 anos contestando o salário de um craque tanto quanto se preparando pra Copa sem o pudor de estar fazendo papel de bobo.

Fui bobo quando acreditei em Papai Noel e deixar de acreditar nele foi a maior bobagem da minha infância.

Somos mais maduros, não caímos em qualquer coisa. Não acreditamos mais em propaganda de margarina, nem no ufanismo do Galvão. Quando falam em “pátria de chuteiras”, ironizamos e remetemos a um passado não tão lúcido.

Crescemos. E agora nossos garotos sabem a verdade, não perdem tempo com ídolos tolos ou com clubes que ganham milhões enquanto você se mata em frente a uma tv.

Nós não ensinamos mais os nossos filhos que tudo aquilo é de verdade porque eles já crescem sabendo que não é. Alguém na tv já lhes tirou o Coelho da Páscoa antes mesmo dele poder curti-lo.

Melhor assim, dizem. O garoto está mais inteligente, menos manipulado. Pronto pra dura vida que lhe espera.

Dura realidade onde a verdade está sempre colocada acima do sonho. Onde não acreditamos em mais nada e nem em ninguém.

Papai Noel sem barba, fadas do dente que não voam e uma Copa que remete a dinheiro, política e discursos sobre engajamento.

Éramos bobos, mas éramos tão felizes.

Bobagem. Somos agora mais preparados e não aceitamos qualquer coisa. Para nos fazer feliz, hoje, não basta um super herói fantasiado numa festa qualquer. Eu sei que ali tem um ator.

E quem dera não pudesse saber. Pois se pudesse, voltaria no tempo e apagaria todas as verdades que aprendi em troca dos sonhos que deixei de ter.

Nada pode ser pior ao ser humano do que o pragmatismo.

Hoje andei pela cidade. A seleção está firme e forte na briga pelo título, ainda invicta e favorita. Mas o sonho acabou.

Até porque o hexa não é um sonho. O que tem em torno dele, seria.

Peço desculpas aos filhos que ainda não tive. Mas eles não vão sonhar o que eu sonhei. Por outro lado, carregarão o peso da verdade desde cedo, sem poder acreditar no impossível, nem mesmo no delirante desejo de que tudo vai dar certo sempre.

Que merda de troca fizemos.

abs,
RicaPerrone

Perto da final (Itália 2×1 Inglaterra)

Das 17 Copas que a Itália disputou, terminou 12 na final ou na primeira fase.  É disparado a maior “deixou chegar, fodeu” do mundo.  E hoje, no primeiro dos dois duelos que devem definir sua classificação, fez 3 pontos, deixou 2 para se matarem na semana que vem e ficou perto da vaga.

Por lógica, coerência, história e responsabilidade jornalística, devemos dizer que Brasil e Alemanha disputam a outra vaga na final.

Enquanto isso, Inglaterra e Uruguai disputam um último balão de oxigênio que estará disponível na Arena Corinthians na próxima quinta-feira, feriado, palco da primeira grande guerra sem aspas da Copa.

É vencer ou vencer. Especialmente pro Uruguai, que sabe que na rodada seguinte terá a Itália enquanto a Inglaterra pega a Costa Rica.

Tudo vale. Saldo, gols pró. Tudo!

Neste sábado o jogo mais esperado da primeira fase não decepcionou. Ao contrário, Itália e Inglaterra estão tão contaminados quanto os demais pelo ar brasileiro e jogaram no chão, sem bico, retranca e cruzamentos.

Os dois armadores são volantes, num curioso dado que pode explicar muita coisa no futebol moderno.

Mas serviu para adiantarmos o serviço. Salva alguma grande zebra, a Itália é a primeira finalista da Copa de 2014.

O exclusivo mapa que determina estatisticamente a posição de cada jogador em campo pela OptaSports:

abs,
RicaPerrone