coronavirus

Sem você não dá


Nunca aconteceu de ficarmos sem futebol. Não se engane. O período de férias convencional sempre foi o da janela de transferências, que normalmente movimenta o futebol tanto quanto os jogos em si.

Pela primeira vez na história, ou desde que nasci, o futebol de fato parou.

Ninguém treina, ninguém se reune. Ninguém discute. Não tem gol. Ninguém vende, ninguém compra.

Talvez seja o exato momento onde conseguimos dimensionar o tamanho disso em nossas vidas. Seu domingo lhe parece domingo? O meu não.

Sua quarta-feira a noite faz algum sentido?

Quando e se você se encontrar com os amigos, não lhes falta a primeira frase que era invariavelmente sobre futebol?

Cadê a ansiedade da manhã do dia do jogo? Aquele jornalista que eu odeio dizendo o que eu não acho sobre o pênalti que não foi?

Estamos diante de um momento onde colorados e gremistas se olham com compreensão. Onde flamenguistas e vascaínos querem a mesma coisa. Momento em que nós, que vivemos futebol, tentamos compreender o mundo lá fora.

Então é assim que vocês vivem sem ele?

Surpreendente. Que merda de vida.

Seguimos te esperando. Tudo é muito difícil. A saudades dos pais, o medo da doença, a falta de dinheiro, a crise mundial. Mas encarar qualquer dificuldade sem você é a primeira vez.

E que não se repita. Porque você é de fato a coisa mais importante entre as que menos importam nas nossas vidas.

RicaPerrone

Humildade na era do “eu acho”

A gente acha tudo sobre tudo. E pior: em segundos.

As redes sociais nos impulsionam pra uma dose de arrogância sem perceber já que somos adaptados a responder rapidamente o que achamos sobre coisas que sequer deveriamos achar alguma coisa.

Hoje discute-se a quarentena. E eu lhes digo: “não sei”.

Essa é a resposta que 99,9% da população deveria dar, embora na internet este mesmo percentual esteja avaliando os infectologistas, a OMS, as discussões técnicas e complexas como se estivéssemos na padaria resolvendo levar pão frances ou bisnagas.

Humildade é, por definição, virtude caracterizada pela consciência das próprias limitações; modéstia, simplicidade.

Método lógico pra vida funcionar: Alguém aqui sabe algo de virus?
Não.

Alguém aqui já esteve lidando com uma pandemia?
Não.

Alguém estudou o suficiente pra entender os impactos reais disso?.
Não.

Imagine a cena: 30 infectologistas premiados numa sala discutindo o que fazer pra diminuir o impacto global. Na sala ao lado conferência entre os líderes dos países, ministros da economia, inteligência dos EUA, países europeus, todos juntos tentando encontrar uma saída.

E você na porta, formado em, sei lá, engenharia. Ou sendo caixa de banco, jornalista. Tanto faz. Gritando: “Eu acho que não! Você estão loucos! Me ouçam”.

Não te soa meio estúpida a cena?

Então, sugestão: humildade. Deixa quem estudou infectologia discutir com quem sabe muito de economia, com quem tem poder de argumentação em nível global e eles chegam no que devemos fazer.

Democracia é o direito a falar qualquer merda. Sobrepor quem se preparou pra algo não é democracia, é apenas burrice e arrogância.

Não estamos discutindo humanas, religião, valores morais ou costumes. É ciência.

Respeite-a.

RicaPerrone

Bad news, John!

Imagine um mundo melhor. Mais humano, mais justo, menos dividido e mais feliz. John imaginou e fez de sua idéia um hino. Um hino aclamado pelos mesmos hipócritas que jamais farão desde mundo sequer um pouco melhor, imagine o idealizado por John.

Ontem na França um médico deu uma entrevista sugerindo que algumas experiências para a cura do Coronavirus fossem feitas na África, já que “as pessoas não usam máscaras nem tratamentos de reanimação. Isso acontece em casos de Aids, onde prostitutas são usadas para testar certas coisas, porque sabem que estão muito expostas e não têm proteção”, disse o doutor.

Alguma surpresa? Drogba e Etoo, africanos, responderam se sentindo ofendidos. Disseram não ser cobaias por serem pobres ou negros e, com razão, se revoltaram.

Saiu uma notinha. Uns RTs no twitter. E nenhum espanto na França, na Europa em si.  O que tem de tão absurdo em sugerir que pobres sejam cobaias dos ricos em 2020 em rede nacional, não é mesmo?

Toda Copa do Mundo as pessoas me perguntam porque eu odeio a Argentina. E eu explico, toda vez, que esportivamente são nojentos. Desleais. Nos eliminaram de duas Copas roubando. Acham graça. Eu não acho. Não foi um erro desportivo do juiz. Foi a compra de um adversário e o doping de jogadores adversários.

Lá, o “macaco” é comum. Sai no jornal,  é dito na tv.  Melhorou, mas há pouco mais de 2 meses havia manifestação racista no estádio sem qualquer espanto ou rejeição em torno do idiota.

Mande um jornal brasileiro chamar um negro de macaco e você verá que, minimamente, causa revolta e rejeição. Em alguns países é normal. Cultural. E em respeito a maioria negra do meu país me recuso a achar que não exista, mas me recuso ainda mais a tratar com naturalidade.

Separe o “macaco!” do penalti no final do jogo do “macaco” dito serenamente no dia a dia, por favor. O calor de um momento faz você dizer coisas horríveis, ameaçar pessoas com “vou te matar!”, e nem uma mosca você mata. O “macaco” cultural, do dia a dia, sem espanto, é o mais absurdo.

O teste na África por ter menos condições nem sei se posso chamar de racismo. Mas de discriminação pela classe social, no mínimo.

Que mundo é esse onde torcem contra um remédio pra ter razão? Que planeta melhor podemos imaginar se entre ajudar quem precisa e usa-los de cobaia a segunda opção não causa sequer espanto?

John, meu caro, não rolou. E nem vai rolar.

RicaPerrone

Não seja um petista contra o PT

O PT saiu. Está fraco, quase morto. Quem não é petista passou uma vida contestando a necessidade daquela gente em ser fiel a um partido ou a um líder mesmo diante dos erros mais evidentes.

Sim, é diferente. Qualquer coisa é diferente do maior esquema de corrupção ja descoberto. Mas ainda que seja, não torna inquestionável.

Defender o indefensável não o torna fiel. O torna tão cego quanto aquele petista, mas agora de outro lado.

Eleger Bolsonaro foi uma decisão da maioria pelos mais evidentes motivos do planeta. E não, seus constantes erros não levam muita gente a pensar que manter o poder nas mãos de um condenado pudesse ser moralmente mais aceitável. Simplesmente porque não é.

Mas defender ou fechar os olhos pros erros desse ou daquele governo porque um dia você depositou seu voto nele não o torna um fiel escudeiro ou um grande guerreiro. Apenas um militante cego, igual a aquele que sempre contestou.

Bolsonaro erra. Erra muito. E se em torno dele e formar a mesma torcida organizada que fez do PT o lado fixo em toda eleição, teremos um país com 2 líderes alternando que não vão demorar muito pra perceber isso e fazer um belo acordo.

Oposição por oposição acho covardia. Perseguição ainda mais baixo. Mas procurar algo 100% bom ou 100% ruim é idiotice. Não há.

Bolsonaro fez escolhas técnicas e muito boas. O país começou a reagir. E no momento em que ele desautoriza seu próprio critério técnico e faz deboche com o maior drama que o mundo viveu nos últimos anos, se torna sim merecedor de críticas.

Se não por discordar dele, pela forma incoerente de agir. Goste ou não ele representa o Brasil. Mas ele ainda está em campanha, fazendo discursos tolos como o de hoje onde diz que tem que encarar o virus feito homem, por isso nas ruas.  Faça-me o favor, presidente.

Um governo que tem sua credibilidade técnica fundamentada em ministro de alta qualificação deveria saber o quanto está nas mãos deles. Era só confiar na própria escolha e ficar mudo. Não, vamos causar tumulto.

Quem ganha? O que ganha?

Não importa se você concorda com a tese dele. Talvez até eu concorde. Mas a posição pública contra um ministro competente e a ameaça de  “decretar” uma desautorização à sua indicação dá à mídia tudo que ela quer, e comprova a parte da oposição a imagem criada de autoritarismo.

Em miúdos, burrice. Zero benefício. Só arma pra oposição. País dividido. Ninguém em direção alguma.

Votei. Contra o PT, votaria de novo. Acho imoral colocar na mesma prateleira um assalto de bilhões aos cofres públicos com uma dose de incoerência, machismo, ignorância e alguma homofobia.

Ser burro não é crime. Embora a falta de responsabilidade durante a Pandemia possa lhe custar muito mais caro. Seja daqui 3 anos, seja daqui a pouco com mais um governo que não chega ao fim no Brasil.

Seja como for, critique. Elogie. Só não se torne um petista de direita. Um PT a gente aguentou, dois, não tem quem sobreviva.

RicaPerrone

Carta ao Flamengo

Flamengo, meu caro Flamengo;

De tanto te defender levei fama de te amar. Durante décadas acreditei que sua glória era lutar, que sua grandeza era ser o povo e sua graça ser imprevisível.

“Um dia eles se organizam e aí, fudeu!”.

Quem não disse ou ouviu essa frase? E aconteceu.  Foram anos pra que se tornasse real, mas aconteceu.

O homem que liderou o clube no processo que o levou até o atual status sequer foi convidado para um “obrigado” na hora das conquistas.  Tudo bem, politicagem é foda. A gente entende e o torcedor corrigiu o ato egoísta no próprio estádio em Lima.

Os seus torcedores, em maioria pobres, com sonhos, condições e expectativas semelhantes aos meninos do ninho já não se sentem confortáveis com tanta estima por dinheiro apenas.

Das arquibancadas, sumiram. Hoje só se você tiver financeiramente em “outro patamar”.  Na hora de clamar pelos 40 milhões e vender a marca, fundamentais. Quando pra inclui-los, pague quem puder e que se dane o povo, o DNA, a “nossa gente”.

Flamengo, Flamengo… rico que esquece de onde veio acaba voltando.

Na mesa da CBF, diante de quem já fez o que com enorme atraso hoje você merecidamente conquista, esnobação e soberba.  “Somos o único que…”. E voto vencido.

Na FERJ, chegou falando em dinheiro com o mundo em pânico clamando por saúde. A noite, teste positivo do seu treinador.

Nem assim, com a vida dando sinais?

É fácil “saber tudo” quando se herda o trabalho quase pronto. É mole botar a cereja e vender o bolo, mesmo que você tenha ajudado a escrever a receita.

Querem vender pro torcedor que o Flamengo está brigando contra tudo e todos como vítima.  Na real o que está havendo nos bastidores do futebol é um clube tentando jogar sozinho, vender treino, ignorar todos os rivais, viver de títulos fáceis e destruir o produto que o sustenta em pé.

Não sou eu. São os clubes, as competições, a TV, os demais dirigentes e até parte dos rubro-negros não hipnotizados que estão assustados com tamanha soberba.

As faculdades de administração que ostentam os dirigentes do clube não ensinam a gerir paixão e sim negócios. Talvez aí esteja a falha brutal.

Um Flamengo que beira a perfeição no futebol.  Que patina na própria arrogância fora de campo.

Mengão, olha só.

Tua grandeza está em quem você carrega, não no caneco que você levanta.  Tua empatia com essa gente está em identificação, não em saldo bancário.

Tua glória não é lutar. É representar a luta. Representar sua gente que auto proclama-se favelada.

Favelado quer sair da favela mas não quer esnobar quem ficou.

Favelado tem orgulho de onde veio.

Favelado não deixa os outros na mão.

Favelado quando fica rico não humilha pobre nem esquece de quem ajudou na dificuldade.

Favelado se diz “comunidade”. E comunidade é um todo, não a idéia do bem estar de um só em troca da destruição alheia.

Favelado é Flamengo. E o Flamengo, ainda é favela?

Dá pra ser vencedor sem ser odiado. Dá pra ser referência sem pisar nos outros. Dá pra ser minimamente inteligente em vender suas glórias como glórias e não obrigação.

Não é inveja do mundo pelo resultado. Todos os outros já os tiveram, inclusive mais vezes e antes de ti. Mas saber perder é fácil. Duro é saber ganhar.

Contra tudo e todos, não há outra alternativa se não perder. Sem todos, você não existe. Logo, contra todos, você não tem como vencer.

Há um bolo pra ser repartido e esse bolo é pequeno. Você pode tentar aumentar o bolo coletivamente ou tentar ter a maior fatia de um bolo cada vez menor.

Se és tão grande, seja a locomotiva do futebol brasileiro, não o trem descarrilhado.

RicaPerrone