gabriel

O reencontro

O Maracanã está para o Flamengo como qualquer estádio particular está para seu dono no mundo todo. A idéia de um estádio de todos é bastante contestável toda vez que o Flamengo entra em campo.

Diria que se os dois pudessem falar, implorariam aos dirigentes para jamais sequer sugerirem a idéia de um outro estádio.  Complementares, parte de uma mesma história.

Hoje o camisa 10 fez de falta. Colocou com a mão, devagarinho, sem defesa. A massa rubro-negra explodia a sua volta e ele corria com o punho direito fechado.

Ah, quem não pensou no passado quando viu essa foto?

Passado brilhante, passado vivido neste palco, e hoje, especificamente, rodo passado no tal de San Lorenzo.

Foram só 45 minutos. Bastou. O Maracanã precisava deste jogo mais do que o Flamengo precisava dos 3 pontos. E os dois aconteceram sob a benção da torcida que já era confiante, agora é quase delirante.

Se hoje o bi era dúvida, agora é questão de data.  O rubro-negro bipolar megalomaníaco que ontem discutia estádio próprio quer o Maracanã. E o time que domingo gerou dúvidas já gera euforia.

O único que nunca mudou de idéia nesta relação é o Maracanã. Este nunca sequer cogitou viver sem ti, Flamengo. Não abandone-o. Vocês são menos quando longe um do outro.

abs,
RicaPerrone

Aê, Jesus!

O moleque! Deixa eu te dar um papo.  Eu não sou religioso, de modo que talvez essa seja minha primeira conversa com um “Jesus”.  Assim sendo, considere-se especial por me cativar a fazer isso.

Eu sei que você tá ansioso, que tudo na sua vida é absurdo. Você é um “pivete”, ta com a 9 da seleção, tá rico, indo pra Europa a pedido do técnico mais badalado do mundo e acaba de deixar o Allianz Parque sendo o nome mais forte da conquista.

Eu sei o que você está vivendo sem ter a menor idéia do que é viver isso.  Mas sei uma coisa que você ainda não sabe, e que o tempo vai te mostrar.  Antes de entrar naquele avião, saiba que hoje você viveu algo que dificilmente se repetirá.   Não foi o maior dia da sua vida porque você será hexa pela seleção numa Copa e nada vai superar isso.  Mas não será igual.

Um estádio cheio de gente que realmente vive essa “merda”, que de fato dá tudo que pode por isso e que “canta  e vibra” dessa maneira, lá tu não vai encontrar. Talvez, sendo você o craque que esperamos, você nem chegue a voltar. E assim sendo, hoje foi a última vez que você viu um estádio de futebol lotado de torcida.

A partir de agora conviverá com “fãs de futebol”, que tem todo seu mercado e valor, mas não são como o que você viveu aqui. Amanhã você jogará pra investidores, hoje joga por uma história.  Nos próximos anos, se cumprir seu contrato, essa será a maior camisa que você vestiu em clubes.

Eu também iria. Te entendo.  É um dinheirão, um time pequeno que tá buscando espaço, vai te dar mídia e o campeonato dos caras é muito maneiro.  Mas aê, moleque! Igual hoje… não mais.

O City vai te dar muito dinheiro e fama instantânea, embora a 9 do Brasil já tenha te dado isso em doses cavalares.  Mas o que o Palmeiras te deu hoje você não terá de novo.  A chance de ser mais do que rico e famoso. Ele te deu um nome na história das vidas de milhões de pessoas.

Vá com Deus, guarde com carinho e NUNCA cometa o erro que muitos cometem de achar que você deu um título ao Palmeiras.  Foi ele quem te deu o futebol, não o contrário.

Parabéns! Seja muito feliz. E não seja tão “profissional”.  O futebol não ama profissionais. Ama jogadores de futebol. Seja o Jesus do Palmeiras pra sua vida toda e terá vivido hoje o maior dia da sua vida.

abs,
RicaPerrone

Quando a regra não é clara

Eu não quero levar a partida para a arbitragem, se é isso que o título lhe sugere.  Sobre os pênaltis, discutíveis, eu não daria nenhum deles. Mas a regra que realmente quero discutir é outra.

Gabriel tem 19 anos.  Esse menino joga sua primeira grande decisão como protagonista titular de um grande clube ao vivo para todo país. Aos 5 minutos de jogo o Santos tem um pênalti, ele pega a bola e vai cobrar.

O gol do Gabriel poderia abrir caminho para a tal vitória fácil que previam do Santos sobre o Palmeiras. Mas ele perde. A trave o leva do céu ao inferno e, candidato a herói, no momento, é o grande vilão em caso de derrota.

Esse menino joga o restante da partida tendo que absorver tudo isso e tentar compensar de alguma forma seu erro. Já no fim do jogo ele marca um golaço e dá ao seu time a vitória que encaminha para um título ainda indefinido.

Gabriel então perde a razão, o controle e tira a camisa.  Ele grita, se bate, olha pra torcida, pro céu, agradece, não sabe nem pra que lado correr.  E ao final deste memorável momento que faz do futebol a nossa estranha loucura, ele é punido.

Eu sei. Vai ter alguém que dirá que “o patrocinador, blá blá blá…”.  Mas é realmente passível de punição por regra que o descontrole emocional após ser o autor de um gol decisivo seja um erro?

Você realmente gostaria de futebol tanto quanto gosta se o garoto fosse até a grade e desse um soquinho no ar já caminhando pro meio campo?  O quanto você se identificou com a perda de controle dele, a euforia e a vontade de correr pra todos os lados ao mesmo tempo?

Em 2006 Tinga foi expulso porque tirou a camisa quando fez o gol mais importante da história do clube.  Como prêmio ele viu o jogo terminar fora do gramado.

Eu não contesto os argumentos sobre patrocinadores e conduta.  Contesto o real significado do futebol e de se realmente o patrocinador prefere ficar na pele de um profissional frio e calculista do que voar das mãos  de um herói de título.

Eu ia querer voar.

abs,
RicaPerrone

O sonho continua

Se a meta era G4, o Flamengo chegou a atingi-la. Quando “dobrou a meta”, se perdeu um pouco e entendeu que sua briga é por vaga, não por título.  Hoje, com os pés no chão mais uma vez, jogando com muito esforço porque sabe que é limitado ainda, o Mengão pode dizer que segue firme na briga.

São 2 pontos neste momento (13h de domingo) para o G4. Sim, o Flamengo é candidato a essa vaga.

Embora não tenha feito um grande jogo, correu muito, criou e venceu com méritos e tranquilidade, apesar do placar não ser tão elástico.

Guerrero segue com dificuldades, o time sem Sheik perde referência, mas ganha mobilidade.  As boas jogadas saem quase sempre com espaço, num time que hoje é muito mais interessante ao contra-atacar do que atacando.

Com Guerrero e Sheik juntos, ao contrário, o time agride melhor quando vai com mais calma. Essa variação na forma de jogar com competência é muito boa porque o Flamengo mostra mais de uma arma.  Hoje o banco do time não é exatamente só pra repor mas sim pra mudar as características do jogo.

53 mil pessoas, contra o Joinville, sem promoção, vindo de derrotas. É difícil não fazer uma citação ao menos, por mais irritante que seja aturar os infiéis de outros clubes que não suportam constatação de fatos quando não lhes convém.

O G4, embora próximo na tabela, ainda é uma conquista distante. E acredite: É melhor o Flamengo tendo que buscar o G4 do que tendo que segura-lo.

abs,
RicaPerrone

O genial burro da noite

Luxemburgo é o maior responsável pelo semestre improvável e muito bom do Flamengo.  É incontestável seu ótimo trabalho e que o time foi até onde nem os mais otimistas eram capazes de prever quando foram ver a Copa do Mundo falando em “cair”.

Hoje, no Mineirão, Luxemburgo cometeu um dos maiores erros da sua carreira.

Não vou dizer que é “culpa dele” apenas porque há um puta time cheio de méritos do outro lado que vem fazendo isso com alguma frequência, então, não é sorte.

Acho que na cabeça dele escalou o Eduardo pra tentar segurar mais a bola na frente e devolver menos pro Galo. Ou, menos rápido talvez.

Nixon, Everton e Gabriel são jogadores que quando pegam a bola tentam rapidamente o lance.  Ele deve ter pensado em prender mais o jogo longe da área e colocou Elton, esperando que ele fizesse parede com os beques ao invés de tentar jogadas rápidas e mais dificeis.

Não funcionou. E então colocou Mattheus, a pior das alterações.

Naquele momento Luxemburgo perdeu o contra-ataque e deixou o time lento. O Galo com a bola, o Flamengo sem velocidade pra sair jogando e com dois jogadores que não entenderam o que estavam disputando.

Mattheus e Elton entraram num amistoso, não numa semifinal. Andaram no campo, não conseguiram participar do jogo.

E o Luxemburgo acabou sendo o grande culpado pelo péssimo segundo tempo do Flamengo.

Não acho muito inteligente contestar tudo por uma noite infeliz. Nem dar ao treinador toda culpa e novamente isentar 11 jogadores da incrível capacidade que o Flamengo tem de não saber ser favorito.

Mas o ótimo Luxemburgo que voltou ao Flamengo teve hoje sua noite de Celso Roth.

abs,
RicaPerrone