goleiro

Sidão não é só vítima

Voltemos ao gramado. A discussão sobre a Globo, a enquete e todo o resto já se tornou tão óbvia que até a própria emissora pediu desculpas e em seguida fez uso da cagada pra pautar seus programas com seus próprios funcionários analisando o caso.

Vamos ao campo. Sidão é vítima de ser massacrado após o jogo?

Não. Não é.

O que a Globo fez é idiotice. O que a torcida fez, não. E porque não?

Porque perguntar a um torcedor no calor de um jogo se ele quer xingar o vilão ou avaliar com calma, amor e respeito é de um desconhecimento do tema “futebol” que chega a me assustar.

Mas o Sidão não é um coitadinho.

Quem sai jogando mal e insiste é ele. E depois de repetidas bobagens com a bola nos pés, ao final do jogo, já com 3×0, quem deu um chapéu correndo mais um risco idiota foi ele. Portanto, Sidão acha divertido fazer o que faz e “debochar” do erro.

Fosse mais humilde não sairia mais jogando com os pés após o erro, pelo menos naquela partida. Mas além de tentar diversas outras vezes e seguir errando, ainda foi pra um chapéu no atacante.  Ele chama o tema. Ele evidencia o erro.

Deve ser criticado, e muito. Menos apenas da diretoria do Vasco que sem a menor explicação contratou um goleiro que, sabemos, vai fazer 2 milagres e entregar um gol bobo. Como se o próprio clube não soubesse as consequências de ter um goleiro contestável num campeonato longo.

Sidão se tornou vítima de um erro alheio que encobertou os seus e também a sua postura de insistir no erro. Não fosse a Globo hoje ele seria o mais xingado jogador do país. As vezes uma situação encobre outra. E nem sempre você só sai prejudicado.

Hoje simpático a todos, Sidão esteve minutos antes perto de ser um “arrogante” goleiro ruim quando saiu dando chapéu após tomar 3×0 e ter feito quase tudo errado com os pés na partida.

O futebol é a paixão do mundo exatamente por isso. Nem o óbvio se confirma.

RicaPerrone

Fábio: um mistério da bola

Das dezenas de ótimos jogadores que a seleção não usou, o atual em constante pauta é o goleiro Fábio do Cruzeiro. Desde que ele é notável em sua função passaram pela seleção 5 treinadores diferentes (um deles teve duas passagens – Dunga).

Na avaliação de nenhum deles o Fábio mereceu se firmar na seleção. Eu desconfio quando é uma vez, duas, até três. Cinco, tem que haver um motivo.

Desconfio qual seja? Não. Já ouvi mil versões em bastidores, mas nunca uma honesta e clara.

Dele ser “gordo” a ele ser extremamente religioso, tudo já foi especulado. Até mesmo o “azar” de ter sempre três ou quatro goleiros no mesmo nível ou melhores que ele jogando simultaneamente.

Seja lá como for é incomum um goleiro de time grande ser tão protagonista por tanto tempo em casa e não conseguir ser uma figura comum na seleção.

Mas existem. Danrlei, do Grêmio, raramente ia convocado. Foi o Fábio de outros tempos, talvez.

O mistério continua. E a rotina da pauta idem. Toda vez que ele acaba com um jogo no Mineirão, no outro dia estamos especulando “porque Fábio não vai pra seleção?”.

E seguimos sem resposta. Embora seja uma dúvida nacional, eu sou da turma que compreende. Toda vez que houve uma convocação relevante o Fábio jamais esteve na minha lista de 3 goleiros. Não porque não merece ou porque não é muito bom. Mas porque sempre teve 3 melhores do que ele.

Hoje? Cássio, Alisson e Ederson. Ele, Victor, Grohe e Vanderlei disputam igualmente uma quarta vaga pra onde só cabem 3. E talvez essa seja a explicação mais simples de todas.

RicaPerrone

Kairus: o segredo do futebol

Expectativa, promoção, um grande jogo e a história pronta pra ser escrita. Todo o glamour da Champions League é muito bem preservado até com os constantes erros de arbitragem, pois o marketing da “empresa” é brilhante.

Ao contrário dos nossos, quando se assina um contrato com a Champions tem restrições sérias. Comerciais, editoriais, obrigações de transmitir seja qual for o time em determinados níveis do campeonato. Enfim, privilegia-se o campeonato e neste caso os ideologistas jornalistas brasileiros não se importam em ser promoter de evento.

Vai entender…  $.

Mas o ponto é o porque adoramos futebol.  Num evento desses em qualquer esporte do mundo a chance de haver um marco por incompetencia é quase zero. O futebol é um esporte “ruim” se você considerar as mais diversas questões teórias dele.

O que menos tem “ponto”, o menos justo, o menos claro em relações a heróis e vilões. O esporte coletivo mais individual de todos. E mais uma vez ontem isso ficou evidente.

Um jogador, um dia ruim, fim de um sonho. Uma final marcada por trapalhadas, ainda que com um lance genial no meio delas. Hoje o mundo discute uma falta e dois frangos. Até pro vencedor é ruim que o futebol inverta os valores. Mas ele é incontrolável.

Outro dia me alertaram que o futebol é o unico esporte onde a defesa prevalece ao ataque.  A quantidade de jogos ruins é infinitamente superior ao de bons jogos. E portanto é um esporte que desafia a lógica, mas beira a obviedade.

Não tem a ver com a qualidade, com os pontos, a justiça ou a qualidade do jogo. Sempre teve a ver com o fator imponderável que torna o futebol o esporte mais “nosso” de todos. Mesmo que empresas comprem, sheiks os controlem e arbitros errem, a gente nunca está 100% nas mãos do dinheiro.

Ainda será possível que o impossível aconteça. E que em campo tudo que foi planejado vire pó.

O Kairus é só mais uma prova viva de que esse esporte é mantido por meios que os novos administradores jamais conseguirão entender simplesmente porque estudaram demais uma matéria que não existe estudo: paixão.

abs,
RicaPerrone

Quando vencer até dói

Eu nem me lembrava dele, pra ser honesto. Talvez eu nunca o tenha notado. Mas aos 35 anos, Paes não terá um futuro brilhante. Tem uma carreira digna, boa, mas que a idade só permite manter, não mais sonhar.

O São Paulo jogou mal. Mas mereceu a vaga porque o São Caetano jogou pior ainda.  O que na verdade era pra ser uma partida de eliminatória simples com resultado bastante comum e previsível, comoveu mais do que convenceu.

Aquele “chupa!”  de torcedor na hora que ele erra virou nó na garganta quando, ao final do jogo, ele se deita no chão e, conforme ele mesmo revelou, olha pro céu e diz “porque comigo?”.

Na entrevista, chora. É um cavalo de quase 2 metros experiente chorando feito um garoto por uma bobagem que eliminou o provável eliminado.  Mas o choro dele é mais alto que os aplausos do Morumbi.  Porque é mais sincero e merecido que os aplausos.

Ele merece ser o vilão pelo erro que cometeu. E também pode chorar, porque como todos nós, um dia dá tudo errado e a gente se sente o mais injustiçado do mundo.

Paes vai sumir. Ele não é uma promessa, nem o primeiro goleiro a falhar e sair chorando. Não será o último também.

Mas seguramente foi a coisa menos esquecível que o Morumbi viu nesta noite.

abs,
RicaPerrone

Quanto vale um ídolo?

O futebol cada dia mais se resume a números.  É um tal de “X gols em x jogos”, “x assistências”, como se pudessemos coloca-lo no patamar esportivo dos demais esportes e avalia-lo por dados estatísticos.

Como um dos primeiros caras a usar estatísticas no jornalismo esportivo eu lhes garanto: não! Ajuda, mas passa longe de ser o fator determinante de avaliação.

Futebol é sonho. Jogo é basquete, volei, tenis. Futebol é outra parada.

Quando o Fluminense vende o Fred e alguém diz que o clube “se livrou de um salário alto” ou fala da saída dele em cima dos números do ano anterior, está falando de outro esporte.

Ídolos sustentam o esporte, especialmente o futebol.

Ao trazer Julio César o Flamengo leva gente pra perto dele. Compra um goleiro espetacular, um dos maiores que vi na vida, e mesmo em fim de carreira e não jogando no seu nível há algum tempo, é um ídolo, identificado e que carrega gente com ele.

Ele vem da Europa pra passar 3 meses numa cidade em guerra pra ganhar quase nada só pra se despedir no clube dele de coração. E você não entende a contratação?

Trata-se disso o futebol.

Eu vou ao Maracanã na estréia dele. Talvez meu pai que nada tem com isso me ligue de SP e diga que quer ir também. Porque é o Julio César, e se você não entendeu, olha pro jogo das estrelas em dezembro o que foi o Adriano em campo.

É mais do que um goleiro.

O Flamengo anuncia ser mais Flamengo a partir de hoje.

abs,
RicaPerrone

O dia de Victor

Victor Leandro Bagy, ou, Victor. Hoje, 30 de maio, comemora-se o dia de Victor.  Nesta data, há 4 anos, ele jogava seu pé esquerdo contra a bola para fazer o maior milagre da história de Minas Gerais. Talvez um dos maiores da história da América do Sul, porque não?

Entre o sofrimento, a fé e a frustração de uma multidão, Victor não se revoltou quando o arbitro apontou para a marca do pênalti. Ele saiu andando em outra direção, calmamente, com a bola nas mãos.  De longe parecia não acreditar, mas hoje sabemos que era só uma ansiedade natural para seu processo de canonização.

O processo é simples, requer o milagre e a morte. Victor não está canonizado apenas pelo segundo item.  Em algumas décadas será “São Victor”.

Naquele dia eu vi torcedores de diversos outros clubes do pais comemorarem uma defesa que nada lhes dizia a respeito. Vi em minha própria casa gente que nem sabia que ia ter jogo pular do sofá quando o milagre aconteceu.

Eu chorei. E nem sei bem se por emoção, alegria, dó daquela gente que se frustrava de novo, ou pela glória que é trabalhar com isso. Mas Victor foi protagonista de um dos momentos mais religiosos da minha vida.

Hoje é 30 de maio.

Dia do futebol. Dia da explicação do porque somos loucos por ele. Dia do Galo. Dia de Victor.

abs,
RicaPerrone

Podcast: Bruno e a pena de morte

– Bruno está solto. Ele merece segunda chance?
– Atenção a pergunta. Não é se merece estar solto.
– Você é a favor da pena de morte?

Assine o Podcast pelo feed:  http://feeds.soundcloud.com/users/soundcloud:users:46195801/sounds.rss

Ou pelo Itunes: https://itunes.apple.com/br/podcast/podcast-do-rica-perrone/id1167622638?mt=2

Há ou não uma segunda chance?

Embora haja muito clubismo nessa discussão, a contratação do goleiro Bruno não devia ser um debate esportivo.  Estamos diante de um dilema bem delicado e que qualquer julgamento radical será injusto.

É papel da sociedade rejeitar pra sempre alguém condenado pela justiça e solto também por ela? Ou a tal segunda chance que pregamos aos domingos de manhã enquanto nos fazemos de santo não cabe se não gostarmos do criminoso?

Bruno está envolvido num crime sério, mas cheio de problemas legais desde 2010. Qualquer advogado na época alertava que isso não seria tão simples e claro porque não havia corpo. Eu não sou advogado, 99% de vocês também não, então não vamos perder tempo na discussão se devia estar solto ou preso.

Meu ponto é o julgamento contra o Boa Esporte, clube que o anunciou hoje.

Vamos chegar a um acordo. Ou temos pena de morte em vida, que seria o caso, ou temos o direito a uma chance. As duas coisas não dá.  O Bruno solto, sob a justiça, tem o direito de trabalhar e recomeçar. Porque um clube não deve contrata-lo sendo ele um grande goleiro?

Porque ele é bandido! Tá, mas se ele foi solto e está apto a trabalhar, é papel do clube julgar isso? Ou pior ainda, é nosso papel determinar quem merece ou não uma chance?  É nessa linha? Se for nosso parente, chance. Se for famoso, talvez. Se for jogador do outro time, pena de morte?

Eu não quero sugerir sequer uma discussão sobre a culpa ou não do Bruno. Eu tenho a minha opinião e dá até preguiça expor aqui pela ignorancia usada no debate. Mas se ele está solto, porque é um “absurdo” que alguém lhe dê uma chance?

Nós preferimos que ele fique livre marginalizado ou que se recupere e se torne um cidadão melhor?

Não há terceira opção. Ele está solto e é sua opinião ou a minha que vai mudar isso. Diante disso, não é melhor tê-lo trabalhando honestamente do que marginalizado piorando a cabeça já não muito boa?

abs,
RicaPerrone

Insuportável ser Julio César

Alexandre Loureiro/VIPCOMM

Alexandre Loureiro/VIPCOMM

Não há ninguém tão “em observação” quanto Julio César nesta Copa do Mundo.

São milhões de cornetas que até torcem por ele, mas esperam o erro pra dizer “eu avisei”. E como é saboroso ao torcedor e ao comentarista o “eu avisei”. Parece-me incontestável afirmar que há mais gente pronta para ter razão do que para ser feliz.

Julio é um goleiro espetacular.  Tem uma carreira incrível, inclusive na seleção.

Cometeu um erro em 2010, junto do Felipe Mello, diga-se, e levou nas costas o rótulo de uma derrota onde uma expulsão e a covardia de um time que não pedia a bola foram muito mais protagonistas do que ele. Ou deveriam, pelo menos.

Julio sabe que toda vez que a bola chega perto da área milhares de olhos viram-se na sua direção avaliando cada movimento seu em busca de uma falha.  O “eu avisei” sobrevoa a cabeça dele desde 2010 e ficou ainda pior com as escolhas meio absurdas por clubes insignificantes para atuar.

Ontem no estádio Julio foi ovacionado na entrada. E toda vez que a bola ia na sua direção parecia que alguém gritava em seu ouvido: “não vai falhar, hein?”, tornando cada lance um tormento.

Julio não falhou.  Achei falta sim, e nos demais lances achei que foi bem. Mas para ele não basta.  Nem mesmo a perfeita Copa das Confederações e seus ótimos serviços prestados por 10 anos a seleção o perdoam pelo crime de ter errado na África e ter jogado no mais popular e odiado clube do país.

Julio é o erro que ninguém quer acertar. Mas se for dar errado, que seja nele. Assim, “teremos avisado”.

Eu confio no Julio César. Mas ontem vi que não estamos mais discutindo um goleiro e sim uma tese.

O que me deixou preocupado. Afinal de contas, queremos “ter razão”, “ter avisado” ou sermos campeões?

abs,
RicaPerrone