luxemburgo

Estamos trocando o sofá

Estamos, pra variar, tirando o sofá da sala. Essa piada é simbolica e muito inteligente na medida em que vivemos num país que só consegue trocar de sofá, nunca de esposa.

Os treinadores brasileiros são ruins.

Ok. Essa é a tese. A mais rasa de todas, mas é a narrativa que conseguiram empurrar pro povo.

Outro dia fiz um levantamento pra tentar entender se estamos falando da mesma coisa. Os dados mostram que treinadores estrangeiros no Brasil são um enorme fracasso. Tem os mesmos resultados dos brasileiros, duram o mesmo tempo e só conseguem resultados diante dos melhores elencos do país.

Porque esse dado não sai? Porque ele desmente os mensageiros e portanto a mensagem não vai chegar a você. Primeiro o ego, depois a informação.

Peguei as últimas duas temporadas de Real Madrid e Flamengo. Só pra exemplificar no alto, onde a distância é ainda menor, pois o Valência por exemplo joga menos ainda e treina mais do que o Real.

Vamos lá.

O Real voa 5 mil km pra jogar todo o campeonato espanhol em avião proprio com todas as poltronas de primeira classe e fretando a volta pro pós jogo.

O Flamengo voa 25 mil km pra jogar apenas a primeira fase da Libertadores, muitas das vezes em voos convencionais e portanto indo no dia anterior e voltando no dia seguinte.

São em média 60 noites a mais que os jogadores do Real Madrid dormem em casa por ano do que o Flamengo.

O Real jogou, indo a TODAS as finais, 67 jogos no ano. O Flamengo jogou 77.

O Real teve 40 dias de férias. O Flamengo 30.

O Real teve 32 dias de preparação pra temporada. O Flamengo teve 15.

O Real joga 1 partida em média a cada 4,3 dias. O Flamengo a cada 3,7 dias, com o agravante da viagem + concentração.

Ao final do ano o Real teve 220 dias de trabalho em seu CT para treinar o time. O Flamengo teve 170, dos quais muitos foram mera recuperação muscular pós jogo tendo voltado de avião naquele mesmo dia.

Some isso a salários as vezes atrasados no Brasil, dirigentes amadores, estrutura inferior e um investimento 4 vezes maior do Real Madrid.

Qual a possibilidade de num futebol coletivo, intenso e físico isso não ter efeito comparativo?

Você tá culpando o editor do Jornal de Anapolis por ser pior que o editor do Jornal Nacional. Os dois não tem a menor comparação de condição de trabalho, material humano e estrutura.

Treinador no Brasil cuida da saúde mental de jogador. Separa briga, liga pra mãe, ensina pro menino que era ladrão a dar bom dia pros outros. Tira droga de juniores, libera do treino pra visitar o pai na cadeia.

Na Europa a preocupação do cara é com o tático, o físico e fim. Trabalho objetivo com homens bem formados em uma sociedade estruturada.

Renato vai gastar horas pra tentar arrumar a cabeça do Luan. O Ancelotti vai mandar o moleque que não funcionar embora e pedir outro por 80 milhões de euros.

Existe diferença? Sim. Mas ela é óbvia.

A condição dada pelo futebol brasileiro pra um treinador hoje é incrivelmente diferente do que é dado a um treinador europeu.

Talvez isso explique porque 90% deles vem aqui e não fazem nada de diferente. Ou talvez você ainda ache que é mero acaso que os daqui tenham dificuldade e os de lá, quando aqui, as mesmas dificuldades.

Adivinha? O problema tá aqui ou nos treinadores?

RicaPerrone

Impressionante

Se imagine Luxemburgo.

Por um momento analise sua vida e carreira, se coloque no lugar do treinador do Vasco, e imagine como seria o natal na sua casa. O que seus pais achariam de você, o quanto você fez e tem pra contar.

Siga imaginando ter dirigido gigantes, Real Madrid, seleção, mudado a profissão e ainda assim ligar a tv e ver pessoas que deveriam aplaudi-lo o menosprezando.

Deve haver um misto de constrangimento pela burrice/inveja alheia com uma dose de magoa. O Brasil é o pior país do mundo para ser reconhecido pelo que você fez ou ainda faz.

Luxemburgo deve ter andado de saco cheio, sim. Toda carreira uma hora bate no teto e quando acontece você não sabe bem o que buscar. Um cara que sonha em escrever um livro quando faz o quinto, talvez, não consiga inspiração pra continuar.  Mas isso é um segredo que 1% das pessoas sabem porque 99% das pessoas vivem criticando as que de fato atingem o que cobiçaram.

Luxemburgo é um marco. O cara que mudou a profissão,  valorizou os treinadores, mudou o status e o nível de profissionalismo da classe.

Ganhou jogando bonito. Jamais pisou nas tradições do futebol brasileiro pra ganhar jogo. Um raro treinador que mistura o placar com aplausos.

Hoje o Vasco não paga salário, não tem estrutura, não tem um grande time e tem uma reação com alguns resultados muito acima do esperado. Enquanto a mídia procura 1 minutinho caridoso pra falar de algo que não seja o Flamengo no Rio, o vascaíno procura uma forma de mostrar ao grupo e ao treinador reconhecimento.

Contra o Botafogo foram 15 minutos finais incríveis que São Januário pulsava como quem vive um sonho. Pequeno, muito aquém do que merece o Vasco, mas beirando o impensável a curto prazo com tal cenário.

Luxemburgo não terá os créditos midiáticos que merece porque não afinou pra imprensa quando espancado. Mas pra um rubro-negro declarado, perseguido por covardes, num clube em crise, com elenco limitado e sem receber, acho que estamos diante de mais um daqueles momentos em que adoraríamos ser Luxemburgo.

Tem gente que nasceu pra fazer história, outros pra conta-la. A maioria pra ouvi-la. Alguns pra deturpa-la por inveja ou amargura.

Fique com as três primeiras e terá a verdade mais perto do seu julgamento.

RicaPerrone

Mais que 3 pontos

Tem vitórias e vitórias. Algumas te dão 3 pontos, outras te dão até vaias. Algumas delas te dão esperança.

Vitórias como a do Vasco ontem dão sentido ao clube.

Costumo dizer que é melhor brigar pra não cair do que passar o ano no meio da tabela. O clube existe para fazer parte do dia a dia do torcedor e quando fora de combate ele perde seu papel.

Ganhar apertado, em casa, com torcida apoiando e de um grande adversário é bem diferente dos 3 pontos em cima do CSA, com todo respeito, mesmo que por goleada.

Bater no Inter tem peso diferente. Você ganha de um protagonista da temporada, postulante a título de Libertadores, e começa a se enxergar em um cenário mais “seu”.  O Vasco não rivaliza com Ceará, mas sim com Inter, Palmeiras, Flamengo, etc.

É contra esses times que ele precisa ganhar pra fazer mais do que pontos: fazer valer a pena. O torcedor precisa ir a São Januário pra ver seu time ser grande, não pra ver cumprir protocolo.

Ontem a vitória não era “obrigação” e por isso foi tão saborosa. Há diferença entre conquista e obrigação. Tem pontos que você garante, tem pontos que você conquista.  O vascaíno saiu do estádio ontem se sentindo muito melhor do que se tivesse feito 4×0 na Chape.

É difícil explicar futebol. Mas você, vascaíno, entendeu. Eu sei que entendeu.

RicaPerrone

Uma chance a quem não precisa

Eu não suporto essa coisa de criar certezas sobre os motivos pessoais de alguém que você não conhece. Basta ligar a tv ou entrar numa rede social e é um festival de “ele perdeu o foco”, “o pai do Neymar atrapalha”, entre outros palpites bastante pessoais de quem nunca chegou perto dos julgados.

Enfim, blá, blá, blá.

O Luxemburgo não vem bem há alguns anos e como não sou amigo dele e nem ando com ele não faço idéia dos motivos. Fato é que estamos falando de um dos maiores, a referência, o cara que revolucionou e valorizou a profissão no país. Gostem ou não dele, devem a ele.

Ele não precisa de dinheiro, nem de títulos, nem provar nada. Esse é o ponto que me deixa curioso na contratação do Luxemburgo.

Porque alguém que é antipático à mídia e portanto será perseguido estaria com tanta vontade de fazer o que não precisa e sob pressão?

Sei lá, se enfia na China. Vai pro Juventude. Ganha lá seus 300 paus num time de série B e mata a fome. A não ser que a fome seja de protagonismo.

E se for, bom pro Vasco.

Luxemburgo é um gênio. Talvez seja o único treinador brasileiro pós Telê que conquistou todos os seus títulos com seu time jogando futebol.

E se em 2019 se discute tanto o jogo ruim, a covardia e o endeusamento a quem joga pra frente, que mal há em apostar em quem sabe tudo?

Eu prefiro torcer por um Luxemburgo do que por um Parreira. E não, eu não sei se ele está bem, porque teve uma queda, nem vou fazer a escrotidão de especular opções pessoais do sujeito.

Que Vasco e Luxemburgo retomem seus devidos lugares.

RicaPerrone

Pesos e medidas

Gringo no Brasil é Deus. Talvez o Brasil seja o único país do mundo que entenda a palavra “importado” como sinal de qualidade.  Coisa de povo colonizado, cultural, normal.

Mas não podemos fazer isso pra sempre.  Embora compreensível, é uma idiotice. Todo treinador gringo que chega aqui é tratado pela imprensa com0 o salvador do futebol.

A porra da grama do vizinho, sabe? Então.

E o Sampaoli não pediu pra ser Deus. Fizeram dele assim desde sua chegada. Ele é o menor dos culpados.

Ontem o Santos sofreu uma goleada inacreditável.

Acontece.

É raro, mas acontece.

E não serei o canalha oposto ao que digo, que seria usar isso pra detonar o sujeito. Mas serei o cara que deixarei apenas uma pergunta no ar…

E se o Luxemburgo, que tem 20 vezes mais títulos que o Sampaoli, toma de 5 do Ituano?

Boa tarde.

RicaPerrone

Respeite quem pode chegar onde a gente chegou

Se eu tiver a dúvida de um moleque e um jogador mediocre de 28 anos, eu sempre apostarei no moleque. Talvez ele também seja mediocre. Mas ele me dá ainda a esperança de não ser.

Isso serve pra treinadores. O problema é quando se coloca numa mesma sacola os treinadores mediocres dos maiores vencedores deste país.  E mais do que vencer: montaram times incríveis e fizeram clubes viverem momentos épicos.

Você não pode olhar uma lista com Felipão, Luxemburgo e Cuca e falar em “falta de opção”.  Pode ser que você não goste deles, ok.  Talvez você os ache desatualizados por algum trabalho recente. Ok. É um direito seu.

Mas esses caras são a história do futebol brasileiro e de alguns dos nossos maiores clubes.  Não estamos falando de treinadores de um ou dois trabalhos. Estamos falando do cara que fez um Cruzeiro, um Santos, um Corinthians e um Palmeiras inesquecíveis.

De um bicampeão da América, campeão da Copa (jogando bem), um dos caras que reinventou a seleção de Portugal. Dois brasileiros que chegaram na porra dos times europeus que vocês tanto amam.

Estamos falando do Cuca. O cara do Botafogo, do Galo campeão após 40 anos, do Palmeiras campeão brasileiro, que montou o SPFC campeão do mundo.

Estamos falando de caras que fizeram uma união cada vez mais rara: times vencedores e que jogavam futebol.

Pode ser que não lhes agrade hoje. Entendo, respeito. Mas existe uma hierarquia, existem patamares na vida profissional. Tem gente que tu fala olhando de frente, tem gente que você olha de baixo pra cima.

Aí você pode pensar em Parreira, Leão, Muricy. E eu lhes pergunto qual deles tem por característica fazer algum time jogar futebol? Nenhum. É resultado, no máximo. Bom futebol e título é coisa pra gente de outro nível. Tal qual os citados.

Eu posso não querer o Leão “nem fudendo” no meu time. Eu não posso tratar assim um destes nomes.

Talvez não por gosto pessoal. Mas por respeito a história do futebol brasileiro.

Se eu pudesse escolher, era o Cuca.  Só pra não ficar no muro.

Mas vamos separar os “aspiras” do “capitão”, né?

abs,
RicaPerrone

Pra lavar a alma

O Atlético MG foi melhor em tudo! Ele trocou mais passes, chutou mais no gol, teve mais posse de bola, acertou mais passes, cometeu menos faltas, entrou na área adversária o dobro de vezes do que o Cruzeiro e…. enfim, perdeu!

E aí você pergunta: Mas cansamos de ver o Cruzeiro melhor e dar Galo no clássico. O que houve hoje?

Houve “algo a mais”. Algo que um time “regular” e competente não tem. Algo que o Cruzeiro do Marcelo, embora altamente competente, não conhecia.

Luxemburgo não fez nenhum milagre tático. Apenas deu ao time sua dose de drama e vontade capaz de fazer o placar ser seu, independente de quem tenha sido o jogo em si.

Não preciso de muitas linhas pra explicar do que estou falando pro atleticano. Ele sabe bem, aliás, hoje em dia, como ninguém.

Mas você, cruzeirense, que eventualmente tenha esquecido e estava se deliciando no “piloto automatico” dos pontos corridos sendo “regular”, durma hoje como há muito tempo não dormia.

De alma lavada.

É “na casa deles”, “tirando em cima da linha”, fechado no fim, passando aperto, na minoria da arquibancada, valendo “só” 3 pontos.  Para o Cruzeiro de ontem, os mesmos 3 que um jogo contra o Chapecoense. Para o que venceu hoje, os 3 contra o Galo.  Os incontáveis 3 pontos contra o Galo.

abs,
RicaPerrone

Acaba. Simples assim

Marcelo Oliveira foi um treinador bicampeão brasileiro pelo Cruzeiro.  Puta trabalho, puta time bem montado no primeiro ano, um já menos agradável de ver no segundo, e agora a soma das derrotas pro rival com a má campanha em mata-mata.

Precisa ser 100% pra um dos lados?

O Cruzeiro é enorme responsável pelo Marcelo ser hoje um treinador Top, talvez mais do que o Marcelo em  fazer do Cruzeiro bicampeão.  As coisas se completam, e não tem nem um super herói nem um vilão.

Dois anos e meio é tempo pra cacete. Desgasta. Não há mal algum no Cruzeiro querer trocar o comando e tentar uma injeção de animo no grupo.

Aí anunciam Luxemburgo, um outro nome de peso. Aliás, muito mais pesado que o Marcelo.

E pela primeira vez na vida vou dizer que não acho que o Luxemburgo é uma boa. Espero errar, como tenho errado apostando nele nos últimos anos, mas não sei se um time limitado sendo cobrado pelo recente time qualificado que o Cruzeiro tinha é um grande negócio.

Se eu fosse o  Luxa ia pra casa. Felipão idem. Ganharam tudo e em qualquer país do mundo seriam tratados como referências incontestáveis.  Mas aqui, se perder domingo, foda-se os 30 anos de sucesso.

Cruzeiro troca na hora certa. Não sei pelo cara certo. Mas confesso que acho o Cruzeiro do Marcelo um time muito “sem pegada”.   Eu gosto de ver um time se superar numa decisão, de meter a cara na grama se for preciso e de correr o risco do fracasso pelo prazer de tentar brilhar.

As vezes ouço alguém exemplificar a “Europa” por causa do treinador do Manchester que passou a vida lá. Mas sabemos que não é assim. Ele é um caso. Os outros, na maioria, duram por ai mesmo. Dois ou três anos. E sabendo também que há um abismo no tipo de relacionamento profissional que se tem culturalmente com o jogador brasileiro e com o europeu.

Comparação tosca. Injusta.

Não há vilões. Nem heróis. Apenas profissionais e seus ciclos.

abs,
RicaPerrone

 

Missão impossível

As opiniões de torcedores são quase sempre reflexo do que a mídia acha. Óbvio, afinal, quem leva a informação pra se formar a opinião é a mídia e portanto já leva no tom que convém.

Hoje, no Brasil, ou você contrata o Guardiolla ou fez uma escolha contestável.

Cai o Luxa, que “é ultrapassado”. Se chegar o Oswaldo, “não ganha nada aqui desde 2000”. Alem do infalível “Se fosse bom o Palmeiras não demitiria”.

Felipão, cruzes! Nem pensar. Hoje é como falar do demonio para a imprensa/torcida.

Então vamos pra uma novidade! Afinal, eles querem “renovação” no futebol.

Hum…  Cristovão Borges! Que tal?

“O que ele ganhou?”

Nada. Mas não é pra renovar?

“Não dá pra fazer experiências num Flamengo”.

Ok, então…. Parreira?

“Nem fodendo!”

Mano?

“Péssima fase…”

Cuca?

“Caro…”

Renato?

“Enganador…”

Abel?

“Tem que renovar, pô! Chega desses caras.”

O Enderson…?

“Esquece, nunca ganhou nada.”

E assim decide-se entre a impossível tentativa de agradar as pessoas e a de tentar achar resultados.

É o que tem.

E não reclama. Podia ser o Roth.

abs,
RicaPerrone