Cristiano precisou de 4 minutos para fazer um gol e outros 86 pra rezar pra bola não entrar. Portugal fez a mesma coisa que Brasil, Inglaterra e tantos outros favoritos nessa Copa: fez o gol e parou de tentar o segundo,
Marrocos dominou o jogo, fez por merecer o empate mas não tinha um Cristiano pra fazer o gol.
Ainda que com chances de não se classificar, Portugal faz uma Copa abaixo coletivamente e totalmente baseada na qualidade do craque.
Cristiano deveria ser a parte determinante da engrenagem, não a única. Se Portugal continuar a atuar dessa forma e um dia ele falhar, acaba a Copa.
Marrocos poderia ter jogado assim contra o Irã. Teria vencido. Não jogou. Está eliminado.
Não há jogo ruim em Copa do Mundo. Talvez alguns menos espetaculares dentro dos 90 minutos. Mas nenhum jogo de Copa se resume a 90 minutos. Marrocos e Irã fizeram uma bela estréia de quem se despede da Copa.
Já viram isso?
Pois bem. Os dois sabem que serão eliminados. Não é um Grupo, é um convite ao saldo de gols. Portanto, sabendo de tal condição e a espera de um milagre, poderiam mais do que jogar, se divertir.
Não fizeram. Transformaram sua única partida jogável em algo chato e pragmático. Poderiam ter saído de lá com um 4×4 e feito algo mais do que toda essa cerimônia pra empatar em 0x0, o que não aconteceu graças a um erro do zagueiro aos 50 do segundo tempo.
É respeitável e admirável a forma com que no futebol o mais pré-derrotado time se porta como quem luta por algo maior. O futebol permite. E só o futebol.
Irã e Marrocos não irão a lugar algum. Mas jogaram como se tivessem algo a perder. Já dizia aquele ícone de sabedoria popular: “Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder”; Dilma.
Não vou conseguir fazer uso de um personagem ou de algum detalhe para fazer uma crônica bonita a seu respeito. Se o fizer, eu choro de novo. E se eu chorar de novo, não consigo retomar meu trabalho após 5 dias onde só conseguia pensar em você.
Mas eu preciso escrever alguma coisa. Como meu coração não foi alfabetizado e é burro de doer, escrevo eu mesmo em seu lugar.
Te ver passar grande de novo foi uma das melhores sensações que já tive. Foi como ver um filho querido acidentado voltar a andar. Era como uma ressureição de quem nunca morreu, sei lá. Mas eu precisava olhar em volta e parar de pedir aplausos pra você. Queria vê-los surgirem arrancados e não doados.
Não suportava mais o tapinha nas costas ao final do desfile e a frase “Até que foi maneiro”. Maneiro é a Vizinha Faladeira, porra! Com todo respeito. Eu sou Mocidade, eu não faço carnaval “maneiro”. Eu passo o rodo, carrego a avenida, escrevo a história e saio dali aos gritos de “é campeão”. É assim que é.
No penúltimo ensaio eu encontrei Marquinho Marino, pra mim o maior responsável pelo desfile deste ano, e o abracei dizendo: “A gente volta entre as 6?”. Ele disse: “Entre as 3, Rica.”.
Daquele dia em diante eu não tive mais uma noite de sono completa sem pensar nessa possibilidade tão surreal há 14 anos. Na concentração os rostos serenos, as fantasias em ordem, os carros prontos, nenhum problema. Parecia outra escola daquela que vinha se apresentando.
E quando passou, eu não tinha visto. Foi tanta adrenalina, nervoso, correria, vai pra concentração, ajuda a destaque, passa na frisa, camarote, corre pra dispersão, enfim… eu vi sem ver. E então olhava em volta pra saber o que alguém me dizia sobre o desfile. O Alex Escobar, da cabine da Globo, foi o primeiro a fazer um sinal pra mim que estava ótimo! Ele também é Mocidade.
Dali pra frente eu olhava meu whatsapp e tinha noção de que acertamos. Não era mais “valeu!”, era “caraaaaaalho!!! que desfile!”. E então eu sabia que não acabava ali. Mas nem no meu mais abusado sonho eu disputaria o título.
Até que no quarto quesito a Mocidade liderava e a quadra aparecia ao vivo na tv com as pessoas esperando o título.
Título? Não é possível. É, sim.
Então parei de andar em círculos em casa e fui pra quadra. Enquanto eu dirigia as notas iam sendo dadas e faltando uma nota eu cheguei. Sabia que iríamos ser vice, o 9,9 já havia sido dado. Mas quando entrei ali esperava ver um velório pela “derrota” há instantes. Nada! Era um orgulho tremendo, uma bateria espancando os tambores e o povo gritando alto o samba do ano em que, de fato, “voltamos”.
A taça chegou, os diretores e membros da escola foram chegando. Abraços, sorrisos, alívio.
Não era uma festa de campeã. Porque não fomos. Mas há algo tão importante quanto o título que é ver sua escola passar e representar as pessoas e a sua história. Eu prefiro um “circo místico” do que um irritante desfile técnico que nos leve a algum lugar de destaque.
O que pensam os jurados não é o mais importante. O que deixamos na avenida, sim.
E dessa vez, como há muito tempo não acontecia, deixamos saudades e não frustração.
Avisaram. “Sonha, Mocidade!”. Sonhamos, acordamos, e continuamos sonhando.
Voltamos. Não apenas nas campeãs, mas a gerar o delicioso “lá vem ela” quando anunciada na Marquês.
Era pra voltar nas campeãs, pois “Cá estou”.
Refletindo a noite iluminada…
Voltando à nossa escola tão amada
Verde e branco, que orgulho! que saudade!
Cá estou
A Mocidade é a razão da minha vida
Mesmo distante pelo espaço e pelo tempo
A estrela brilha sempre em nosso sentimento
Cá estou
Vamos lá, a hora é essa de ecoar a nossa voz
Voltei pela Brasil, estou em casa!
Padre Miguel, Olhai por nós!
E a bomba explode em harmonia
Prazer de viver
Brilha no céu brasilidade
Até morrer sou Mocidade