Santos

Caro Neymar,

Ney, hoje é dia de quem te odeia. Você deu motivos. Conseguiu apagar seu bom jogo com caneta, chapéu e 75 minutos em campo com uma mão na bola. Errou, foi mlk!

Mas nem é sobre isso. Eu na real imagino o quão difícil seja não conseguir jogar por 2 anos e ser condenado por isso como se fosse uma escolha.

Eu adoro a molecagem do seu futebol. Até na vida, acho divertido você ser “moleque” até hoje. Eu também sou, super te entendo.

Acho que tem muito moleque que não cria os filhos, não fez carreira, sucesso e dinheiro te julgando.

Moleque ou não, eu sempre te vi rindo e não sorrindo. Hoje te vejo sorrir, fingir que está tudo bem quando claramente a situação te atinge.

Você joga pra enfiar goela abaixo de quem o critica. Tem gana de vingança no seu chute. Tem raiva no seu drible. Magoa em campo.

Teu olhar tá errado.

Eu não sei como reagiria ouvindo que não ganhou nada das mesmas pessoas que idolatram o Socrates com 4 estaduais. Mas você sabe do que estamos falando e não é sobre futebol quando se trata da imprensa brasileira. Não se faça de bobo.

Existem mil torcedores na porta do seu hotel gritando por você. Mil na internet te xingando. Porque você joga pensando nos mil que xingam?

Provocação de jogo, normal. Adoro cenas como as de ontem torcida provocando e você provocando de volta. O futebol respira nessas horas.

Mas você tem certeza que está em campo hoje por nós, que torcemos, ou está mais focado neles, que precisam ser calados?

Você responde comentarista mais vezes do que agradece ao Yamal pelo carinho. Ontem na final da Champions o dono do jogo pediu pra você seguir ele no instagram ainda em campo.

Ney, você tá fazendo tudo isso pra quem?

As pessoas acham que tenho alguma amizade ou intimidade com você. Mal sabem que te vi duas vezes na vida. Mas tenho e nunca neguei um carinho enorme pelo cara legal que você é e pelo gênio em campo.

Só que eu quero que você jogue pra eu escrever um textão sobre você, não pra calar o fulaninho que usa cada passo seu pra ganhar clique.

Eu quero que você corra pela menina que chorava abraçada a você na entrada em campo, não pra calar o torcedor rival.

Tem aqui, no Brasil, uma turma grande contigo. Será que hoje quando você acerta um chapéu você lembra de quem te odeia ou de mim, do Leifert, do Caio, do Pedrinho, de quem torce por você?

Relaxa, cara. Tua história tá escrita e nem mesmo quem a registra vai mudar porque em 2025 fatos conseguem combater narrativas.

É seu último ato, você sabe disso.

Vai terminar o show virado pra quem aplaudiu o show todo ou cobrando aplausos de quem vaiou desde o começo?

Entre bajuladores e odiadores, ignore ambos.

A torcida por você é maioria, genuina e de graça.

Ney, quem te odeia é louco pra te amar. E quem te adora só quer que você esteja bem.

Não estamos divididos quanto a você. Estamos divididos quanto a nossa perspectiva. Mas você acha que algum dos botafoguenses ontem não vai estar de joelhos na frente da tv em 2026 gritando seu nome se você for o nosso 10 na Copa?

O Brasil odeia te amar, Neymar. Esse é o nosso problema.

Jogue por nós e não contra eles.

RicaPerrone

Nem to sabendo

Acordei feliz. Acordei nos melhores anos da minha vida. O Tyson no ringue e o Santos na elite. Parece que dormi, o mundo reajustou a rota, e acordei.

Foi sem entrar em campo, é verdade. E que bom, porque o Santos não pode desfilar com uma taça de série B no sagrado gramado da Vila.

Com todo respeito aos profissionais de hoje, o Peixe deveria terminar o jogo amanhã, virar pra torcida, aplaudir, se retirar e não esboçar nenhuma festa.

Poxa, Rica! Deixa de ser chato. É uma alegria voltar. Sim, é. Mas é que estamos falando do Santos e não de um clube de futebol.

Primeiro que ele deveria ser “irrebaixável” por serviços prestados. Segundo que deveria estar no estatuto que no gramado da Vila não se comemora título de série B. E terceiro que essa notícia não dá nem capa porque ninguém esperava o contrário.

2024 deveria ser extinto da história do Santos e não haver relatos oficiais sobre. Numa monarquia não se brinca com a história da família real. No futebol temos um rei e por obviedade conhecemos o castelo Real.

Se todas as apostas apontavam pro Santos campeão, que anulem os pagamentos. Se existir medalha, não mande ninguém pra buscar. E se o troféu chegar, deixem no depósito lá no fundo pra que ninguém possa ve-lo.

E, de novo, não estou falando sobre rebaixamento. Estou falando do Santos, o maior feito do futebol em todos os tempos.

Ao lado do Real Madrid, o maior clube da história. Só que um deles está em Madrid. O outro é uma aberração da natureza.

O Santos representa tudo que o futebol precisa pra existir. A falta de lógica, os acasos, o começo, o meio, o fim, o novo, o velho, o sonho, o real, o lúdico e o que de melhor fizemos até hoje.

As duas camisas de clube mais importantes do mundo são brancas. Não se mancha nada branco.

Parabéns aos demais classificados. Ao Santos, um suave aperto de mãos respeitoso de quem sequer tocou no assunto durante o ano justamente por não aceitar registrar tal momento.

O futebol é menos futebol sem o Santos.

E que venha o próximo ano sem perspectiva que surgirão 5 garotos do nada e darão ao Peixe outros títulos conquistados sem receita conhecida mas comprovada.

Rica Perrone

Saldo de compra e venda dos últimos 10 anos

Nos últimos 10 anos os grandes clubes do Brasil alternaram momentos. Alguns em profunda crise, outros nadando em ouro, mas todos ainda tendo nas receitas de jovens uma grande parte do seu faturamento.

E portanto, considerando as temporadas 14/15 até a 23/24, fizemos um balanço de acordo com os dados do Transfermark sobre o fluxo de compra e venda de jogadores de cada um dos 12 grandes.

Claro que existem salários, luvas, “compras” sem repasse ao ex-clube por fim de contrato. Mas aqui consta apenas o que é valor final e oficial.

Quanto seu clube comprou e vendeu nos últimos 10 anos?

Algumas curiosidades sobre:

  • O Fluxo de compra e venda do Grêmio, somado a resultados, nos últimos 10 anos é muito bom.
  • O Fluminense segue vendendo suas jóias e comprando pouco tendo recentemente conquistado títulos em 2023.
  • O Flamengo é uma máquina de ganhar e gastar.
  • O Botafogo tem uma divisão de base terrível. Não gera quase nada ao clube.
  • O investimento do Vasco foi quase todo feito em 22/23.
  • A temporada de maior gasto foi a do Flamengo de 19/20, com 250 milhões em contratações.
  • A maior janela de vendas também foi do Flamengo em 18/19 com 483 milhões de reais.
  • Nenhum dos 12 grandes comprou mais do que vendeu no saldo dos últimos 10 anos.

Rica Perrone

O que o tempo não pode apagar

Caro Tempo; 

Não te conheço mas reconheço sua força. Sei te medir, dosar, te gastar. Mas não consigo te compreender. 

Porque ora passa tão rápido e ora tão devagar? Porque tão implacável, silencioso e traiçoeiro? 

Você, Tempo, é nosso bem maior. Queria eu ter “todo tempo do mundo” pela frente, ou mesmo poder te parar. Se pudesse, hoje, te retrocederia, inclusive.

E não, não seria eu. Eu pediria ao Rei Pelé. Pediria que lhe desse o poder de assistir, em vida, o que estamos todos dizendo hoje, quando ele está morto.

Esse país tão vagabundo só sabe dizer “te amo” pra quem não pode mais dizer “eu também”.  É preciso morrer aqui pra ouvir o que se merece. E aí você não permite. 

O tempo de quem reverencia é um, o do reverenciado é outro. E nesse intervalo se desencontram o “obrigado” e o “não tem de que”. O “eu te amo” e o “eu também”. 

Porra, Tempo. Você é radical demais.

Eu sei que você vai me dizer que “era a hora dele”. E quem sou eu pra discutir com o Tempo, mas … precisava esconder dele, justo dele, o maior de todos, o quanto a gente queria dizer “obrigado” e não encontrava… tempo? 

Só que agora você foi longe demais, Tempo. Porque pela primeira vez você vai descobrir que nem tudo você cura ou apaga. 

Você vai passar, passar e passar. E não vai conseguir esquece-lo.  Não por nós, que somos uns infiéis que sequer conseguimos dar a quem nos deu tanto um pingo do reconhecimento que merece. Mas por ele. 

Esse cara que você levou hoje não te respeita. 

Foi sempre a frente do “seu tempo”. Nos deixou esperando o Natal para que desse tempo de termos uma ceia feliz. E agora, quando você acha que escolheu a hora, foi ele quem decidiu quando, onde e perto de quem. 

O que se fazia num tempo de 2 segundos ele fazia em meio segundo. O tempo pra se consagrar foi infinitamente menor pra ele. O tempo pra estar pronto, pra mudar nossas vidas e pra transformar pano amarelo em lenda você não conseguiu controlar. 

Mil gols numa vida não daria tempo. 

Acha que agora, com ele morto, vai conseguir estipular o tempo que vai levar pra esquecermos dele? Nem perca seu tempo, Tempo.

Há tempo ainda de mostrar isso pro Zagallo, pro Zico, pro Dinamite, pro Romário, pro Ronaldo, pra tanta gente que nos deu alegrias, memórias e engrandeceu nosso país. 

E não ouse se precipitar, Tempo. Nos dê um tempo pra sofrer, pra aceitar, aprender e mudar. 

Por hoje chega. Não deu tempo de entender ainda. E nem com todo tempo do mundo eu escreveria algo capaz de sequer me aproximar do que merece nossa majestade, o Rei Pelé. 

Vida eterna ao Rei! E eterno é ausência de tempo. Esse você não vai levar. 

Suicídio

Oswaldo acaba de ir na coletiva, se manter no cargo, agir com tranquilidade e conta que foi ao Ganso e deu um abraço no jogador. Está tudo resolvido, segundo ele.

Discordo. Duvido. Torço, mas não acredito.

O Ganso orientou o time na cara dele. Desafiou. Foi além da ofensa. Ficou no  banco peitando o treinador.

E quem tomou a iniciativa de abraçar foi ele?

Errado. Não é hora de ser paizão. Ou é. Saberemos em alguns jogos. Mas duvido.

Pra mim hoje era dia de “ele ou eu”. Nunca de tentar fingir que “faz parte”. Porque não faz.

Fizesse, não estaríamos todos olhando pra cena e discutindo-a.

Era dia de pular fora do barco. Não de tentar juntar a tripulação após tamanho desrespeito.

Cabe a diretoria tirá-lo do cargo insustentável. Já que ele não o fez sozinho.

RicaPerrone

Hierarquia

Respeito é o mínimo que qualquer jogador, seja ele do tamanho que for, deve a camisa que está vestindo. Isso inclui não ser covarde e usar um momento pra jogar pra galera e prejudicar um terceiro.

Lembra quando o Barrichello deixou o Schumacher passar na última curva na Áustria? Pro torcedor do mundo todo ele se tornou vítima, se blindou na opinião popular e cometeu o ato mais covarde de sua carreira. Jogou o mundo contra seu chefe, fazendo exatamente o que havia sido acordado previamente.

Pra mim, caso de demissão. Mas marcas tem pavor de rejeição popular.

O Ganso é funcionário do Fluminense. O Fluminense escolheu fulano pra ser seu chefe, ele acata a respeita. Simples assim. E isso vale pra mim, pra você e portanto também pra qualquer jogador.

Na euforia apaixonada o torcedor se sente “representado”, quando na verdade o que ele viu foi o clube ser desrespeitado.

Se você analisar quem fez o que fez, piora. Um jogador que se acha craque e há uns 8 anos deixa claro dia após dia que se trata de um engano. No mínimo, pra não dar razão ao Oswaldo.

Bom treinador ou não, não importa. O Ganso não pode fazer o que fez, o Digão idem. Pontapé na cara do adversário já é um absurdo, na cara do bandeira é burrice, no cenário do clube é desrespeitoso.

Enquanto a torcida do Flu age passionalmente exaltando um jogador que deveria ser dispensado ainda no estádio, o clube segue o rumo pra série B enrolado num ambiente sem dinheiro, sem comando no vestiário e agora sem a torcida do lado certo.

Oswaldo deve ser demitido por questões técnicas. Mas antes dele, o Ganso. Que deve ser demitido por questões morais. Ou dizer pro time que eles podem escolher o chefe e a diretoria vai acatar.

A escolha é simples. Quem manda no Fluminense?

RicaPerrone

#TBT: Aristizábal

Quando o São Paulo anunciou o tal de Aristizábal em 1996 ninguém sabia quem era. As coisas não eram faceis como hoje, não tinha internet e descobrir algo sobre um jogador colombiano era quase impossível sem ser via a opinião de um jornalista qualquer.

Ele veio pro time de Parreira que contava com Muller, Almir, Denilson, Djair, Edmilson, Serginho, Belletti… puta time.

Óbvio que com Parreira não funcionou. Ele conseguiu deixar Muller e Ari no banco de Almir e Valdir Bigode.  Mas não me espanta. O que me espanta é a diferença entre a fama e a qualidade de certos jogadores.

Ari não era craque. Mas era muito inteligente, rápido e servia gols de bandeja pra quem estivesse a sua volta. Um jogador raro, não a toa bem utilizado pelo Luxemburgo no Cruzeiro ao lado do Alex, que é outro que jogava pensando e não só correndo.

Jogadores como Ari hoje teriam espaço ainda. Ele nunca se esquivou de correr em virtude da técnica ou da inteligência. Talvez pela técnica hoje seria um jogador valioso da Premiere League. Pelo conjunto, um craque.

Na época dele, não foi. E embora tenha títulos e passagens “simpáticas” a torcedores de vários times do Brasil, nunca conseguiu ser ídolo como seu potencial sugeria. Meu, foi. Tenho até camisa dele até hoje. Mas Ari é só mais um dos muito bons jogadores que nasceram com 20 anos de atraso pra serem craques.

RicaPerrone

Porque Santos e Fluminense merecem os elogios mesmo sem as vitórias?

Talvez o torcedor seja fácil de entender. Ele quer que ganhe, só assiste o time dele e nada que não for uma vitória do seu time é válido ou digno de elogios. Essa realidade é cada vez mais perturbadora na medida em que não ha “o jogo da tv”. O torcedor vê TODOS os jogos do seu time e portanto não é “forçado” a ver quase nada dos outros.

O mesmo torcedor termina o jogo e não ouve mais comentários superficiais e nem gerais sobre a rodada na TV. Corre pra ouvir o influencer torcedor do mesmo time que ele dizer tudo que ele gostaria enquanto torcedor.

Nessa nova era o que mais se tem é o nicho. E o que de pior acontece é a desinformação com voz.

Há 15 anos o Joãozinho podia não saber nada sobre política que ninguém ligava. Hoje ele é “Jonny Esquerda”, tem 40 mil seguidores e fala as mesmas merdas que falaria quando não tinha onde se passar por um entendido.

O futebol é a mesma coisa. Cada dia se vê menos futebol, mais o seu time e mais se opina sobre os outros. Logo, a opinião é bastante assustadora pra quem de fato assiste o todo.

Diniz e Sampaoli não tem os resultados mais incríveis, mas também não tem times incríveis. O que os dois tem em comum é uma direção.  E os clubes que sustentarem isso diante da ignorancia da torcida terão feito algo de fato diferente.

Na mídia chega a ser engraçado. Os mesmos que “derrubam treinador” são os que exaltam os trabalhos a longo prazo sem resultados no começo de times europeus que chegaram a algum lugar.

Santos e Fluminense não tinham perspectiva alguma em janeiro. Hoje são dois times sem grandes nomes que fazem as pessoas comentarem, assistirem e gostarem.

Há um conceito. E toda vez que você sonda o Dunga, liga pro Luxemburgo e fecha com o Abel você está deixando claro pro mundo que não tem A MENOR idéia do que quer. Sampaoli e Diniz sabem exatamente o que querem.

Nessa foto acima há outro cara que sabe o que quer. Embora tenha se traido um pouco desde a Copa, quando teve tudo pra ser demitido do Corinthians foi mantido. O resultado nós sabemos.

Trabalho bem feito começa com convicções. Ou você sabe o que está fazendo, pra onde quer ir e no que acredita, ou vai fazer mais do mesmo.

Convenhamos que no futebol brasileiro o que menos precisamos é mais do mesmo.

Diniz e Sampaoli representam hoje uma direção que o futebol brasileiro não tem. E portanto, são elogiáveis, importantes e referências. Se não pelo seu gosto tático, pela coragem.

RicaPerrone

Grêmio 1×2 Santos: É isso!

De tudo que pensei assistindo a Grêmio x Santos hoje de manhã a frase que melhor resume é o título do post: “É isso!”.

Era isso que eu queria ver. Dois times grandes que tem o protagonismo como idéia e não como oportunidade. Que buscam jogo, tocam a bola e sabem o que estão propondo.

O Santos é abusado. Nem tem time pra ir pra dentro, mas vai. Seu treinador é diferenciado, não porque tem métodos incríveis, mas porque tem uma mentalidade diferente do “não perder”.

Por ser gringo, blindado. E por ser blindado pode ter essa ousadia. Como Osório podia, como o Abel não poderá. Usa e usa bem o crédito. Montou um Santos improvável que dá gosto de ver jogar e que se nega a jogar feito um nanico, simplesmente porque não é.

O Grêmio tomou 2 gols e parou no detalhe. Foram 25 chutes a gol. Atuação de gala do goleiro do Peixe e um jogo emocionante do primeiro ao último minuto.

(aliás, ja notaram como os jogos das 11 são mais intensos?)

Ao final da partida, “é isso!”.

É só isso. Ou tudo isso. Independente do resultado, dois times dispostos a propor algo, impor sua forma de jogar e não se acovardando em campo feito um time de série C em busca de uma bola.

Quando falam que o nosso futebol não é igual o europeu, me nego a aceitar que seja por qualidade. É por mentalidade. Quando não somos frouxos, funcionamos. Quando copiamos ou nos intimidamos, somos piores.

Somos Renato e Sampaoli. Porque são dois sujeitos irreverentes, cheios de marra, com convicções e coragem. Somos o Diniz, que arrisca. Fomos Luxemburgo, Telê.

Somos. Ou fomos. Sei lá. Mas queria muito que voltássemos a ser.

RicaPerrone