tragedia

Quanto vale o show?

A vida a gente já sabe que não tem preço. O que estamos aprendendo dia após dia é que o show tem. E ele não pode parar.

Pra uma mãe, 100 bilhões. Pro clube, talvez 200 mil. Pra você, talvez nada. Na web, talvez 1 milhão.  O valor dessa vida não pode ser determinado por 99,9% de nós que nunca tivemos qualquer envolvimento com o histórico de indenizações em problemas desse tipo.

E portanto não somos aptos a falar sobre. Neste momento tem gente que se cala, tem gente que tenta manter o show.

Os advogados que eu consultei me nortearam parecido. Todos eles acham que o valor será determinado SIM pelo histórico de indenizações semelhantes e que sim, o Flamengo está fazendo o que todos fariam.  Seguir uma base para o impossível calculo de quanto vale.

Impossível, mas necessário.

A justiça não pode dizer amanhã que a morte do menino do Flamengo vale 5x mais do que a morte de um funcionário da fábrica X 7 anos atrás. Simplesmente porque ela, justiça, estará se contradizendo, deixando de ser cega e causando um enorme tumulto pelo passado.

Milhares de famílias já foram indenizadas por tragédias semelhantes. E se você estipular que essa, por ter mais mídia, vale muito mais que as anteriores, você cria um problema interminável.

Você, aliás, faria exatamente a mesma coisa que o Flamengo em relação a valores. Porque qualquer pessoa ou empresa nessa hora faz o que o advogado orienta e não o que o marketing sugere. Trata-se de uma briga judicial, e depois de uma questão comercial.

“Ah mas o Flamengo tem dinheiro”.

Então seu filho vale conforme o carro que atropelar ele? Também não é assim. Porque se a tragédia fosse no Vasco, que é tão grande quanto e vive no mesmo meio com os mesmos valores mas não tem hoje o dinheiro, você está me dizendo que garoto do Vasco valeria menos?

Puta sacanagem midiática atrelar valores de contratações a isso. Mera vontade de causar tumulto e manchete.

É indiscutível por todos nós quanto vale uma vida. Essa pauta não existe, e se existir é pelo show. O que podemos discutir é postura, a presença, assistência. Mas os valores, os meios legais de se chegar a isso, convenhamos, não somos nem muito bons jornalistas imagine advogados.

O festival de “Fala aí, Rica! O que você acha disso?” é a prova que o show funciona. Vocês de fato acreditam que por ter um microfone nas mãos eu sei tudo sobre tudo, ou devo ter uma opinião que te norteie sobre cada assunto do mundo.

Mas não. Lamento informar que somos só jornalistas e em 4 anos nem aula sobre futebol nos deram. Imagina sobre direito em casos desse tipo.

Aguardemos a justiça. Cobremos. E coerentemente lembremos que ela tem que servir quando nos convém e quando não convém. Porque pedir pela justiça contra o inimigo e pedir que ela seja ignorada pelo amigo é mais do que show. É circo. #LulaLivre

RicaPerrone

Ainda dá

O Vasco e o Flamengo são rivais de nível superior. Não é aquela coisa tolerável, quase simpática.  E portanto qualquer atitude que una os dois clubes seria pouco imaginável, ainda que o Vasco esteja nas mãos de alguém muito melhor do que o sujeito anterior.

Ontem no Morumbi recebi essa foto e achei que era brincadeira. Até conseguir abrir meu instagram e ver que havia muita gente postando com euforia e outros poucos com contestação. Não levei mais do que 5 minutos pra separar os perfis e saber que as pessoas mais sensatas estavam felizes com o Vasco.

Também estou.  Muito.

“Não precisava”, disseram os mais fanáticos.  E é por isso que foi tão maneiro.

Não precisava mesmo.

Fizeram porque quiseram. E se quiseram entenderam que nós podemos manter toda nossa rivalidade bacana sem sermos idiotas, afinal, os anos passam para que a gente amadureça, não para que aumentemos nossas idiotices.

O caso é grave, estão todos no mesmo barco. 99% dos clubes terão problemas com bombeiros e prefeituras quando inspecionados. Tenha certeza disso. Então não é o caso de jogar um contra o outro, pois o que aconteceu no Ninho poderia ter acontecido em 99% dos outros clubes.

Falta ao futebol brasileiro alguém que pense o futebol. São dezenas de clubes puxando cada um pro seu lado e absolutamente ninguém pensando no futebol como um todo. Quando um dos enormes clubes deste país se presta a isso, aplausos e mais aplausos.

Foi gigante, Vasco. Mesmo que meia duzia de idiotas não tenha a capacidade de entender o que você fez.

RicaPerrone

Obrigado, meninos

A gente se odeia, se xinga e pra se defender um do outro até se distancia. Somos hipócritas, ignorantes, estúpidos e as vezes até inconsequentes. Em tese, pra quem é de fora, as brigas no futebol são todas causadas pela paixão por um clube.

Pra nós, aqui de dentro, nunca aconteceu. As brigas sempre vieram de facções que brigam pelas facções. Nunca pelos clubes.  Simplesmente porque quem ama o clube sabe o que tem do outro lado.

Por mais doente que nós sejamos por futebol, a gente sempre conseguiu olhar pra arquibancada do outro lado e ver um espelho. Não vamos reconhecer nunca, nem sob tortura. Mas sou eu  com outra camisa. Só isso.

Quando caiu o avião da Chape eu ouvi dezenas de pessoas dizendo que a comoção entre torcidas era por ser um clube pequeno que não tinha rejeição. “Ah queria ver se fosse o Flamengo…”

E foi.

E 99,9% dos torcedores estão comovidos, se rendendo a impossível sensação de sentir algo bom pelo rival. Porque basta ter 1 mes de torcedor na vida –  e me refiro a quem torce não a quem é “fã de futebol” – que você sabe que a base do seu time significa a única coisa genuinamente “sua” no futebol.

Todos os torcedores do mundo sonharam em algum dia da vida em tentar o que esses meninos tentaram. E se hoje eles estão mortos, um pedacinho do nosso sonho entende.

Hoje é um daqueles dias apaixonadamente tristes onde o vascaíno olha pro rubro-negro e dá um sorriso de trégua. Porque ele entende. Nós sempre nos entendemos.

Somos a maior tribo do mundo, a mais radical, passional e estúpida delas. Mas somos uma só, por mais que nossa razão de ser pareça a competição.

Nós amamos odiar o nosso rival. E odiaríamos ainda mais não tê-lo. No final do dia só queremos sentar com o torcedor do outro time, tomar uma e discutir. Sem ele nada faria sentido, e mesmo sob o código de ética de jamais reconhecer isso, é uma verdade indiscutível entre nós.

Choramos todos. Porque somos, no fundo, a mesma coisa. Loucos por essa coisa que não tem explicação,  que nos aproxima de nossos pais, que nos faz sonhar em mudar a condição de nossas famílias e que num domingo qualquer consegue transformar o mais bem sucedido dos homens num merda e o pior deles num invejável campeão.

Futebol nos tira o controle. E se nos últimos anos o mundo se entendeu algumas vezes e sobrepôs política, guerra, vaidade e dinheiro… sempre foi quando havia uma bola entre nós.

Hoje o Futebol está mais triste, mas ainda mais forte. Não há nada que pague a vida e o sonho desses garotos, nem um torcedor do Botafogo olhando pra tv abraçado a um amigo rubro-negro chorando a mesma lágrima.

Nós somos o futebol. Nós somos o que há de mais puro e instintivo no mundo. E nós vamos voltar a nos odiar amanhã, até que uma nova tragédia nos faça relevar que somos um bando, mas o melhor dos bandos.

Talvez vocês, meninos, onde estiverem, não saibam.  Mas se não realizaram o sonho de se tornarem craques, realizaram uma das mais notáveis páginas do futebol. Vocês uniram as pessoas, torcidas e clubes.

Nunca pensem que não conseguiram fazer nada no futebol. Fizeram PELO futebol. O abraço de cada tricolor num vascaíno nesta sexta-feira sob o argumento da dor pelo Flamengo é maior do que todos os títulos que vocês fatalmente ganhariam.  E assim serão lembrados.

Obrigado.

RicaPerrone

O mesmo avião

As vezes a gente se coloca como “o lado de cá”.  Tratamos futebol como uma obrigação, os jogadores como adversários, os clubes como nossos meros aprendizes.  Somos de uma “raça” bem arrogante, pouco inteligente na questão comercial e bem confusa na parte ideologica.

Eu não gosto do que faço porque faço com as pessoas que faço. Se pudesse escolher tiraria 80% do mau humor de quem leva futebol até sua casa e faria a minha maneira, que é a de enxergar isso como mero entretenimento, lazer, paixão.  Certo ou errado, não faz a menor diferença.  A lição pra nossa profissão hoje é clara.

Talvez pareça “errado” deixar passar algumas coisas e manter o lado bom acima do ruim.  A “verdade” a muita gente importa, mas o futebol é uma droga como a bebida, a cocaina e a maconha. Ninguém consome nenhum desses três para ficar sóbrio e realista. É exatamente o contrário.

Doses de realidade não são bem vindas em sonhos. E futebol é um sonho, talvez o melhor deles.

O mundo hoje reage à tragédia sem dificuldade de comunicação porque trata-se da única linguagem que uniu o planeta até hoje: o futebol.  Um Russo sabe o que sente um catarinense pela primeira vez na vida.  E talvez a última.  Um alemão e um morador de Chapecó, hoje, entendem a mesma dor.

E se nesse dia de perda pudermos tirar alguma coisa de relevante pra nossas vidas e especialmente pra essa relação confusa, cansativa e perdida que existe entre imprensa e futebol, é que deveríamos remar na mesma direção e não brigar pelo leme.

Talvez você não tenta entendido por bem, talvez ainda assim não entenda. Mas estamos e sempre estaremos no mesmo barco. Ou, no mesmo avião.

abs,
RicaPerrone