Bosnia

Messi em 90 minutos

Em parceria exclusiva no Brasil com a OptaSports, trago pra vocês todos os passes de Lionel Messi no jogo de estréia da Argentina na Copa.

O argentino jogou até mal. Mas foi o segundo mais acionado no time, tocando na bola 97 vezes. 15 a menos que Mascherano. Destas 97 vezes 70 foram passes. Destes, 80% certo, o que não é um número incomum pela sua posição em campo.

Em verde, os passes certos. Em amarelo, os passes pra conclusão a gol. Em vermelho, os errados.

Mais de Messi no jogo?

Teve 19 divididas, ganhou metade apenas. Deu 7 dribles no jogo.

Chutou 4 bolas no gol. Fez um.

E venceu o jogo, por 2×1, mesmo numa atuação ruim do time argentino.

abs,
RicaPerrone

Una mierda (Argentina 2×1 Bósnia)

Fifa.com

Com a Copa tive a oportunidade de estar pela primeira vez na vida diante dos meus maiores rivais. E acredito que isso seja novidade para 95% de brasileiros e argentinos, já que nos “odiamos” a distância quase que o tempo todo.

Tão longe que até surgem pequenos surtos de “até gosto deles” de ambos os lados em períodos sem confronto. Até que eles vieram ao Brasil participar da nossa Copa do Mundo.

Atuaram num Maracanã mais deles do que nosso, com uma vitória contestável, uma atuação muito fraca e um adversário que estreava em Copas.  Se foram pra ver um show ou um time favorito, viram apenas um covarde time com 5 zagueiros, 3 volantes e bico pro Messi resolver.

Taticamente a Bósnia é muito melhor treinada que a Argentina. Mas tecnicamente, não dá pra comparar.

O jogo era pano de fundo. Na verdade o que todos queriam ver naquele Maracanã era como seria um jogo de futebol com brasileiros e argentinos lado a lado, mesmo que só um deles estivesse em campo.

E sim, deu muita confusão. Todas bem resolvidas pelos seguranças, mas deu. E se o jogo fosse entre Brasil e Argentina uma tragédia teria acontecido no Maracanã. Numa visão otimista, que tento levar sempre comigo, o jogo desta tarde serviu para dizer à Fifa que existem jogos de futebol e “Brasil x Argentina”.

Se tratar um possível confronto desses como um simples jogo, terá sido co-autora de qualquer tragédia anunciada.

São fanáticos, são orgulhosos do país deles e fora do estádio até gentis. Mas quando a bola rola não se comportam como quem vê futebol, mas sim como quem disputa os limites de um continente com o vizinho.

Provocam, tentam ir no seu limite e não agem em momento algum como visitantes. Querem tomar sua casa e fazer dela o que bem entenderem.

Não. Não é assim.

É um delírio sem igual achar que podemos misturar os dois numa mesma arquibancada e ver argentinos chamando negros de “macacos”  e “putos” quando fazem um gol sem que isso cause reação. As pessoas aqui, mesmo as mal educadas, estão em sua casa e devem receber visitas, não se adaptar a elas.

Há uma lei na arquibancada que quem frequenta conhece bem. Quem vive de Chelsea na TV não sabe o que é futebol, tem apenas uma idéia.  Você não pisa no território inimigo passando dos limites. Um dia eles virão no seu e essa relação é muito complicada.

É o jeito deles. Honestamente, por mais que eu os odeie quando o tema é esporte, eu nem acho que seja madoso. Mas é muito irritante.  É um convite a uma confusão e ela vai acontecer, como várias vezes aconteceu isoladamente no Maracanã hoje a tarde.

Curioso ver o número de brasileiros que foram lá torcer pra argentina e mudaram de idéia durante o jogo. Ou a simpática relação de “vamos ver o Messi” que aos 30 do primeiro tempo já era um sonoro “Messi vai tomar no cu”.

Eu nunca tive qualquer pudor em dizer que precisamos odiar a Argentina e vice-versa para que exista paixão pelas seleções. Sem rivais não há sentido, mas tem um preço.

Brasileiros e Argentinos não podem assistir um jogo de futebol sentados lado a lado.

É o que acho. E pelo que vi hoje, vamos continuar achando sem saber a resposta.  Esse time deles não chega na final pra descobrir.

abs,
RicaPerrone

Por que torcer pela Bósnia?

O texto abaixo é do meu amigo Marcelo Adnet, melhor humorista do país, e um cara apaixonado pela história da Bósnia.

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Pra quem nós vamos torcer? Pro Brasil, é claro. Em poucos momentos, pra não dizer nenhum, somos nacionalistas ou nos unimos em torno de algum evento como acontece com a Copa, exceção feita à semana final de uma novela.

Mas, dentre as 32 seleções e os 64 jogos da Copa, é normal acontecer uma torcida paralela para outra Seleção enquanto o Brasil não joga. Os motivos são diversos: parentes em um país, um jogador do seu clube em campo ou até motivos políticos e sócio-culturais.

Entre a simpatia das seleções africanas, a força das europeias e a vizinhança das sulamericanas, uma seleção se destaca – a Bósnia e Herzegovina. De cara, podemos dizer que ela é a única estreante em Copas desta edição. É uma zebra, pouco conhecida e pouco badalada. De quebra, os Dragões estreiam contra a Argentina, domingo, no Maracanã. Não é pouca coisa não.

Mas não é por isso que o país comemorou a classificação como se fosse um título mundial.

O futebol tem sido o motivo de maior alegria dos bósnios nos últimos 20 anos. A Bósnia e Herzegovina (região majoritariamente croata, ao sul do país) , era o estado mais miscigenado da Iugoslávia, a “Jerusalém dos Bálcãs”, onde bósnios, croatas, sérvios, ciganos e turcos conviviam – votou pela sua independência do governo controlado pelos sérvios em 1992, seguindo Croácia, Eslovênia, depois Macedônia, Montenegro e Kosovo. Os governantes sérvios, orquestrados pelo líder Slobodan Milosevic abriram fogo contra a população desarmada e iniciaram uma guerra que ficou conhecida como o pior massacre na Europa após o Holocausto. O país de 4 milhões de habitantes acabou a guerra civil com metade da população – 1,4 milhões de refugiados e 100 mil mortos. Ignorados pela comunidade interacional, os mais de 3 anos de conflito culminaram com o Massacre de Srebrenica, o assassinato de mais de 8 mil homens – entre 12 e 70 anos – na cidade de mesmo nome. As mulheres jovens foram enviadas para campos de estupro. Está tudo gravado, tudo disponível ali no youtube. O general sérvio Ratko Mladic divide a população em ônibus enquanto os soldados da ONU choram, sem ação. Os mais de 8 mil mortos foram enterrados em valas coletivas e novos corpos são velados todos os anos, no dia do massacre, 11 de julho. Alguns conseguiram escapar pela floresta, andando dias até a cidade de Tuzla. Muitos morrem com facas (noz, em sérvio) e enforcadas com arames (zica, em sérvio). Por isso, até hoje alguns torcedores da Sérvia ainda cantam nos estádios “Noz, zica, Srebrenica” (“faca, arame, Srebrenica”), deixando claro que o futebol carrega toda a complexa e violenta história política da região.

A alguns quilômetros dali, em Sarajevo, a população sobrevivia como podia ao cerco de 3 anos imposto à cidade. Sitiada, bombardeada, sem água, sem energia, Sarajevo via seus civis morrerem ao andar na rua, sob a mira dos snipers sérvios, que atiravam do alto das montanhas. Em abrigos, crianças se amontoavam. entre elas estava o menino Edin Dzeko, que não imaginava que, 20 anos depois, estaria vivo e no Brasil, representando o seu país que resistiria a guerra e se tornaria independente. Este cerco, somado ao massacre de Srebrenica, à destruição de várias vilas e da milenar Mostar, não deixam dúvida – o povo bósnio sofreu genocídio, conforme declarou o Tribunal de Haya. Os líderes sérvios foram protegidos pela população do país vizinho e nunca pagaram por seus crimes de guerra.

Com o bombardeio de um mercado em Sarajevo, enquanto a população fazia fila por pães, a comunidade internacional finalmente interveio e forçou um “Acordo de Paz”. O mapa do país foi desenhado em Dayton, nos EUA e tem peculiaridades bizarras: o acesso ao mar é garantido por cerca de 20 km de litoral através de uma espécie de corredor que cruza a Croácia até o mar. A Bósnia e Herzgovinafoi dividida em duas entidades independentes – A Federação Bósnia, que abriga bósnios e croatas, e a Republika Srpska, dos sérvios. Assim, cidades bósnias como Srebrenica passaram ao controle dos sérvios, legitimando o genocídio ali ocorrido. a guerra acabou, mas a divisão política, ideológica e religiosa (servios são ortodoxos, croatas católicos e bósnios muçulmanos) ainda existe e compromete o desempenho do país. Os sérvios não se sentem parte do país e nunca entram em acordo com o governo da Federação bósnio-croata. Assim, o hino bósnbio foi substituído por um novo, cuja letra nunca foi aprovada. Por isso, quando toca o hino da nova Bósnia, a torcida do país canta o hino antigo por cima, criando a maior confusão. Os sérvios da Bósnia já pensam na separação da Republika Srpska – 49% do território bósnio e o presidente da Republika Srpska, Milorad Dodik, declarou que não torce pela Seleção da Bósnia e que não daria um centavo para os Dragões. “Chora Dodik, não precisamos de sua ajuda, Bósnia tá no Brasil e os sérvios? Ninguém viu” diz a canção “Placi Dodik” que ganhou ai internet, entre outras tantas piadas e gozações neste momento único de afirmação da independência bósnia. A BiH está em êxtase, em festa. Não é pra menos, o país que quer esquecer o passado e construir o futuro encontrou no futebol o motivo de maior orgulho de sua história. Quando os Dragões entrarem em campo logo mais, entre exilados e sobreviventes, estarão escrevendo o capítulo mais feliz da história do seu país. Por isso, seja qual for o resultado, essa Copa já é da Bósnia Herzegovina. Sellam Alejkum, que encontrem a tão sonhada paz!

Marcelo Adnet